trinta

sonhei que te encontrava,
meu amor e você me dizia
sério
o resultado das eleições presidenciais dos EUA
e eu nem imaginava que já era hora pra isso

acabei de acordar,
não tomei meu café,
ainda não comi nada
(ou talvez nem tenha ido dormir
que o corpo anda quente
e quando durmo
eu tenho frio)

eu quis tomar um banho no escuro para ver se passava
o corpo do menino decapitado pelo capitão-do-mato
ou se passavam esses quase trinta anos
desde a queda do muro de berlim

eu quis escrever um poema
para ver se convencia um algoritmo
ou para ver se me convencia
a não tomar um trago amargo
(só um,
por favor)

ando doente do fígado
e as últimas três décadas velhas
as vivi como se fossem
os anos trinta

essa cirrose nas entradas dos portais

guerras quentes em duchas na madrugada
o cheiro de ferro em cada ralo
mísseis bomba agá choques elétricos
e a gente nascendo como pra dizer
que sim
ou como pra dizer que não
ou como pra dizer

que o extermínio
é impossível
até que se extermine tudo
e quando digo tudo
quero dizer todos

metralhadoras histéricas de sementes
as covas molhadas de cuspe e versos
e no fogo cruzado a manhã
me queima o chá de camomila
e a esperança
de que se acabassem
alguma hora
minhas malditas
baterias

Como reagir diante de tantos ataques do governo Temer?

Estive uns três dias de cama, no final da semana passada. Bode com o mundo, desânimo completo. Fui derrubada. Sabe o que me moveu, acendeu a fagulha e me deu ganas de continuar vivendo e lutando? Um post da Talita que, muito sábia, disse:

“Galera, segura essa peteca e levanta a cabeça. Tá longe o momento de descansar, talvez esse momento não seja no nosso turno.”

Talvez esse momento não seja no nosso turno.

Essa frase ecoou na minha cabeça como os trovões e rajadas de vento da tempestade de ontem. Há momentos na história e na política que simplesmente não permitem esse sentimento individual e individualista de “se preservar”: é preciso agir para além de si. Só podemos existir – e só pudermos lutar nas últimas décadas e construir algumas pequenas vitórias – porque tanto na ditadura do Estado Novo, quanto na ditadura militar, quanto entre elas, havia gente agindo para além de si.

“Talvez esse momento não seja no nosso turno.”

Me vieram à cabeça todas as histórias que ouvi, da boca de quem sobreviveu pra contar. As memórias de infância, de ter crescido numa família ligada à política. “Meu pai faz greve”, respondeu meu irmão, ainda pequeno, em certa ocasião quando confrontado com a pergunta “O que seu pai faz?”. A história da fabulosa atiradora de bazuca da guerrilha chilena, contada pra mim diretamente de sua filha. As memórias de minha mãe que, ao passar no vestibular da USP escutou de meu avô, na época político da ARENA: “Cuidado, aquilo lá é um antro de comunistas”.

“Talvez esse momento não seja no nosso turno.”

Junto a esse post da Talita, com essa mensagem tão direta e clara, um outro post da Maíra Galvão (ah, família Galvão, aquela da Patrícia… ♥) falava sobre a estratégia de estarrecimento da população. Eles estão fazendo de propósito. É pra desbaratinar, é pra desarticular. Por isso, mais do que nunca, essa é a hora de lutar.

O nosso turno é o o turno de lutar e resistir.

O estarrecimento e a imobilidade frente a tantos ataques e tanta violência é o pior que pode acontecer. É hora da ação e, como bem pontuou a Renata Corrêa em mais um post [minhas amigas são minhas heroínas, cara]:

Acabou o amor.

Ocupar e juntar na rua pra fazer festa-show (vide 1º de maio no Anhangabaú), ciranda de abraços e danças circulares apenas dizendo “Não passarão” é quase o mesmo que dar a esses que não deviam passar um fucking passaporte. Sem uma atitude combativa da esquerda, eles passarão e nós nem passarinho (estilingues e gaiolas em toda parte).

Acabou o amor.

Lembram daquela história da carochinha que contaram pra mim e pra vocês desde os anos 1990, e que parecia fazer tanto sentindo nos 13 anos de governo do PT, de que a gente conseguiria mudança com “trabalho de formiguinha”? De que a sua ação individual podia “mudar o mundo” (“Seja você a mudança”)? De que bastava fazer “a sua parte” por um “mundo melhor”? Pois os fatos políticos estão mostrando cada vez mais o quanto não podemos contar com essas estratégias. Porque eles têm ferramentas pra jogar concreto no solo – e aí formigueiro cresce como?

Acabou o amor.

As ações diretas organizadas – ocupações politizadas, greves, desobediência civil organizada – são a nossa única chance de sobreviver. Mas também não se enganem: elas não são suficientes e não devem ser vistas como um fim em si mesmas. Uma boa lição sobre isso: os secundaristas em SP ocuparam a ALESP pedindo a CPI da merenda. Desocuparam e conseguiram a CPI. Presidida pelos próprios envolvidos no desvio da merenda. E aí? Comofaz?

Acabou o amor.

