O som, ao redor do Butantã

[Aviso: este é um post longo, pois são pequenos fatos que criam o clima de tensão e estranheza que tem estado no ar. Não prometo fazer valer a pena, cada palavra, como em outros tempos. Mas eu preciso deixar pública a informação – e talvez vocês verão que há muito mais para saber do que estão nos dizendo.]

Novamente, escrevo com a impressão de estar ficando maluca. Agora sei, porém, que os tempos é que estão loucos. Vivemos definitivamente uma tensão crescente entre classes sociais e interesses políticos no cenário nacional. O pior é que o momento de instabilidade, como tanto frisei em junho do ano passado, pode ser aproveitado para muitas coisas. Alguns discursos ganham força, e em geral os que pretendem retroceder nos direitos humanos e na democracia são os que se tornam mais populares.

Não se trata apenas de “fazer justiça com as próprias mãos” – como vimos em tantos casos recentes. Se trata de uma visão distorcida de mundo e de humanidade, em que cada um se coloca na posição de juiz e executor dos demais. Feriu minha moral sendo negro, homossexual, ou fazendo algo que desaprovo? Eu mato. A polícia e a justiça em geral se posicionam ao lado desses, e contra os princípios que deveriam em tese defender (como os direitos humanos, assegurados em nossa constituição e na declaração internacional da qual o Brasil é signatário). Nunca em minha breve vida de brasileira eu havia visto o Estado (porque a polícia é sim parte do Estado) sequer se envergonhar de ferir esses princípios. Assumir, sem vergonha nenhuma, que não somos todos cidadãos diante de seus olhos e de seu julgamento.

Estou com nojo. Muito nojo disso tudo.

Compartilho com vocês alguns fatos recentes que me deixaram com a orelha em pé, pronta para meses que provavelmente serão muito piores e nos quais veremos coisas tão ou mais escrotas quanto essas acontecerem. Preparem o coração.

UM

Moro num condomínio de prédios de classe média bem média, num bairro que tem pedaços bem pobres e outros bem mais ricos do que onde eu moro. Nunca foi um bairro especialmente violento. Sempre foi possível andar tranquilamente pelas ruas daqui – ou pelo menos tão tranquilamente quanto no resto da cidade. A maior favela da região sempre teve organização comunitária forte (eu mesma conheci alguns de seus líderes na época em que a secretaria da juventude da cidade era aberta semanalmente a organizações de jovens, na gestão da Marta Suplicy). O bairro sempre foi policiado, e há dois batalhões da PM bem próximos, um deles a menos de 1km de distância, exatamente ao lado da favela.

Na semana passada, apareceu no espaço destinado a recados, no elevador do meu prédio, um folheto chamando os moradores a participarem de uma “passeata pela segurança na região”. Olhei torto, extremamente desconfiada: haveria acontecido algo de que eu não estava sabendo? Quem estava contabilizando estatisticamente que o bairro estava mais violento? De onde veio esse discurso? Quem estava organizando a passeata (não havia essa informação no cartaz, claro)? Com que objetivos? Na prática, nada de anormal havia acontecido. Pelo menos até a semana passada.

DOIS

No último sábado estava um silêncio meio anormal. Não havia o baile funk que habitualmente povoa o ar da madrugada em meu bairro. Havia algumas vozes de pessoas conversando em casas, quintais, talvez na rua. Aproveitei e tentei dormir mais cedo, já que não havia saído e tinha mil coisas pra resolver no domingo. Acordei com cinco tiros. Ritmados. Um seguido do outro. Sincronizadinhos. Cinco.

– Pou! Pou! Pou! Pou! Pou!

Cinco. Contei de novo, mentalmente. Foram cinco. Não era rojão. Não era escapamento de moto. Um homem gritava (acho que foi a única coisa que consegui escutar direitinho, com nitidez, fora os tiros):

– MÃO NA CABEÇA! MÃO PRA CIMA! PÕE A MÃO NA CABEÇA!

O tom de voz e o jeito eram de policial, embora na hora eu não tivesse como saber se era mesmo alguém da polícia. Não havia sons de sirene nem luzes de carros de polícia. Não havia outras vozes (policiais em serviço em geral trabalham em duplas ou grupos). Seguiram-se gritos. A voz do homem se transformara e abaixara, de maneira que eu passei a achar que era outra pessoa falando e que a pessoa que havia atirado teria ido embora. Depois ouvi sirenes – a polícia chegando, oficialmente. Muitos gritos. Muito choro. Eu tive certeza que alguém tinha morrido.

Corri ao facebook, já sem sono, para postar o horror que estava ouvindo. Uma vizinha que me segue e havia conseguido enxergar tudo melhor de sua sacada me contou a cena: o homem que atirara estava no local, enquanto um outro estava caído no chão com uma motocicleta, também derrubada. O homem armado falava ao celular e mandava todas as pessoas e veículos que chegavam ao local passarem direto, impedindo quaisquer transeuntes de observar verdadeiramente a cena. Não havia mais ninguém armado. Não houve mais nenhum tiro além dos cinco que eu ouvi (ao contrário de mim, a vizinha estava bem acordada na hora do ocorrido).

TRÊS

Deu no jornal: moradores incendeiam ônibus em protesto contra morte de jovem. Fui ler e soube que a poucos metros da minha sacada uma das balas disparadas na madrugada acertara uma menina adolescente, que morreu na hora. O jornal chamou de “tiroteio”. É possível um tiroteio de uma pessoa só? Claro que não era só essa a mentira deslavada contada pela polícia aos jornalistas.

Inventaram um tiro que teria partido de um suposto assaltante – tiro esse que ninguém ouviu.
Inventaram que eram dois numa moto, e que o segundo teria fugido com a moto e, óbvio, por isso ninguém encontrara a arma deles. O detalhe é que a moto estava lá, caída no chão, deixando mais evidente que havia ali uma distorção proposital dos fatos, por parte da polícia. Do segundo ninguém tem notícia, também, claro.

Não dá pra saber, com as informações que tenho, se inventaram que estava rolando um assalto, mas eu não me surpreenderia se inventassem, considerando a forte ligação de policiais civis e militares com grupos de extermínio, frequentemente usando esse disfarce, de supostos assaltos, para assassinar jovens negros e pobres como o que estava caído no chão, no meu bairro, naquela madrugada. Dá pra saber, além disso, que existe um interesse de grupos conservadores contra os direitos humanos (por exemplo, quem defende redução da maioridade penal) em instaurar o pânico da falta de segurança. Com medo e em pânico, fica fácil obter apoio popular para políticas públicas que ameaçam a democracia. A ditadura militar no Brasil foi instaurada com apoio popular, utilizando essa mesma estratégia. Do pânico para o Estado de exceção é um passo muito curto.

QUATRO

Passei o dia com a história toda na cabeça. Me perguntando se o carro que escutei sair arrancado da garagem do meu prédio pouco tempo antes era o policial civil indo atrás de alguém na rua. Mesmo que não seja, de fato, poderia ser. “Esse cara pode ser meu vizinho”, pensei. “Que nojo!”

Quando cheguei em casa agora à noite havia um carro em chamas, no meio da rua. Uma viatura e dois PMs ao lado. Muita gente na rua olhando. Tremi. Que era aquilo, agora? Mais um ato encenado? Quem botara fogo ali? Entrei e tentei falar com os porteiros, que não atenderam o interfone. Logo consegui contatar a vizinha que havia passado o dia ali. Ela desceu e voltava com informações.

Parece que ontem, quando o policial civil disparava os cinco tiros que me acordaram, moradores dos prédios – que são um tanto mais ricos do que os moradores das casinhas e do “vale” que é formado por algumas ruas mais para baixo – gritavam em tom de torcida organizada frases como “Morre”, reforçando a sede “justiceira” do assassino fardado (que não estava fardado, aliás, porque não estava em serviço). Então os moradores da comunidade, sabendo que poderia ter sido qualquer um deles o alvo do policial e o alvo do ódio dos coxinhas que gritavam na janela, simplesmente por existirem como negros e pobres neste mundo, decidiram dar o troco queimando o carro na frente de um dos prédios da rua.

Escutei esses dias muita gente falando que “o governo” ou “a mídia” teriam incitado um ódio entre classes sociais. Ledo engano. Essa tensão, esse ódio, sempre existiu. É da exploração de uma classe que a outra se sustenta. Essa situação é inerente à existência de classes e ao capitalismo (está lá em Marx, “luta de classes”, podem procurar – um dos conceitos mais antigos do pensamento de esquerda). Ela extrapola a situação econômica, também, como mostrou um cara chamado Pierre Bourdieu. Contudo, segue firme e forte no século XXI. Está aí.

