O som, ao redor do Butantã

[Aviso: este é um post longo, pois são pequenos fatos que criam o clima de tensão e estranheza que tem estado no ar. Não prometo fazer valer a pena, cada palavra, como em outros tempos. Mas eu preciso deixar pública a informação – e talvez vocês verão que há muito mais para saber do que estão nos dizendo.]

Novamente, escrevo com a impressão de estar ficando maluca. Agora sei, porém, que os tempos é que estão loucos. Vivemos definitivamente uma tensão crescente entre classes sociais e interesses políticos no cenário nacional. O pior é que o momento de instabilidade, como tanto frisei em junho do ano passado, pode ser aproveitado para muitas coisas. Alguns discursos ganham força, e em geral os que pretendem retroceder nos direitos humanos e na democracia são os que se tornam mais populares.

Não se trata apenas de “fazer justiça com as próprias mãos” – como vimos em tantos casos recentes. Se trata de uma visão distorcida de mundo e de humanidade, em que cada um se coloca na posição de juiz e executor dos demais. Feriu minha moral sendo negro, homossexual, ou fazendo algo que desaprovo? Eu mato. A polícia e a justiça em geral se posicionam ao lado desses, e contra os princípios que deveriam em tese defender (como os direitos humanos, assegurados em nossa constituição e na declaração internacional da qual o Brasil é signatário). Nunca em minha breve vida de brasileira eu havia visto o Estado (porque a polícia é sim parte do Estado) sequer se envergonhar de ferir esses princípios. Assumir, sem vergonha nenhuma, que não somos todos cidadãos diante de seus olhos e de seu julgamento.

Estou com nojo. Muito nojo disso tudo.

Compartilho com vocês alguns fatos recentes que me deixaram com a orelha em pé, pronta para meses que provavelmente serão muito piores e nos quais veremos coisas tão ou mais escrotas quanto essas acontecerem. Preparem o coração.

UM

Moro num condomínio de prédios de classe média bem média, num bairro que tem pedaços bem pobres e outros bem mais ricos do que onde eu moro. Nunca foi um bairro especialmente violento. Sempre foi possível andar tranquilamente pelas ruas daqui – ou pelo menos tão tranquilamente quanto no resto da cidade. A maior favela da região sempre teve organização comunitária forte (eu mesma conheci alguns de seus líderes na época em que a secretaria da juventude da cidade era aberta semanalmente a organizações de jovens, na gestão da Marta Suplicy). O bairro sempre foi policiado, e há dois batalhões da PM bem próximos, um deles a menos de 1km de distância, exatamente ao lado da favela.

Na semana passada, apareceu no espaço destinado a recados, no elevador do meu prédio, um folheto chamando os moradores a participarem de uma “passeata pela segurança na região”. Olhei torto, extremamente desconfiada: haveria acontecido algo de que eu não estava sabendo? Quem estava contabilizando estatisticamente que o bairro estava mais violento? De onde veio esse discurso? Quem estava organizando a passeata (não havia essa informação no cartaz, claro)? Com que objetivos? Na prática, nada de anormal havia acontecido. Pelo menos até a semana passada.

DOIS

No último sábado estava um silêncio meio anormal. Não havia o baile funk que habitualmente povoa o ar da madrugada em meu bairro. Havia algumas vozes de pessoas conversando em casas, quintais, talvez na rua. Aproveitei e tentei dormir mais cedo, já que não havia saído e tinha mil coisas pra resolver no domingo. Acordei com cinco tiros. Ritmados. Um seguido do outro. Sincronizadinhos. Cinco.

– Pou! Pou! Pou! Pou! Pou!

Cinco. Contei de novo, mentalmente. Foram cinco. Não era rojão. Não era escapamento de moto. Um homem gritava (acho que foi a única coisa que consegui escutar direitinho, com nitidez, fora os tiros):

– MÃO NA CABEÇA! MÃO PRA CIMA! PÕE A MÃO NA CABEÇA!

