Por que o rei do camarote importa (sobre Marx, Bourdieu e Alexander de Almeida)

rei do camaroteEntão no final de semana um revista de imensa circulação publicou uma reportagem fazendo o que ela sempre fez, faz e fará: enaltecer um estilo de vida de um grupo social bem específico da maior cidade do Brasil. São Paulo não é Nova York, mas qual a diferença entre o rei do camarote e as patricinhas de Gossip Girl ou os ricaços dos Hamptons em Revenge? Eu, que acho esses seriados tão interessantes quanto o novo meme do rei do camarote, acho que há pouca diferença.

Em geral, frente ao esbanjamento mostrado na reportagem da Veja São Paulo, tenho encontrado alguns tipos de posicionamento. Quero refletir aqui sobre todos eles.

Antipatia pelo Rei

A primeira reação, que o próprio provavelmente classificaria como “inveja”. A antipatia, ao contrário da inveja, porém, vem da recusa de muita gente em aceitar que esse seja um estilo de vida bacana. Críticas mil, neste tipo de interpretação, ao mercado do luxo, ao esbanjamento, ao consumo desenfreado… e também à babaquice da criatura. Porque, sério, mesmo se ele não fosse rico, dá pra perceber que é um grandessíssimo babaca (e bem machistão).

Algumas coisas me incomodam um pouco nas opiniões e *zuêras* que tenho ouvido e que são antipáticas ao Rei. A primeira delas é a aparente necessidade das pessoas em ativarem a homofobia e o machismo para tirar sarro do cara. Sendo que a situação, a edição do vídeo, as coisas que ele diz, etc. já são, em si, um prato cheio para o humor. Não precisa tirar onda de que ele é gay (e se fosse? problema seria de quem, mesmo?), nem de que ele não come ninguém (e se não comer? problema é de quem, mesmo? ah, tá).

Outras coisas me parecem bem justas: esse cara, nesse vídeo, representa uma cultura de classe que é verdadeiramente opressora, seja para a classe média ou para os grupos populares. Cada garrafa de champagne com velinha acesa é, sim, motivo para tanto fuzuê. Porque vivemos numa sociedade altamente desigual que disfarça herança de mérito. Só é possível esbanjar espumante e Ferrari por aí explorando muita gente. O funcionamento desse mecanismo está muitíssimo bem descrito no volume I do Capital, de Karl Marx, leitura que recomendo a qualquer ser humano que deseje entender a organização da sociedade capitalista em qualquer uma de suas épocas. Mesmo quem não é marxista (e eu também não sou) precisa sim conhecer a teoria mais sólida que existe sobre o funcionamento da economia e do trabalho no capitalismo industrial. Sem chiar. Apenas leiam.

Empatia pelo Rei

Enquanto os *zoeiros* jogavam o Rei do Camarote nos mais diversos tipos de fogueira, apareceram também aqueles que, refletindo de maneira mais ampla sobre a sociedade de consumo e sua própria posição nessa estrutura, propuseram alguma empatia com a criatura. Afinal de contas, se eu não pago champanhe pra mulherada na balada mas faço questão de reforçar por aí que morreria sem meu iPhone, qual a diferença entre eu e o Rei?

Pois vejam só; a primeira diferença é que você não foi capa da Veja São Paulo. Isso significa um montão de coisas. Significa que ele tem acesso a meios de comunicação que, na luta de classes, existem justamente para enaltecer o estilo de vida dele e fazer com que pessoas como eu e você queiramos – um dia, se nos esforçarmos bastante – poder fazer o mesmo. O “estilo de vida” é parte integrante do conjunto de ideologias, ideias, símbolos, que fazem com que um grupo permaneça dominante em nossa sociedade.

Quando o Bourdieu estudou esse trem aí, ele viu que além do capital econômico (que o Rei tem de sobra), sociedades parecidas com a nossa também usam uma outra maneira de concentrar poder: o sistema escolar. Pode ser que o Rei não tenha (e parece que não tem mesmo) grande domínio do que chamamos de cultura legítima. Isso quer dizer que ele provavelmente não conhece tanta música erudita, não escuta Chico Buarque, não tem o vocabulário super sofisticado, entre outras coisinhas mais. Ainda assim, ele concentra poder pelo capital econômico. Tanto o capital cultural quanto o econômico não são homogeneamente distribuídos em nossa sociedade, e não dependem só do esforço individual para serem conquistados. É um sistema cruel e perverso que articula ambos de maneira a sempre manter os mesmos grupos em posições de poder.

Por isso, provavelmente esse pessoal que teve alguma empatia pelo Rei, tem na verdade apenas uma coisa em comum com ele: ocupam uma posição de enorme privilégio, que oprime grande parte da população. Se o Rei oprime pelo dinheiro, eu e vocês oprimimos pela escolarização e pela cultura legítima.

