Arquivo de tag política

ao meu partido, de Pablo Neruda

ao meu partido, de Pablo Neruda
Ao meu partido (Pablo Neruda)

(tradução de Marília Moschkovich)

Você me deu a fraternidade com aquilo que não conheço.
Você me agregou à força de todos os que vivem.
Você me deu novamente a pátria, como em um nascimento.
Você me deu a liberdade que o solitário não tem.
Você me ensinou a acender, como fogo, a bondade.
Você me deu a retidão de que precisa a árvore.
Você me ensinou a ver a unidade e a diferença entre os homens.
Você me mostrou como a dor de um ser morreu na vitória de todos.
Você me ensinou a dormir nas camas duras de meus irmãos.
Você me fez construir sobre a realidade como sobre uma rocha.
Você me fez adversário do mau e muro do frenético.
Você me fez ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Você me fez indestrutível porque contigo não termino em mim.


A mi partido (Pablo Neruda)

Me has dado la fraternidad hacia el que no conozco.
Me has agregado la fuerza de todos los que viven.
Me has vuelto a dar la patria como en un nacimiento.
Me has dado la libertad que no tiene el solitario.
Me enseñaste a encender la bondad, como el fuego.
Me diste la rectitud que necesita el árbol.
Me enseñaste a ver la unidad y la diferencia de los hombres.
Me mostraste cómo el dolor de un ser ha muerto en la victoria de todos.
Me enseñaste a dormir en las camas duras de mis hermanos.
Me hiciste construir sobre la realidad como sobre una roca.
Me hiciste adversario del malvado y muro del frenético.
Me has hecho ver la claridad del mundo y la posibilidad de la alegría.
Me has hecho indestructible porque contigo no termino en mí mismo.


[as traduções que sempre vi espalhadas deste poema me incomodavam um pouco. talvez fosse a distorção causada pelo uso do tempo verbal que, em português, não tem o mesmo sentido que em espanhol – por isso usei o passado em sua possibilidade mais cotidiana e corriqueira, traduzindo o efeito do uso do tempo verbal escolhido pelo poeta em espanhol; comentários são sempre bem-vindos]

trinta

trinta

sonhei que te encontrava,
meu amor e você me dizia
sério
o resultado das eleições presidenciais dos EUA
e eu nem imaginava que já era hora pra isso

acabei de acordar,
não tomei meu café,
ainda não comi nada
(ou talvez nem tenha ido dormir
que o corpo anda quente
e quando durmo
eu tenho frio)

eu quis tomar um banho no escuro para ver se passava
o corpo do menino decapitado pelo capitão-do-mato
ou se passavam esses quase trinta anos
desde a queda do muro de berlim

eu quis escrever um poema
para ver se convencia um algoritmo
ou para ver se me convencia
a não tomar um trago amargo
(só um,
por favor)

ando doente do fígado
e as últimas três décadas velhas
as vivi como se fossem
os anos trinta

essa cirrose nas entradas dos portais

guerras quentes em duchas na madrugada
o cheiro de ferro em cada ralo
mísseis bomba agá choques elétricos
e a gente nascendo como pra dizer
que sim
ou como pra dizer que não
ou como pra dizer

que o extermínio
é impossível
até que se extermine tudo
e quando digo tudo
quero dizer todos

metralhadoras histéricas de sementes
as covas molhadas de cuspe e versos
e no fogo cruzado a manhã
me queima o chá de camomila
e a esperança
de que se acabassem
alguma hora
minhas malditas
baterias

a crise vai passar

a crise vai passar

a crise vai passar.
você pode enquanto isso abrir
um guarda-chuva
ou esperar quietinho
sob um teto.

você pode economizar:
é só cada um respirar
apenas as moléculas realmente necessárias
e plantar
um número suficiente de árvores numa
economia colaborativa atmosférica
(chegou o futuro melhor!)
até que tudo se restabeleça.
a crise vai sim, passar.

em momentos de leveza você pode tentar
a dança da crise
ou encher as bochechas de
bolinhos de crise;
você pode se lembrar,
antes de sair de casa,
de olhar a previsão:
– tempestade no mercado
– queda brusca na temperatura do dólar
– sensação térmica desfavorável
– alta incidência de raios inflacionários

(melhor espalhar muito bem sobre as maçãs do rosto e o nariz
uma generosa camada de filtro. ignore o cheiro, é por pouco tempo
já que a crise, como eu disse, há de passar.)

ora, se nada disso der certo, ainda teremos
nossos abrigos anti-crise,
munidos de comida enlatada,
colchões de feno, batalha naval
em bloquinhos de papel,
volumes mortos nas prateleiras,
e apenas meia dúzia de ratos:
ali contaremos histórias

dos idos tempos de antes da crise,
de como éramos felizes, do privilégio
de termos planilhas pra manter a cabeça ocupada,
ou cinquenta horas de jornada.

escreveremos versos, faremos fogueiras imaginárias
e oraremos pela deusa inflação.
transmitiremos a cada nova geração
pouco espontânea a nossa cosmogonia:

num trapézio oferta e procura revezando-se com piruetas e acrobacias,
uma orquestra invisível regida pela mão da meritocracia, coreografia macabra
num circo mambembe de lona rasgada
com arquibancadas que cheiram a mijo e palhaços deprimidos que
no fim do espetáculo abusam meninos, enquanto elefantes
cansados com seus chifres e orelhas remendados
cagam nas margens do picadeiro sobre uma plateia de esfomeados.
engolem a bosta na esperança de alguma proteína, a massa
espectadora no chão de espelhos assiste
à própria chacina.

com gosto de esterco entre os dentes esculpidos em marfim,
aguentaremos um a um, e teremos fé.
nos esqueceremos do mundo lá fora, repleto de crise,
nos convenceremos e resistiremos à espera de um sinal divino.
proibiremos os dissidentes de abrirem as portas do alçapão:
não deixaremos a crise entrar.
com o passar dos meses, devoraremos
primeiro os membros menos importantes,
ao som do realejo que melancólico anuncia:

– abandonai as esperanças, vós que aqui estás;
a morte é certa como a crise,
e a crise, vocês sabem,
não se cansa
de passar.