A ideologia conservadora que vai contra os princípios democráticos e os direitos humanos sustenta a exclusão e a desigualdade. Sustenta uma série de privilégios e poderes extremamente mal distribuídos como são hoje. Faz, neste sistema, a roda do capitalismo (que não existe sem essa discrepância) girar.

O que me choca é ver o Estado e suas instituições assumirem, sem a menor vergonha ou pudor, que os princípios democráticos e os direitos humanos não são uma prioridade no Brasil, hoje. Isso tem acontecido desde o ano passado em diversos níveis, mas está ficando cada vez mais forte. Ao fazê-lo, o Estado dá aval para grupos de justiceiros e fascistas tomarem em suas mãos as vidas dos segmentos mais vulneráveis da população – como é o caso dos jovens negros, que estão sendo exterminados como ratos em episódios cotidianos iguaizinhos esse do meu bairro, Brasil afora.

CINCO

Juntando as pecinhas, algumas perguntas me atormentam nessa madrugada: quem organizou a passeata “pela segurança” num bairro que não tinha nenhum problema específico com segurança naquele momento? Por que um episódio tão violento aconteceu bem ao lado dos prédios de classe média que haviam sido convocados para a tal passeata? Por que logo poucos dias depois da tal passeata, que não tinha nenhuma reivindicação específica? Por que a polícia distorceu o ocorrido? Por que justamente aqui tantos moradores teriam gritado incentivando o policial civil a executar uma pessoa?

Neste fim de fim de semana me sinto no filme de Kleber Mendonça Filho, “O Som Ao Redor”. A poucos metros, um muro e muitas injustiças de distância de mim, um jovem foi baleado e uma adolescente morreu. Ambos pobres. Sem evidência de assalto. Sem evidência de que houvesse mais alguém armado. O policial civil atirou cinco vezes porque ele quis.

Eu honestamente gostaria que isso tudo fosse ficção.

Sigo de olhos abertos.

O ar está pesado, cada vez mais estranho e continua não sendo à toa.

Agora tem um carro pegando fogo, aqui na frente de casa.

Ontem um policial civil (sabe, daqueles que foram lá na cracolândia e tocaram o terror? então) disparou 5 tiros, feriu um cara e matou uma menina.

A versão oficial da polícia é que havia bandidos assaltando que atiraram primeiro. Mentira. Só houve cinco tiros disparados em seguida, ritmados, com o mesmíssimo som. Não houve tiro e revide. Foi o escroto que atirou porque sim. Cinco vezes seguidas.

A versão oficial da polícia é que um bandido saiu fugindo, na moto que estava usando para assaltar. Mentira. Os vizinhos dos andares mais altos viram a moto caída no chão, assim como o homem atingido, enquanto o policial civil falava no telefone e mandava os carros e pessoas passarem direto pelo local, sem parar.

A polícia militar demorou 20 minutos para chegar. Sendo que o batalhão fica a menos de 1km do local, e que não havai trânsito por ser de madrugada. O SAMU demorou mais 20 minutos.

Nunca aconteceu algo assim neste bairro e de maneira MUITO suspeita, no útlimo sábado alguns moradores e síndicos de condomínio organizaram uma “passeata pela segurança na região”.

Hoje o carro queimado, e ninguém se pronunciando sobre o que aconteceu. Escutei apenas um homem dizer que “se fosse eu também não deixava quieto”. Hoje de manhã reportaram um ônibus queimado em protesto pela morte da menina.

Dezessete anos. Ela tinha 17 anos, morreu com os tiros que me acordaram a poucos metros, um muro e muitas injustiças de distância.

Tem uma coisa bem estranha no ar, e não é à toa. Insisto.

Não sei o que é ainda. Mas que aí tem, isso tem.

Por que tanta chacota com Rachel Sheherazade?

Começo dizendo que este não é um post sobre a pessoa da Rachel Sheherazade. Este não é um post sobre o conteúdo de seus textos e opiniões veiculados na televisão ou na internet. Este não é um post sobre se devemos ou não criticá-la, nem sobre o conteúdo das críticas feitas a ela. Este não é um post sobre nenhuma pessoa específica, mas sim sobre um fenômeno.

Dito isso, passemos ao ponto que me interessa neste post: a reação de chacota que observo ser extremamente mais forte (e quase exclusiva eu diria) com as falas de Rachel Sheherazade, na internet. A esta altura do campeonato deve estar claro para quem lê que meu debate aqui não é com a direita ou com pessoas que concordam com a jornalista. Meu debate é com quem, como eu, desaprova as opiniões que ela emite em rede nacional. Mesmo que o post não seja sobre essas opiniões.

Nunca antes na história desse país (para não perder a piada), houve tantos memes avacalhando o conteúdo da fala de jornalistas e comentaristas de direita, conservadores e reacionários, quando vemos por aí de Rachel Sheherazade. Há bastante tempo acompanho redes sociais, sempre excluindo ou não seguindo gente reaça (porque não sou obrigada e me amo demais pra me fazer passar por isso). Minhas timelindas são compostas praticamente só por gente de esquerda, veículos de comunicação alternativos, etc. Nessas timelindas (reparem bem: minha experiência) nunca houve tantos memes e críticas públicas e explícitas sobre nenhum dos comentaristas sagradíssimos da comunicação brasileira – como Boris Casoy, Datena, Arnaldo Jabor. Todos eles dizem coisas senão iguais, piores do que as que Rachel Sheherazade professa em seu espaço no SBT. A frase a seguir poderia ter sido dita por qualquer um desses jornalistas. Quem acha que o conteúdo das coisas ditas por Sheherazade é especialmente horrível precisa olhar de novo. Escutar mais. Reler. Ouvir as gravações. Os quatro dizem coisas absurdas, do mais baixo nível (há quem, por ignorar a escrotidão dos textos utra-machistas de Jabor, diga que ele se diferencia dos demais; eu não poderia discordar mais)

“Muitos já entendem que o Estado não é a ‘solução’, mas é o ‘problema’. Já sabem que um Estado gigante suga como um vampiro a sociedade e não devolve em serviços e reformas o que nós emprestamos a ele. Já sabemos que a sociedade acordou, apesar de amedrontada pelos fascistas dos black blocs, como vimos em junho de 2013.”

A questão que permanece para mim é: por que apenas as frases e textos de Sheherazade são reimpressas, guardadas, feitas meme, compartilhadas no Facebook? Façam o exercício comigo. Digitem no Google o nome do/a referido/a jornalista seguido de “meme”, no Google Imagens, e vejam quantos memes de esquerda, criticando e fazendo chacota da pessoa ou das opiniões aparecem para cada um/a. Viram? No caso do Boris Casoy, apenas um episódio (o dos garis) é lembrado. Um. Em quantos anos de televisão? Há memes para praticamente tudo que Rachel Sheherazade faz e diz. Eu digo, pra brincar com meu próprio bordão: não é à toa.

Se trata de um caso de machismo estrutural. Isso não significa, como eu disse lá no começo, que individualmente quem critica a jornalista é machista. Isso não significa que devamos não criticá-la para evitarmos machismo. Significa apenas que é o machismo estrutural que nos faz ter essa reação específica com ela, em massa, que não temos com os demais que falam barbaridades iguais ou até piores, também diariamente. A reação envolve desde prestarmos atenção (ela está na nossa mira, de alguma forma), até criar tantos memes. Mesmo – sim! – quando o conteúdo da crítica não é machista. Não é do conteúdo da crítica nem do conteúdo das opiniões de Sheherazade que estou falando, já disse.

A estrutura machista de nossa sociedade nos faz sermos mais rígidos com as mulheres, de maneira automática, inconsciente. É uma das faces do tal machismo estrutural (não vou nem comentar no *detalhe* igualmente importante do fato de Sheherazade ser nordestina). Por isso reagimos com tanta força contra mulheres que dizem e fazem absurdos (no caso aqui, absurdos reaças, rs), especialmente quando no espaço público. Mais um exemplo é o fato de Thatcher ser demonizada mas outros liberais que fizeram horrores iguais e/ou piores não terem sofrido a mesma reação. De novo: não é que devamos deixar de criticá-las. Mas precisamos definitivamente compreender por que as criticamos com furor tão maior do que criticamos os seus semelhantes homens. Mais que isso, por que sempre com chacota?