Crítica de esquerda afobada

Um terceiro e último tipo de crítica que eu vi tentava extrapolar a empatia ou antipatia pessoal pelo cara, mas também não conseguia fazer grandes análises. Para os defensores do que chamo aqui de “crítica de esquerda afobada”, o ponto mais importante da coisa é que é um absurdo o cara concentrar tanto dinheiro assim e esbanjar isso, apoiado por um meio de comunicação que promove esse estilo de vida burguesão e tal. A questão – que me faz colocar o “afobada” no fim do subtítulo – é que esse caso não seria socialmente menos pior se o cara não esbanjasse. Nem se a revista não mostrasse. E é aqui que entra meu jeitinho especial de ver as coisas nessa bagunça toda: a gente precisa sim olhar para a burguesia e para os grupos dominantes. Já explico.

Luta Lupa de classes

Um dos mecanismos mais perversos de qualquer tipo de dominação, nos dias de hoje, é a dissimulação. Como somos, em status legal, livres, iguais, etc. parece que, a princípio, todas as desigualdades estruturais teriam sido abolidas. Afinal, se os negros são sujeitos de direito, como poderiam falar que nossa sociedade é racista? Pois aí é que entra o xis da questão. A dominação – em todos os sentidos – de uns grupos sobre os outros continua acontecendo, firme e forte. Com exceção de locais onde houve revoluções barulhentas e sangrentas (e mesmo nesse locais, ainda é questionável isso), a sociedade “democrática” de hoje não apagou a organização social que existia antes. Olha o Marx aí de novo, minha gente: somos produtos de nossa história.

A cultura se perpetua principalmente na transmissão de esquemas simbólicos, hierarquias, ideologias, classificações, definições. A cultura que sustentava essas sociedades extremamente machistas, elitistas e racistas de antes não sofreu uma transformação mágica, do dia para a noite, quando caíram os Estados absolutistas, a escravidão, ou quando as mulheres passaram a poder votar. Muitas maneiras de pensar e enxergar o mundo se adaptaram e se perpetuaram nos novos contextos sociais, políticos, econômicos e culturais que foram se apresentando. Por isso dizemos que o machismo, a divisão classista, o racismo, são estruturais: nossa sociedade está todinha baseada neles.

E daí? E o Rei do Camarote?

Daí que o Rei do Camarote – seja personagem ou não – é um exemplar legítimo de um dos grupos sociais que concentra mais poder em nossa sociedade. Desde sempre. Em vários sentidos: além de rico, ele é homem, cisgênero, branco, hetero. O Rei – como todo rei, aliás – é a dominação e a opressão, em pessoa. Carne e osso. E um pouco de champanhe. Isso não quer dizer, porém, que ele seja autoritário, ditador, etc. O poder do Rei em questão é outro. O Rei, aqui, tem e defende e propagandeia um estilo de vida que, tomado como ideal, respeitável de desejável, faz a máquina do capitalismo do século XXI funcionar. No centro dessa máquina está o consumo. Você é o que você consome. Só que para consumirmos, precisamos de dinheiro. A distribuição do dinheiro, como eu disse antes, não é meritocrática nem igualitária – assim como tampouco o é a distribuição dos saberes escolares (que poderiam, talvez, numa utopia em que muitas pessoas ainda acreditam, melhorar a distribuição do dinheiro).

Por que as pessoas trabalham loucamente, parcelam compras em 48x, se endividam, sustentam com o suor do rosto os banqueiros e especuladores milionários como o próprio Rei? Porque são idiotas? Não. Porque precisam consumir para sobreviver – física e biologicamente mas também culturalmente. Não sendo herdeiras de nenhum capital, se matam em fábricas e frentes de caixa de lanchonetes baratas, cubículos de telemarketing e subempregos dos mais variados. [e vale lembrar, pra rebater um outro discursinho moralizante e preconceituoso que tenho ouvido por aí, também: esse cara que parcela o smartphone em 99x sem juros definitivamente não é quem se beneficia dessa ideologia, dessa estrutura, dessa sociedade; é o oprimido e não o opressor]

Toda essa linha de raciocínio, porém, simplesmente não tem vez na urgência do cotidiano. É difícil pararmos para refletir. É difícil enxergarmos a estrutural social. É difícil observarmos opressões. Mas também é questão de hábito, e por isso é tão importante que a vida dos indivíduos dos grupos dominantes seja escancarada. Explicitada. Vista. Zoada. É importante que a vida das elites venha a público. Porque com ela vem toda a estrutura social injusta que vivemos (é por isso também que assisti e amei Mulheres Ricas).

Só que para funcionar como estratégia de luta, é preciso não nos deixarmos encantar. Por isso que, ao escolher o Alexander de Almeida como personagem, podemos dizer que a Veja São Paulo faz um grande favor à revolução anticapitalista (qualquer que seja ela). Não tem mesmo como a gente se encantar com um cara tão babaca.