O tom de voz e o jeito eram de policial, embora na hora eu não tivesse como saber se era mesmo alguém da polícia. Não havia sons de sirene nem luzes de carros de polícia. Não havia outras vozes (policiais em serviço em geral trabalham em duplas ou grupos). Seguiram-se gritos. A voz do homem se transformara e abaixara, de maneira que eu passei a achar que era outra pessoa falando e que a pessoa que havia atirado teria ido embora. Depois ouvi sirenes – a polícia chegando, oficialmente. Muitos gritos. Muito choro. Eu tive certeza que alguém tinha morrido.

Corri ao facebook, já sem sono, para postar o horror que estava ouvindo. Uma vizinha que me segue e havia conseguido enxergar tudo melhor de sua sacada me contou a cena: o homem que atirara estava no local, enquanto um outro estava caído no chão com uma motocicleta, também derrubada. O homem armado falava ao celular e mandava todas as pessoas e veículos que chegavam ao local passarem direto, impedindo quaisquer transeuntes de observar verdadeiramente a cena. Não havia mais ninguém armado. Não houve mais nenhum tiro além dos cinco que eu ouvi (ao contrário de mim, a vizinha estava bem acordada na hora do ocorrido).

TRÊS

Deu no jornal: moradores incendeiam ônibus em protesto contra morte de jovem. Fui ler e soube que a poucos metros da minha sacada uma das balas disparadas na madrugada acertara uma menina adolescente, que morreu na hora. O jornal chamou de “tiroteio”. É possível um tiroteio de uma pessoa só? Claro que não era só essa a mentira deslavada contada pela polícia aos jornalistas.

Inventaram um tiro que teria partido de um suposto assaltante – tiro esse que ninguém ouviu.
Inventaram que eram dois numa moto, e que o segundo teria fugido com a moto e, óbvio, por isso ninguém encontrara a arma deles. O detalhe é que a moto estava lá, caída no chão, deixando mais evidente que havia ali uma distorção proposital dos fatos, por parte da polícia. Do segundo ninguém tem notícia, também, claro.

Não dá pra saber, com as informações que tenho, se inventaram que estava rolando um assalto, mas eu não me surpreenderia se inventassem, considerando a forte ligação de policiais civis e militares com grupos de extermínio, frequentemente usando esse disfarce, de supostos assaltos, para assassinar jovens negros e pobres como o que estava caído no chão, no meu bairro, naquela madrugada. Dá pra saber, além disso, que existe um interesse de grupos conservadores contra os direitos humanos (por exemplo, quem defende redução da maioridade penal) em instaurar o pânico da falta de segurança. Com medo e em pânico, fica fácil obter apoio popular para políticas públicas que ameaçam a democracia. A ditadura militar no Brasil foi instaurada com apoio popular, utilizando essa mesma estratégia. Do pânico para o Estado de exceção é um passo muito curto.

QUATRO

Passei o dia com a história toda na cabeça. Me perguntando se o carro que escutei sair arrancado da garagem do meu prédio pouco tempo antes era o policial civil indo atrás de alguém na rua. Mesmo que não seja, de fato, poderia ser. “Esse cara pode ser meu vizinho”, pensei. “Que nojo!”

Quando cheguei em casa agora à noite havia um carro em chamas, no meio da rua. Uma viatura e dois PMs ao lado. Muita gente na rua olhando. Tremi. Que era aquilo, agora? Mais um ato encenado? Quem botara fogo ali? Entrei e tentei falar com os porteiros, que não atenderam o interfone. Logo consegui contatar a vizinha que havia passado o dia ali. Ela desceu e voltava com informações.

Parece que ontem, quando o policial civil disparava os cinco tiros que me acordaram, moradores dos prédios – que são um tanto mais ricos do que os moradores das casinhas e do “vale” que é formado por algumas ruas mais para baixo – gritavam em tom de torcida organizada frases como “Morre”, reforçando a sede “justiceira” do assassino fardado (que não estava fardado, aliás, porque não estava em serviço). Então os moradores da comunidade, sabendo que poderia ter sido qualquer um deles o alvo do policial e o alvo do ódio dos coxinhas que gritavam na janela, simplesmente por existirem como negros e pobres neste mundo, decidiram dar o troco queimando o carro na frente de um dos prédios da rua.