A chacota é uma ferramenta muito forte da dominação machista. É sistemático que se faça chacota (da esquerda para a direita e vice-versa) quando os sujeitos públicos de que se fala são mulheres. Quando são homens se faz em geral críticas, ou até mesmo se ignora. As mulheres são feitas piada. Para quem compreende o machismo e o sente na pele, essa é uma constante. Precisamos o tempo todo fazermos força para sermos levadas a sério. Este é um dos problemas na reação massiva que tenho acompanhado em relação a Rachel Sheherazade.

Novamente: o problema dessa reação massiva é que ela só tem acontecido dessa maneira e com essa intensidade quando  os reaças em questão são mulheres. Da parte dos reaças, é isso que fazem, também, com as mulheres de esquerda. É isso que se faz, inclusive, dentro da esquerda com muitas de suas militantes que procuram fazer crítica interna (como essa que eu estou me debatendo para fazer ser compreendida – por que tanta resistência em entender o machismo e como ele funciona? por causa do próprio machismo, oras).

É hora de, sem deixar a crítica às opiniões conservadoras da jornalista de lado, realizar uma importante autocrítica. Pelo menos se não quisermos reproduzir uma das horrorosas ideias que Sheherazade, Datena, Casoy e Jabor insistem em defender.

Por que alguns homens “feministas” não falam sobre as questões das mulheres? (ou: IUZÔMI?)

Você tem vontade de falar sobre homens cada vez que alguém começa a falar de igualdade para as mulheres?
Aqui está um novo teste pra determinar se você é realmente feminista.
 

 

por Emer O’Toole
tradução livre; original aqui, em inglês

Primeira anedota: Ano passado, eu dei uma palestra sobre pelos e sexismo no festival Women of The World. Um amigo feminista assistiu, e me mansou uma mensagem de texto dizendo que os homens são pressionados de maneira similar quando se trata do corpo, apenas com algumas diferenças. Respondi que 9 entre 10 distúrbios alimentares acontecem entre mulheres, 95% das cirurgias plásticas estéticas são feitas em mulheres, e que eu não tinha ainda conhecido nenhum homem que se envergonhasse de pernas peludas. Mesmo assim, ele insistiu que, se eu tivesse falado sobre os homens em minha palestra, teria conseguido mais aliados.

Segunda anedota: Eu estava discutindo assédio nas ruas, com um amigo feminista. Ele disse que os homens têm mais probabilidade de sofrer violência nas ruas do que as mulheres. Eu concordei de verdade, e depois continuei falando sobre assédio. Já aprendi que, se espero que os homens  sejam aliados do feminismo, não posso falar de assobios e passadas de mão enquanto os homens correm o risco de levar chutes na boca.

Terceira anedota: Num bar, um grupo de amigos estava discutindo os obstáculos que uma menina nascida hoje poderia ter durante sua vida. Um amigo feminista disse que na firma de advocacia onde trabalha as mulheres com três filhos estão se tornando sócias, e que em 20 anos – ele garantia – o “teto de vidro” não vai mais existir; o problema real, segundo ele, é que os homens que estudam direito estão abandonando suas faculdades. No dia seguinte, ele me enviou um email dizendo que se identifica como feminista, e que o feminismo deve ser mais do que “sexismo reverso”, que as questões masculinas precisam ser levadas em consideração. Ele incluiu um link da Wikipedia sobre homens no feminismo.

Esses não são incidentes isolados e, que conste, eu respeito todos esses homens: eles são pessoas inteligentes e bacanas. Mas não os quero como aliados, mais do que quero passar a me chamar de “generista” porque o Joss Whedon acha que “feminista” soa mal. A questão pra mim é a seguinte: por que esses homens se descreverm como feministas, se eles são incapazes de falar sobre as questões das mulheres sem bradar “E OS HOMENS?” [iuzômi], ou sem insistir que um movimento pelos direitos das mulheres comprometa seus objetivos para que os homens fiquem mais à vontade?

Bem, eu tenho uma teoria. Em algum momento, alguém inventou um teste espertinho e bem expressivo sobre o feminismo, que pode ser ilustrado da seguinte maneira:

Fluxogramas feminismo 01

É inteligente, certo? Não sei quem usou isso primeiro, mas é esse o tom da Caitlin Moram em “Como Ser Uma Mulher”, e  o “Guia do Homem para o Feminismo”, de Michael Kaufman e Michael Kimmel, tem uma passagem perguntando ao leitor se ele “pegou” algum feminismo, o que é uma variação disso.

O teste é divertido, direto, inclusivo: faz com que as pessoas entrem no feminismo, e  leva mais homens a se identificarem como feministas. Aliados – EBA!

Só que o teste também é um pouco mentiroso. É preciso acreditar em outras coisas importantes para ser feminista, o que pode ser ilustrado mais ou menos assim:

Fluxogramas feminismo 2

Opa! Se surpreendeu ao receber um resultado negativo (“Não é feminista”) sendo que se autointitula feminista há anos? Está se prendendo na semântica, dizendo que “depende do que você quer dizer com igualdade”, em vez de responder as questões da maneira direta como estão colocadas? Se sente excluído de um movimento por igualdade que você sente que também deveria ser seu, de alguma maneira? Talvez esteja um pouco nervoso de ter sido excluído? Quem sabe esteja pensando: “Então tá bom! Se é assim que querem definir o feminismo, tudo bem! Mas estou avisando: estão me perdendo como aliado!”.

Rolezinho: isso não é (só) sobre consumo

Quando começaram os protestos de junho, houve quem me chamasse de louca por considerar que estávamos diante da “primavera brasileira”. Houve quem dissesse que os protestos não eram protestos, verdadeiramente, já que as pessoas não sabiam muito bem o que fazer nas ruas, nem conhecessem precisamente maneiras um tanto “técnicas” de travar a luta política. Houve quem dissesse que nenhuma reivindicação desejava mudança estrutural. Desde o começo me pareceu muito claro: podemos sim, dizer que começou ali uma primavera brasileira. Uma insatisfação com a maneira geral como nos organizamos em sociedade. Em especial, com o abandono que sentimos em relação ao Estado, uma estrutura que deveria servir aos interesses de muitos mas se curva diante de caprichos de poucos. Assim como os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus em todo o Brasil, e contra os abusos da FIFA na Copa das Confederações e Copa do Mundo, os rolezinhos vão na mesma onda, gritando: assim não está bom.

Os rolezinhos e a luta contra o aumento das passagens (e, em última instância, pelo passe livre) têm absolutamente tudo em comum. Muito tem se dito sobre os rolezinhos serem uma questão de “consumo”, apenas. Dizer isso é banalizar o rolezinho. Se fosse uma questão de consumo, individual, bastava um grupo de quatro ou cinco amigos da periferia combinar de ir ao cinema um dia num shopping como o Iguatemi JK que estaria tudo certo. Mas o rolezinho não é isso. O que é que estão dizendo as centenas e milhares de jovens que se engajaram em rolezinhos, quando utilizam uma das táticas de luta política mais antigas e sólidas – a ocupação – em shoppings de grandes cidades?

Não dá pra ficar em casa trancado“, disse Jefferson Luís, o rapaz de 20 anos que organizou o rolezinho no Shopping Internacional em Guarulhos, SP. A frase martela em minha cabeça: não dá pra ficar em casa trancado. Não dá pra ficar em casa trancado. Não dá. Nenhuma outra frase resume tão bem a questão social e política que o rolezinho combate. Reproduzindo a estrutura social vigente, nossas cidades segregam. Segregam porque se baseiam na acumulação de capital, e não na eqüidade entre indivíduos, grupos, setores. Se o local de moradia e a possibilidade de circular pela cidade, saindo dele, dependem de dinheiro, num contexto em que o dinheiro não é distribuído de maneira homogênea, então também é assim com o acesso a serviços, opções de lazer e cultura e, pasmem, até com o consumo e a certos bens.