É preciso ir além. Nossa ação tem que ir além de nós mesmos, de nossos confortos e desconfortos individuais. Isso é política. Nossa luta tem que ir além dos momentos de ação direta e das reivindicações pontuais, se quisermos construir uma sociedade livre de toda exploração, se quisermos ser donos de nós mesmos, de nosso tempo, de nosso trabalho, do conhecimento e dos bens materiais e simbólicos que produzimos.

Acabou o amor.

A hora é de lutar, resistir. E essa luta e resistência precisam ser bem costuradas, articuladas, com a construção de um projeto de sociedade. Não se trata de pautas específicas. Os fatos políticos nos mostram que pautas específicas não darão conta. Se conseguir defender o SUS, ele será em seguida sucateado, ou o aborto será definido pelas igrejas, ou vão privatizar a educação básica e superior. Os inimigos têm a máquina estatal, os investimentos do grande capital internacional, o apoio político do Império (Temer é citado na Wikileaks como informante da CIA, estão sabendo? A embaixadora dos EUA presente no Brasil nesse processo de impeachment era a mesma que estava no Paraguai e no Equador nos seus respectivos golpes recentes, etc.). Nós temos as nossas mãos.

Façamos nós por nossas mãos.

A conjuntura política exige que nossas mãos atuem coordenadas; que construamos uma luta comum e organizada, por um projeto de sociedade comum (e não por pautas específicas). É hora de organizar. É hora de se articular. Organizados nossos braços se multiplicam, e a agonia da sensação de impotência é substituída pela força da coletividade. Porque eu sei que, enquanto estou auxiliando os estudantes em uma escola ocupada, meus camaradas do sindicato dos professores estão articulando estruturalmente um enfrentamento massivo. Porque eu sei que, enquanto estou em fóruns populares de saúde articulando a questão do aborto, meus camaradas trabalhadores e trabalhadoras do SUS estão estabelecendo as bases de uma luta que está por vir. Porque atuamos como um só em diversas frentes. As mãos de meus camaradas são também minhas mãos, e a ação organizada é que permite essa âncora, esse fio condutor do enfrentamento política.

Façamos nós por nossas mãos.

É hora, mais do que nunca, de se organizar. Seja em um partido, seja em seus sindicatos e associações profissionais, seja articulando seu coletivo com lutas mais amplas e frentes de massa. Sair do individual-individualista, sair da pauta específica.

É hora de ir além.


post originalmente publicado em meu perfil no Facebook: https://www.facebook.com/mari.moscou/posts/10153703615528576?pnref=story

a crise vai passar

a crise vai passar.
você pode enquanto isso abrir
um guarda-chuva
ou esperar quietinho
sob um teto.

você pode economizar:
é só cada um respirar
apenas as moléculas realmente necessárias
e plantar
um número suficiente de árvores numa
economia colaborativa atmosférica
(chegou o futuro melhor!)
até que tudo se restabeleça.
a crise vai sim, passar.

em momentos de leveza você pode tentar
a dança da crise
ou encher as bochechas de
bolinhos de crise;
você pode se lembrar,
antes de sair de casa,
de olhar a previsão:
– tempestade no mercado
– queda brusca na temperatura do dólar
– sensação térmica desfavorável
– alta incidência de raios inflacionários

(melhor espalhar muito bem sobre as maçãs do rosto e o nariz
uma generosa camada de filtro. ignore o cheiro, é por pouco tempo
já que a crise, como eu disse, há de passar.)

ora, se nada disso der certo, ainda teremos
nossos abrigos anti-crise,
munidos de comida enlatada,
colchões de feno, batalha naval
em bloquinhos de papel,
volumes mortos nas prateleiras,
e apenas meia dúzia de ratos:
ali contaremos histórias

dos idos tempos de antes da crise,
de como éramos felizes, do privilégio
de termos planilhas pra manter a cabeça ocupada,
ou cinquenta horas de jornada.

escreveremos versos, faremos fogueiras imaginárias
e oraremos pela deusa inflação.
transmitiremos a cada nova geração
pouco espontânea a nossa cosmogonia:

num trapézio oferta e procura revezando-se com piruetas e acrobacias,
uma orquestra invisível regida pela mão da meritocracia, coreografia macabra
num circo mambembe de lona rasgada
com arquibancadas que cheiram a mijo e palhaços deprimidos que
no fim do espetáculo abusam meninos, enquanto elefantes
cansados com seus chifres e orelhas remendados
cagam nas margens do picadeiro sobre uma plateia de esfomeados.
engolem a bosta na esperança de alguma proteína, a massa
espectadora no chão de espelhos assiste
à própria chacina.

com gosto de esterco entre os dentes esculpidos em marfim,
aguentaremos um a um, e teremos fé.
nos esqueceremos do mundo lá fora, repleto de crise,
nos convenceremos e resistiremos à espera de um sinal divino.
proibiremos os dissidentes de abrirem as portas do alçapão:
não deixaremos a crise entrar.
com o passar dos meses, devoraremos
primeiro os membros menos importantes,
ao som do realejo que melancólico anuncia:

– abandonai as esperanças, vós que aqui estás;
a morte é certa como a crise,
e a crise, vocês sabem,
não se cansa
de passar.