Escutei esses dias muita gente falando que “o governo” ou “a mídia” teriam incitado um ódio entre classes sociais. Ledo engano. Essa tensão, esse ódio, sempre existiu. É da exploração de uma classe que a outra se sustenta. Essa situação é inerente à existência de classes e ao capitalismo (está lá em Marx, “luta de classes”, podem procurar – um dos conceitos mais antigos do pensamento de esquerda). Ela extrapola a situação econômica, também, como mostrou um cara chamado Pierre Bourdieu. Contudo, segue firme e forte no século XXI. Está aí.

A ideologia conservadora que vai contra os princípios democráticos e os direitos humanos sustenta a exclusão e a desigualdade. Sustenta uma série de privilégios e poderes extremamente mal distribuídos como são hoje. Faz, neste sistema, a roda do capitalismo (que não existe sem essa discrepância) girar.

O que me choca é ver o Estado e suas instituições assumirem, sem a menor vergonha ou pudor, que os princípios democráticos e os direitos humanos não são uma prioridade no Brasil, hoje. Isso tem acontecido desde o ano passado em diversos níveis, mas está ficando cada vez mais forte. Ao fazê-lo, o Estado dá aval para grupos de justiceiros e fascistas tomarem em suas mãos as vidas dos segmentos mais vulneráveis da população – como é o caso dos jovens negros, que estão sendo exterminados como ratos em episódios cotidianos iguaizinhos esse do meu bairro, Brasil afora.

CINCO

Juntando as pecinhas, algumas perguntas me atormentam nessa madrugada: quem organizou a passeata “pela segurança” num bairro que não tinha nenhum problema específico com segurança naquele momento? Por que um episódio tão violento aconteceu bem ao lado dos prédios de classe média que haviam sido convocados para a tal passeata? Por que logo poucos dias depois da tal passeata, que não tinha nenhuma reivindicação específica? Por que a polícia distorceu o ocorrido? Por que justamente aqui tantos moradores teriam gritado incentivando o policial civil a executar uma pessoa?

Neste fim de fim de semana me sinto no filme de Kleber Mendonça Filho, “O Som Ao Redor”. A poucos metros, um muro e muitas injustiças de distância de mim, um jovem foi baleado e uma adolescente morreu. Ambos pobres. Sem evidência de assalto. Sem evidência de que houvesse mais alguém armado. O policial civil atirou cinco vezes porque ele quis.

Eu honestamente gostaria que isso tudo fosse ficção.

Sigo de olhos abertos.

18 comentários sobre “O som, ao redor do Butantã”

  1. DesIngenuidade achar q o Butanta esta tranquilio, sem problemas de segurança. Estao causando o apavoramento da populaçao pq querem nos expulsar do bairro. A bandidagem quer expulsar pq quer dominar o local. Veja como somos incovenientes: queremos policia e como os traficantes vao deitar e rolar com policia o tempo todo na rua. Da minha parte so nao mudo daqui e ja moro na regiao a mais de 30 anos pq meu filho faz usp. Caso contrario iria embora pq tanto ele ja foi assaltado como eu levei um tiro em uma tentativa de assalto q me atravessou o braço.

  2. Excelente texto, muito bom mesmo!
    Li por completo, em um momento que acordei de madrugada (3:21 agora), pensando onde exatamente iremos parar, se é que vamos parar em algum lugar. Tamanha violência barata nos últimos meses, egoísmo, trapaças, ganância.
    Uma bola de neve que eu tenho muito medo por não saber onde vai parar…
    Fiquei sabendo deste caso do R. Peq. Minha noiva mora na O. Tnik. As informações disponíveis na mídia foram todas bem sem nexo, o que não é de se esperar muito, pois a mesma tem “no sangue” todos os aspectos indesejáveis das piores pessoas que vimos no dia a dia, e se aproveitam e gostam de tudo que tem acontecido ultimamente.
    Não sou bom em textos, mas gostaria apenas de deixar meu comentário e que gostei da leitura e me identifiquei bastante.
    Não sei se é a solução para tudo… Mas eu realmente quero transformar meus planos em realidade de morar na terra do Tio Sam, apesar de nunca ter gostado dos americanos e seu jeito orgulhoso e patriota ao excesso, mas passei a reconhecer que não há comparação entre os 2 países e seus habitantes, cultura,ppensamentos e obviamente segurança. Estou torcendo muito e batalhando para que dê tudo certo, creio que será um ótima escolha e oportunidade de voltar igual ou melhor que os meus tempos de infância aqui nesta cidade louca e país pior.Obs: Por favor, aceite este comentário e não o outro, pois marquei neste a recepção de avisos de respostas, obrigado.

