Depilação é a burca brasileira

[texto originalmente publicado em 05/04/10, no antigo Mulher Alternativa]

Era o ano de 2005, em algum dia entre Agosto e Setembro. Eu tinha quase dezenove anos. Quase. Saía do país pela primeira vez, para participar de um fórum mundial de jovens. Superexperiência. O local? Tunísia, no norte da África, país muçulmano considerado um dos mais ocidentalizados entre os países árabes. Muitas histórias, muita coisa nova, muito aprendizado cultural – e era só a segunda metade do meu primeiro ano do bacharelado em Ciências Sociais. Imagino se eu voltasse lá hoje, como tudo seria diferente…

Fato é que eu estava no país fazia alguns dias já, quando conheci a primeira mulher tunisiana da minha idade. Na delegação tunisiana do evento só tinha representantes homens. Assim como nas outras delegações. Três anos depois em outra edição do mesmo evento, conversando com a única mulher árabe que representava seu país enquanto delegada, Fatma, egípcia, me explicaria que a dificuldade vai além das barreiras de gênero culturais, mas inclui também a legislação que não permite que mulheres viajem sem seus maridos ou familiares homens a não ser que tenham autorização expressa documentada. Em 2005, na Tunísia eu não sabia disso.

Em 2005, na Tunísia, eu não sabia de muitas coisas. Reproduzia, como vocês entenderão nesta breve anedota, um discurso segundo o qual as mulheres árabes muçulmanas são infelizes oprimidas e deveriam era fazer logo uma revolução, não usar véu e sair de fio dental por aí. Fio-dental sim é que era liberdade. Depois dessa viagem pensei, repensei, encontrei Marjane Satrapi na minha vida e tantas outras amigas árabes muçulmanas que me ajudaram a enxergar o quão complexas são as questões de dominação. Em qualquer lugar.

Então, ok. Cento e sei lá quantos jovens de dezenas de países diferentes, todos juntos. Fiz grandes amigos do Japão, da Irlanda, do México, da Argentina, do Canadá e por aí vai. Não à toa que minha página do Facebook tem centenas de amigos com nomes às vezes impronunciáveis em português. Culpa desses eventos deliciosos. O nome da primeira tunisiana que conheci não me lembro. Ela mudou minha vida e nem mesmo trocamos contato. Acho que na época nem eu nem ela sabíamos disso.

Eu dançava dança do ventre e numa oportunidade lá dei uma palhinha que chocou geral: brasileira, cara e nome de européia e chacoalhando na dança do ventre? É. Era eu mesma. Depois deste dia, ganhei a simpatia de todas as delegações árabes (e alguns pedidos absurdos – e sérios! – de casamento). Numa das saídas culturais para conhecer sítios históricos, arqueológicos e sabe-se-lá mais o que (faz tempo…) ela sentou ao meu lado no ônibus. Era verão. Fazia 40ºC na sombra. Os ônibus não tinham um ar condicionado potente e, mesmo se tivessem, duvido que refrescaria muito. O clima é muito quente e muito seco.

Começamos a conversar, ela supersimpática, uma fofa, fofa, fofa. Aí reparei que enquanto eu estava de saia (uns dois dedos acima do joelho pra não chocar geral entre outras consequências perigosas), blusinha de manguinhas e cabelo preso, ela estava de saia até o tornonzelo, meias, tênis fechado, blusa de manga comprida. Ela não usava véu. Não são muitas jovens que usam véu na Tunísia. Algumas senhoras apenas, pelo que vi durante a viagem de quase um mês ou pouco mais que isso, já não me lembro.

Imaginei que ela estivesse morrendo de calor e perguntei. Ela disse que não, que já estava acostumada e as roupas ainda a protegiam do sol. Em minha ignorância antropológica pensei “coitada, tão dominada…” e continuei cutucando o assunto pra ver se dava caldo. Quem sabe ela não começava uma revolta ali mesmo? Quem sabe eu, que era ocidental, educada na liberdade, não abria seus olhos?

Ela me disse, então, algo muito, mas muito, muito, muito sábio. Gostaria de ter registrado as palavras exatas, mas não lembro. Tentarei reproduzir.

– As roupas compridas aqui são a depilação de vocês.

– Hein? (claro, não entendi nada na época)

– Nós podemos, aqui na Tunísia, usar roupas curtas como as que você está usando.

– Então como não usam, com um calor desses?

– Bom, aí é que está a questão. Poder, você pode. Mas se você usar, não consegue namorado, aí não consegue casar, aí é uma tristeza pra você e pra sua família…

– Mas e a depilação?

– Bom, imagino que dói fazer depilação, certo?

– Sim.

– Então por que vocês se depilam sempre? Teoricamente você pode parar certo?

– É, mas aí…

Creio, leitoras (e eventuais leitores), que não preciso continuar a conversa. Confio no nível de inteligência de vocês. O que tememos que aconteça se não nos depilarmos? Por que nos sentimos “sujas” ou “feias” se não estamos depiladas?

Depois desta lição de vida (e outras mais) na Tunísia, meu ponto de vista e minhas perspectivas e opiniões sobre depilação, véu, burca, dominação de gênero, estética e por aí vai, mudaram para sempre. A complexidade das relações que estabelecem um fenômeno social (como este sentimento de imprescindibilidade da depilação na sociedade brasileira) vai muito além de relações imediatistas de causa e consequência como somos levados a acreditar pelos meios de comunicação de massa. Prometo falar disto melhor um outro dia. Lembrem de me cobrar se estiverem interessadas/os.

Em suma: o buraco é muito mais embaixo.

