O som, ao redor do Butantã

[Aviso: este é um post longo, pois são pequenos fatos que criam o clima de tensão e estranheza que tem estado no ar. Não prometo fazer valer a pena, cada palavra, como em outros tempos. Mas eu preciso deixar pública a informação – e talvez vocês verão que há muito mais para saber do que estão nos dizendo.]

Novamente, escrevo com a impressão de estar ficando maluca. Agora sei, porém, que os tempos é que estão loucos. Vivemos definitivamente uma tensão crescente entre classes sociais e interesses políticos no cenário nacional. O pior é que o momento de instabilidade, como tanto frisei em junho do ano passado, pode ser aproveitado para muitas coisas. Alguns discursos ganham força, e em geral os que pretendem retroceder nos direitos humanos e na democracia são os que se tornam mais populares.

Não se trata apenas de “fazer justiça com as próprias mãos” – como vimos em tantos casos recentes. Se trata de uma visão distorcida de mundo e de humanidade, em que cada um se coloca na posição de juiz e executor dos demais. Feriu minha moral sendo negro, homossexual, ou fazendo algo que desaprovo? Eu mato. A polícia e a justiça em geral se posicionam ao lado desses, e contra os princípios que deveriam em tese defender (como os direitos humanos, assegurados em nossa constituição e na declaração internacional da qual o Brasil é signatário). Nunca em minha breve vida de brasileira eu havia visto o Estado (porque a polícia é sim parte do Estado) sequer se envergonhar de ferir esses princípios. Assumir, sem vergonha nenhuma, que não somos todos cidadãos diante de seus olhos e de seu julgamento.

Estou com nojo. Muito nojo disso tudo.

Compartilho com vocês alguns fatos recentes que me deixaram com a orelha em pé, pronta para meses que provavelmente serão muito piores e nos quais veremos coisas tão ou mais escrotas quanto essas acontecerem. Preparem o coração.

UM

Moro num condomínio de prédios de classe média bem média, num bairro que tem pedaços bem pobres e outros bem mais ricos do que onde eu moro. Nunca foi um bairro especialmente violento. Sempre foi possível andar tranquilamente pelas ruas daqui – ou pelo menos tão tranquilamente quanto no resto da cidade. A maior favela da região sempre teve organização comunitária forte (eu mesma conheci alguns de seus líderes na época em que a secretaria da juventude da cidade era aberta semanalmente a organizações de jovens, na gestão da Marta Suplicy). O bairro sempre foi policiado, e há dois batalhões da PM bem próximos, um deles a menos de 1km de distância, exatamente ao lado da favela.

Na semana passada, apareceu no espaço destinado a recados, no elevador do meu prédio, um folheto chamando os moradores a participarem de uma “passeata pela segurança na região”. Olhei torto, extremamente desconfiada: haveria acontecido algo de que eu não estava sabendo? Quem estava contabilizando estatisticamente que o bairro estava mais violento? De onde veio esse discurso? Quem estava organizando a passeata (não havia essa informação no cartaz, claro)? Com que objetivos? Na prática, nada de anormal havia acontecido. Pelo menos até a semana passada.

DOIS

No último sábado estava um silêncio meio anormal. Não havia o baile funk que habitualmente povoa o ar da madrugada em meu bairro. Havia algumas vozes de pessoas conversando em casas, quintais, talvez na rua. Aproveitei e tentei dormir mais cedo, já que não havia saído e tinha mil coisas pra resolver no domingo. Acordei com cinco tiros. Ritmados. Um seguido do outro. Sincronizadinhos. Cinco.

– Pou! Pou! Pou! Pou! Pou!

Cinco. Contei de novo, mentalmente. Foram cinco. Não era rojão. Não era escapamento de moto. Um homem gritava (acho que foi a única coisa que consegui escutar direitinho, com nitidez, fora os tiros):

– MÃO NA CABEÇA! MÃO PRA CIMA! PÕE A MÃO NA CABEÇA!

O tom de voz e o jeito eram de policial, embora na hora eu não tivesse como saber se era mesmo alguém da polícia. Não havia sons de sirene nem luzes de carros de polícia. Não havia outras vozes (policiais em serviço em geral trabalham em duplas ou grupos). Seguiram-se gritos. A voz do homem se transformara e abaixara, de maneira que eu passei a achar que era outra pessoa falando e que a pessoa que havia atirado teria ido embora. Depois ouvi sirenes – a polícia chegando, oficialmente. Muitos gritos. Muito choro. Eu tive certeza que alguém tinha morrido.

