Por que tanta chacota com Rachel Sheherazade?

Começo dizendo que este não é um post sobre a pessoa da Rachel Sheherazade. Este não é um post sobre o conteúdo de seus textos e opiniões veiculados na televisão ou na internet. Este não é um post sobre se devemos ou não criticá-la, nem sobre o conteúdo das críticas feitas a ela. Este não é um post sobre nenhuma pessoa específica, mas sim sobre um fenômeno.

Dito isso, passemos ao ponto que me interessa neste post: a reação de chacota que observo ser extremamente mais forte (e quase exclusiva eu diria) com as falas de Rachel Sheherazade, na internet. A esta altura do campeonato deve estar claro para quem lê que meu debate aqui não é com a direita ou com pessoas que concordam com a jornalista. Meu debate é com quem, como eu, desaprova as opiniões que ela emite em rede nacional. Mesmo que o post não seja sobre essas opiniões.

Nunca antes na história desse país (para não perder a piada), houve tantos memes avacalhando o conteúdo da fala de jornalistas e comentaristas de direita, conservadores e reacionários, quando vemos por aí de Rachel Sheherazade. Há bastante tempo acompanho redes sociais, sempre excluindo ou não seguindo gente reaça (porque não sou obrigada e me amo demais pra me fazer passar por isso). Minhas timelindas são compostas praticamente só por gente de esquerda, veículos de comunicação alternativos, etc. Nessas timelindas (reparem bem: minha experiência) nunca houve tantos memes e críticas públicas e explícitas sobre nenhum dos comentaristas sagradíssimos da comunicação brasileira – como Boris Casoy, Datena, Arnaldo Jabor. Todos eles dizem coisas senão iguais, piores do que as que Rachel Sheherazade professa em seu espaço no SBT. A frase a seguir poderia ter sido dita por qualquer um desses jornalistas. Quem acha que o conteúdo das coisas ditas por Sheherazade é especialmente horrível precisa olhar de novo. Escutar mais. Reler. Ouvir as gravações. Os quatro dizem coisas absurdas, do mais baixo nível (há quem, por ignorar a escrotidão dos textos utra-machistas de Jabor, diga que ele se diferencia dos demais; eu não poderia discordar mais)

“Muitos já entendem que o Estado não é a ‘solução’, mas é o ‘problema’. Já sabem que um Estado gigante suga como um vampiro a sociedade e não devolve em serviços e reformas o que nós emprestamos a ele. Já sabemos que a sociedade acordou, apesar de amedrontada pelos fascistas dos black blocs, como vimos em junho de 2013.”

A questão que permanece para mim é: por que apenas as frases e textos de Sheherazade são reimpressas, guardadas, feitas meme, compartilhadas no Facebook? Façam o exercício comigo. Digitem no Google o nome do/a referido/a jornalista seguido de “meme”, no Google Imagens, e vejam quantos memes de esquerda, criticando e fazendo chacota da pessoa ou das opiniões aparecem para cada um/a. Viram? No caso do Boris Casoy, apenas um episódio (o dos garis) é lembrado. Um. Em quantos anos de televisão? Há memes para praticamente tudo que Rachel Sheherazade faz e diz. Eu digo, pra brincar com meu próprio bordão: não é à toa.

Se trata de um caso de machismo estrutural. Isso não significa, como eu disse lá no começo, que individualmente quem critica a jornalista é machista. Isso não significa que devamos não criticá-la para evitarmos machismo. Significa apenas que é o machismo estrutural que nos faz ter essa reação específica com ela, em massa, que não temos com os demais que falam barbaridades iguais ou até piores, também diariamente. A reação envolve desde prestarmos atenção (ela está na nossa mira, de alguma forma), até criar tantos memes. Mesmo – sim! – quando o conteúdo da crítica não é machista. Não é do conteúdo da crítica nem do conteúdo das opiniões de Sheherazade que estou falando, já disse.