[Ps.: prova disso é que eu queria colocar uma figurinha aqui que representasse dor de depilação; na internet inteira, via Google Images, só encontrei fotos de mulheres FELIZES, SORRINDO durante a depilação. Alguém aí sorri no meio da depilação? As únicas que apareciam de gente sentindo dor eram de… homens. Então tá, sociedade, falou, só homens sentem dor ao arrancarem pelos com cera quente.]

Mãe: biológica ou genética?

[texto publicado originalmente em 08/11/2011 no Mulher Alternativa]

A novela das nove ilustra bem o drama, mas ele vem da vida real. Muitas mulheres desejam ter filhos e, se deparando com uma barreira biológica como um problema com os gametas (sejam seus próprios óvulos ou os espermatozóides do companheiro), questionam-se sobre o que seria biologicamente a maternidade. Uma mãe que dá a luz é mais mãe que outras mães? Uma criança com material genético de pelo menos um dos pais é mais “filho” do que uma criança adotada ou gerada totalmente com gametas de doadores? A criança gerada na barriga da mãe de registro com gametas de doadores é mais “filha” do que uma criança adotada?

Essas questões são, além de delicadas, bem complexas. Exigem uma incursão em nossa própria forma de pensamento, enquanto sociedade, para entendermos de onde vem essa senação de inadequação das categorias sociais tradicionais às possibilidades criadas pelo desenvolvimento de novas tecnologias reprodutivas.

Não sou a primeira, única nem última a falar disso. Filósofas (como Donna Haraway) e antropólogas (como Marilyn Strathern) é que me deixaram com questões como essa na cabeça. Em seu livro After Nature, cujo objeto principal sequer são as tecnologias reprodutivas, Strathern toca nesse ponto. Ela traz dados sobre as ideias de diferentes sociedade melanésias sobre a concepção e a reprodução para tentar entender melhor o que nós pensamos e por que pensamos o que pensamos.

Strathern conta que embora as sociedades que usa como exemplo não tenham desenvolvido uma ciência análoga à nossa (o que seria segundo ela impossível pois a própria forma de conceber pensamento, tempo, etc. são distintas – e nem por isso piores), elas também entendem a concepção como uma transmissão de substância física entre pai ou mãe ou ambos e o feto. Em uma destas sociedades, entende-se que o feto é feito do sangue da mãe (logo mesntruação = não tem feto; genial) mas é preciso que haja ato sexual durante a gravidez pois é o sêmen que dá as características físicas das crianças – que têm de ser sempre parecidas com o pai. Já em outra, entende-se que o feto é feito de substância do pai, mas gerado no corpo da mãe. Interessante é que esta segunda sociedade é matrilinear, ou seja, os direitos, propriedades e parentesco são transmitidos sempre pela mãe.

Ok, o mundo deve ter caído pra alguns enquanto leram o parágrafo anterior. Outros devem estar duvidando, já que pra nós é tão óbvio, tão dado, tão natural, que os embriões são feitos de material genético da mãe e do pai. Mas é isso que os exemplos de Strathern ajudam a questionar.

Em nossa concepção científica de mundo, os fetos são formados da união de um gameta masculino ou feminino (embora hoje já se consiga em laboratório fertilizar um óvulo com material de outro óvulo, mas essa prática ainda não existe acessível ao “público” então vou ignorá-la por hora). Há transmissão de genes de cada um desses gametas para o feto (embora não igualmente 50/50, segundo alguns biólogos e geneticistas têm questionado). Todo feto teria, no entanto, um “pai” e uma “mãe” genéticos, aqueles que geraram os gametas que geraram o feto.

Por outro lado, quando o feto está crescendo, durante a gravidez, ele é parte do corpo da mulher. Não é, ainda, uma outra pessoa ou um outro indivíduo. Ele precisa daquele sistema todo (= corpo da grávida) para viver. Precisa, mais do que isso, da substância física que a grávida, sendo mãe genética ou não do feto, compartilha.

Essa é outra coisa que o trabalho de Strathern aponta de interessante sobre nosso próprio pensamento, na qual eu jamais havia reparado. Quando representamos um feto, frequentemente o representamos sem o corpo que o carrega – que é parte essencial e pressuposto para sua existência, mesmo em nosso pensamento científico moderno. Como se o feto fosse uma coisa distinta da mulher que o carrega; como se a única ligação entre feto e grávida fosse o cordão umbilical e ele flutuasse num oco lá dentro da barriga. Tira-se daí a impressão equivocada de que além do código genético, não há nenhuma outra substância física biológica compartilhada entre grávida e feto. Daí, considera-se muitas vezes que o termo “mãe biológica” significa aquela que compartilha o código genético.

Com as novas tecnologias reprodutivas, porém, o momento da fertilização foi separado da gestação, ao menos em possibilidade. A grávida que carrega o feto não necessariamente compartilha genes, mas necessariamente compartilha substância física. A “mãe genética” que gerou o óvulo não necessariamente será a grávida que carrega o feto.

Proponho aqui uma distinção clara entre a mãe biológica e a mãe genética, a partir dessa reflexão. Entendo, com isto tudo, que a mãe biológica é a grávida que carrega o feto e passa pelo parto. A mãe genética é aquela que gerou o óvulo. Acrescento a isso, ainda, a mãe cultural. Mãe cultural é aquela que, após o parto, tem a responsabilidade legal (mas também moral e social) de cuidar, nutrir, transmitir cultura. Aquela que mais comumente chamamos de “mãe”. Uma mulher pode, portanto, ser ambas as três coisas ou apenas uma ou duas delas simultaneamente.

