trinta

sonhei que te encontrava,
meu amor e você me dizia
sério
o resultado das eleições presidenciais dos EUA
e eu nem imaginava que já era hora pra isso

acabei de acordar,
não tomei meu café,
ainda não comi nada
(ou talvez nem tenha ido dormir
que o corpo anda quente
e quando durmo
eu tenho frio)

eu quis tomar um banho no escuro para ver se passava
o corpo do menino decapitado pelo capitão-do-mato
ou se passavam esses quase trinta anos
desde a queda do muro de berlim

eu quis escrever um poema
para ver se convencia um algoritmo
ou para ver se me convencia
a não tomar um trago amargo
(só um,
por favor)

ando doente do fígado
e as últimas três décadas velhas
as vivi como se fossem
os anos trinta

essa cirrose nas entradas dos portais

guerras quentes em duchas na madrugada
o cheiro de ferro em cada ralo
mísseis bomba agá choques elétricos
e a gente nascendo como pra dizer
que sim
ou como pra dizer que não
ou como pra dizer

que o extermínio
é impossível
até que se extermine tudo
e quando digo tudo
quero dizer todos

metralhadoras histéricas de sementes
as covas molhadas de cuspe e versos
e no fogo cruzado a manhã
me queima o chá de camomila
e a esperança
de que se acabassem
alguma hora
minhas malditas
baterias

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