O som, ao redor do Butantã

[Aviso: este é um post longo, pois são pequenos fatos que criam o clima de tensão e estranheza que tem estado no ar. Não prometo fazer valer a pena, cada palavra, como em outros tempos. Mas eu preciso deixar pública a informação – e talvez vocês verão que há muito mais para saber do que estão nos dizendo.]

Novamente, escrevo com a impressão de estar ficando maluca. Agora sei, porém, que os tempos é que estão loucos. Vivemos definitivamente uma tensão crescente entre classes sociais e interesses políticos no cenário nacional. O pior é que o momento de instabilidade, como tanto frisei em junho do ano passado, pode ser aproveitado para muitas coisas. Alguns discursos ganham força, e em geral os que pretendem retroceder nos direitos humanos e na democracia são os que se tornam mais populares.

Não se trata apenas de “fazer justiça com as próprias mãos” – como vimos em tantos casos recentes. Se trata de uma visão distorcida de mundo e de humanidade, em que cada um se coloca na posição de juiz e executor dos demais. Feriu minha moral sendo negro, homossexual, ou fazendo algo que desaprovo? Eu mato. A polícia e a justiça em geral se posicionam ao lado desses, e contra os princípios que deveriam em tese defender (como os direitos humanos, assegurados em nossa constituição e na declaração internacional da qual o Brasil é signatário). Nunca em minha breve vida de brasileira eu havia visto o Estado (porque a polícia é sim parte do Estado) sequer se envergonhar de ferir esses princípios. Assumir, sem vergonha nenhuma, que não somos todos cidadãos diante de seus olhos e de seu julgamento.

Estou com nojo. Muito nojo disso tudo.

Compartilho com vocês alguns fatos recentes que me deixaram com a orelha em pé, pronta para meses que provavelmente serão muito piores e nos quais veremos coisas tão ou mais escrotas quanto essas acontecerem. Preparem o coração.

UM

Moro num condomínio de prédios de classe média bem média, num bairro que tem pedaços bem pobres e outros bem mais ricos do que onde eu moro. Nunca foi um bairro especialmente violento. Sempre foi possível andar tranquilamente pelas ruas daqui – ou pelo menos tão tranquilamente quanto no resto da cidade. A maior favela da região sempre teve organização comunitária forte (eu mesma conheci alguns de seus líderes na época em que a secretaria da juventude da cidade era aberta semanalmente a organizações de jovens, na gestão da Marta Suplicy). O bairro sempre foi policiado, e há dois batalhões da PM bem próximos, um deles a menos de 1km de distância, exatamente ao lado da favela.

Na semana passada, apareceu no espaço destinado a recados, no elevador do meu prédio, um folheto chamando os moradores a participarem de uma “passeata pela segurança na região”. Olhei torto, extremamente desconfiada: haveria acontecido algo de que eu não estava sabendo? Quem estava contabilizando estatisticamente que o bairro estava mais violento? De onde veio esse discurso? Quem estava organizando a passeata (não havia essa informação no cartaz, claro)? Com que objetivos? Na prática, nada de anormal havia acontecido. Pelo menos até a semana passada.

DOIS

No último sábado estava um silêncio meio anormal. Não havia o baile funk que habitualmente povoa o ar da madrugada em meu bairro. Havia algumas vozes de pessoas conversando em casas, quintais, talvez na rua. Aproveitei e tentei dormir mais cedo, já que não havia saído e tinha mil coisas pra resolver no domingo. Acordei com cinco tiros. Ritmados. Um seguido do outro. Sincronizadinhos. Cinco.

– Pou! Pou! Pou! Pou! Pou!

Cinco. Contei de novo, mentalmente. Foram cinco. Não era rojão. Não era escapamento de moto. Um homem gritava (acho que foi a única coisa que consegui escutar direitinho, com nitidez, fora os tiros):

– MÃO NA CABEÇA! MÃO PRA CIMA! PÕE A MÃO NA CABEÇA!

O tom de voz e o jeito eram de policial, embora na hora eu não tivesse como saber se era mesmo alguém da polícia. Não havia sons de sirene nem luzes de carros de polícia. Não havia outras vozes (policiais em serviço em geral trabalham em duplas ou grupos). Seguiram-se gritos. A voz do homem se transformara e abaixara, de maneira que eu passei a achar que era outra pessoa falando e que a pessoa que havia atirado teria ido embora. Depois ouvi sirenes – a polícia chegando, oficialmente. Muitos gritos. Muito choro. Eu tive certeza que alguém tinha morrido.

Corri ao facebook, já sem sono, para postar o horror que estava ouvindo. Uma vizinha que me segue e havia conseguido enxergar tudo melhor de sua sacada me contou a cena: o homem que atirara estava no local, enquanto um outro estava caído no chão com uma motocicleta, também derrubada. O homem armado falava ao celular e mandava todas as pessoas e veículos que chegavam ao local passarem direto, impedindo quaisquer transeuntes de observar verdadeiramente a cena. Não havia mais ninguém armado. Não houve mais nenhum tiro além dos cinco que eu ouvi (ao contrário de mim, a vizinha estava bem acordada na hora do ocorrido).