Enquanto feminista, defendo essencialmente que o feto seja tratado como parte do corpo da mulher. Daí minha preocupação em propor esta terminologia. A maternidade é cheia de mitos e encontrar coerência em nosso próprio sistema de pensamento nem sempre é tão simples. Por outro lado, é um aspecto fundamental da construção da justiça social.

Que cada mulher tenha o direito pleno a decidir se quer ser mãe de alguma forma, e de que formas deseja ser mãe.

35 ações práticas para homens que querem apoiar o feminismo

(este texto é uma repostagem do blog da linda da Georgia Faust)
texto de Pamela Clark
tradução Georgia Martins Faust & Tarsila Mercer de Souza

 

No Facebook, um amigo recentemente linkou para um artigo chamado 20 Ferramentas para que os Homens Favoreçam a Revolução Feminista. Embora ele tenha gostado da lista, ele (corretamente) observou que a maioria das sugestões eram bastante acadêmicas. O amigo em questão, como eu, é um acadêmico, então essa observação não é para ser uma acusação ao artigo original. Só que ferramentas práticas e ferramentas acadêmicas podem ter lugares diferentes no mundo.

Os comentários dele me incentivaram a criar uma lista de ferramentas mais práticas. A maioria dos homens – em particular homens que se beneficiam de múltiplas formas de privilégio estrutural – fazem muitas coisas que direta e indiretamente contribuem para uma cultura de desigualdade de gênero. Até mesmo homens que apoiam o feminismo em teoria podem não ser tão bons em aplicar o feminismo em suas práticas diárias.

A lista traz sugestões de algumas ferramentas práticas que todos os homens podem aplicar em seu dia-a-dia para promover a igualdade em seus relacionamentos com mulheres, e para contribuir com uma cultura onde as mulheres sintam-se menos sobrecarregadas, inseguras e desrespeitadas.

Parte de viver em uma sociedade patriarcal é que os homens não são socializados para refletir sobre como seus hábitos e atitudes prejudicam mulheres. Essa lista foi feita para incentivar os homens a pensar mais conscientemente e pessoalmente sobre os efeitos diretos e indiretos que eles tem sobre as mulheres, e para pensar mais sobre como eles podem contribuir com o feminismo através de suas práticas diárias.

A lista não se pretende exaustiva nem exclusiva. Certos itens da lista vão se aplicar a alguns homens mais do que a outros, mas se você é um homem e humano, eu garanto que há pelo menos uma área da lista onde você possa melhorar. Caso você ache que esquecemos alguma coisa, me diga! Se você acha que algum ponto na lista é problemático, vamos conversar a respeito!

1. Faça 50% (ou mais) do trabalho doméstico

Você precisa fazer a sua parte do trabalho doméstico o tempo todo, por sua própria iniciativa, sem procrastinar, sem ser pedido, sem inventar desculpas. Reconheça que seus hábitos domésticos e suas idéias internalizadas sobre trabalho doméstico não-remunerado têm um enorme viés de gênero e beneficiam os homens incrivelmente, e aceite que é sua responsabilidade lutar contra isso. Se feminismo é a teoria, lavar a louça é a prática. Na próxima semana, observe quanto do trabalho doméstico você faz quando comparado com as mulheres que moram com você e observe se essa divisão é equitativa.

2. Dê 50% (ou mais) do supore emocional em seu relacionamento afetivo e amizades.

Reconheça que mulheres são desproporcionalmente responsáveis pelo trabalho emocional e que ser responsável por isso tira tempo e energia de outras coisas que elas consideram satisfatórias.

3. Consuma produtos culturais produzidos por mulheres.

Seja lá quais forem seus interesses – cinema Francês, astrofísica, baseball, ornitologia – certifique-se de que as vozes das mulheres e os produtos culturais das mulheres estejam representados naquilo que você está consumindo. Se não estão, esforce-se para incluí-las.

4. Dê espaço para as mulheres

Muitas mulheres andam por aí – especialmente à noite ou quando sozinhas – sentindo-se ameaçadas e inseguras. Estar em proximidade física com um homem desconhecido pode exacerbar essa sensação. Reconheça que esse medo não é tão irracioonal assim para mulheres, dado que tantas de nós já experienciaram perseguição ou abuso ou nos fizeram sentir inseguras por homens quando estamos em espaços públicos. Também reconheça que não importa se você é o tipo de homem que não dá motivo nenhum para ser temido, porque uma mulher na rua não tem como descobrir isso a seu respeito.

Exemplos: Se um banco estiver vago no transporte público perto de um homem, sente naquele assento ao invés de ao lado de uma mulher. Se você estiver andando em uma rua escura atrás de uma mulher andando sozinha, atravesse a rua para que ela não precise se preocupar que alguém esteja seguindo ela. Se uma mulher estiver de pé sozinha em uma plataforma do metrô, fique a certa distância dela.

5. … mas inclua-se em espaços onde você possa usar da sua masculinidade para interromper sexismo.

Exemplos: desafie homens que fazem comentários e piadas sexistas. Se você vir uma amiga mulher em um bar/em uma festa/no metrô/onde quer que seja se sentindo desconfortável com a abordagem de algum homem, tente interferir de maneira amigável para oferecer a ela uma saída caso ela assim deseje. Se você vir uma situação onde parece que uma mulher esteja em perigo quando em companhia de um homem, fique próximo o suficiente para ser uma presença física, monitore a situação e esteja a postos para chamar ajuda se necessário.

Coisas desse tipo podem ser super difíceis, estranhas e complicadas para saber como fazer, mas vale a pena tentar de qualquer jeito. Sentir-se momentaneamente desconfortável é uma troca justa para fazer com que uma mulher se sinta mais confortável.