A estrutura machista de nossa sociedade nos faz sermos mais rígidos com as mulheres, de maneira automática, inconsciente. É uma das faces do tal machismo estrutural (não vou nem comentar no *detalhe* igualmente importante do fato de Sheherazade ser nordestina). Por isso reagimos com tanta força contra mulheres que dizem e fazem absurdos (no caso aqui, absurdos reaças, rs), especialmente quando no espaço público. Mais um exemplo é o fato de Thatcher ser demonizada mas outros liberais que fizeram horrores iguais e/ou piores não terem sofrido a mesma reação. De novo: não é que devamos deixar de criticá-las. Mas precisamos definitivamente compreender por que as criticamos com furor tão maior do que criticamos os seus semelhantes homens. Mais que isso, por que sempre com chacota?

A chacota é uma ferramenta muito forte da dominação machista. É sistemático que se faça chacota (da esquerda para a direita e vice-versa) quando os sujeitos públicos de que se fala são mulheres. Quando são homens se faz em geral críticas, ou até mesmo se ignora. As mulheres são feitas piada. Para quem compreende o machismo e o sente na pele, essa é uma constante. Precisamos o tempo todo fazermos força para sermos levadas a sério. Este é um dos problemas na reação massiva que tenho acompanhado em relação a Rachel Sheherazade.

Novamente: o problema dessa reação massiva é que ela só tem acontecido dessa maneira e com essa intensidade quando  os reaças em questão são mulheres. Da parte dos reaças, é isso que fazem, também, com as mulheres de esquerda. É isso que se faz, inclusive, dentro da esquerda com muitas de suas militantes que procuram fazer crítica interna (como essa que eu estou me debatendo para fazer ser compreendida – por que tanta resistência em entender o machismo e como ele funciona? por causa do próprio machismo, oras).

É hora de, sem deixar a crítica às opiniões conservadoras da jornalista de lado, realizar uma importante autocrítica. Pelo menos se não quisermos reproduzir uma das horrorosas ideias que Sheherazade, Datena, Casoy e Jabor insistem em defender.

Por que o rei do camarote importa (sobre Marx, Bourdieu e Alexander de Almeida)

rei do camaroteEntão no final de semana um revista de imensa circulação publicou uma reportagem fazendo o que ela sempre fez, faz e fará: enaltecer um estilo de vida de um grupo social bem específico da maior cidade do Brasil. São Paulo não é Nova York, mas qual a diferença entre o rei do camarote e as patricinhas de Gossip Girl ou os ricaços dos Hamptons em Revenge? Eu, que acho esses seriados tão interessantes quanto o novo meme do rei do camarote, acho que há pouca diferença.

Em geral, frente ao esbanjamento mostrado na reportagem da Veja São Paulo, tenho encontrado alguns tipos de posicionamento. Quero refletir aqui sobre todos eles.

Antipatia pelo Rei

A primeira reação, que o próprio provavelmente classificaria como “inveja”. A antipatia, ao contrário da inveja, porém, vem da recusa de muita gente em aceitar que esse seja um estilo de vida bacana. Críticas mil, neste tipo de interpretação, ao mercado do luxo, ao esbanjamento, ao consumo desenfreado… e também à babaquice da criatura. Porque, sério, mesmo se ele não fosse rico, dá pra perceber que é um grandessíssimo babaca (e bem machistão).

Algumas coisas me incomodam um pouco nas opiniões e *zuêras* que tenho ouvido e que são antipáticas ao Rei. A primeira delas é a aparente necessidade das pessoas em ativarem a homofobia e o machismo para tirar sarro do cara. Sendo que a situação, a edição do vídeo, as coisas que ele diz, etc. já são, em si, um prato cheio para o humor. Não precisa tirar onda de que ele é gay (e se fosse? problema seria de quem, mesmo?), nem de que ele não come ninguém (e se não comer? problema é de quem, mesmo? ah, tá).