TRÊS

Deu no jornal: moradores incendeiam ônibus em protesto contra morte de jovem. Fui ler e soube que a poucos metros da minha sacada uma das balas disparadas na madrugada acertara uma menina adolescente, que morreu na hora. O jornal chamou de “tiroteio”. É possível um tiroteio de uma pessoa só? Claro que não era só essa a mentira deslavada contada pela polícia aos jornalistas.

Inventaram um tiro que teria partido de um suposto assaltante – tiro esse que ninguém ouviu.
Inventaram que eram dois numa moto, e que o segundo teria fugido com a moto e, óbvio, por isso ninguém encontrara a arma deles. O detalhe é que a moto estava lá, caída no chão, deixando mais evidente que havia ali uma distorção proposital dos fatos, por parte da polícia. Do segundo ninguém tem notícia, também, claro.

Não dá pra saber, com as informações que tenho, se inventaram que estava rolando um assalto, mas eu não me surpreenderia se inventassem, considerando a forte ligação de policiais civis e militares com grupos de extermínio, frequentemente usando esse disfarce, de supostos assaltos, para assassinar jovens negros e pobres como o que estava caído no chão, no meu bairro, naquela madrugada. Dá pra saber, além disso, que existe um interesse de grupos conservadores contra os direitos humanos (por exemplo, quem defende redução da maioridade penal) em instaurar o pânico da falta de segurança. Com medo e em pânico, fica fácil obter apoio popular para políticas públicas que ameaçam a democracia. A ditadura militar no Brasil foi instaurada com apoio popular, utilizando essa mesma estratégia. Do pânico para o Estado de exceção é um passo muito curto.

QUATRO

Passei o dia com a história toda na cabeça. Me perguntando se o carro que escutei sair arrancado da garagem do meu prédio pouco tempo antes era o policial civil indo atrás de alguém na rua. Mesmo que não seja, de fato, poderia ser. “Esse cara pode ser meu vizinho”, pensei. “Que nojo!”

Quando cheguei em casa agora à noite havia um carro em chamas, no meio da rua. Uma viatura e dois PMs ao lado. Muita gente na rua olhando. Tremi. Que era aquilo, agora? Mais um ato encenado? Quem botara fogo ali? Entrei e tentei falar com os porteiros, que não atenderam o interfone. Logo consegui contatar a vizinha que havia passado o dia ali. Ela desceu e voltava com informações.

Parece que ontem, quando o policial civil disparava os cinco tiros que me acordaram, moradores dos prédios – que são um tanto mais ricos do que os moradores das casinhas e do “vale” que é formado por algumas ruas mais para baixo – gritavam em tom de torcida organizada frases como “Morre”, reforçando a sede “justiceira” do assassino fardado (que não estava fardado, aliás, porque não estava em serviço). Então os moradores da comunidade, sabendo que poderia ter sido qualquer um deles o alvo do policial e o alvo do ódio dos coxinhas que gritavam na janela, simplesmente por existirem como negros e pobres neste mundo, decidiram dar o troco queimando o carro na frente de um dos prédios da rua.

Escutei esses dias muita gente falando que “o governo” ou “a mídia” teriam incitado um ódio entre classes sociais. Ledo engano. Essa tensão, esse ódio, sempre existiu. É da exploração de uma classe que a outra se sustenta. Essa situação é inerente à existência de classes e ao capitalismo (está lá em Marx, “luta de classes”, podem procurar – um dos conceitos mais antigos do pensamento de esquerda). Ela extrapola a situação econômica, também, como mostrou um cara chamado Pierre Bourdieu. Contudo, segue firme e forte no século XXI. Está aí.

A ideologia conservadora que vai contra os princípios democráticos e os direitos humanos sustenta a exclusão e a desigualdade. Sustenta uma série de privilégios e poderes extremamente mal distribuídos como são hoje. Faz, neste sistema, a roda do capitalismo (que não existe sem essa discrepância) girar.

O que me choca é ver o Estado e suas instituições assumirem, sem a menor vergonha ou pudor, que os princípios democráticos e os direitos humanos não são uma prioridade no Brasil, hoje. Isso tem acontecido desde o ano passado em diversos níveis, mas está ficando cada vez mais forte. Ao fazê-lo, o Estado dá aval para grupos de justiceiros e fascistas tomarem em suas mãos as vidas dos segmentos mais vulneráveis da população – como é o caso dos jovens negros, que estão sendo exterminados como ratos em episódios cotidianos iguaizinhos esse do meu bairro, Brasil afora.

CINCO

Juntando as pecinhas, algumas perguntas me atormentam nessa madrugada: quem organizou a passeata “pela segurança” num bairro que não tinha nenhum problema específico com segurança naquele momento? Por que um episódio tão violento aconteceu bem ao lado dos prédios de classe média que haviam sido convocados para a tal passeata? Por que logo poucos dias depois da tal passeata, que não tinha nenhuma reivindicação específica? Por que a polícia distorceu o ocorrido? Por que justamente aqui tantos moradores teriam gritado incentivando o policial civil a executar uma pessoa?