6. Quando uma mulher te diz que alguma coisa é sexista, acredite nela.
7. Eduque-se a respeito de consenso sexual e certifique-se de que haja uma comunicação clara e inequívoca de consenso em todas as suas relações sexuais.
8. Seja responsável pela contracepção.

Se você está em um relacionamento onde a contracepção é necessária, ofereça-se para utilizar métodos que não tenham riscos à saúde da mulher (uso de hormônios, cirurgias, etc) e trate esses métodos como opções preferenciais. Se sua parceira preferir um método em particular, deixe-a ser responsável por tomar essa decisão sem questionar ou reclamar. Não faça manha sobre usar camisinha, e seja responsável por comprá-la e tê-la disponível caso esse seja o método que vocês estejam usando.

Assuma a responsabilidade financeira por qualquer custo relacionado à contracepção. Mulheres ganham menos que homens, e também precisam assumir todo o risco físico de uma gravidez. E mais, em instâncias onde a contracepção envolve qualquer tipo de risco físico, virtualmente são sempre as mulheres que têm que assumir esse risco. Como um gesto de compensação minúscula dessa disparidade, homens heterossexuais deveriam financiar todo o custo com contraceptivos.

9. Tome a vacina de HPV.

Se você for um homem jovem, tome. Se você tiver um filho jovem, certifique-se de que ele tome. Já que as mulheres são aquelas desproporcionalmente afetadas pelas consequências do HPV, por questão de justiça os homens deveriam ser aqueles que pelo menos assumam os riscos potenciais de ser vacinados. (Eu sou amplamente pró-vacinas em geral e não acredito que hajam riscos significativos, mas essa é uma questão de princípio.)

10. Tenha uma política de nomes progressista.

Se você e sua parceira mulher decidirem que a instituição do casamento é algo com a qual vocês querem se envolver, esteja aberto para que ambos mantenham seus sobrenomes. Se ter um sobrenome em comum com sua esposa é tão imporante para você, esteja disposto a mudar o seu sobrenome e trate isso como uma opção preferencial à sua esposa trocar o dela.

11. Se vocês tiverem filhos, sejam pais da mesma forma

Esteja disposto a tirar licença paternidade e ficar em casa cuidando deles quando eles forem pequenos. Divida as responsabilidades de cuidado de modo que você esteja fazendo pelo menos 50% do trabalho, e garanta que esse cuidado seja dividido para que você e sua parceira ambos possam ter uma quantidade igual de tempo para brincar com seus filhos também.

12. Preste atenção e desafie instâncias informais de reforço de papéis de gênero.

Por exemplo, você está em um evento de família ou em um jantar, preste atenção se são apenas (ou em sua maioria) mulheres que estão preparando a comida/limpando/cuidando das crianças enquanto os homens estão socializando e relaxando. Caso positivo, mude a dinâmica e implore que outros homens façam o mesmo.

13. Esteja atento a diferenciais de poder com viés de gênero explícitos e implícitos em seus relacionamentos íntimos/domésticos com mulheres… seja com parceira, membros da família ou colegas de quarto.

Esforce-se para reconhecer diferenciais de poder estruturais inerentes baseados em raça, classe, gênero, orientação sexual, idade (e assim por diante). Onde você se beneficiar desses desequilíbrios estruturais, eduque-se a respeito de seu privilégio e trabalhe para encontrar formas de criar um equilíbrio de poder mais igualitário. Por exemplo, se você estiver em uma parceria doméstica onde você é o principal provedor financeiro, eduque-se a respeito da diferença salarial com viés de gênero, e trabalhe no sentido de dividir o trabalho e os recursos econômicos dentro de sua casa de um jeito que aumente a autonomia econômica de sua parceira.

14. Certifique-se que honestidade e respeito guiem seus relacioonamentos românticos e sexuais com mulheres.

A forma com que você trata mulheres com quem você tem um relacionamento é um espelho dos seus valores com relação a mulheres em geral. Não adianta abraçar a teoria feminista e tratar suas parceiras como lixo. Seja honesto e aberto sobre as suas intenções, comunique-se abertamente para que as mulheres possam tomar decisões informadas e autônomas sobre o que elas querem fazer.

15. Não seja um expectador quando em face de sexismo.

Desafie pessoas que façam, digam ou postem coisas sexistas na internet, especialmente em mídias sociais.

16. Seja responsável com dinheiro em relaciconamentos domésticos/românticos

Saiba que se você for irresponsável com dinheiro, isso necessariamente impacta sua parceira e já que mulheres ainda ganham menos que homens em geral (e vivem mais), essa é uma questão feminista.

Exemplo: Sua dívida no cartão de crédito/desperdício de dinheiro/problema com apostas têm impacto sobre a vida econômica e o futuro dela. Compartilhe o orçamento doméstico, a declaração de imposto de renda e as responsabilidades das finanças pessoais e seja aberto e honesto sobre o gerenciamento financeiro doméstico.

17. Seja responsável pela sua própria saúde.

Homens vão ao médico com menos frequência que mulheres quando algo os incomoda, e quando eles vão geralmente é por insistência das mulheres do seu convívio. Ter uma longa vida em parceria com sua esposa significa ser responsável pela sua própria saúde, prestar atenção a qualquer incômodo e levá-los a sério. Já que somos dependentes um do outro, sua saúde a longo prazo é também a saúde a longo prazo dela.

18. Não fique secando ou faça comentários sobre mulheres (ex. mantenha a boca fechada e seus comentarios pra si mesmo)

Ainda que possa ser mais provável que as mulheres usem roupas mais reveladoras que os homens, não fique as secando só porque você quer e pode. Mesmo que você ache alguém atraente, existe uma linha entre perceber a pessoa e ser um babaca/ desrespeitoso. Isso faz com que a pessoa que recebe a secada se sinta desconfortável, assim como qualquer outra mulher que perceba que você está secando alguém ou percebam dos comentários.