Corri ao facebook, já sem sono, para postar o horror que estava ouvindo. Uma vizinha que me segue e havia conseguido enxergar tudo melhor de sua sacada me contou a cena: o homem que atirara estava no local, enquanto um outro estava caído no chão com uma motocicleta, também derrubada. O homem armado falava ao celular e mandava todas as pessoas e veículos que chegavam ao local passarem direto, impedindo quaisquer transeuntes de observar verdadeiramente a cena. Não havia mais ninguém armado. Não houve mais nenhum tiro além dos cinco que eu ouvi (ao contrário de mim, a vizinha estava bem acordada na hora do ocorrido).

TRÊS

Deu no jornal: moradores incendeiam ônibus em protesto contra morte de jovem. Fui ler e soube que a poucos metros da minha sacada uma das balas disparadas na madrugada acertara uma menina adolescente, que morreu na hora. O jornal chamou de “tiroteio”. É possível um tiroteio de uma pessoa só? Claro que não era só essa a mentira deslavada contada pela polícia aos jornalistas.

Inventaram um tiro que teria partido de um suposto assaltante – tiro esse que ninguém ouviu.
Inventaram que eram dois numa moto, e que o segundo teria fugido com a moto e, óbvio, por isso ninguém encontrara a arma deles. O detalhe é que a moto estava lá, caída no chão, deixando mais evidente que havia ali uma distorção proposital dos fatos, por parte da polícia. Do segundo ninguém tem notícia, também, claro.

Não dá pra saber, com as informações que tenho, se inventaram que estava rolando um assalto, mas eu não me surpreenderia se inventassem, considerando a forte ligação de policiais civis e militares com grupos de extermínio, frequentemente usando esse disfarce, de supostos assaltos, para assassinar jovens negros e pobres como o que estava caído no chão, no meu bairro, naquela madrugada. Dá pra saber, além disso, que existe um interesse de grupos conservadores contra os direitos humanos (por exemplo, quem defende redução da maioridade penal) em instaurar o pânico da falta de segurança. Com medo e em pânico, fica fácil obter apoio popular para políticas públicas que ameaçam a democracia. A ditadura militar no Brasil foi instaurada com apoio popular, utilizando essa mesma estratégia. Do pânico para o Estado de exceção é um passo muito curto.

QUATRO

Passei o dia com a história toda na cabeça. Me perguntando se o carro que escutei sair arrancado da garagem do meu prédio pouco tempo antes era o policial civil indo atrás de alguém na rua. Mesmo que não seja, de fato, poderia ser. “Esse cara pode ser meu vizinho”, pensei. “Que nojo!”

Quando cheguei em casa agora à noite havia um carro em chamas, no meio da rua. Uma viatura e dois PMs ao lado. Muita gente na rua olhando. Tremi. Que era aquilo, agora? Mais um ato encenado? Quem botara fogo ali? Entrei e tentei falar com os porteiros, que não atenderam o interfone. Logo consegui contatar a vizinha que havia passado o dia ali. Ela desceu e voltava com informações.

Parece que ontem, quando o policial civil disparava os cinco tiros que me acordaram, moradores dos prédios – que são um tanto mais ricos do que os moradores das casinhas e do “vale” que é formado por algumas ruas mais para baixo – gritavam em tom de torcida organizada frases como “Morre”, reforçando a sede “justiceira” do assassino fardado (que não estava fardado, aliás, porque não estava em serviço). Então os moradores da comunidade, sabendo que poderia ter sido qualquer um deles o alvo do policial e o alvo do ódio dos coxinhas que gritavam na janela, simplesmente por existirem como negros e pobres neste mundo, decidiram dar o troco queimando o carro na frente de um dos prédios da rua.

Escutei esses dias muita gente falando que “o governo” ou “a mídia” teriam incitado um ódio entre classes sociais. Ledo engano. Essa tensão, esse ódio, sempre existiu. É da exploração de uma classe que a outra se sustenta. Essa situação é inerente à existência de classes e ao capitalismo (está lá em Marx, “luta de classes”, podem procurar – um dos conceitos mais antigos do pensamento de esquerda). Ela extrapola a situação econômica, também, como mostrou um cara chamado Pierre Bourdieu. Contudo, segue firme e forte no século XXI. Está aí.