No nosso caso, ainda, há uma segregação racial que acompanha a segregação social. Por conta de nossa história de políticas racistas de Estado (como trazer mão-de-obra assalariada branca de fora do Brasil para não ter que contratar negros na lavoura e na indúsrtia; ou como a proibição aos negros de frequentarem escolas públicas associada à proibição de voto dos analfabetos), a população negra ficou relegada aos estratos mais baixos da nossa hierarquia social – essa que se baseia em acumulação de capital, grana, money, tutu, dindin. Pois então, no momento em que uma parcela dessa população negra começa a quebrar (ainda que com muito suor e sangue) esse esquema, acumulando algum dinheiro e consumindo o que não lhes era socialmente designado, o racismo fica ainda mais escancarado. É impressionante que até a lógica capitalista, tão arraigada em nosso pensamento, seja preterida quando se trata da lógica racista. Segundo o shopping JK Iguatemi, é melhor recusar centenas de clientes e consumidores, caso eles sejam negros.

(Não dá pra fazer olimpíadas da opressão, eu sei; mas às vezes me parece que, se fosse possível, certeza que o racismo estaria ganhando disparado neste país)

Isso tudo mostra que o rolezinho não é, definitivamente, sobre consumo. É sobre racismo, e sobre a estrutura sócio-racial que mantém jovens negros e pobres em casa, trancados, aos finais de semana. É sobre um Estado que concentra esforços para atender as demandas de gente com dinheiro e pele branca, e que abandona todo o resto. É sobre como a lógica do capital se entrelaçou de vez com o racismo quando, ao fim da escravidão, se estabeleceu políticas de imigração europeia para que se impedisse, de fato, qualquer tipo de ascensão social por parte das pessoas negras no Brasil. É sobre como o passe livre poderia reverter essa estrutura, proporcionando acesso dessa população já marginalizada a espaços centrais, a opções de cultura e lazer diversas. É sobre como o sistema de transporte também segrega, mantendo a estrutura social (lembrando casos de rolezinhos em Campinas, cidade em que os shoppings quase não têm acesso por meio de ônibus, nos quais foi simples fechar o shopping – bastou fechar as entradas de pedestres). É como essa estrutura se reflete em todo e cada espaço das nossas cidades.

O rolezinho é, enfim, uma incrível arma na luta por uma sociedade verdadeiramente igualitária.

PS.: em tempo: você, que concorda com tudo isso mas continua estigmatizando o funk e @s funkeir@s com memes ridículos sobre fones e ouvido e afins, faça um favor ao mundo e reveja profundamente seus preconceitos.

Hoje eu subi numa bicicleta

hoje eu subi numa bicicleta.

uma bike, magrela, bici. era meio verde, pneus mais grossinhos, mas não era BMX. só sei porque a placa dizia lá: “não temos bicicletas BMX, não usem a pista de bicicross”. senão não ia reparar. ela tinha câmbio, um escritozinho “shimano” embaixo do botão de mudar a marcha. já ouvi essa palavra antes, “shimano”. eu que era a outsider por não andar de bike. quer dizer. saber até sabia, “mas faz vinte anos que não subo numa”, explicava eu. eu sei que não se esquece; não era esse meu medo. tampouco era medo de cair (quem me conhece sabe muito bem que caio muito, até andando, então não preciso de bike pra isso). meu medo era a gente, sabe. todas as pessoas.

hoje eu montei numa bike.

foi naquele parque, no mesmíssimo parque que a última vez. não me lembro se caí. não lembro de trombei com alguém. se fui chamada de gorda. se riram de mim. não lembro. mesmo. mas lembro que contei os anos, de cabeça, desde então. contei que havia um mês não subia numa bike. depois seis meses. um ano. dois. cinco. dez. quinze. minto quando digo que foram vinte – é só pra arredondar, sabem como é. era algum dia de verão quando eu tinha 10 anos de idade, provavelmente no início de 1998 ou finzinho de 1997. me recordo da clareza com que contei os dias; talvez eu soubesse que passaria muitos anos sem andar de bicicleta (quem sabe?). dezessete anos, cara. dezessete anos sem empoleirar numa magrela.

hoje eu me empoleirei numa magrela.

depois de tantas tentativas abortadas, hoje eu tinha me decidido. não ficaria mais nenhum dia sem saber, na vida adulta, o que é estar numa bicicleta. minhas amigas andam de bicicleta. eu frequento o bar da galera da bicicleta. foram tantas dicas, palavras de encorajamento, lindos relatos. eu tinha que saber o que era aquilo, afinal. em todas as vezes anteriores desmarquei, enrolei, achei desculpas. desculpinhas, desculpões. porque é isso que são, só: desculpas. não existe nenhum bom motivo pra não andar de bicicleta. foi lá, em cima da bendita, meio cambaleante no começo, sentindo as coxas empurrarem os pedais, olhando para a frente e ventando para trás, que eu entendi, então, o que tinha me impedido, nos últimos dezessete anos, de andar de bicicleta: aquela peça esquisita, meio desengonçada, que fica sobre o selim e se apoia no guidão. conhecem?

hoje eu subi numa bicicleta.

numa bicicleta, livre de mim mesma. ainda me desconcentrando com pessoas, temerosa pelos carrinhos de bebê desavisados que cruzavam meu caminho. mas eu fui. na pior das hipóteses quem cairia seria eu, a frear desajeitada nas bordas da pista. levei dezessete anos para descobrir que quem decidia isso não era ninguém; só eu. dezessete anos pra sacar que eu podia estar ali, guiando, pedalando, decidindo, fazendo vento com os pés. eu estava sozinha, mas não estava só. depois das primeiras pedaladas e de uma freada desajeitada, encontrei na pista uma família. a menina devia ter a idade que eu tinha quando pedalei pela última vez, e o pai a ensinava a pedalar. a mãe gritava palavras de encorajamento. sentei num banco e olhei. chorei. que coisa linda, isso de andar em bicicleta. lembrei das tardes na praia, indo longe com os primos e primas. eu chegaria em qualquer lugar que eu quisesse, com minha própria força e energia. tem um quê de liberdade aí, é inegável. naquele parque em que eu parei de andar de bicicleta, a menina aprendia a liberdade que eu perdi. enchi o peito diante da cena, olhei para frente e fui.

hoje eu voei numa bici,
bike
magrela.

hoje eu voltei a andar de bicicleta.

feliz
feliz

 

AI-5 e a canção de protesto

Marcha dos Cem Mil, 1968: meses mais tarde, a reação dos militares seria o AI5
Marcha dos Cem Mil, 1968: alguns meses mais tarde, a reação dos militares ao protesto seria o Ato Institucional nº5 (AI-5)

13 de dezembro, do ano de 1968: era decretado o Ato Institucional nº5 em todo o território brasileiro. A partir daquele momento, o presidente possuía poder total e completo sobre toda a estrutura do Estado. A ditadura estava finalmente consilidada, com bases e disposições legais. Os partidos que até então existiam na legalidade sabiam que logo deixariam de atuar nas instâncias agora comandadas pelo presidente.

[Leia aqui a íntegra do Ato Institucional Número Cinco (AI-5)]

Como 2013, o ano de 1968 foi um ano politicamente agitado. A luta armada avançava, assim como a desumana perseguição aos militantes de guerrilhas. No Rio de Janeiro,  o estudante secundarista Edson Luís foi assassinado pelos militares durante uma manifestação. Poucos meses depois, a Marcha dos Cem Mil mostrou, nas ruas, que grande parte da população se colocava contra a ditadura (inclusive setores da classe média que haviam comemorado sua instauração alguns anos antes, jamais imaginando que seus próprios filhos seriam assassinados, perseguidos e torturados pelo regime). Também foi naquele ano que estudantes de esquerda da USP e o grupo de ultra-direita Comando de Caça aos Comunistas, formado por alunos do Mackenzie, travaram uma verdadeira batalha na Rua Maria Antônia, em São Paulo. Logo em seguida, os militares acabaram com o congresso da UNE, realizado em Ibiúna, levando cerca de 900 estudantes presos.

A resposta dos ditadores à efervescência política foi justamente essa: o AI-5.

Suas consequências foram o acirramento do regime, com a retirada dos direitos individuais e políticos de todos os cidadãos brasileiros – exceto os ditadores e seus protegidos. Foi também a partir dessas garantias legais que a censura se tornou mais forte. A revolucionária música de contracultura da Tropicália passou a ser duramente censurada, e seus autores perseguidos sem descanso. Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos logo após a publicação do documento. Nos meses seguintes, dezenas de ativistas políticos, ex-parlamentares, intelectuais e artistas foram exilados, se auto-exilaram, foram perseguidos, sofreram tortura ou foram executados sumariamente pelas forças militares. Seu crime: divergir.