  3. Interessante seu depoimento, mas o bairro tem sim sérios problema com segurança principalmente dentro da usp. No ano passado teve arrastão no ponto de ônibus do IAG, teve assalto que saiu ate tiro dentro do ônibus da usp, fora os inúmeros casos de assalto aos arredores, muitos deles bem violentos. Imagino que essa passeata tenha sido organizada pelos alunos, tem ate um grupo no facebook (“segurança usp e arredores”) que debate ações nesse sentido. Acho que fui convidado para participar dessa passeata mas não lembro direito.

    Concordo que tudo isso seja bastante reacionário e que existe vários grupos políticos que tem interesse nesse tipo de ação mas a segurança nessa área é sim problemática.

  4. Concordo de forma absoluta com todos os pontos discutidos… sem dúvida. Mas sou moradora da região a mais de cinco anos e tenho de dizer que SIM, a criminalidade aumentou de forma gritante nos últimos dois anos. Eu mesma fui assaltada por dois adolescentes que portavam uma arma, e detalhe, era uma hora da tarde, e havia pessoas na rua; só não fui assaltada em frente do meu prédio à noite porque o garagista percebeu a movimentação, chamou o segurança e os dois foram em minha direção. Minha amiga foi assaltada na rua ao lado – não contentes em roubar os pertences da menina, acertaram um soco na boca dela – a dor passou, o medo não. Meu amigo foi assaltado chegando no prédio. E assim segue – relatos de estudantes que saíram pelo portão três em direção à Assunção e foram assaltados não faltam, quem tem contato com os frequentadores da USP sabem bem disso. Além dos roubos, muitos ainda apanharam (reagindo ou não). É por isso que as pessoas estão tão revoltadas – não se pode caminhar até a Universidade, até o trabalho, sem medo de ter os pertences roubados ou a integridade física ameaçada, independente de horário ou rota. A passeata foi por isso – se todos somos iguais, porque todos não temos o direito à liberdade de ir e vir com segurança? Uma das propostas da passeata era justamente chamar a atenção para esses episódios que ocorrem na região e solicitar o aumento do patrulhamento (entenda-se, aumento do patrulhamento e não da violência contra nenhum ser humano) para garantir que as pessoas que transitam na região possam fazê-lo sem medo. Eu não saio mais de casa a pé – nem faço os 20 minutos que me separam do trabalho andando (o que fiz por anos); e as pessoas que não têm essa opção, como ficam? Há muitos estudantes na região que precisam caminhar até a Universidade, eles têm menos direitos por não serem classificados como uma classe marginalizada? Essa questão é complexa, e certamente tem mais de um lado a ser analisado.

  5. Queria compartilhar duas histórias que presenciei nos últimos dois dias. Ambas próximas de casa próxima do minhocão.

    Antes de ontem passando de carro vi um rapaz negro ser espancado por pelo menos 4 caras brancos. Uma viatura atrás de mim fingiu não ver o incidente. Quando consegui um lugar para parar os agressores tinham fugido. Perguntei para o rapaz se ele queria que eu chamasse uma ambulância e ele fez que sim com muito esforço. Os transeuntes disseram que ele não tinha pagado as cervejas que tomara num bar no Arouche e que os funcionários o perseguiram e o espancaram. A polícia chegou pouco depois e chamou o resgate que o levou embora. Antes de ir um bombeiro olhou pra mim e disse: “Não precisa ficar com dó. Era um bandido.”

