AI-5 e a canção de protesto

Marcha dos Cem Mil, 1968: meses mais tarde, a reação dos militares seria o AI5
Marcha dos Cem Mil, 1968: alguns meses mais tarde, a reação dos militares ao protesto seria o Ato Institucional nº5 (AI-5)

13 de dezembro, do ano de 1968: era decretado o Ato Institucional nº5 em todo o território brasileiro. A partir daquele momento, o presidente possuía poder total e completo sobre toda a estrutura do Estado. A ditadura estava finalmente consilidada, com bases e disposições legais. Os partidos que até então existiam na legalidade sabiam que logo deixariam de atuar nas instâncias agora comandadas pelo presidente.

[Leia aqui a íntegra do Ato Institucional Número Cinco (AI-5)]

Como 2013, o ano de 1968 foi um ano politicamente agitado. A luta armada avançava, assim como a desumana perseguição aos militantes de guerrilhas. No Rio de Janeiro,  o estudante secundarista Edson Luís foi assassinado pelos militares durante uma manifestação. Poucos meses depois, a Marcha dos Cem Mil mostrou, nas ruas, que grande parte da população se colocava contra a ditadura (inclusive setores da classe média que haviam comemorado sua instauração alguns anos antes, jamais imaginando que seus próprios filhos seriam assassinados, perseguidos e torturados pelo regime). Também foi naquele ano que estudantes de esquerda da USP e o grupo de ultra-direita Comando de Caça aos Comunistas, formado por alunos do Mackenzie, travaram uma verdadeira batalha na Rua Maria Antônia, em São Paulo. Logo em seguida, os militares acabaram com o congresso da UNE, realizado em Ibiúna, levando cerca de 900 estudantes presos.

A resposta dos ditadores à efervescência política foi justamente essa: o AI-5.

Suas consequências foram o acirramento do regime, com a retirada dos direitos individuais e políticos de todos os cidadãos brasileiros – exceto os ditadores e seus protegidos. Foi também a partir dessas garantias legais que a censura se tornou mais forte. A revolucionária música de contracultura da Tropicália passou a ser duramente censurada, e seus autores perseguidos sem descanso. Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos logo após a publicação do documento. Nos meses seguintes, dezenas de ativistas políticos, ex-parlamentares, intelectuais e artistas foram exilados, se auto-exilaram, foram perseguidos, sofreram tortura ou foram executados sumariamente pelas forças militares. Seu crime: divergir.

Entre os divergentes que não foram exilados, sofrendo perseguição em solo nacional, estava o baiano Antônio José Santana Martins, mais conhecido como Tom Zé. Alguns anos mais tarde, já no fim da ditadura, em 1985 num show no teatro Lira Paulistana o músico apresentou uma série de canções refletindo sobre a ditadura e o período político na época. Assim como em “O Povo Novo“, de 2013, a sagacidade das letras de Tom Zé é impressionante em “O Jardim da Política”.

[Clique aqui para ouvir o disco (mp3)]

Alguns de meus versos favoritos do disco, que ganhei de presente do próprio cantor, com toda a honra do mundo, estão abaixo. Provavelmente teriam sido censurados se não estivessem num show ao vivo, no fim do regime militar.

Em “Democracia”, jogos de palavras e outras pequenas esperanças frente à quase abertura política, que só iria se consolidar em 1989 com a promulgação da nova constituição (que este ano fez 25 anos – agora pensem: o AI5 durou 20 anos, minha gente; o horror).

“democracia não se dita
maldita seja se dura,
palpita pela doçura.”

[da canção ‘Democracia’]

Dialogando diretamente com alguns grupos de esquerda que, formados majoritariamente por jovens de classe média, se propunham a falar em nome do povo, Tom Zé ironizava:

“Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária.

Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Os operários que se calem,
que procurem seu lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia que virá
e na felicidade dos operários.

Se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
Tom Zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária.”

[da canção ‘Classe Operária’]

Também aparece no show a pluralidade partidária, que começava a retornar ao cotidiano político do país – não sem menos tiração de sarro:

“E o PMDB padece patifa patifa fafá
no colo do PDS patifa patifa fafafá
o PTB percebeu patifa patifa fafafá
mas o PDT quer deter
se apetece ao PT ter poder
pode ser, pode não ser”

[da canção ‘Marcha Partido’]

Todas as letras do disco podem ser lidas aqui.

Mesmo depois da ditadura, porém, o período e temas correlatos continuaram sendo musicados por Tom Zé. No disco “Imprensa Cantada”, a canção “Sem saia, sem cera, censura” é uma das mais bonitas:

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 A capacidade artística de transformar experiências em sensação, em toque, em poesia foi uma das estratégias de resistências mais importantes durante o período do AI-5 no Brasil. A sapiência de Julinho de Adelaide para driblar a censura, por exemplo, é magistral. Assim como o teatro e o cinema, entre as décadas de 1970 e 1980 no Brasil, a música mantinha as pessoas vivas, lutando, caminhando e cantando.

Sem a canção de protesto não havia quem segurasse tamanho rojão.

Se o AI-5 foi um dos maiores crimes cometidos contra a sociedade brasileira, alivia saber que foi tamanha a lucidez de diversos artistas frente ao ato.

Seremos a esses eternamente gratas/os.

 

 

Fui uma adolescente feliz

Screen-Shot-2013-02-27-at-8.59.15-AMA todas as meninas, meninos e menines que tive a honra de conhecer quando adolescentes, fosse como professora de inglês ou de sociologia. A quem não conheço mas passa pelas dores e delícias de ser adolescente hoje.

Bonitas, bonitos e bonites;

uma vez vocês me perguntaram por que eu gostava tanto de vocês. Devo ter respondido o mesmo que digo agora: fui uma adolescente feliz. É claro que a vida não dá trégua e nem tudo foi lindo. Quando adolescente vivi a morte do meu melhor amigo. Vivi medo de ficar grávida apesar de todos os métodos contraceptivos. Vivi o medo de “não dar certo”. Vivi o peso do mundo em minhas costas. Achei que a escola me definia. A adolescência é difícil. Não tem outra palavra. É difícil, mesmo. Ao mesmo tempo, parece que a maioria dos adultos se esqueceu de quão difícil é esse pedaço da vida, e acaba infernizando ainda mais a vida de quem o experimenta. Pois é. Tem gente que esquece rápido. Eu não esqueço.

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