Entre os divergentes que não foram exilados, sofrendo perseguição em solo nacional, estava o baiano Antônio José Santana Martins, mais conhecido como Tom Zé. Alguns anos mais tarde, já no fim da ditadura, em 1985 num show no teatro Lira Paulistana o músico apresentou uma série de canções refletindo sobre a ditadura e o período político na época. Assim como em “O Povo Novo“, de 2013, a sagacidade das letras de Tom Zé é impressionante em “O Jardim da Política”.

[Clique aqui para ouvir o disco (mp3)]

Alguns de meus versos favoritos do disco, que ganhei de presente do próprio cantor, com toda a honra do mundo, estão abaixo. Provavelmente teriam sido censurados se não estivessem num show ao vivo, no fim do regime militar.

Em “Democracia”, jogos de palavras e outras pequenas esperanças frente à quase abertura política, que só iria se consolidar em 1989 com a promulgação da nova constituição (que este ano fez 25 anos – agora pensem: o AI5 durou 20 anos, minha gente; o horror).

“democracia não se dita
maldita seja se dura,
palpita pela doçura.”

[da canção ‘Democracia’]

Dialogando diretamente com alguns grupos de esquerda que, formados majoritariamente por jovens de classe média, se propunham a falar em nome do povo, Tom Zé ironizava:

“Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária.

Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Os operários que se calem,
que procurem seu lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia que virá
e na felicidade dos operários.

Se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
Tom Zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária.”

[da canção ‘Classe Operária’]

Também aparece no show a pluralidade partidária, que começava a retornar ao cotidiano político do país – não sem menos tiração de sarro:

“E o PMDB padece patifa patifa fafá
no colo do PDS patifa patifa fafafá
o PTB percebeu patifa patifa fafafá
mas o PDT quer deter
se apetece ao PT ter poder
pode ser, pode não ser”

[da canção ‘Marcha Partido’]

Todas as letras do disco podem ser lidas aqui.

Mesmo depois da ditadura, porém, o período e temas correlatos continuaram sendo musicados por Tom Zé. No disco “Imprensa Cantada”, a canção “Sem saia, sem cera, censura” é uma das mais bonitas:

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 A capacidade artística de transformar experiências em sensação, em toque, em poesia foi uma das estratégias de resistências mais importantes durante o período do AI-5 no Brasil. A sapiência de Julinho de Adelaide para driblar a censura, por exemplo, é magistral. Assim como o teatro e o cinema, entre as décadas de 1970 e 1980 no Brasil, a música mantinha as pessoas vivas, lutando, caminhando e cantando.

Sem a canção de protesto não havia quem segurasse tamanho rojão.

Se o AI-5 foi um dos maiores crimes cometidos contra a sociedade brasileira, alivia saber que foi tamanha a lucidez de diversos artistas frente ao ato.

Seremos a esses eternamente gratas/os.

 

 

Racismo: uma questão de (mau) gosto?

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clique para ver em tamanho maior

[texto original de Jenny L. Davis, tradução livre e adaptação da imagem por Marília Moschkovich]

O site de negócios e marketing Quartz soltou recentemente dados sobre o aplicativo de namoro “Are You Interested“, que conecta pessoas solteiras dentro de suas redes do Facebook. Os dados do Quartz se baseiam numa série de questões do tipo “sim ou não” sobre o interesses dos usuários uns pelos outros, assim como nas taxas de resposta entre usuários denotando possíveis combinações de sucesso. Os dados mostram que homens brancos e mulheres asiáticas são alvo de mais interesse, enquantos homens e mulheres negros são os de menor interesse. Os repórteres do Quartz resumiram os resultados da seguinte maneira:

Infelizmente os dados nos mostram ganhadores e perdedores. Todos os homens, exceto os asiáticos, preferam mulheres asiáticas, enquanto todas as mulheres, exceto as negras, preferem os homens brancos. Ambos homens e mulheres negros receberam as menores taxas de resposta de seu respectivo gênero.

A imagem no topo do post mostra os resultados.

Como socióloga, não estou nada surpresa com o fato de que a raça faz diferença, especialmente num processo tão pessoal quanto namoros e relacionamentos. No entanto, essas descobertas podem parecer uma grande novidade para a parcela (bem significativa) da população que se identifica como “não-racialista”; esses que acreditam que vivemos numa sociedade “pós-racial”.

Por isso os sites de relacionamentos são tão legais. Os psicólogos sociais sabem que há muito pouca relação empírica entre o que as pessoas dizem e o que elas fazem. Os sites de namoro mostram o que fazemos e nos mostra essas informações. Eles expõem quem somos, o que queremos e, claro, o que não queremos. Como mostrado pelo Quartz, “nós” fetichizamos mulheres asiáticas enquanto desvalorizamos as negras.

Com uma defasagem entre o que as pessoas dizem e fazem; entre o que dizem e o que pensam inconscientemente, questionários sobre atitudes raciais são sempre limitadas. As pessoas podem dizer o que quiserem – que a raça não importa, que não ligam para a cor da pele – mas no momento de escolher parceiros e parceiras, e os critérios dessas decisões são formalizados por meio de perfis e decisões de resposta, nós, como indivíduos e como sociedade, não conseguimos nos enganar. Os números se voltam contra nós, nos forçando a encarar desconfortáveis atitudes culturais e identitárias individual e coletivamente.

De fato, antes que alguém responda qualquer coisa, a arquitetura dos sites de ralcionamentos nos dizem muito. Especificamente, ao definirem quais preferências podemos ou não ter, eles nos dizem quais características provavelmente nos importam como critérios, e com quais deveríamos nos importar.

Ambos os dados dos usuários e a presença da identificação étnico-racial e da opção de escolher esse tipo de preferência são reveladores, pondo abaixo quaisquer argumentos sobre não se olhar a cor da pele ou vivermos em uma sociedade/cultura “pós-racial”.

Por que o rei do camarote importa (sobre Marx, Bourdieu e Alexander de Almeida)

rei do camaroteEntão no final de semana um revista de imensa circulação publicou uma reportagem fazendo o que ela sempre fez, faz e fará: enaltecer um estilo de vida de um grupo social bem específico da maior cidade do Brasil. São Paulo não é Nova York, mas qual a diferença entre o rei do camarote e as patricinhas de Gossip Girl ou os ricaços dos Hamptons em Revenge? Eu, que acho esses seriados tão interessantes quanto o novo meme do rei do camarote, acho que há pouca diferença.

Em geral, frente ao esbanjamento mostrado na reportagem da Veja São Paulo, tenho encontrado alguns tipos de posicionamento. Quero refletir aqui sobre todos eles.

Antipatia pelo Rei

A primeira reação, que o próprio provavelmente classificaria como “inveja”. A antipatia, ao contrário da inveja, porém, vem da recusa de muita gente em aceitar que esse seja um estilo de vida bacana. Críticas mil, neste tipo de interpretação, ao mercado do luxo, ao esbanjamento, ao consumo desenfreado… e também à babaquice da criatura. Porque, sério, mesmo se ele não fosse rico, dá pra perceber que é um grandessíssimo babaca (e bem machistão).

Algumas coisas me incomodam um pouco nas opiniões e *zuêras* que tenho ouvido e que são antipáticas ao Rei. A primeira delas é a aparente necessidade das pessoas em ativarem a homofobia e o machismo para tirar sarro do cara. Sendo que a situação, a edição do vídeo, as coisas que ele diz, etc. já são, em si, um prato cheio para o humor. Não precisa tirar onda de que ele é gay (e se fosse? problema seria de quem, mesmo?), nem de que ele não come ninguém (e se não comer? problema é de quem, mesmo? ah, tá).

Outras coisas me parecem bem justas: esse cara, nesse vídeo, representa uma cultura de classe que é verdadeiramente opressora, seja para a classe média ou para os grupos populares. Cada garrafa de champagne com velinha acesa é, sim, motivo para tanto fuzuê. Porque vivemos numa sociedade altamente desigual que disfarça herança de mérito. Só é possível esbanjar espumante e Ferrari por aí explorando muita gente. O funcionamento desse mecanismo está muitíssimo bem descrito no volume I do Capital, de Karl Marx, leitura que recomendo a qualquer ser humano que deseje entender a organização da sociedade capitalista em qualquer uma de suas épocas. Mesmo quem não é marxista (e eu também não sou) precisa sim conhecer a teoria mais sólida que existe sobre o funcionamento da economia e do trabalho no capitalismo industrial. Sem chiar. Apenas leiam.