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PS.: em tempo: os camarotes, não se esqueçam, eram os lugares altos nos teatros de onde os ricaços podiam cuspir e jogar merda na população que não tinha seu *STATUS*; a “cultura da pulseirinha VIP“, portanto, evoca o que há de mais escroto em nossa tradição cultural de colonizados por países europeus.

18 comentários sobre “Por que o rei do camarote importa (sobre Marx, Bourdieu e Alexander de Almeida)”

  1. Esse é o típico texto de quem não entende sobre economia, ou tem um conhecimento muito precário e acha que para ser rico é preciso explorar alguém. As teorias de Marx já foram derrubadas a tempos e hoje alguém com um pouco de educação na área de economia já se sabe que o sucesso de um não depende da exploração do outro. Infelizmente este tipo de falta de conhecimento é muito comum a quem faz faculdade de humanas (principalmente), em universidades federais onde muitos dos professores ainda vivem neste tipo de crença e não procuram se informar ou inovar. Infelizmente este cenário puxa o Brasil para baixo e continuará puxando.

    1. ahmn… você tá dizendo que economia não é humanas (além de usar essa divisão completamente ridícula e ultrapassada entre “humanas” e “exatas”, rs, e ainda de maneira equivocada)? e eu que não sei de economia? rs

  2. a análise tem um recorte genial (é importante que a vida da elite venha a público!), mas trata a questão da linguagem/edição/narrativa deste vídeo do rei do camarote de maneira menor, quase ingênua. por que “mulheres ricas” não deixa ninguém indignado? por que todos amam a val marchiori, o novo rei do camarote do pânico (1 bilhão numa noite) e a narcisa? pq eike, até pouco, era admirado?

    e pior: por que o vídeo da veja (!!!) é altamente crítico ao alexander? o corte de camera, a trilha, os letreiros… só sendo muito ingênuo para achar que aquilo é casual (alexander levanta duas garrafas de champanhe em slowmotion enquanto a trilha grita: YOUR FUCKIN’ RICH BITCH; alexander se apoia no segurança enquanto a trilha soa: super rich kids with nothing but loose ends, super rich kids with nothing but fake friends)

    agora: por que diabos a veja faria um vídeo ideológico destes, escancarando a elite dessa forma?

  3. Marília, parabéns pela análise, ela está super sensata. Só não entendi muito bem uma coisa: por que vc diz q a distribuição dos saberes escolares não melhoraria a distribuição de renda? vou ter q rever alguns conceitos meus? rs

    1. Olha, isso é assunto pra um post inteiro! 🙂 A questão, de maneira muito resumida (se quiser aprofundar recomendo encarar um livrinho chamado “A Reprodução” e outro chamado “A distinção”, ambos do Bourdieu) é a seguinte: os saberes escolares estão distribuídos de forma heterogênea em nossa sociedade; o acesso a eles depende também da distribuição de renda. Certo? Bom, mas mesmo que só existisse educação pública, há uma série de macanismos do sistema educacional para manter a estrutura social como ela é, e uma série de mecanismos da estrutura econômica e social para que tudo se mantenha como é. Suponha que a escola pública fosse muito foda e todo mundo aprendesse tudo muito bem. Se não houvesse vagas para todos na universidade, ia continuar havendo gente com menos formação, menos acesso a certos empregos, etc. Agora, suponha que haja vagas para todos na universidade: como serão avaliados dois diplomas iguais na hora de uma contratação ou promoção, por exemplo? Esses livrinhos (livrões, rs) que eu indiquei mostram que aí entram critérios subjetivos de pertencimento de classe social, que favorecem alguns candidatos em detrimento de outros. Isso tudo, claro se a gente ignorar uma série de outros esquemas de pensamento como machismo, sexismo, racismo, etc. que também privilegiam uns em detrimento de outros.

  4. Simplesmente parabéns pelo texto. Fiz uma pequena narrativa sobre o vídeo, e em linhas gerais, não me assusto e não me comovo com os atos e atitudes deste Reizinho, e concordo com os 3 tipos de posicionamentos verificados nos comentários geral, mas no caso o seu foi o mais claro e objetivo sobre os verdadeiros direcionamentos edeológicos. Zulenny – Professor de História.

  5. Após ler seu texto, me lembrei de um pequeno debate que tive no inicio de semana sobre futilidade, e após uma reflexão tirei algumas conclusões; agora com seu texto tirei uma conclusão que serve de complemento; a verdade é que a futilidade nada mais é que a busca por status, esse que ao contrário do que muita gente pensa, não é uma besteira, más sim algo implantado no instinto primitivo, não só dos seres humanos mas de alguns animais… não acho que o anticapitalismo seja uma saída, o capitalismo obriga as pessoas a serem produtivas, a busca por status, e uma motivação muito forte, acredite! Acredito que toda a moeda tem dois lados, num ponto de vista mais amplo apesar das desigualdades e tudo mais, não acredito nisso de anticapitalismo…

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