Neste fim de fim de semana me sinto no filme de Kleber Mendonça Filho, “O Som Ao Redor”. A poucos metros, um muro e muitas injustiças de distância de mim, um jovem foi baleado e uma adolescente morreu. Ambos pobres. Sem evidência de assalto. Sem evidência de que houvesse mais alguém armado. O policial civil atirou cinco vezes porque ele quis.

Eu honestamente gostaria que isso tudo fosse ficção.

Sigo de olhos abertos.

O ar está pesado, cada vez mais estranho e continua não sendo à toa.

Agora tem um carro pegando fogo, aqui na frente de casa.

Ontem um policial civil (sabe, daqueles que foram lá na cracolândia e tocaram o terror? então) disparou 5 tiros, feriu um cara e matou uma menina.

A versão oficial da polícia é que havia bandidos assaltando que atiraram primeiro. Mentira. Só houve cinco tiros disparados em seguida, ritmados, com o mesmíssimo som. Não houve tiro e revide. Foi o escroto que atirou porque sim. Cinco vezes seguidas.

A versão oficial da polícia é que um bandido saiu fugindo, na moto que estava usando para assaltar. Mentira. Os vizinhos dos andares mais altos viram a moto caída no chão, assim como o homem atingido, enquanto o policial civil falava no telefone e mandava os carros e pessoas passarem direto pelo local, sem parar.

A polícia militar demorou 20 minutos para chegar. Sendo que o batalhão fica a menos de 1km do local, e que não havai trânsito por ser de madrugada. O SAMU demorou mais 20 minutos.

Nunca aconteceu algo assim neste bairro e de maneira MUITO suspeita, no útlimo sábado alguns moradores e síndicos de condomínio organizaram uma “passeata pela segurança na região”.

Hoje o carro queimado, e ninguém se pronunciando sobre o que aconteceu. Escutei apenas um homem dizer que “se fosse eu também não deixava quieto”. Hoje de manhã reportaram um ônibus queimado em protesto pela morte da menina.

Dezessete anos. Ela tinha 17 anos, morreu com os tiros que me acordaram a poucos metros, um muro e muitas injustiças de distância.

Tem uma coisa bem estranha no ar, e não é à toa. Insisto.

Não sei o que é ainda. Mas que aí tem, isso tem.

AI-5 e a canção de protesto

Marcha dos Cem Mil, 1968: meses mais tarde, a reação dos militares seria o AI5
Marcha dos Cem Mil, 1968: alguns meses mais tarde, a reação dos militares ao protesto seria o Ato Institucional nº5 (AI-5)

13 de dezembro, do ano de 1968: era decretado o Ato Institucional nº5 em todo o território brasileiro. A partir daquele momento, o presidente possuía poder total e completo sobre toda a estrutura do Estado. A ditadura estava finalmente consilidada, com bases e disposições legais. Os partidos que até então existiam na legalidade sabiam que logo deixariam de atuar nas instâncias agora comandadas pelo presidente.

[Leia aqui a íntegra do Ato Institucional Número Cinco (AI-5)]

Como 2013, o ano de 1968 foi um ano politicamente agitado. A luta armada avançava, assim como a desumana perseguição aos militantes de guerrilhas. No Rio de Janeiro,  o estudante secundarista Edson Luís foi assassinado pelos militares durante uma manifestação. Poucos meses depois, a Marcha dos Cem Mil mostrou, nas ruas, que grande parte da população se colocava contra a ditadura (inclusive setores da classe média que haviam comemorado sua instauração alguns anos antes, jamais imaginando que seus próprios filhos seriam assassinados, perseguidos e torturados pelo regime). Também foi naquele ano que estudantes de esquerda da USP e o grupo de ultra-direita Comando de Caça aos Comunistas, formado por alunos do Mackenzie, travaram uma verdadeira batalha na Rua Maria Antônia, em São Paulo. Logo em seguida, os militares acabaram com o congresso da UNE, realizado em Ibiúna, levando cerca de 900 estudantes presos.

A resposta dos ditadores à efervescência política foi justamente essa: o AI-5.

Suas consequências foram o acirramento do regime, com a retirada dos direitos individuais e políticos de todos os cidadãos brasileiros – exceto os ditadores e seus protegidos. Foi também a partir dessas garantias legais que a censura se tornou mais forte. A revolucionária música de contracultura da Tropicália passou a ser duramente censurada, e seus autores perseguidos sem descanso. Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos logo após a publicação do documento. Nos meses seguintes, dezenas de ativistas políticos, ex-parlamentares, intelectuais e artistas foram exilados, se auto-exilaram, foram perseguidos, sofreram tortura ou foram executados sumariamente pelas forças militares. Seu crime: divergir.

Entre os divergentes que não foram exilados, sofrendo perseguição em solo nacional, estava o baiano Antônio José Santana Martins, mais conhecido como Tom Zé. Alguns anos mais tarde, já no fim da ditadura, em 1985 num show no teatro Lira Paulistana o músico apresentou uma série de canções refletindo sobre a ditadura e o período político na época. Assim como em “O Povo Novo“, de 2013, a sagacidade das letras de Tom Zé é impressionante em “O Jardim da Política”.

[Clique aqui para ouvir o disco (mp3)]

Alguns de meus versos favoritos do disco, que ganhei de presente do próprio cantor, com toda a honra do mundo, estão abaixo. Provavelmente teriam sido censurados se não estivessem num show ao vivo, no fim do regime militar.