Empatia pelo Rei

Enquanto os *zoeiros* jogavam o Rei do Camarote nos mais diversos tipos de fogueira, apareceram também aqueles que, refletindo de maneira mais ampla sobre a sociedade de consumo e sua própria posição nessa estrutura, propuseram alguma empatia com a criatura. Afinal de contas, se eu não pago champanhe pra mulherada na balada mas faço questão de reforçar por aí que morreria sem meu iPhone, qual a diferença entre eu e o Rei?

Pois vejam só; a primeira diferença é que você não foi capa da Veja São Paulo. Isso significa um montão de coisas. Significa que ele tem acesso a meios de comunicação que, na luta de classes, existem justamente para enaltecer o estilo de vida dele e fazer com que pessoas como eu e você queiramos – um dia, se nos esforçarmos bastante – poder fazer o mesmo. O “estilo de vida” é parte integrante do conjunto de ideologias, ideias, símbolos, que fazem com que um grupo permaneça dominante em nossa sociedade.

Quando o Bourdieu estudou esse trem aí, ele viu que além do capital econômico (que o Rei tem de sobra), sociedades parecidas com a nossa também usam uma outra maneira de concentrar poder: o sistema escolar. Pode ser que o Rei não tenha (e parece que não tem mesmo) grande domínio do que chamamos de cultura legítima. Isso quer dizer que ele provavelmente não conhece tanta música erudita, não escuta Chico Buarque, não tem o vocabulário super sofisticado, entre outras coisinhas mais. Ainda assim, ele concentra poder pelo capital econômico. Tanto o capital cultural quanto o econômico não são homogeneamente distribuídos em nossa sociedade, e não dependem só do esforço individual para serem conquistados. É um sistema cruel e perverso que articula ambos de maneira a sempre manter os mesmos grupos em posições de poder.

Por isso, provavelmente esse pessoal que teve alguma empatia pelo Rei, tem na verdade apenas uma coisa em comum com ele: ocupam uma posição de enorme privilégio, que oprime grande parte da população. Se o Rei oprime pelo dinheiro, eu e vocês oprimimos pela escolarização e pela cultura legítima.

Crítica de esquerda afobada

Um terceiro e último tipo de crítica que eu vi tentava extrapolar a empatia ou antipatia pessoal pelo cara, mas também não conseguia fazer grandes análises. Para os defensores do que chamo aqui de “crítica de esquerda afobada”, o ponto mais importante da coisa é que é um absurdo o cara concentrar tanto dinheiro assim e esbanjar isso, apoiado por um meio de comunicação que promove esse estilo de vida burguesão e tal. A questão – que me faz colocar o “afobada” no fim do subtítulo – é que esse caso não seria socialmente menos pior se o cara não esbanjasse. Nem se a revista não mostrasse. E é aqui que entra meu jeitinho especial de ver as coisas nessa bagunça toda: a gente precisa sim olhar para a burguesia e para os grupos dominantes. Já explico.

Luta Lupa de classes

Um dos mecanismos mais perversos de qualquer tipo de dominação, nos dias de hoje, é a dissimulação. Como somos, em status legal, livres, iguais, etc. parece que, a princípio, todas as desigualdades estruturais teriam sido abolidas. Afinal, se os negros são sujeitos de direito, como poderiam falar que nossa sociedade é racista? Pois aí é que entra o xis da questão. A dominação – em todos os sentidos – de uns grupos sobre os outros continua acontecendo, firme e forte. Com exceção de locais onde houve revoluções barulhentas e sangrentas (e mesmo nesse locais, ainda é questionável isso), a sociedade “democrática” de hoje não apagou a organização social que existia antes. Olha o Marx aí de novo, minha gente: somos produtos de nossa história.

A cultura se perpetua principalmente na transmissão de esquemas simbólicos, hierarquias, ideologias, classificações, definições. A cultura que sustentava essas sociedades extremamente machistas, elitistas e racistas de antes não sofreu uma transformação mágica, do dia para a noite, quando caíram os Estados absolutistas, a escravidão, ou quando as mulheres passaram a poder votar. Muitas maneiras de pensar e enxergar o mundo se adaptaram e se perpetuaram nos novos contextos sociais, políticos, econômicos e culturais que foram se apresentando. Por isso dizemos que o machismo, a divisão classista, o racismo, são estruturais: nossa sociedade está todinha baseada neles.

E daí? E o Rei do Camarote?

Daí que o Rei do Camarote – seja personagem ou não – é um exemplar legítimo de um dos grupos sociais que concentra mais poder em nossa sociedade. Desde sempre. Em vários sentidos: além de rico, ele é homem, cisgênero, branco, hetero. O Rei – como todo rei, aliás – é a dominação e a opressão, em pessoa. Carne e osso. E um pouco de champanhe. Isso não quer dizer, porém, que ele seja autoritário, ditador, etc. O poder do Rei em questão é outro. O Rei, aqui, tem e defende e propagandeia um estilo de vida que, tomado como ideal, respeitável de desejável, faz a máquina do capitalismo do século XXI funcionar. No centro dessa máquina está o consumo. Você é o que você consome. Só que para consumirmos, precisamos de dinheiro. A distribuição do dinheiro, como eu disse antes, não é meritocrática nem igualitária – assim como tampouco o é a distribuição dos saberes escolares (que poderiam, talvez, numa utopia em que muitas pessoas ainda acreditam, melhorar a distribuição do dinheiro).

Por que as pessoas trabalham loucamente, parcelam compras em 48x, se endividam, sustentam com o suor do rosto os banqueiros e especuladores milionários como o próprio Rei? Porque são idiotas? Não. Porque precisam consumir para sobreviver – física e biologicamente mas também culturalmente. Não sendo herdeiras de nenhum capital, se matam em fábricas e frentes de caixa de lanchonetes baratas, cubículos de telemarketing e subempregos dos mais variados. [e vale lembrar, pra rebater um outro discursinho moralizante e preconceituoso que tenho ouvido por aí, também: esse cara que parcela o smartphone em 99x sem juros definitivamente não é quem se beneficia dessa ideologia, dessa estrutura, dessa sociedade; é o oprimido e não o opressor]

Toda essa linha de raciocínio, porém, simplesmente não tem vez na urgência do cotidiano. É difícil pararmos para refletir. É difícil enxergarmos a estrutural social. É difícil observarmos opressões. Mas também é questão de hábito, e por isso é tão importante que a vida dos indivíduos dos grupos dominantes seja escancarada. Explicitada. Vista. Zoada. É importante que a vida das elites venha a público. Porque com ela vem toda a estrutura social injusta que vivemos (é por isso também que assisti e amei Mulheres Ricas).

Só que para funcionar como estratégia de luta, é preciso não nos deixarmos encantar. Por isso que, ao escolher o Alexander de Almeida como personagem, podemos dizer que a Veja São Paulo faz um grande favor à revolução anticapitalista (qualquer que seja ela). Não tem mesmo como a gente se encantar com um cara tão babaca.

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PS.: em tempo: os camarotes, não se esqueçam, eram os lugares altos nos teatros de onde os ricaços podiam cuspir e jogar merda na população que não tinha seu *STATUS*; a “cultura da pulseirinha VIP“, portanto, evoca o que há de mais escroto em nossa tradição cultural de colonizados por países europeus.

“O” black bloc está estranho. Não é nada à toa.

Manifestação contra a ALCA em 2002, Sampa
Manifestação contra a ALCA em 2002, Sampa

Daí que em junho vivemos uma forte onda de manifestações. Elas deram uma diminuída (mas nem tanto) em julho e agosto, mas retornaram (principalmente no Rio de Janeiro) a todo vapor nas últimas semanas. A violência policial que acompanhou as manifestações de junho até agora também ganhou força nas últimas semanas. Há alguns dias em Sampa cerca de 50 pessoas foram presas simplesmente por se manifestarem. Diante de todo esse enrosco, um suposto “grupo” começou a se destacar: “o” black bloc. Quer dizer. Estou aqui pra mostrar a vocês que, justamente, não é bem assim a história.

