Rolezinho: isso não é (só) sobre consumo

Quando começaram os protestos de junho, houve quem me chamasse de louca por considerar que estávamos diante da “primavera brasileira”. Houve quem dissesse que os protestos não eram protestos, verdadeiramente, já que as pessoas não sabiam muito bem o que fazer nas ruas, nem conhecessem precisamente maneiras um tanto “técnicas” de travar a luta política. Houve quem dissesse que nenhuma reivindicação desejava mudança estrutural. Desde o começo me pareceu muito claro: podemos sim, dizer que começou ali uma primavera brasileira. Uma insatisfação com a maneira geral como nos organizamos em sociedade. Em especial, com o abandono que sentimos em relação ao Estado, uma estrutura que deveria servir aos interesses de muitos mas se curva diante de caprichos de poucos. Assim como os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus em todo o Brasil, e contra os abusos da FIFA na Copa das Confederações e Copa do Mundo, os rolezinhos vão na mesma onda, gritando: assim não está bom.

Os rolezinhos e a luta contra o aumento das passagens (e, em última instância, pelo passe livre) têm absolutamente tudo em comum. Muito tem se dito sobre os rolezinhos serem uma questão de “consumo”, apenas. Dizer isso é banalizar o rolezinho. Se fosse uma questão de consumo, individual, bastava um grupo de quatro ou cinco amigos da periferia combinar de ir ao cinema um dia num shopping como o Iguatemi JK que estaria tudo certo. Mas o rolezinho não é isso. O que é que estão dizendo as centenas e milhares de jovens que se engajaram em rolezinhos, quando utilizam uma das táticas de luta política mais antigas e sólidas – a ocupação – em shoppings de grandes cidades?

Não dá pra ficar em casa trancado“, disse Jefferson Luís, o rapaz de 20 anos que organizou o rolezinho no Shopping Internacional em Guarulhos, SP. A frase martela em minha cabeça: não dá pra ficar em casa trancado. Não dá pra ficar em casa trancado. Não dá. Nenhuma outra frase resume tão bem a questão social e política que o rolezinho combate. Reproduzindo a estrutura social vigente, nossas cidades segregam. Segregam porque se baseiam na acumulação de capital, e não na eqüidade entre indivíduos, grupos, setores. Se o local de moradia e a possibilidade de circular pela cidade, saindo dele, dependem de dinheiro, num contexto em que o dinheiro não é distribuído de maneira homogênea, então também é assim com o acesso a serviços, opções de lazer e cultura e, pasmem, até com o consumo e a certos bens.

No nosso caso, ainda, há uma segregação racial que acompanha a segregação social. Por conta de nossa história de políticas racistas de Estado (como trazer mão-de-obra assalariada branca de fora do Brasil para não ter que contratar negros na lavoura e na indúsrtia; ou como a proibição aos negros de frequentarem escolas públicas associada à proibição de voto dos analfabetos), a população negra ficou relegada aos estratos mais baixos da nossa hierarquia social – essa que se baseia em acumulação de capital, grana, money, tutu, dindin. Pois então, no momento em que uma parcela dessa população negra começa a quebrar (ainda que com muito suor e sangue) esse esquema, acumulando algum dinheiro e consumindo o que não lhes era socialmente designado, o racismo fica ainda mais escancarado. É impressionante que até a lógica capitalista, tão arraigada em nosso pensamento, seja preterida quando se trata da lógica racista. Segundo o shopping JK Iguatemi, é melhor recusar centenas de clientes e consumidores, caso eles sejam negros.

(Não dá pra fazer olimpíadas da opressão, eu sei; mas às vezes me parece que, se fosse possível, certeza que o racismo estaria ganhando disparado neste país)

Isso tudo mostra que o rolezinho não é, definitivamente, sobre consumo. É sobre racismo, e sobre a estrutura sócio-racial que mantém jovens negros e pobres em casa, trancados, aos finais de semana. É sobre um Estado que concentra esforços para atender as demandas de gente com dinheiro e pele branca, e que abandona todo o resto. É sobre como a lógica do capital se entrelaçou de vez com o racismo quando, ao fim da escravidão, se estabeleceu políticas de imigração europeia para que se impedisse, de fato, qualquer tipo de ascensão social por parte das pessoas negras no Brasil. É sobre como o passe livre poderia reverter essa estrutura, proporcionando acesso dessa população já marginalizada a espaços centrais, a opções de cultura e lazer diversas. É sobre como o sistema de transporte também segrega, mantendo a estrutura social (lembrando casos de rolezinhos em Campinas, cidade em que os shoppings quase não têm acesso por meio de ônibus, nos quais foi simples fechar o shopping – bastou fechar as entradas de pedestres). É como essa estrutura se reflete em todo e cada espaço das nossas cidades.

O rolezinho é, enfim, uma incrível arma na luta por uma sociedade verdadeiramente igualitária.

PS.: em tempo: você, que concorda com tudo isso mas continua estigmatizando o funk e @s funkeir@s com memes ridículos sobre fones e ouvido e afins, faça um favor ao mundo e reveja profundamente seus preconceitos.