A ideologia conservadora que vai contra os princípios democráticos e os direitos humanos sustenta a exclusão e a desigualdade. Sustenta uma série de privilégios e poderes extremamente mal distribuídos como são hoje. Faz, neste sistema, a roda do capitalismo (que não existe sem essa discrepância) girar.

O que me choca é ver o Estado e suas instituições assumirem, sem a menor vergonha ou pudor, que os princípios democráticos e os direitos humanos não são uma prioridade no Brasil, hoje. Isso tem acontecido desde o ano passado em diversos níveis, mas está ficando cada vez mais forte. Ao fazê-lo, o Estado dá aval para grupos de justiceiros e fascistas tomarem em suas mãos as vidas dos segmentos mais vulneráveis da população – como é o caso dos jovens negros, que estão sendo exterminados como ratos em episódios cotidianos iguaizinhos esse do meu bairro, Brasil afora.

CINCO

Juntando as pecinhas, algumas perguntas me atormentam nessa madrugada: quem organizou a passeata “pela segurança” num bairro que não tinha nenhum problema específico com segurança naquele momento? Por que um episódio tão violento aconteceu bem ao lado dos prédios de classe média que haviam sido convocados para a tal passeata? Por que logo poucos dias depois da tal passeata, que não tinha nenhuma reivindicação específica? Por que a polícia distorceu o ocorrido? Por que justamente aqui tantos moradores teriam gritado incentivando o policial civil a executar uma pessoa?

Neste fim de fim de semana me sinto no filme de Kleber Mendonça Filho, “O Som Ao Redor”. A poucos metros, um muro e muitas injustiças de distância de mim, um jovem foi baleado e uma adolescente morreu. Ambos pobres. Sem evidência de assalto. Sem evidência de que houvesse mais alguém armado. O policial civil atirou cinco vezes porque ele quis.

Eu honestamente gostaria que isso tudo fosse ficção.

Sigo de olhos abertos.

O ar está pesado, cada vez mais estranho e continua não sendo à toa.

Agora tem um carro pegando fogo, aqui na frente de casa.

Ontem um policial civil (sabe, daqueles que foram lá na cracolândia e tocaram o terror? então) disparou 5 tiros, feriu um cara e matou uma menina.

A versão oficial da polícia é que havia bandidos assaltando que atiraram primeiro. Mentira. Só houve cinco tiros disparados em seguida, ritmados, com o mesmíssimo som. Não houve tiro e revide. Foi o escroto que atirou porque sim. Cinco vezes seguidas.

A versão oficial da polícia é que um bandido saiu fugindo, na moto que estava usando para assaltar. Mentira. Os vizinhos dos andares mais altos viram a moto caída no chão, assim como o homem atingido, enquanto o policial civil falava no telefone e mandava os carros e pessoas passarem direto pelo local, sem parar.

A polícia militar demorou 20 minutos para chegar. Sendo que o batalhão fica a menos de 1km do local, e que não havai trânsito por ser de madrugada. O SAMU demorou mais 20 minutos.

Nunca aconteceu algo assim neste bairro e de maneira MUITO suspeita, no útlimo sábado alguns moradores e síndicos de condomínio organizaram uma “passeata pela segurança na região”.

Hoje o carro queimado, e ninguém se pronunciando sobre o que aconteceu. Escutei apenas um homem dizer que “se fosse eu também não deixava quieto”. Hoje de manhã reportaram um ônibus queimado em protesto pela morte da menina.

Dezessete anos. Ela tinha 17 anos, morreu com os tiros que me acordaram a poucos metros, um muro e muitas injustiças de distância.

Tem uma coisa bem estranha no ar, e não é à toa. Insisto.

Não sei o que é ainda. Mas que aí tem, isso tem.

Rolezinho: isso não é (só) sobre consumo

Quando começaram os protestos de junho, houve quem me chamasse de louca por considerar que estávamos diante da “primavera brasileira”. Houve quem dissesse que os protestos não eram protestos, verdadeiramente, já que as pessoas não sabiam muito bem o que fazer nas ruas, nem conhecessem precisamente maneiras um tanto “técnicas” de travar a luta política. Houve quem dissesse que nenhuma reivindicação desejava mudança estrutural. Desde o começo me pareceu muito claro: podemos sim, dizer que começou ali uma primavera brasileira. Uma insatisfação com a maneira geral como nos organizamos em sociedade. Em especial, com o abandono que sentimos em relação ao Estado, uma estrutura que deveria servir aos interesses de muitos mas se curva diante de caprichos de poucos. Assim como os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus em todo o Brasil, e contra os abusos da FIFA na Copa das Confederações e Copa do Mundo, os rolezinhos vão na mesma onda, gritando: assim não está bom.