19. Preste atenção ao gênero dos especialistas e principais personalidades que apresentam informações para você na mídia

Quando você estiver assistindo a um especialista na TV, lendo artigos, etc., perceba com que frequência essa informação virá de um homem, e, no mínimo, imagine o quanto uma perspectiva feminina poderia ser diferente.

20. Assegure-se de que alguns de seus herois e modelos de exemplo sejam mulheres
21. Elogie as virtudes e conquistas das mulheres da sua vida para as outras pessoas.

Nas conversas diárias e na sua comunicação em geral, fale para os outros sobre as mulheres que você conhece sob um ângulo positivo. Sugira as suas amigas mulheres para projetos, trabalhos e colaborações com as outras pessoas que você conhece.

22. Seja íntegro com os seus amigos homens (ex. não seja um “parça”)

Quando um amigo homem está fazendo algo sexista (deixando de cumprir obrigações parentais, falando mal de mulheres, secando elas, gastando dinheiro compartilhado em segredo, mentindo para sua parceira, etc), seja íntegro e diga algo para o seu amigo. Não é suficiente pensar que está errado; faça-os saber que você acha que está errado.

23. Não trate a sua esposa como uma “pentelha”. Se ela está “pentelhando”, você está provavelmente deixando algo para trás.
24. Saiba que reconhecer suas próprias opiniões e estereótipos sexistas não é o suficiente. Faça algo a respeito disso.
25. Tenha amigas mulheres.

Se você não tem nenhuma amiga mulher, descubra o porquê e faça algumas amigas. Assegure-se de que sejam relações autênticas e significativas. Quanto mais a gente se preocupa e se identifica uns com os outros, mais chance a gente tem de criar uma sociedade mais igualitária.

26. Encontre mentoras/líderes mulheres (ex. seja subordinado à mulheres)

Se você está procurando um mentor, ou quer ser voluntário de uma organização, vá a uma mulher ou a uma organização liderada por uma mulher. Saiba que há muito a aprender de mulheres em posições de comando.

27. Quando estiver em um relacionamento romântico, seja responsável por eventos e datas especiais ligados ao seu lado da família.

Lembre-se dos aniversários dos membros da sua família e eventos importantes. Não deixe para a sua esposa a responsabilidade de enviar cartões, fazer ligações, organizar reuniões, etc. É sua família, e portanto sua responsabilidade de lembrar-se, preocupar-se e contatá-los.

28. Não policie a aparência de mulheres.

Mulheres são ensinadas a internalizar normas de beleza extremamente restritivas desde quando são crianças muito pequenas. Não faça ou diga coisas que façam com que as mulheres sintam que não estão cumprindo essas normas, ou crie pressão para que elas as cumpram. Ao mesmo tempo, também não é uma resposta feminista fazer ou falar coisas que pressionem mulheres a usar seu corpo para resistir a essas normas se elas não quiserem. Reconheça que há significativas sanções sociais para mulheres que desobedecem padrões de beleza e não podemos esperar que elas ajam como mártires e aceitem essas sanções se não quiserem.

Se de acordo com seu senso estético ou ideais você acha que ela usa muita maquiagem ou maquiagem de menos, retire pêlos corporais ou não o suficiente, não é da sua conta como as mulheres decidem a aparência de seus corpos.

29. Ofereça-se para acompanhar suas amigas mulheres se elas tiverem que caminhar para casa a noite sozinhas… ou em um espaço público onde provavelmente elas se sentiriam inseguras.

Mas não insista em fazê-lo ou aja como se você estivesse sendo o maior cavalheiro do mundo por fazer isso.

30. Injete feminismo em suas conversas diárias com outros homens.

Se o seu pai não faz a sua parte do trabalho doméstico, converse com ele sobre porquê isso é imporante. Se seu amigo trai a namorada dele ou fala dela negativamente, falefrancamente para ele que respeitar a mulher com quem ele tem um relacionamento íntimo faz parte de ter respeito com mulheres em geral. Tenha conversas com seus irmãos mais novos e seus filhos sobre sexo consentido.

31. Se você tem tendência a se comportar de maneira inadequada com mulheres quando você está sob a influência de drogas ou álcool, não consuma drogas ou álcool.
32. Tenha consciência do espaço físico e emocional que você ocupa, e não tome mais espaço do que você precisa.

Use sua cota justa de tempo de fala nas suas conversas, dê tanto às relações quanto você recebe, não sente com suas pernas abertas de modo que outras pessoas não consigam sentar confortavelmente ao seu lado, etc.

33. Faça o que deve ser feito com relação a desigualdade de renda.

Mulheres ainda ganham 77% do que homens ganham. Se você está em uma posição que te possibilite fazer isso, considere doar simbolicamente 23% do seu salário para causas orientadas à justiça social. Se 23% parece muito para você, é apenas porque é muito, e também é muito para mulheres que não tem escolha de receber esse valor ou não.

34. Adquira o hábito de tratar a sua masculinidade como um privilégio não-merecido que você precisa trabalhar ativamente para ceder ao invés de tratar a feminilidade como uma desvantagem não-merecida que as mulheres precisam batalhar para superar.
35. Auto-identifique-se como feminista.

Fale sobre feminismo como uma crença natural, normal, incontestável, porque deveria ser mesmo. Não se restrinja usando termos como “humanista” ou “aliado feminista” que reforçam a ideia de que a palavra Feminismo por si só é algo assustador.