    Ontem a noite ouvi uma correria e fui até a janela ver o que estava acontecendo. Dois caras com paus corriam atrás de um terceiro. Ele tentou se refugiar num bar, mas as pessoas o empurraram de volta para a rua. Ele então tomou uma paulada que o deixou sangrando muito. Gritamos da janela e os agressores fugiram. Uma moça que estava no bar: “O que que você fez?” “Não fiz nada.” “Se apanhou assim é porque fez alguma coisa.”. Muito ensanguentado e irritado o homem ficou perambulando e gritando pela rua.

    Não sei porque estou te contando isso. Acho que me identifiquei com sua aflição. Pode ser que as histórias não tenham a ver umas com as outras, mas de qualquer forma estou precisando por essas coisas pra fora.

  6. Eu moro no bairro também.
    Não sei dizer a dimensão do problema de segurança do bairro, que você parece expressar no texto não existir.
    Só sei que já ouvi gritos de pessoas sendo assaltadas lá pelas 5h, 6h da manhã próximo a minha casa. E vários colegas que também moram nas redondezas serem assaltados. Não sei… Só sei que evito sair de casa com coisas de valor.
    E também me preocupa esse fascismo que se alastra…

  7. Marília, concordo com muita coisa que vc falou, inclusive sobre a moto, que estava mesmo caída as 4:00 da manha na hora que passei lá. Agora, sobre a passeata e a violência, talvez você não tenha ouvido falar mas eu mesmo senti aumento na violência no bairro, pq nunca havia visto evidência de viência, mas de mebis de um ano pra cá eu vi. Ninguém me cintou, eu vi. Agora se são jovens negros e pobres, não é coincidência. Infrlizmente tiveram menis oportunidade e etc, mas o fato é que foram para esse lado, do crime. E nenhum cidadão nessa hora pensa “fui assaltado ppr alguém que não teve chance na vida, coitado. Eu perdôo

  8. Muito bom seu texto!
    Eu moro no Butantã e também gostaria que tudo isso fosse ficção. Quanto a passeata, o zelador do meu prédio falou há semanas que ela iria rolar e o motivo são os assaltos no bairro. Moro perto do Portão 3 da USP e ali na região tem uma gangue de motos que tem assaltado moradores quando eles chegam em casa. No meu prédio vários moradores foram vitimas desses assaltos.Como resultado meu prédio está adotando mais medidas de “segurança”, que obviamente só reforçam o fosse social que existe entre a classe média do meu prédio e os moradores dos bairros pobres da região. As classe média ainda não entendeu que desigualdade e indiferença gera violência e que portanto, a culpa é principalmente dela. Uma pena!

  9. Marilia,

    Primeiramente, gostaria de agradecer pelo seu relato. É realmente muito confuso apenas ler o que os jornais e os boatos contam. Tenho uma amiga que estava na Av. Nossa Senhora da Assunção quando foram disparados os tiros, mas ela não conseguiu ver direito o que acontecia.
    A tal passeata também me causou estranhamento. Ainda mais que, segundo o jornal, foram todos de branco cantar o Hino na frente da delegacia… parece coisa de quem tem saudades da ditadura.
    Mas eu discordo que não haja um problema de segurança no Butantã. Por exemplo, houve, recentemente, um arrastão num ponto da USP aproximadamente às 19:30. Pelos relatos que li – um deles de uma amiga minha – os assaltantes agrediram as pessoas no ponto antes mesmo de elas esboçarem qualquer reação. Sem contar os alunos que são baleados em assaltos, especialmente na Vila Indiana, voltando da aula à noite.
    Talvez eu, que vim de uma cidade de 40 mil habitantes, tenha uma visão muito apocalíptica de São Paulo. Mas não consigo evitar ficar completamente apavorada entre duas forças armadas e antagônicas – a PM e os criminosos.

