Oh, my God! Esses médicos não falam português!

Casa e locais onde fui atendida sem me comunicar na mesma língua do que o médico.
Casa e locais onde fui atendida sem me comunicar na mesma língua do que o médico.

Vou contar um treco pra vocês. Desta lenga-lenga toda da (falta de) classe médica sobre o programa Mais Médicos do Governo Federal, não tem argumento mais babaca do que o limite linguístico. BA-BA-CA.

Nessa breve vida louca, eu fui atendida em duas ocasiões por médicos que não falavam a minha língua. Uma vez em Seul, na Coréia do Sul e numa outra em Zonguldak, no interior da Turquia, litoral do mar negro. Na primeira vez a médica arriscou um inglês que não foi lá muito útil mas entre gestos, desenhos e muita paciência consegui explicar que eu tinha hipotereoidismo, havia perdido meus remédios e precisava de receita ou remédio pra mais 4 dias de viagem. Vejam só.

Na segunda, na Turquia, eu estava sofrendo de diarreia e consequente desidratação.

Zonguldak é uma cidade sem infraestrutura alguma, pequena, abandonada, que vive de mineração e convive com suas consequências nefastas. É uma cidade suja, pobre e feia, com uma prefeitura municipal extremamente corrupta, governada por oligarquias locais, e absolutamente oportunista. Soa familiar? Sabem em que país tem mais um montão de pequenas cidades assim? Pois é.

Na primeira noite na cidadezinha eu já estava no país havia alguns dias (quase uma semana) e já vinha tentando controlar a diarreia e a desidratação. Ao chegar no hotel em que fomos hospedados, à noite, minha pressão caiu, vomitei, quase desmaiei. Enfim. Comecei a ter um piripaque e me levaram para um pronto-socorro público. O cenário era exatamente o mesmo que encontrei em viagens pelo Brasil. Espera longa para ser atendida, casos de urgência gravíssimos irrompendo pela madrugada sem grandes esperanças de cura, famílias sofrendo com seus doentes, crianças chorando assustadas. Eu lá, com uma amiga turca mas sem entender uma única palavra do que estava sendo dito ao meu redor.

É claro que o conforto de ter uma amiga que conseguia se comunicar comigo e com os médicos ao mesmo tempo parecia uma grande salvação. Qual não foi minha surpresa quando, na hora de me atender, ela não pôde vir. “Você tem que ir sozinha”, ela falou. Perguntei se a médica falava inglês. Não, não falava. Fiz uma cara de “então como?” e ela levantou os ombros como quem diz que não tem a menor ideia. Pois lá fui eu com a médica.

Depois de aprender a pronunciar meu nome – e de me confortar o tanto de esforço dela em fazê-lo, o que indica um pequeno raio de humanidade num médico -, a doutora turca conseguiu não me lembro como perguntar o que eu tinha. Com um gesto um tanto dramático (argh!) expliquei que estava com diarreia havia alguns dias. Ela me botou sentada numa maca, apertou minha pele, me examinou e mandou chamar minha acompanhante. Aí sim, em turco, ela explicou para minha amiga, que me explicou em inglês, que eu estava com desidratação decorrente da diarreia e me receitou dois remedinhos bobos que tomei até voltar ao Brasil e marcar uma consulta com um clínico só pra checar se a doença tinha realmente passado, se não era nada grave, etc. Não era. Poderia ter sido, porém, se eu não tivesse tido atendimento médico nenhum.

Não sei se vocês sabem, mas a diarreia é um exemplo excelente para pensarmos na diferença enorme que os médicos estrangeiros farão no sertãozão do Brasil, mesmo que viessem da Turquia sem falar uma palavra de português (o que não é o caso; os mesmos imbecis que reclamam que os cubanos não falam português se recusam a pagar por aulas de espanhol e se comunicam só com português em seus feriadões em Buenos Aires, convenhamos). Com uma diagnóstico fácil e um tratamento ainda mais fácil quando diagnosticada, a diarreia é a segunda maior causa de morte entre crianças no mundo. Segundo um artigo no Jornal de Pediatria, há mais mortes por diarreia do que por HIV/AIDS e malária no planeta, em todas as faixas etárias. Não é pouca coisa.

Quem morre de diarreia na verdade morre de abandono. Morre porque o Estado abandonou primeiro deixando o saneamento básico, e abandonou de novo ao falhar no atendimento médico preventivo e de base. É nesse segundo abandono que o Mais Médicos vai agir. Problemas de diagnóstico e tratamento simples como hipertensão, diabetes, entre outros, deixam de ser causas de morte quando um médico – qualquer médico – é capaz de examinar o paciente, receitar um remédio e cuidados básicos que podem ser comunicados, na pior das hipóteses, com desenhos (e vocês lembram que uma parte razoável da nossa população não consegue ler e entender receitas médicas, prescrições escritas, etc, certo?).

O fato é que ninguém precisa falar português pra diagnosticar diarreia. A diarreia e outras doenças que os médicos brasileiros que jamais saíram de grandes centros urbanos devem achar “bobagenzinhas”, porém, tornam-se mortais quando não diagnosticadas e tratadas.

Agora, se um médico é incapaz de reconhecer a importância disso e julga mais importantes seu prestígio e seu sonho individual de ter um consultório renomado, fazendo rios de dinheiro, é porque a vida humana lhe deixou de ser cara há muito tempo.

 

2 thoughts on “Oh, my God! Esses médicos não falam português!”

  1. Marília, me desculpe, adoro seus textos.
    Mas devo admitir que esse você pegou pesado em uma comparação sem pé nem cabeça.

    Eu também sou favor da vinda de médicos cubanos e estou envergonhada com as atitudes das médicas patricinhas (como vc mesma disse) lá em Fortaleza.

    Mas querer comparar o atendimento que você teve em outros países (os quais vc já esperava dificuldades de comunicação) com no interior a população dar de cara com médicos que não falam português… não faz sentido!

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