Xoxotas, da origem do mundo à revolução

O “falo” de Freud não era exatamente um pênis, “o” pênis material. Era a masculinidade hegemônica – a forma dominante de ser masculino – que se materializava nessa imagem. A imagem da xoxota* é a antítese numa sociedade falocêntrica. A xoxota é uma revolução.

Os museus de arte são parte desse esquema de dominação, simplesmente porque a arte trabalha com símbolos e a definição sobre o cânone da arte está inscrita no mesmo modelo simbólico falocêntrico-masculino. A arte, como a educação, a literatura, etc. tendem a reproduzir a estrutura social, exceto quando pensadas enquanto ruptura política.

Quando uma artista mulher se prostra, xoxota à mostra, em frente a um quadro que mostra uma xoxota, é essa a tensão que podemos ver. O vídeo abaixo foi gravado no dia 29 de maio, no Musée d’Orsay, em Paris. Transcrevo e traduzo abaixo o texto que a artista lê repetidamente durante os seis minutos de duração.


Une artiste expose son sexe sous «L’origine du… por quoi2news

Je suis l’origine
[Eu sou a origem]

Je suis toutes les femmes
[Sou todas as mulheres]

Tu ne m’as pas vue
[Você não me viu]

Je veux que tu me reconnaisses
[Quero que me reconheça]

« Vierge comme l’eau créatrice du sperme. »
[“Virgem como a água que cria o esperma”]

A história da performance é toda genial. Começando pela ausência de artistas mulheres em museus como esse. Quando estive lá em 2010, me lembro de ver todo o acervo anotando quantas artistas mulheres tinham obras ali, em meu caderninho de quem é pão-dura demais (alguns diriam sensata, até) para comprar um moleskine. A soma total das obras de mulheres, pelos meus cálculos na época, foi de incríveis zero.

Ao mesmo tempo, o Centre Pompidou exibia três andares de obras produzidas exclusivamente por mulheres, numa exposição que inclusive veio ao Brasil em 2013. Devo ter ido pelo menos uns dois dias para ver tudo: de Frida Kahlo a Nikki de Saint-Phaille e Guerilla Girls. Na mesma época tomei contato com o genial documentário “Women Art Revolution”, que posto a seguir.

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A beleza e o impacto da performance de Deborah De Robertis em frente ao quadro de Gustave Courbet  fazem parte da desconstrução de um modelo já decadente de conformação dos gêneros. A artista questiona, de uma só vez, a organização falocêntrica da sociedade, a ausência das mulheres em museus, o tipo de presença das mulheres em museus, e uma moral hipócrita nas relações entre realidade e ficção. Numa entrevista, depois de ter sido presa e congratulada pelo diretor do museu, a artista disse:

“É difícil resumir em poucas palavras. Eu empresto meu rosto ao ‘A Origem Do Mundo’, mas sobretudo minha voz. No áudio, sigo que ‘sou todas as mulheres’. É simbólico. É uma reflexão também sobre a questão da censura. Gustave Courbet escandalizou em sua época com ‘A Origem do Mundo’ (1866). Quando as seguranças tentam me retirar dali, é como se estivessem roubando um quadro. Isso faz parte da performance. Eu havia previsto essa possibilidade, como também o oposto. Não havia derrota possível.”

[leia a entrevista completa em francês, aqui]

É curioso também que as seguranças do museu que aparecem no vídeo sejam mulheres. E dizem, em alto e bom som: “Ça suffit!” – ou seja, “Basta”, “Chega”. Devo discordar, caras amigas. Não chega. Não basta. O que precisamos é de um mundo em que a xoxota exista. Nas palavras da artista, “quero que você me reconheça“. Não queremos ser o segundo sexo, ou o sexo que não existe, pensando Beauvoir e Irigaray. Não queremos o corpo – a xoxota – como prisão mas como liberdade. Parafraseando Valesca: my pussy é o poder.

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*Xoxota sim, porque “vagina” é biológico demais, medicalizado demais, científico demais. A vagina é um trecho de um órgão como foi dividido pela medicina de quem nunca a possuiu. A xoxota existe na realidade. Fico, então, com ela.

Por que tanta chacota com Rachel Sheherazade?

Começo dizendo que este não é um post sobre a pessoa da Rachel Sheherazade. Este não é um post sobre o conteúdo de seus textos e opiniões veiculados na televisão ou na internet. Este não é um post sobre se devemos ou não criticá-la, nem sobre o conteúdo das críticas feitas a ela. Este não é um post sobre nenhuma pessoa específica, mas sim sobre um fenômeno.

Dito isso, passemos ao ponto que me interessa neste post: a reação de chacota que observo ser extremamente mais forte (e quase exclusiva eu diria) com as falas de Rachel Sheherazade, na internet. A esta altura do campeonato deve estar claro para quem lê que meu debate aqui não é com a direita ou com pessoas que concordam com a jornalista. Meu debate é com quem, como eu, desaprova as opiniões que ela emite em rede nacional. Mesmo que o post não seja sobre essas opiniões.

