Racismo: uma questão de (mau) gosto?

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[texto original de Jenny L. Davis, tradução livre e adaptação da imagem por Marília Moschkovich]

O site de negócios e marketing Quartz soltou recentemente dados sobre o aplicativo de namoro “Are You Interested“, que conecta pessoas solteiras dentro de suas redes do Facebook. Os dados do Quartz se baseiam numa série de questões do tipo “sim ou não” sobre o interesses dos usuários uns pelos outros, assim como nas taxas de resposta entre usuários denotando possíveis combinações de sucesso. Os dados mostram que homens brancos e mulheres asiáticas são alvo de mais interesse, enquantos homens e mulheres negros são os de menor interesse. Os repórteres do Quartz resumiram os resultados da seguinte maneira:

Infelizmente os dados nos mostram ganhadores e perdedores. Todos os homens, exceto os asiáticos, preferam mulheres asiáticas, enquanto todas as mulheres, exceto as negras, preferem os homens brancos. Ambos homens e mulheres negros receberam as menores taxas de resposta de seu respectivo gênero.

A imagem no topo do post mostra os resultados.

Como socióloga, não estou nada surpresa com o fato de que a raça faz diferença, especialmente num processo tão pessoal quanto namoros e relacionamentos. No entanto, essas descobertas podem parecer uma grande novidade para a parcela (bem significativa) da população que se identifica como “não-racialista”; esses que acreditam que vivemos numa sociedade “pós-racial”.

Por isso os sites de relacionamentos são tão legais. Os psicólogos sociais sabem que há muito pouca relação empírica entre o que as pessoas dizem e o que elas fazem. Os sites de namoro mostram o que fazemos e nos mostra essas informações. Eles expõem quem somos, o que queremos e, claro, o que não queremos. Como mostrado pelo Quartz, “nós” fetichizamos mulheres asiáticas enquanto desvalorizamos as negras.

Com uma defasagem entre o que as pessoas dizem e fazem; entre o que dizem e o que pensam inconscientemente, questionários sobre atitudes raciais são sempre limitadas. As pessoas podem dizer o que quiserem – que a raça não importa, que não ligam para a cor da pele – mas no momento de escolher parceiros e parceiras, e os critérios dessas decisões são formalizados por meio de perfis e decisões de resposta, nós, como indivíduos e como sociedade, não conseguimos nos enganar. Os números se voltam contra nós, nos forçando a encarar desconfortáveis atitudes culturais e identitárias individual e coletivamente.

De fato, antes que alguém responda qualquer coisa, a arquitetura dos sites de ralcionamentos nos dizem muito. Especificamente, ao definirem quais preferências podemos ou não ter, eles nos dizem quais características provavelmente nos importam como critérios, e com quais deveríamos nos importar.

Ambos os dados dos usuários e a presença da identificação étnico-racial e da opção de escolher esse tipo de preferência são reveladores, pondo abaixo quaisquer argumentos sobre não se olhar a cor da pele ou vivermos em uma sociedade/cultura “pós-racial”.