Outras coisas me parecem bem justas: esse cara, nesse vídeo, representa uma cultura de classe que é verdadeiramente opressora, seja para a classe média ou para os grupos populares. Cada garrafa de champagne com velinha acesa é, sim, motivo para tanto fuzuê. Porque vivemos numa sociedade altamente desigual que disfarça herança de mérito. Só é possível esbanjar espumante e Ferrari por aí explorando muita gente. O funcionamento desse mecanismo está muitíssimo bem descrito no volume I do Capital, de Karl Marx, leitura que recomendo a qualquer ser humano que deseje entender a organização da sociedade capitalista em qualquer uma de suas épocas. Mesmo quem não é marxista (e eu também não sou) precisa sim conhecer a teoria mais sólida que existe sobre o funcionamento da economia e do trabalho no capitalismo industrial. Sem chiar. Apenas leiam.

Empatia pelo Rei

Enquanto os *zoeiros* jogavam o Rei do Camarote nos mais diversos tipos de fogueira, apareceram também aqueles que, refletindo de maneira mais ampla sobre a sociedade de consumo e sua própria posição nessa estrutura, propuseram alguma empatia com a criatura. Afinal de contas, se eu não pago champanhe pra mulherada na balada mas faço questão de reforçar por aí que morreria sem meu iPhone, qual a diferença entre eu e o Rei?

Pois vejam só; a primeira diferença é que você não foi capa da Veja São Paulo. Isso significa um montão de coisas. Significa que ele tem acesso a meios de comunicação que, na luta de classes, existem justamente para enaltecer o estilo de vida dele e fazer com que pessoas como eu e você queiramos – um dia, se nos esforçarmos bastante – poder fazer o mesmo. O “estilo de vida” é parte integrante do conjunto de ideologias, ideias, símbolos, que fazem com que um grupo permaneça dominante em nossa sociedade.

Quando o Bourdieu estudou esse trem aí, ele viu que além do capital econômico (que o Rei tem de sobra), sociedades parecidas com a nossa também usam uma outra maneira de concentrar poder: o sistema escolar. Pode ser que o Rei não tenha (e parece que não tem mesmo) grande domínio do que chamamos de cultura legítima. Isso quer dizer que ele provavelmente não conhece tanta música erudita, não escuta Chico Buarque, não tem o vocabulário super sofisticado, entre outras coisinhas mais. Ainda assim, ele concentra poder pelo capital econômico. Tanto o capital cultural quanto o econômico não são homogeneamente distribuídos em nossa sociedade, e não dependem só do esforço individual para serem conquistados. É um sistema cruel e perverso que articula ambos de maneira a sempre manter os mesmos grupos em posições de poder.

Por isso, provavelmente esse pessoal que teve alguma empatia pelo Rei, tem na verdade apenas uma coisa em comum com ele: ocupam uma posição de enorme privilégio, que oprime grande parte da população. Se o Rei oprime pelo dinheiro, eu e vocês oprimimos pela escolarização e pela cultura legítima.

Crítica de esquerda afobada

Um terceiro e último tipo de crítica que eu vi tentava extrapolar a empatia ou antipatia pessoal pelo cara, mas também não conseguia fazer grandes análises. Para os defensores do que chamo aqui de “crítica de esquerda afobada”, o ponto mais importante da coisa é que é um absurdo o cara concentrar tanto dinheiro assim e esbanjar isso, apoiado por um meio de comunicação que promove esse estilo de vida burguesão e tal. A questão – que me faz colocar o “afobada” no fim do subtítulo – é que esse caso não seria socialmente menos pior se o cara não esbanjasse. Nem se a revista não mostrasse. E é aqui que entra meu jeitinho especial de ver as coisas nessa bagunça toda: a gente precisa sim olhar para a burguesia e para os grupos dominantes. Já explico.

Luta Lupa de classes

Um dos mecanismos mais perversos de qualquer tipo de dominação, nos dias de hoje, é a dissimulação. Como somos, em status legal, livres, iguais, etc. parece que, a princípio, todas as desigualdades estruturais teriam sido abolidas. Afinal, se os negros são sujeitos de direito, como poderiam falar que nossa sociedade é racista? Pois aí é que entra o xis da questão. A dominação – em todos os sentidos – de uns grupos sobre os outros continua acontecendo, firme e forte. Com exceção de locais onde houve revoluções barulhentas e sangrentas (e mesmo nesse locais, ainda é questionável isso), a sociedade “democrática” de hoje não apagou a organização social que existia antes. Olha o Marx aí de novo, minha gente: somos produtos de nossa história.

