façam ciências sociais

post originalmente publicado em meu perfil no Facebook, celebrando o dia do sociólogo

ontem foi dia do sociólogo e eu vim dizer: façam ciências sociais.

falei com um amigo que vai prestar vestibular, outro dia, e ele me disse que está pensando em mudar a escolha de curso para história, com medo de ficar sem emprego caso sociologia saia do currículo. o prognóstico da carreira acadêmica também não parece ser dos melhores, com corte de bolsas e verbas, com flexibilização e precarização das condições de trabalho em pesquisa e ensino. entre os meus colegas de graduação, os vários que não são acadêmicos ou professores (não só de sociologia mas também de filosofia, história e geografia) se tornaram bancários, doulas, massagistas, professores de ensino fundamental, comerciantes, músicos de casamento, artesãos/artesãs, produtores de eventos.

mas eu vim dizer: façam ciências sociais.

durante o curso de ciências sociais, mais ou menos no segundo ano, 75% dos estudantes de graduação simplesmente pira. entre o segundo e o terceiro uma parte abandona o curso, inclusive – precisaria de dado estatísticos pra confirmar, mas na experiência de pessoas de diferentes universidades com quem já conversei essa parece ser meio uma constante. não é simples viver todos os dias descobrindo novas camadas de significado em absolutamente tudo que está ao redor. o curso de ciências sociais faz a gente se sentir, em algum ponto, “floating in the most peculiar way” como o Major Tom de Bowie: passamos a enxergar tantas coisas novas sobre o mundo social e as interações cotidianas, que nos sentimos “destacados” da realidade que as outras pessoas parecem estar vivendo. e não é gostoso. às vezes rola a sensação de que ninguém que não esteja mais ou menos familiarizado com certos conceitos será jamais capaz de entender o que dizemos.

mas eu vim dizer: façam ciências sociais.

é muito comum que as ciências sociais não sejam levadas a sério como outras ciências. enquanto vivemos todos os dias a força da autoridade médica (história e socialmente construída), por exemplo, as afirmações de cientistas sociais são tratadas como “questão de opinião” em diversos contextos. quando dizemos que estudamos ciências sociais as pessoas ficam caladas por não terem ideia do que fazemos, confundem nossa área com serviço social ou perguntam como vamos fazer pra pagar as contas.

mas eu vim dizer: façam ciências sociais.

eu poderia dizer a vocês como o mercado de trabalho é cada vez mais aberto a cientistas sociais. poderia dizer como em qualquer área, na hora de prestar vestibular, a gente nunca sabe bem toda a ampla gama de possibilidades de trabalho com aquilo – por não estarmos ainda dentro da área. poderia contar pra vocês, então, como os bancos contratam cada vez mais cientistas sociais pra integrar equipes de análise de dados. como consultorias privadas têm feito o mesmo. como empresas de pesquisas de opinião e mercado também precisam de cientistas sociais o tempo todo. eu poderia lembrar das agências públicas de produção de dados e pesquisas como o IBGE, o INEP, e as próprias secretarias de governos municipais, estaduais e federais que também estão repletas de cientistas sociais. as fundações ligadas a partidos políticos que também têm equipes e mais equipes de cientistas sociais em seus projetos. tudo isso pra dizer que, olha, fazer ciências sociais não é morrer de fome nem ficar desempregado. mas sempre é possível morrer de fome e ficar desempregado, ou não topar os trampos que aparecem específicos pra cientistas sociais – vocês topariam trabalhar como os antropólogos do exército estadunidense, que mapeiam os processos culturais de diferentes locais a serem invadidos aumentando a eficácia das estratégias de guerra?

por isso eu vim dizer: façam ciências sociais.

porque o mercado de trabalho não é uma força da natureza (e é certamente menos estável do que várias delas, como as luas e marés). é uma construção cotidiana que está no jogo que disputamos se desejamos atuar na sociedade de maneira crítica. como parte do jogo, o “mercado” deve também ser disputado e sobretudo questionado. e, para disputar, nada mais necessário do que fazer ciências sociais e compreender esses processos, estruturas, dinâmicas. como desmontar uma máquina (ou um quebra-cabeça) sem conseguir distinguir uma peça da outra e a relação entre elas?

então façam ciências sociais.

a possibilidade de desemprego e instabilidade econômica estará sempre aí. para a juventude da classe trabalhadora, ainda mais. por isso, se o objetivo de vocês buscarem uma formação de graduação for apenas e exclusivamente ter um bom emprego, e se isso for muito maior pra vocês do que o papel essencial e estratégico das ciências sociais na construção de uma sociedade mais justa e livre de toda exploração e dominação de uns sobre os outros, então não, não façam ciências sociais.

Racismo: uma questão de (mau) gosto?

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[texto original de Jenny L. Davis, tradução livre e adaptação da imagem por Marília Moschkovich]

O site de negócios e marketing Quartz soltou recentemente dados sobre o aplicativo de namoro “Are You Interested“, que conecta pessoas solteiras dentro de suas redes do Facebook. Os dados do Quartz se baseiam numa série de questões do tipo “sim ou não” sobre o interesses dos usuários uns pelos outros, assim como nas taxas de resposta entre usuários denotando possíveis combinações de sucesso. Os dados mostram que homens brancos e mulheres asiáticas são alvo de mais interesse, enquantos homens e mulheres negros são os de menor interesse. Os repórteres do Quartz resumiram os resultados da seguinte maneira:

Infelizmente os dados nos mostram ganhadores e perdedores. Todos os homens, exceto os asiáticos, preferam mulheres asiáticas, enquanto todas as mulheres, exceto as negras, preferem os homens brancos. Ambos homens e mulheres negros receberam as menores taxas de resposta de seu respectivo gênero.

A imagem no topo do post mostra os resultados.

Como socióloga, não estou nada surpresa com o fato de que a raça faz diferença, especialmente num processo tão pessoal quanto namoros e relacionamentos. No entanto, essas descobertas podem parecer uma grande novidade para a parcela (bem significativa) da população que se identifica como “não-racialista”; esses que acreditam que vivemos numa sociedade “pós-racial”.

Por isso os sites de relacionamentos são tão legais. Os psicólogos sociais sabem que há muito pouca relação empírica entre o que as pessoas dizem e o que elas fazem. Os sites de namoro mostram o que fazemos e nos mostra essas informações. Eles expõem quem somos, o que queremos e, claro, o que não queremos. Como mostrado pelo Quartz, “nós” fetichizamos mulheres asiáticas enquanto desvalorizamos as negras.

Com uma defasagem entre o que as pessoas dizem e fazem; entre o que dizem e o que pensam inconscientemente, questionários sobre atitudes raciais são sempre limitadas. As pessoas podem dizer o que quiserem – que a raça não importa, que não ligam para a cor da pele – mas no momento de escolher parceiros e parceiras, e os critérios dessas decisões são formalizados por meio de perfis e decisões de resposta, nós, como indivíduos e como sociedade, não conseguimos nos enganar. Os números se voltam contra nós, nos forçando a encarar desconfortáveis atitudes culturais e identitárias individual e coletivamente.

De fato, antes que alguém responda qualquer coisa, a arquitetura dos sites de ralcionamentos nos dizem muito. Especificamente, ao definirem quais preferências podemos ou não ter, eles nos dizem quais características provavelmente nos importam como critérios, e com quais deveríamos nos importar.

Ambos os dados dos usuários e a presença da identificação étnico-racial e da opção de escolher esse tipo de preferência são reveladores, pondo abaixo quaisquer argumentos sobre não se olhar a cor da pele ou vivermos em uma sociedade/cultura “pós-racial”.