Nunca antes na história desse país (para não perder a piada), houve tantos memes avacalhando o conteúdo da fala de jornalistas e comentaristas de direita, conservadores e reacionários, quando vemos por aí de Rachel Sheherazade. Há bastante tempo acompanho redes sociais, sempre excluindo ou não seguindo gente reaça (porque não sou obrigada e me amo demais pra me fazer passar por isso). Minhas timelindas são compostas praticamente só por gente de esquerda, veículos de comunicação alternativos, etc. Nessas timelindas (reparem bem: minha experiência) nunca houve tantos memes e críticas públicas e explícitas sobre nenhum dos comentaristas sagradíssimos da comunicação brasileira – como Boris Casoy, Datena, Arnaldo Jabor. Todos eles dizem coisas senão iguais, piores do que as que Rachel Sheherazade professa em seu espaço no SBT. A frase a seguir poderia ter sido dita por qualquer um desses jornalistas. Quem acha que o conteúdo das coisas ditas por Sheherazade é especialmente horrível precisa olhar de novo. Escutar mais. Reler. Ouvir as gravações. Os quatro dizem coisas absurdas, do mais baixo nível (há quem, por ignorar a escrotidão dos textos utra-machistas de Jabor, diga que ele se diferencia dos demais; eu não poderia discordar mais)

“Muitos já entendem que o Estado não é a ‘solução’, mas é o ‘problema’. Já sabem que um Estado gigante suga como um vampiro a sociedade e não devolve em serviços e reformas o que nós emprestamos a ele. Já sabemos que a sociedade acordou, apesar de amedrontada pelos fascistas dos black blocs, como vimos em junho de 2013.”

A questão que permanece para mim é: por que apenas as frases e textos de Sheherazade são reimpressas, guardadas, feitas meme, compartilhadas no Facebook? Façam o exercício comigo. Digitem no Google o nome do/a referido/a jornalista seguido de “meme”, no Google Imagens, e vejam quantos memes de esquerda, criticando e fazendo chacota da pessoa ou das opiniões aparecem para cada um/a. Viram? No caso do Boris Casoy, apenas um episódio (o dos garis) é lembrado. Um. Em quantos anos de televisão? Há memes para praticamente tudo que Rachel Sheherazade faz e diz. Eu digo, pra brincar com meu próprio bordão: não é à toa.

Se trata de um caso de machismo estrutural. Isso não significa, como eu disse lá no começo, que individualmente quem critica a jornalista é machista. Isso não significa que devamos não criticá-la para evitarmos machismo. Significa apenas que é o machismo estrutural que nos faz ter essa reação específica com ela, em massa, que não temos com os demais que falam barbaridades iguais ou até piores, também diariamente. A reação envolve desde prestarmos atenção (ela está na nossa mira, de alguma forma), até criar tantos memes. Mesmo – sim! – quando o conteúdo da crítica não é machista. Não é do conteúdo da crítica nem do conteúdo das opiniões de Sheherazade que estou falando, já disse.

A estrutura machista de nossa sociedade nos faz sermos mais rígidos com as mulheres, de maneira automática, inconsciente. É uma das faces do tal machismo estrutural (não vou nem comentar no *detalhe* igualmente importante do fato de Sheherazade ser nordestina). Por isso reagimos com tanta força contra mulheres que dizem e fazem absurdos (no caso aqui, absurdos reaças, rs), especialmente quando no espaço público. Mais um exemplo é o fato de Thatcher ser demonizada mas outros liberais que fizeram horrores iguais e/ou piores não terem sofrido a mesma reação. De novo: não é que devamos deixar de criticá-las. Mas precisamos definitivamente compreender por que as criticamos com furor tão maior do que criticamos os seus semelhantes homens. Mais que isso, por que sempre com chacota?

A chacota é uma ferramenta muito forte da dominação machista. É sistemático que se faça chacota (da esquerda para a direita e vice-versa) quando os sujeitos públicos de que se fala são mulheres. Quando são homens se faz em geral críticas, ou até mesmo se ignora. As mulheres são feitas piada. Para quem compreende o machismo e o sente na pele, essa é uma constante. Precisamos o tempo todo fazermos força para sermos levadas a sério. Este é um dos problemas na reação massiva que tenho acompanhado em relação a Rachel Sheherazade.

Novamente: o problema dessa reação massiva é que ela só tem acontecido dessa maneira e com essa intensidade quando  os reaças em questão são mulheres. Da parte dos reaças, é isso que fazem, também, com as mulheres de esquerda. É isso que se faz, inclusive, dentro da esquerda com muitas de suas militantes que procuram fazer crítica interna (como essa que eu estou me debatendo para fazer ser compreendida – por que tanta resistência em entender o machismo e como ele funciona? por causa do próprio machismo, oras).

É hora de, sem deixar a crítica às opiniões conservadoras da jornalista de lado, realizar uma importante autocrítica. Pelo menos se não quisermos reproduzir uma das horrorosas ideias que Sheherazade, Datena, Casoy e Jabor insistem em defender.

Por que alguns homens “feministas” não falam sobre as questões das mulheres? (ou: IUZÔMI?)

Você tem vontade de falar sobre homens cada vez que alguém começa a falar de igualdade para as mulheres?
Aqui está um novo teste pra determinar se você é realmente feminista.
 

 

por Emer O’Toole
tradução livre; original aqui, em inglês

Primeira anedota: Ano passado, eu dei uma palestra sobre pelos e sexismo no festival Women of The World. Um amigo feminista assistiu, e me mansou uma mensagem de texto dizendo que os homens são pressionados de maneira similar quando se trata do corpo, apenas com algumas diferenças. Respondi que 9 entre 10 distúrbios alimentares acontecem entre mulheres, 95% das cirurgias plásticas estéticas são feitas em mulheres, e que eu não tinha ainda conhecido nenhum homem que se envergonhasse de pernas peludas. Mesmo assim, ele insistiu que, se eu tivesse falado sobre os homens em minha palestra, teria conseguido mais aliados.

Segunda anedota: Eu estava discutindo assédio nas ruas, com um amigo feminista. Ele disse que os homens têm mais probabilidade de sofrer violência nas ruas do que as mulheres. Eu concordei de verdade, e depois continuei falando sobre assédio. Já aprendi que, se espero que os homens  sejam aliados do feminismo, não posso falar de assobios e passadas de mão enquanto os homens correm o risco de levar chutes na boca.