  10. Para ajudar no quebra-cabeças: quem organizou a tal passeata contra a violência foi o “movimento” Segurança USP e Arredores, chefiado pelo sr. Roberto Sekiya, assessor de gabinete da Deputada Federal Keiko Ota (PSB). Essa mulher virou um ícone dessa luta da classe média contra a ‘impunidade’ depois que seu filho foi assassinado em 1997 em um caso que ganhou repercussão nacional. Em 2010 ela foi eleita justamente por levantar essa bandeira, essa passeata deve ser o início da campanha eleitoral dela…

  11. Marília, pelo o que vc descreveu eu tenho idéia de onde vc mora. Eu moro mais pra cima, perto de onde o ônibus foi incendiado. E discordo totalmente qnd vc diz que “quem organizou a passeata “pela segurança” num bairro que não tinha nenhum problema específico com segurança naquele momento”. Na rua atrás da minha existem relatos de assaltos TODOS OS DIAS. Armas apontadas pra cabeça de bebê de 6 meses. Sequestros relâmpagos. Roubos de veículos. Boletins de Ocorrência são feitos mas a polícia diz que os mesmo são inexistentes. Agora não temos mais ônibus na rua, e teremos que andar à pé com tudo isso acontecendo. Mudei pro bairro 1 ano atrás de nesse período a coisa piorou, e muito. A violência (e o silêncio da polícia) acabou com o meu sonho e meu apartamento está à venda.

  12. Oi, Marília. Não pretendo discordar de nada que você escreveu, apenas apontar alguns fatos que aconteceram comigo e com amigos, fatos que podem explicar, em parte, a escalada da atuação dos auto intitulados justiceiros.
    Em novembro último, fui vítima de um quase estupro. Quase porque, de forma instintiva, reagi e, por milagre, fui bem sucedida. Estava saindo da USP, na Av. Vital Brasil, por volta das 22:30. Não estava num local com pouca iluminação e muito espaço, como dentro da própria USP. Não era um horário em que as ruas estão desertas, o metrô, a poucos metros dali, ainda funcionava, assim como padarias e postos de gasolina. O cara simplesmente me agarrou para me derrubar, rasgou minha camiseta, tentou passar a mão entre minhas pernas. Eu bati nele como louca. Derrubei-o. Fiz BO e conseguiram prendê-lo. Tive sorte. Sim, ele poderia estar armado. Todas as noites, quando saio da USP, tenho que escolher entre ir andando para minha casa, caminho que me tomaria 15 – 20 minutos de caminhada porém passando por diversas ruas ermas e escuras, ou pegar dois ônibus, opção que me toma por volta de 1 hora, dado o tempo de espera. Sempre preferi a segunda opção por achar mais segura. Vi, infelizmente, que não é bem assim.
    Nos últimos meses também tem havido aumento no número de assaltos na região da Vl. Indiana, próximo ao portão de pedestres ali localizado. Não só roubos de transeuntes (5 amigos meus foram roubados, a mão armada), mas também em casas – assaltaram a casa da vó de uma amiga em plena luz do dia, ela morava ali havia 50 anos. Dentro da própria USP tenho ouvido relatos de roubos, já houve casos de morte, como foi exaustivamente noticiado e que acarretou o policiamento do campus pela PM.
    Enfim, moro no Butantã há 33 anos. Minha vida toda. Sempre amei esse lugar por ser como uma cidade do interior: todos conhecem todos os lugares, todos os tipos de pessoas… A convivência entre os mais pobres, moradores das diversas favelas, e entre os mais ricos, incluindo aí também os classe média bem média como você e eu, sempre foi muito pacífica. Na década de 90 estudei num colégio estadual da região com garotos que moravam na favela; foram bicheiros, traficantes, ladrões de banco – alguns desses estão presos, outros, mortos. Outros, com as mesmas condições que os que se transformaram em criminosos – pobres, negros, favelados – mudaram completamente de vida, fizeram faculdade, constituíram família e hoje vivem muito bem. Agora, por diversas razões, essa convivência pacífica entre os pobres e a classe média não mais existe.
    É possível verificar estatísticas sobre ações criminosas no site da Secretaria de Segurança Pública. Houve sim aumento no registro de crimes na região do Butantã. Diversos prédios e casas receberam “convocações” para a passeata, não apenas os que ficam ao lado da São Remo, e o “simples” pedido por melhor segurança (a passeata reivindicava mais policiamento na área) não me parece nada despropositado. Talvez o caso que você relatou seja mesmo o de um inocente que foi executado (não entrarei na questão da garota)… A atuação de justiceiros é sim hedionda… Não se pode, porém, culpar toda uma população que clama pelo direito básico de estar segura apenas porque ela não é pobre e favelada. Não participei da passeata, mas por tudo que aconteceu comigo, com meus amigos e com diversas pessoas aqui na região, não acho possível que a teoria da conspiração se estendesse tanto.