“O” black bloc não existe

Pra começo de conversa, existe uma tentativa desonesta por parte de grupos conservadores (esses que tem muito espaço nos meios de comunicação, que sempre ocuparam posições de poder em nossa sociedade) de fazer com que acreditemos que existe um grupo organizado chamado “Black Bloc”, que teria líderes, uma ideologia, etc. Não acreditem nisso. Não existe “o” black bloc. “Black bloc” é uma tática usada durante confrontos em manifestações. Ela serve para a segurança dos manifestantes quando é preciso lidar com violência policial e, em alguns casos, como tática de radicalização. Em geral quem manja dessa tática e acaba colocando-a em prática são grupos anarquistas, justamente pela história de como ela se desenvolveu (e, olhem, para o meu espanto até a página da Wikipedia sabe disso).

Isso significa que quem domina a tática pode empregá-la. Faz parte dessa tática utilizar máscaras e roupas pretas. As primeiras servem para preservar os manifestantes em black bloc de identificação e perseguição política (e policial). As segundas servem para identificá-los frente aos demais manifestantes. Os manifestantes em black bloc já me defenderam de muita bomba de gás, bala de borracha e perseguição policial com suas barricadas, no início dos anos 2000 (leia um pouco dessa história aqui). Por isso a minha desconfiança quando vejo manifestantes trajados como aqueles que formam os black blocs rasgando bandeiras de partido e brigando com a direção das passeatas. Fico ainda mais incomodada quando vejo, diante disso, meus companheiros e companheiras da esquerda dizendo que deveríamos expulsá-los de manifestações. E digo:

Galera, que merda é essa, agora?

Está tudo ainda bem estranho

 Nesse debate sobre black blocs, eu realmente me pergunto se meus companheiros da esquerda estão *de zoeira* ou se são apenas extremamente desmemoriados. Não faz o menor sentido esse ataque repentino de manifestantes em black blocs aos demais manifestantes! Vamos pensar com a cabeça, meu povo. É duro ver a bandeira do partido rasgada, mas muita calma nessa hora. Recorramos aos fatos:

Não vou repetir aqui que está tudo muito estranho. Um monte de coisas que aconteceram desde que publiquei aquele fatídico texto nos mostraram que minhas suspeitas de um golpe de opinião pública para criminalizar movimentos sociais (e, em especial, manifestantes anônimos) não eram tão absurdas assim. O discurso da mídia de massas fez a associação direitinho, e não foram poucas vezes (o vídeo abaixo tem quase cinco minutos de noticiários editados que evidenciam a mensagem reforçada).

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Seja como efeito desse discurso ou como parte dele, um dado divulgado pelo Datafolha indica que 95% dos 690 respondentes de uma enquete se disseram contra black blocs (sem provavelmente sequer saberem direito o que é isso – dêem uma olhada na pergunta feita aos entrevistados). A pesquisa também mostrou que o apoio a manifestações na cidade de São Paulo caiu drasticamente desde junho. Isso é esperado, depois de tanta manipulação de imagens e discurso propagados no senso-comum, entre quem jamais participou de manifestações ou foi apenas nas mais “brandas” de junho. O que não tem me deixado dormir é que essa mesma manipulação tenha feito tantas companheiras e companheiros militantes da esquerda de bobos. Caíram como patinhos.

Reparem bem, gente: a quem esse discurso serve? Quem se beneficia mais, em nossa sociedade, de ter militantes de esquerda contra outros militantes de esquerda?

(não preciso responder, né?)

Não parece pra vocês tudo casadinho demais com o discurso propagado nos meios de comunicação de massas?

Pois eu, que participei de muitas manifestações com pessoas em black bloc, nos últimos 14 anos da minha vida, tenho certeza absoluta de que o anonimato que protege esses companheiros está sendo usado da maneira mais desonesta e escrota possível. Tenho um feeling muito forte de que há sim muita gente infiltrada. Desde junho, aliás. As coisas que vi nas ruas em São Paulo e em Campinas simplesmente não são os grupos de defesa em black bloc e nem mesmo a própria tática que tem esse nome. O que eu vi nas ruas – e o que eu vejo com clareza quando um “mascarado” rasga bandeira de partido – é outra coisa. Essa coisa tem nome, e esse nome é armação.

Não caiamos nessa, companheiras e companheiros. Somos melhores do que isso.

Cartinha ao meu pai e uma foto histórica (pra mim)

Esses dias meu pai, que sempre foi de esquerda, me escreveu perguntando minha posição sobre “o” black bloc. Como pai é pai, eu me animei de responder. Talvez essa pequena carta ajude, de maneira sucinta, a resumir o ponto em que quero chegar aqui neste post:

“black bloc” é uma tática de defesa para quando há confrontos em manifestações. As pessoas que conhecem a tática – em geral ligadas a grupos anarquistas – se vestem daquela maneira para serem facilmente identificadas em manifestações sem sofrerem perseguições da polícia e do Estado. Desde que ficou popular, no fim dos anos 90 com as manifestações contra a globalização capitalista, os grupos treinados em black bloc sempre defenderam os companheiros de esquerda. Em muitas manifestações que fui foram eles que me defenderam de gás lacrimogêneo, balas de borracha e perseguição da polícia… Mesmo sendo anarquistas eles nunca se opuseram aos demais grupos e partidos de esquerda. Sempre estiveram junto conosco.
_
O que eu percebo que está acontecendo desde junho é uma tentativa de criminalizar “mascarados” para em seguida criminalizar movimentos sociais em geral; lembra do Subcomandante Marcos, da guerrilha zapatista? Que andava com a cara coberta e a mídia chamava de “bandido” e o Estado perseguia? Pois então. Eu acho que a estratégia dos grupos conservadores é essa. Pra fazer com que essa ideologia se propague com mais força, eu suspeito que estejam inflitrando gente, vestida como se fossem de grupos que fazem black bloc, para rasgar bandeiras de partido e promoverem destruição gratuita fora do contexto de confronto. Aí esses grupos conservadores estão tendo o resultado que esperavam: a própria esquerda está querendo “eliminar” quem estiver “mascarado” ou vestido como grupos que atuam em black bloc. O que eu vi nas ruas em junho (e descrevi naquele texto que ficou famoso – “Está tudo tão estranho, não é à toa”) só reforça, pra mim, essa percepção.
_
Na minha experiência de 14 anos de militância e manifestações por diversas causas, com e contra diferentes governos e políticas, nesse Brasil pós-ditadura, é essa a análise que eu acho mais coerente. O resto simplesmente não faz sentido na minha cabeça.

Na época em que fui mais defendida por manifestantes em black bloc, quando lutávamos contra a ALCA e contra privatizações, entre outras coisas, eu era mais ou menos assim:

Eu, em manifestação contra a ALCA. Sampa, 2002. Devia ter uns 15 anos. Acho.
Eu, em manifestação contra a ALCA. Sampa, 2002. Devia ter uns 15 anos. Acho.

Eu também já usei nariz de palhaço. Só que na época não havia coxinhas se apropriando dessa simbologia pra protestar “contra a corrupção”. 😉

 

 

5 bons conselhos para a véspera do ENEM

O Enem ganhou, nos últimos anos, uma importância cada vez maior no acesso ao ensino superior e a outras oportunidades profissionais e acadêmicas no Brasil. O desempenho na longa prova serve para distribuir as vagas das universidades federais (por meio do Sisu) mas também como avaliação para entrada em universidades particulares, distribuição de bolsas do Prouni, acesso a financiamento estudantil (Fies), e até mesmo como forma de classificar candidatos a intercâmbios no programa Ciências Exatas Sem Fronteiras. Ao mesmo tempo, o exame foi sendo reformulado para se adequar às exigências curriculares atuais do ensino médio, mas também para que seus resultados sejam cada vez mais seguros e, na medida do possível, mais “meritocráticos” (deixo a discussão sobre tal conceito pra outra hora).

Tudo isso significa, para os estudantes do ensino médio, nesta sexta-feira, apenas uma coisa: tensão.

No sistema escolar, estamos acostumados a sermos avaliados de acordo com nosso desempenho em provas, notas, exames. Faz parte do funcionamento desse sistema e da estratégia que ele usa para se auto-reproduzir (explicando Bourdieu de maneira um pouco simplificada). Aos poucos, internalizamos que só valemos, como seres humanos, aquilo que nosso boletim mostra. Essa ideia é bem cruel, e está tão disseminada que mesmo alunos de escolas que não são voltadas para o vestibular sentem o mundo sobre seus ombros em dias de provas como o Enem.

Por isso, trago a vocês 5 bons conselhos do que fazer na véspera do Enem (e também na véspera de vestibulares e outras provas, entrevistas e seleções que vocês farão ao longo da vida – avis: não são poucas e muitas vezes farão o vestibular parecer uma doce brincadeira…).