Em “Democracia”, jogos de palavras e outras pequenas esperanças frente à quase abertura política, que só iria se consolidar em 1989 com a promulgação da nova constituição (que este ano fez 25 anos – agora pensem: o AI5 durou 20 anos, minha gente; o horror).

“democracia não se dita
maldita seja se dura,
palpita pela doçura.”

[da canção ‘Democracia’]

Dialogando diretamente com alguns grupos de esquerda que, formados majoritariamente por jovens de classe média, se propunham a falar em nome do povo, Tom Zé ironizava:

“Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária.

Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Os operários que se calem,
que procurem seu lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia que virá
e na felicidade dos operários.

Se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
Tom Zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária.”

[da canção ‘Classe Operária’]

Também aparece no show a pluralidade partidária, que começava a retornar ao cotidiano político do país – não sem menos tiração de sarro:

“E o PMDB padece patifa patifa fafá
no colo do PDS patifa patifa fafafá
o PTB percebeu patifa patifa fafafá
mas o PDT quer deter
se apetece ao PT ter poder
pode ser, pode não ser”

[da canção ‘Marcha Partido’]

Todas as letras do disco podem ser lidas aqui.

Mesmo depois da ditadura, porém, o período e temas correlatos continuaram sendo musicados por Tom Zé. No disco “Imprensa Cantada”, a canção “Sem saia, sem cera, censura” é uma das mais bonitas:

[embedplusvideo height=”480″ width=”640″ editlink=”http://bit.ly/19mYqOA” standard=”http://www.youtube.com/v/c4uSppkdiSk?fs=1″ vars=”ytid=c4uSppkdiSk&width=640&height=480&start=&stop=&rs=w&hd=0&autoplay=0&react=1&chapters=&notes=” id=”ep8633″ /]

 A capacidade artística de transformar experiências em sensação, em toque, em poesia foi uma das estratégias de resistências mais importantes durante o período do AI-5 no Brasil. A sapiência de Julinho de Adelaide para driblar a censura, por exemplo, é magistral. Assim como o teatro e o cinema, entre as décadas de 1970 e 1980 no Brasil, a música mantinha as pessoas vivas, lutando, caminhando e cantando.

Sem a canção de protesto não havia quem segurasse tamanho rojão.

Se o AI-5 foi um dos maiores crimes cometidos contra a sociedade brasileira, alivia saber que foi tamanha a lucidez de diversos artistas frente ao ato.

Seremos a esses eternamente gratas/os.

 

 

Mataram um menino. Tinha arma de verdade.

unicamp 2013
Unicamp, em setembro de 2013

21 de setembro, 2013. Leio a notícia do assassinato de um estudante da Unicamp. Foi numa festa. Uma festa daquelas que passei 4 anos de minha vida frequentando e – ainda mais – organizando. Uma festa daquelas que me fizeram responder inquérito disciplinar na reitoria, no não tão longínquo ano de 2007, por fazer parte do Centro Acadêmico de Ciências Humanas. Uma festa que inaugurou um período em que fazíamos festas todos os dias como estratégia de não-violência na luta contra o posicionamento fascistóide da reitoria, comandada pelo excelentíssimo senhor reitor José Tadeu Jorge: o mesmo iluminado que na semana do assassinato de Denis Casagrande, seis anos mais tarde, tirou o corpo fora dizendo que a universidade não tem nada a ver com as festas.

Ora, a política da Unicamp, enquanto instituição, e também o reitor, têm tudo a ver com as festas e seus desdobramentos. Para entender isso, é preciso um pouco de contexto. Continuar lendo Mataram um menino. Tinha arma de verdade.

50 tons de militância

mlk-mx
Percebo que todo mundo tem andado muito preto-no-branco quando se trata da militância política. A ânsia por se posicionar logo e “da maneira correta” (o que quer que isso queira dizer) acaba produzindo aberrações, como aquelas vistas nas últimas semanas quando o coletivo Fora do Eixo de tornou objeto de debate público.

A seção “Opinião” da Folha de São Paulo apresentou ontem e hoje (16 e 17/08) o posicionamento de dois jornalistas sobre a Mídia Ninja e o coletivo Fora do Eixo, autor do projeto. Quer dizer. Mais ou menos. Deveriam ser, pelo que parece, textos sobre a MN. Nenhum deles conseguia analisá-la enquanto um projeto, porém. Ambos carregam nas entrelinhas (e às vezes nas linhas também) a polarização que se deu na opinião pública desde o programa Roda Viva (05/08) que entrevistou Bruno Torturra e Pablo Capilé, apresentados como coordenadores do projeto e membros do coletivo Fora do Eixo.

Essa polarização, porém, pouco tem a ver com a Mídia Ninja, ao que tudo indica. A questão que dividiu a opinião pública, destruiu famílias e acabou com amizades é outra: o coletivo Fora do Eixo presta ou não presta?

Continuar lendo 50 tons de militância

Fora ALCA e o FMI! Epa, peraí, errei. Ou não?