Os rolezinhos e a luta contra o aumento das passagens (e, em última instância, pelo passe livre) têm absolutamente tudo em comum. Muito tem se dito sobre os rolezinhos serem uma questão de “consumo”, apenas. Dizer isso é banalizar o rolezinho. Se fosse uma questão de consumo, individual, bastava um grupo de quatro ou cinco amigos da periferia combinar de ir ao cinema um dia num shopping como o Iguatemi JK que estaria tudo certo. Mas o rolezinho não é isso. O que é que estão dizendo as centenas e milhares de jovens que se engajaram em rolezinhos, quando utilizam uma das táticas de luta política mais antigas e sólidas – a ocupação – em shoppings de grandes cidades?

Não dá pra ficar em casa trancado“, disse Jefferson Luís, o rapaz de 20 anos que organizou o rolezinho no Shopping Internacional em Guarulhos, SP. A frase martela em minha cabeça: não dá pra ficar em casa trancado. Não dá pra ficar em casa trancado. Não dá. Nenhuma outra frase resume tão bem a questão social e política que o rolezinho combate. Reproduzindo a estrutura social vigente, nossas cidades segregam. Segregam porque se baseiam na acumulação de capital, e não na eqüidade entre indivíduos, grupos, setores. Se o local de moradia e a possibilidade de circular pela cidade, saindo dele, dependem de dinheiro, num contexto em que o dinheiro não é distribuído de maneira homogênea, então também é assim com o acesso a serviços, opções de lazer e cultura e, pasmem, até com o consumo e a certos bens.

No nosso caso, ainda, há uma segregação racial que acompanha a segregação social. Por conta de nossa história de políticas racistas de Estado (como trazer mão-de-obra assalariada branca de fora do Brasil para não ter que contratar negros na lavoura e na indúsrtia; ou como a proibição aos negros de frequentarem escolas públicas associada à proibição de voto dos analfabetos), a população negra ficou relegada aos estratos mais baixos da nossa hierarquia social – essa que se baseia em acumulação de capital, grana, money, tutu, dindin. Pois então, no momento em que uma parcela dessa população negra começa a quebrar (ainda que com muito suor e sangue) esse esquema, acumulando algum dinheiro e consumindo o que não lhes era socialmente designado, o racismo fica ainda mais escancarado. É impressionante que até a lógica capitalista, tão arraigada em nosso pensamento, seja preterida quando se trata da lógica racista. Segundo o shopping JK Iguatemi, é melhor recusar centenas de clientes e consumidores, caso eles sejam negros.

(Não dá pra fazer olimpíadas da opressão, eu sei; mas às vezes me parece que, se fosse possível, certeza que o racismo estaria ganhando disparado neste país)

Isso tudo mostra que o rolezinho não é, definitivamente, sobre consumo. É sobre racismo, e sobre a estrutura sócio-racial que mantém jovens negros e pobres em casa, trancados, aos finais de semana. É sobre um Estado que concentra esforços para atender as demandas de gente com dinheiro e pele branca, e que abandona todo o resto. É sobre como a lógica do capital se entrelaçou de vez com o racismo quando, ao fim da escravidão, se estabeleceu políticas de imigração europeia para que se impedisse, de fato, qualquer tipo de ascensão social por parte das pessoas negras no Brasil. É sobre como o passe livre poderia reverter essa estrutura, proporcionando acesso dessa população já marginalizada a espaços centrais, a opções de cultura e lazer diversas. É sobre como o sistema de transporte também segrega, mantendo a estrutura social (lembrando casos de rolezinhos em Campinas, cidade em que os shoppings quase não têm acesso por meio de ônibus, nos quais foi simples fechar o shopping – bastou fechar as entradas de pedestres). É como essa estrutura se reflete em todo e cada espaço das nossas cidades.

O rolezinho é, enfim, uma incrível arma na luta por uma sociedade verdadeiramente igualitária.

PS.: em tempo: você, que concorda com tudo isso mas continua estigmatizando o funk e @s funkeir@s com memes ridículos sobre fones e ouvido e afins, faça um favor ao mundo e reveja profundamente seus preconceitos.