1. Não estude

Estudar na véspera de provas importantes é uma das piores coisas que fazemos. Em geral isso ajuda a aumentar a tensão, já que sempre haverá coisas das quais não lembramos bem, pontos obscuros que poderíamos ter resolvido antes, etc. Como o Enem é uma prova analítica e menos conteudista que a maioria das provas escolares e dos vestibulares, concentre-se na maneira de usar aquilo que você já sabe em vez de se torturar pelo que você não aprendeu. De toda maneira, aquilo que você não aprendeu até ontem, definitivamente não será aprendido hoje. Deixe os estudos de lado já e só os retome na segunda feira: você frequentou a escola o ano todo, teve tempo pra estudar (e pode ser que tenha de fato estudado) e agora merece um descanso. Aproveite.

2. Confira seus relógios

O Enem tem essa perversidade de sempre ser realizado logo depois da mudança para o horário de verão (nos estados em que há horário de verão, claro). Por isso, não esqueça de checar se todos os relógios à sua volta estão sincronizados. Assim você evita que, na pressa, amanhã, você se paute pelo relógio do microondas que era justamente o único que ninguém lembrou de atualizar. Pois é. Não custa nada gastar cinco minutinhos checando se todos os relógios da sua casa, carro, celular, pulso, amigos, família, computador, etc. estão no horário correto.

3. Revise horário e local de prova

Esse conselho é básico, a princípio. Mas todo ano há quem chegue atrasado porque esqueceu horário, entendeu errado, achou que o local de prova era um e era outro, ou achou que a “Rua da Independência” era um lugar e quando chega lá era “Avenida Independência”, enfim. É sério o negócio: justamente porque parece uma tarefa tão idiota lembrar o horário e o local da prova é que tanta gente se atrapalha com isso. Não se superestimem nesse aspecto. Na hora do nervosismo, da pressa, dos imprevistos, tudo pode acontecer. Pegue o endereço exato do local de prova, confira no Google Maps, confirme com sua carona ou cheque os ônibus que  você vai precisar pegar. Calcule sempre chegar com uma hora de antecedência. Assim, na pior das hipóteses, no pior dos imprevistos, você tem uma hora extra pra decidir como agir pra chegar a tempo.

4. Vá ao supermercado

 Comida em geral nos deixa feliz e relaxados. Vá ao supermercado e escolha coisinhas leves mas saborosas para comer durante a prova. Um saquinho de cerejas ou outra fruta fácil de comer, por exemplo. Uma barrinha do seu chocolate favorito. Frutas secas. Castanhas. Pringles. Só não esqueça de não comer demais na noite anterior e no dia da prova, já que qualquer emergência gastrointestinal pode ser um desastre.

5. Monte sua mochilinha com o kit-prova

Não deixe para a última hora. Você vai ficar muito mais tranquilo/a se souber que tudo está certinho na mochila: caneta preta de tubo transparente, documentos, dinheiro, cartão de inscrição, questionário socioeconômico, celular. Coloque tudo numa bolsinha ainda hoje. É mais fácil ter de lembrar de levar apenas a bolsinha do que memorizar a lista toda de coisas amanhã, enquanto se preocupa com horário e sentindo a tensão da prova.

“O professor” não existe: desigualdades em gênero, número e grau entre o professorado brasileiro

Embora sejam maioria entre o professorado brasileiro em todos os níveis, as mulheres ainda têm menos acesso a segmentos mais valorizados como o ensino médio e o superior.

Certa vez faciltei um workshop sobre desigualdade de gênero no ensino superior e na ciência, em um congresso de jovens ativistas. Com participantes de diferentes países, formamos grupos de três ou quatro pessoas. Eu falava algumas palavras e eles precisavam desenhar uma representação gráfica do que eu pedia. Em inglês, há a vantagem de os substantivos de profissão raramente possuírem gênero. Assim, quando eu pedi que desenhassem “a preschool teacher”, eles poderiam ter desenhado um homem ou uma mulher que fossem professores de pré-escola. Todos os grupos desenharam mulheres. Dali a alguns desenhos, mais adiante, pedi que representassem “an university professor” – ou seja, um docente de universidade. Quase todos os grupos desenharam figuras masculinas, com exceção de um pequeno grupo de norueguesas e finlandesas feministas que participava da discussão.

Nesta terça-feira (15) comemoramos o “dia do professor” no Brasil. Minha experiência como professora, assim como a anedota do workshop, mostram que esse “o professor”, assim, no geral, simplesmente não existe. Os professores e professoras são uma categoria que inclui diferentes tipos de trabalho, salário e prestígio social. Ao contrário do que a generalização da figura de “o professor” pode sugerir, porém, os homens são minoria no professorado em nosso país. Diferente do que podemos imaginar a partir dessa informação, por outro lado, são eles que ocupam os cargos de maior salário e prestígio.

Num texto um pouco longo, trago algumas reflexões – tão esquecidas e tão necessárias – sobre um dos diversos tipos de desigualdade do nosso sistema educacional: a desigualdade de gênero entre docentes de todos os níveis. Continuar lendo “O professor” não existe: desigualdades em gênero, número e grau entre o professorado brasileiro

Mataram um menino. Tinha arma de verdade.

unicamp 2013
Unicamp, em setembro de 2013

21 de setembro, 2013. Leio a notícia do assassinato de um estudante da Unicamp. Foi numa festa. Uma festa daquelas que passei 4 anos de minha vida frequentando e – ainda mais – organizando. Uma festa daquelas que me fizeram responder inquérito disciplinar na reitoria, no não tão longínquo ano de 2007, por fazer parte do Centro Acadêmico de Ciências Humanas. Uma festa que inaugurou um período em que fazíamos festas todos os dias como estratégia de não-violência na luta contra o posicionamento fascistóide da reitoria, comandada pelo excelentíssimo senhor reitor José Tadeu Jorge: o mesmo iluminado que na semana do assassinato de Denis Casagrande, seis anos mais tarde, tirou o corpo fora dizendo que a universidade não tem nada a ver com as festas.

Ora, a política da Unicamp, enquanto instituição, e também o reitor, têm tudo a ver com as festas e seus desdobramentos. Para entender isso, é preciso um pouco de contexto. Continuar lendo Mataram um menino. Tinha arma de verdade.

Queridas ruivas,

foto de um encontro de ruivas, UOL

hoje fiquei sabendo que vocês decidiram se encontrar. Parece tudo muito legal, muito lindo e eu tenho certeza de que vocês têm a melhor e mais inocente das intenções ao fazê-lo. Mas me deixem explicar umas coisinhas.

Vivemos numa sociedade brutalmente desigual e altamente racializada. Isso significa duas coisas importantes:

Primeiro, que há diversos tipos de desigualdades (de gênero, de raça, de sexualidade, de classe social, de acesso à educação, etc-etc-etc-quase-sem-fim) que se entrecruzam. Todo mundo ocupa posições variadas em relação às diferentes desigualdades. Uma mulher branca sofre discriminações diferentes das que sofre um homem negro, por exemplo. Se essa mulher for magra e esse homem gordo, as relações são ainda outras. Se o homem negro for heterossexual e a mulher branca for lésbica, então… Entendem? Ok. Guardem a informação. Continuar lendo Queridas ruivas,

Fui uma adolescente feliz

Screen-Shot-2013-02-27-at-8.59.15-AMA todas as meninas, meninos e menines que tive a honra de conhecer quando adolescentes, fosse como professora de inglês ou de sociologia. A quem não conheço mas passa pelas dores e delícias de ser adolescente hoje.

Bonitas, bonitos e bonites;

uma vez vocês me perguntaram por que eu gostava tanto de vocês. Devo ter respondido o mesmo que digo agora: fui uma adolescente feliz. É claro que a vida não dá trégua e nem tudo foi lindo. Quando adolescente vivi a morte do meu melhor amigo. Vivi medo de ficar grávida apesar de todos os métodos contraceptivos. Vivi o medo de “não dar certo”. Vivi o peso do mundo em minhas costas. Achei que a escola me definia. A adolescência é difícil. Não tem outra palavra. É difícil, mesmo. Ao mesmo tempo, parece que a maioria dos adultos se esqueceu de quão difícil é esse pedaço da vida, e acaba infernizando ainda mais a vida de quem o experimenta. Pois é. Tem gente que esquece rápido. Eu não esqueço.

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