Relembrando as batalhas políticas do finalzinho dos anos 1990 e início dos anos 2000, a “primavera brasileira” faz todo sentido do mundo. Como viemos parar aqui, mais de dez anos depois?

Episódio um: 500 anos de QUAL Brasil?

No início do ano 2000 eu tinha 13 anos. A economia do Brasil era um pouco capenga (embora já bem melhor do que uma década antes) e devíamos muito dinheiro ao Fundo Monetário Internacional. Fazia pouco tempo que tínhamos alcançado a universalização da educação básica, e o número de analfabetos ainda era maior do que hoje. A desigualdade social também era maior, o desemprego também era maior. Nesse contexto, que era relativamente dramático, “celebrava-se” os supostos “500 anos” do Brasil.

A Rede Globo e empresas parceiras haviam instalado, na Avenida Paulista (vejam só!), um relógio que fazia uma contagem regressiva para o dia 22 de Abril de 2000. Um relógio ridículo, patrocinado, afirmando que os povos que viviam aqui nos séculos anteriores à chegada dos portugueses simplesmente não eram gente. Como se não fizessem parte da nossa formação. Acho (não, tenho certeza) que faltou um pouco de Darcy Ribeiro pro Roberto Marinho. Pois é.

Adivinhem o que aconteceu?

Fomos lá protestar (e, se possível, demonstrar exatamente naquele relógio, símbolo da palhaçada toda o que sentíamos em relação ao país naquele momento). Foi a primeira vez que eu vi a tropa de choque.Estava com meu irmão, que é um ano mais velho, e alguns amigos e amigas da escola. Corri muito. O coração a mil.

Quando contamos à minha mãe o que não apareceu na TV, ela se horrorizou. Não pela possibilidade de termos nos machucado. Como eudisse aqui, foi ela mesma quem me ensinou que cidadania e política a gente faz sempre arriscando a própia integridade física de alguma maneira, nos momentos mais críticos. Minha mãe se indignou com a semelhança entre nosso relato e a ação da polícia nos protestos dos quais ela participava durante o regime militar.

Mal sabíamos nós que a repressão daquele dia na Avenida Paulista, “justificada” pela polícia por conta de bexiguinhas cheias de guache (sai com água, tá, gente?) lançadas contra o relógio, era um sinal de uma movimentação política maior. Um descontentamento e umquestionamento numa batalha política que a “primavera brasileira” me mostra que ainda está rolando. Esse horror infelizmente voltaria em outros três episódios marcantes nos últimos 13 anos: o A20 (2001), a invasão da PM na reitoria da USP (2011) e o massacre de Pinheirinho (2012). Em paralelo, o massacre invisível da juventude negra paulistaque nunca deixou de acontecer e tem se intensificado nos últimos anos. Embora todos tenham sua importância simbólica e histórica, e todos esse eventos façam parte da insatisfação geral que nos leva às ruas hoje, é o A20 que nos mostra que a nossa primavera vem se desenhando já há algum tempo.

Episódio dois: o “A20″ – Alcaralho com o FMI!

Não é à toa, amiguinhos e amiguinhas, que o “apelido” da manifestação de quinta ficou como “J13″. Não é de hoje essa maneira de marcar os nomes de grandes massacres da polícia em cima de manifestantes. No dia 20 de Abril de 2001, um pouco mais de um ano depois do episódio do relógio, o modus operandi da PM voltou ainda pior. Naquele dia, diversos manifestantes “contra a globalização capitalista” se reuniram na Avenida Paulista (ela, de novo). Manifestantes de diversas classes sociais, cores de pele, correntes, partidos, movimentos. De diversas idades. Não estive nessa manifestação, mas muitos amigos e conhecidos participaram. Uma parte razoável deles terminou no hospital depois da chegada da PM.

Adolescentes de 15 anos com fraturas, estilhaços pelo corpo, cortes, hematomas mil. Uma parte na cadeia, outra no hospital. Não havia internet, nem redes sociais para publicarmos nossos relatos e recebermos relatos dos amigos e colegas. Era no boca-a-boca, nos jornaizinhos de grêmios estudantis e informes de centros acadêmicos, nos jornais de sindicatos, nas reuniões políticas de grupos e associações. A mídia de massas jamais contou essa história. Nenhum jornalista sofreu ferimentos, dos pouquíssimo que foram cobrir o protesto.

Mas o que eram afinal essas manifestações “contra a globalização capitalista”? A “globalização” não é um fenômeno que aconteceu e ponto final? Como é que dava pra ser “contra” se parece que a globalização não foi exatamente uma escolha das pessoas? Mais importante ainda: o que isso tem a ver com a “primavera” que estamos vivendo, no mundo e no Brasil, e o descontentamento geral com os sistemas públicos, com Copa e Olimpíadas, genocídio indígena…?

A história explica:

Com o fim das ditaduras militares na América Latina, impulsionadas fortemente pela guerra fria, os primeiros governos supostamente democráticos foram bem conservadores. Por aqui, a ideia das instituições internacionais, de países hegemônicos e de grandes corporações era continuar mantendo o Brasil como um país extremamente dependente. A dependência econômica era um trunfo que mantinha a distribuição internacional de poder mais ou menos igual. Além disso, o Brasil era um mercado consumidor muito fértil, e a febre das importações (quando a economia novamente se abriu no governo Collor) nos mostra que as corporações e o governo do EUA sabiam muito bem disso.