Terceira anedota: Num bar, um grupo de amigos estava discutindo os obstáculos que uma menina nascida hoje poderia ter durante sua vida. Um amigo feminista disse que na firma de advocacia onde trabalha as mulheres com três filhos estão se tornando sócias, e que em 20 anos – ele garantia – o “teto de vidro” não vai mais existir; o problema real, segundo ele, é que os homens que estudam direito estão abandonando suas faculdades. No dia seguinte, ele me enviou um email dizendo que se identifica como feminista, e que o feminismo deve ser mais do que “sexismo reverso”, que as questões masculinas precisam ser levadas em consideração. Ele incluiu um link da Wikipedia sobre homens no feminismo.

Esses não são incidentes isolados e, que conste, eu respeito todos esses homens: eles são pessoas inteligentes e bacanas. Mas não os quero como aliados, mais do que quero passar a me chamar de “generista” porque o Joss Whedon acha que “feminista” soa mal. A questão pra mim é a seguinte: por que esses homens se descreverm como feministas, se eles são incapazes de falar sobre as questões das mulheres sem bradar “E OS HOMENS?” [iuzômi], ou sem insistir que um movimento pelos direitos das mulheres comprometa seus objetivos para que os homens fiquem mais à vontade?

Bem, eu tenho uma teoria. Em algum momento, alguém inventou um teste espertinho e bem expressivo sobre o feminismo, que pode ser ilustrado da seguinte maneira:

Fluxogramas feminismo 01

É inteligente, certo? Não sei quem usou isso primeiro, mas é esse o tom da Caitlin Moram em “Como Ser Uma Mulher”, e  o “Guia do Homem para o Feminismo”, de Michael Kaufman e Michael Kimmel, tem uma passagem perguntando ao leitor se ele “pegou” algum feminismo, o que é uma variação disso.

O teste é divertido, direto, inclusivo: faz com que as pessoas entrem no feminismo, e  leva mais homens a se identificarem como feministas. Aliados – EBA!

Só que o teste também é um pouco mentiroso. É preciso acreditar em outras coisas importantes para ser feminista, o que pode ser ilustrado mais ou menos assim:

Fluxogramas feminismo 2

Opa! Se surpreendeu ao receber um resultado negativo (“Não é feminista”) sendo que se autointitula feminista há anos? Está se prendendo na semântica, dizendo que “depende do que você quer dizer com igualdade”, em vez de responder as questões da maneira direta como estão colocadas? Se sente excluído de um movimento por igualdade que você sente que também deveria ser seu, de alguma maneira? Talvez esteja um pouco nervoso de ter sido excluído? Quem sabe esteja pensando: “Então tá bom! Se é assim que querem definir o feminismo, tudo bem! Mas estou avisando: estão me perdendo como aliado!”.

50 tons de militância

mlk-mx
Percebo que todo mundo tem andado muito preto-no-branco quando se trata da militância política. A ânsia por se posicionar logo e “da maneira correta” (o que quer que isso queira dizer) acaba produzindo aberrações, como aquelas vistas nas últimas semanas quando o coletivo Fora do Eixo de tornou objeto de debate público.

A seção “Opinião” da Folha de São Paulo apresentou ontem e hoje (16 e 17/08) o posicionamento de dois jornalistas sobre a Mídia Ninja e o coletivo Fora do Eixo, autor do projeto. Quer dizer. Mais ou menos. Deveriam ser, pelo que parece, textos sobre a MN. Nenhum deles conseguia analisá-la enquanto um projeto, porém. Ambos carregam nas entrelinhas (e às vezes nas linhas também) a polarização que se deu na opinião pública desde o programa Roda Viva (05/08) que entrevistou Bruno Torturra e Pablo Capilé, apresentados como coordenadores do projeto e membros do coletivo Fora do Eixo.

Essa polarização, porém, pouco tem a ver com a Mídia Ninja, ao que tudo indica. A questão que dividiu a opinião pública, destruiu famílias e acabou com amizades é outra: o coletivo Fora do Eixo presta ou não presta?

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Isto não é sobre perdão

Na semana que terminou, um dos blogues mais populares sobre feminismo publicou um texto um tanto polêmico. Em “Escreva, Lola, Escreva“, a autora deu espaço a uma carta de pedido de desculpas de alguém que diz ter estuprado várias mulheres. Nos comentários pessoais que a autora fez após a carta, porém, ela confundiu duas coisas: a reivindicação punitivista enquanto bandeira política e a reivindicação pessoal/individual de punição por parte das vítimas de violência sexual.  Instaurou-se, daí, uma grande discussão entre blogueiras, twitteiras e facebuqueiras feministas.

Como em todo caso em que não me sinto capaz de opinar, procurei ficar calada e ler as opiniões – em especial de algumas pessoas que considero possuírem posicionamentos sufificentemente complexos e geralmente alinhado com meus valores e bandeiras. Hoje cedo trombei, no Facebook, com este texto da Camilla Magalhães, que explica por A+B o que eu jamais poderia ter dito tão bem. A Camilla é professora de direito, e sempre faz ótimas reflexões sobre criminologia, direito penal e movimentos sociais. Recomendo segui-la, se interessar (no Twitter). Parte importante da explicação vem de um comentário da Hailey Kaas, outra pessoa que tenho a honra de seguir, ler, e que me ensinou demais a repensar meu próprio feminismo, e que também recomendo que vocês acompanhem, leiam, escutem (Facebook e Twitter).

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