  13. Fiquei sabendo que a organização desse ato foi realizada por pessoas ligadas ao PSB, com apoio dos “baratos” e elitizados restaurantes do bairro.

    O Butantã vive um processo muito avançado de Gentrificação (Enobrecimento), como basta ver os projetos de “reurbanização” que já se passaram pelas comunidades do Sapé, 1010 e agora da São Remo.

  14. Oi Marília,

    eu não moro na região do butantã, mas estudo na usp e tenho muitos amigos que moram na região. A região não anda tão tranquila assim, dos meus amigos que moram por ai, há pelo menos alguns meses, não consigo me lembrar quem NÃO foi assaltado. Anda rolando uma onda de assaltos assustadora. Eu entendo que não é só na região, mas em São Paulo, que a violência está aumentando, mas tenho a sensação de que perto da USP a coisa tá pior.

    Enfim, só queria te falar, talvez vc já saiba, que essa passeata que vc está se referindo foi organizada por um grupo do face, Segurança USP e arredores: https://www.facebook.com/groups/223611844461263/
    Não conheço os organizadores, mas entrei no grupo pra saber o que as pessoas andam falando sobre o assunto. Porém parei de acompanhar, pois me deixava nervosa, não sei se era pq o tempo todo avisavam que está tendo assalto ali ou aqui ou por causa do pensamento de “justiça com as próprias mãos”.

  15. Olá, tudo bem?
    Não te conheço mas devemos ser vizinhas. Esse estranhamento que vc sente, eu também estou sentindo já alguns meses… No meu prédio também tinha o cartaz da tal passeata, com deus, pela propriedade, etc…(venha de branco, dizia…!).

    Algumas coisas que juntei sobre isso tudo e talvez possa te interessar:

    1 – A tal passeata, pelo que vi na página do facebook, foi organizada pelo chefe de gabinete da deputada Keiko Ota (http://www.keikoota.com.br/noticia/manifestacao-por-seguranca-no-butanta-reune-mais-de-1000-pessoas-210), do PSD. Se ela ou ele residem no Butantã eu não sei, mas pela foto do site, é possível perceber o aparelhamento político da manifestação né?

    2 – Recentemente me deparei com esse site: http://www.butantaurgente.com.br/
    Me dá arrepios! Não sei quem organiza, ou está por trás disso, mas posso dizer pelo meu prédio que está listado como um dos organizadores, NUNCA ouvi falar desse movimento e nós temos grupo de email etc., isso teria surgido eventualmente. Isso está muito, mas muito estranho.

    3 – Na última gestão da reitoria da USP foi firmado um convênio de ampliação da segurança pela Polícia Militar no Campus. Bom, com os recentes e amplamente divulgados casos de roubos de bicicletas (mais caras do que a casa de muita gente), ficou claro o motivo da PM estar na USP. Acho q isso piora um pouco mais as coisas para o bairro, pois existem diversos grupos organizados pelas faculdades que dão assistência à comunidade São Remo, e que agora estão cada vez tendo seu espaço coibido.

    Acredito que o butantã deve ter no conjunto de moradores um grande número de policiais militares, seja pela proximidade da Acadepol, seja pelos batalhões. Pra aumentar a pressão nas comunidades é um bairro em crescente expansão imobiliária, perto de onde a menina foi atingida está a FIA, que comprou recentemente diversos terrenos para estacionamento e possui diversos seguranças privados que ficam nas ruas e andam de carros com escolta armada (Inclusive a uns quatro anos ocorreu uma tentativa de assalta a carro e esses seguranças iniciaram um tiroteio, que infelizmente matou duas pessoas, e poderia ter sido pior, pois foi minutos depois da saída dos alunos da FIA da aula). Pelo menos pra mim está cada vez mais claro que estamos assistindo a formação de uma milícia, aprovada pelo estado e população.

Deixe uma resposta