A cultura se perpetua principalmente na transmissão de esquemas simbólicos, hierarquias, ideologias, classificações, definições. A cultura que sustentava essas sociedades extremamente machistas, elitistas e racistas de antes não sofreu uma transformação mágica, do dia para a noite, quando caíram os Estados absolutistas, a escravidão, ou quando as mulheres passaram a poder votar. Muitas maneiras de pensar e enxergar o mundo se adaptaram e se perpetuaram nos novos contextos sociais, políticos, econômicos e culturais que foram se apresentando. Por isso dizemos que o machismo, a divisão classista, o racismo, são estruturais: nossa sociedade está todinha baseada neles.

E daí? E o Rei do Camarote?

Daí que o Rei do Camarote – seja personagem ou não – é um exemplar legítimo de um dos grupos sociais que concentra mais poder em nossa sociedade. Desde sempre. Em vários sentidos: além de rico, ele é homem, cisgênero, branco, hetero. O Rei – como todo rei, aliás – é a dominação e a opressão, em pessoa. Carne e osso. E um pouco de champanhe. Isso não quer dizer, porém, que ele seja autoritário, ditador, etc. O poder do Rei em questão é outro. O Rei, aqui, tem e defende e propagandeia um estilo de vida que, tomado como ideal, respeitável de desejável, faz a máquina do capitalismo do século XXI funcionar. No centro dessa máquina está o consumo. Você é o que você consome. Só que para consumirmos, precisamos de dinheiro. A distribuição do dinheiro, como eu disse antes, não é meritocrática nem igualitária – assim como tampouco o é a distribuição dos saberes escolares (que poderiam, talvez, numa utopia em que muitas pessoas ainda acreditam, melhorar a distribuição do dinheiro).

Por que as pessoas trabalham loucamente, parcelam compras em 48x, se endividam, sustentam com o suor do rosto os banqueiros e especuladores milionários como o próprio Rei? Porque são idiotas? Não. Porque precisam consumir para sobreviver – física e biologicamente mas também culturalmente. Não sendo herdeiras de nenhum capital, se matam em fábricas e frentes de caixa de lanchonetes baratas, cubículos de telemarketing e subempregos dos mais variados. [e vale lembrar, pra rebater um outro discursinho moralizante e preconceituoso que tenho ouvido por aí, também: esse cara que parcela o smartphone em 99x sem juros definitivamente não é quem se beneficia dessa ideologia, dessa estrutura, dessa sociedade; é o oprimido e não o opressor]

Toda essa linha de raciocínio, porém, simplesmente não tem vez na urgência do cotidiano. É difícil pararmos para refletir. É difícil enxergarmos a estrutural social. É difícil observarmos opressões. Mas também é questão de hábito, e por isso é tão importante que a vida dos indivíduos dos grupos dominantes seja escancarada. Explicitada. Vista. Zoada. É importante que a vida das elites venha a público. Porque com ela vem toda a estrutura social injusta que vivemos (é por isso também que assisti e amei Mulheres Ricas).

Só que para funcionar como estratégia de luta, é preciso não nos deixarmos encantar. Por isso que, ao escolher o Alexander de Almeida como personagem, podemos dizer que a Veja São Paulo faz um grande favor à revolução anticapitalista (qualquer que seja ela). Não tem mesmo como a gente se encantar com um cara tão babaca.

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PS.: em tempo: os camarotes, não se esqueçam, eram os lugares altos nos teatros de onde os ricaços podiam cuspir e jogar merda na população que não tinha seu *STATUS*; a “cultura da pulseirinha VIP“, portanto, evoca o que há de mais escroto em nossa tradição cultural de colonizados por países europeus.