Pensando nacionalmente, a dependência econômica e a desigualdade social também mantinham a distribuição de poder no país mais ou menos igual. O fim da nossa ditadura militar não significou uma mudança substancial nos grupos ocupando o poder político e econômico (taí Sarney que não nos deixa mentir, a hegemonia dos meios de comunicação de massa controlados pelas mesmas famílias de antes cujas concessões foram dadas pelos ditadores, etc), nesse primeiro momento.

Havia, na época, uma pressão internacional muito grande sobre os países latinoamericanos, para que se voltassem aos interesses puramente econômicos e corporativos internacionais. As definições do FMI e do G8 no Fórum Econômico Mundial representavam essas diretivas que nossos governos seguiram durante esse tempo todo. proposta da ALCA, uma “área de livre comércio das américas” faria as economias latinas serem finalmente engolidas e enterradas pela economia dos EUA.

Mas havia uma pedra no meio do caminho. Ufa.

Na América Latina a população havia passado os últimos 30 anos lutando por direitos políticos, civis e sociais contra seus ditadores. Era inaceitável consolidarmos nossas democracias nos baseando apenas em interesses econômicos de fora. Seria o fim de um projeto de país que estava em disputa, ali. Em outros contextos, as pessoas em muitos outros países (em outros continentes) perceberam que sua qualidade de vida poderia ser fortemente afetada se a preocupação dos Estados nacionais deixasse de ser o bem-estar dos cidadãos, os direitos civis básicos, etc (como vimos acontecer com os próprios EUA, país em que não há sistemas de serviço público e gratuito de saúde, educação, etc).

Organizou-se, então, o movimento “contra a globalização capitalista”. As bandeiras que bradávamos no Brasil e na América Latina eram “Fora Alca!”“Fora FMI” e “Alcaralho com o FMI” (a mais interessante, sempre achei). Nessa época a Argentina entrou em crise depois de abrir as pernas para o FMI, o que seguia comprovando a percepção intuitiva (e histórica) de quem militava nessas causas. Discutiu-se uma moratória geral da dívida externa por parte de todos os países latinoamericanos, proposta que foi rechaçada com força pelo governo brasileiro, comandado por FHC.

Parte desse movimento criou o “Fórum Social Mundial” justamente em oposição ao “Fórum Econômico Mundial”. Se o econômico se realizava sempre em “Davôs”, centro do mundo, o Fórum Social Mundial se realizaria sempre na “periferia” do mundo. Nos países em que o capitalismo mostrava cotidianamente suas falhas, seus problemas, seus resultados dramáticos. Tive a honra de participar de três desses eventos, em Porto Alegre, em janeiro dos anos de 2002, 2003 e 2005. Milhares de pessoas, militantes ou não, ativistas ou não, num espaço privilegiado de convivência para pensar que “um outro mundo é possível”e, afinal, que mundo seria esse.

Não sabíamos. Mas sabíamos que não queríamos aquele que estava se instaurando.

Essa história nos mostra que a “globalização capitalista” não aconteceu da maneira como aconteceu (com o Brasil podendo realizar políticas sociais como o bolsa-família, ou as políticas de cotas e expansão de universidades federais, etc) porque forças divinas assim quiseram. Essa possibilidade existiu porque, em luta, nós barramos a ALCA (sigla que meus alunos, nascidos em 1996 e 1997 nunca escutaram, graças a quem brigou por isso). Construímos os Fóruns Sociais Mundiais.

Em suma, o que dissemos, no início dos anos 2000 foi: queremos um Estado que se volte para as pessoas, e não para interesses de corporações, empresários, e “do capital” (que simboliza esse jogo perverso).

Pois me digam: não é exatamente isso que estamos afirmando agora?

Ao reivindicarmos o livre direito de circular pela cidade sem depender de dinheiro; quando os turcos reivindicam “mais parques” e “menos shoppings”; quando criticamos a Copa e as Olimpíadas; quando pedimos por um marco regulatório nas comunicações; quando lutamos para barrar o Estatuto do Nascituro; quando brigamos pelo direito das pessoas trans* à sua identidade de gênero; quando exigimos que todas as pessoas possam se casar com quem quiserem, se quisere; quando nos recusamos a aceitar que a PM massacre as pessoas na rua; quando denunciamos o genocídio da juventude negra; quando protestamos contra a construção de uma usina que fere direitos indígenas e mata populações e culturas; quando exigimos um sistema único de saúde que funcione e atenda a demanda; quando desejamos um sistema educacional eficaz; quando buscamos ampliar o acesso à universidade:

Não é isso que estamos dizendo? Que queremos um Estado que sirva primeiro aos interesses dos cidadãos, e depois aos interesses de corporações e consumidores?

No fim das contas, parece que todo mundo já entendeu muito bem que essa não é uma luta por 20 centavos. O que precisamos entender, por fim, é que essa é uma luta para definir o que queremos do Estado. O Estado somos nós.

Brace yourselves: spring is coming.

[Este texto foi publicado originalmente no Medium, em Junho-2013]