Nascer a primavera para não morrer

O lado lindo da instabilidade política é, afinal de contas, a fome de quem acabou de acordar.

Há quem esteja indignado com o nível de despolitização dos protestos em todos os locais do Brasil. No entanto, nada mais natural do que um protesto despolitizado se é a primeira vez que tanta gente vai às ruas. Se somos produto, enquanto nação, de uma história que tem sistematicamente afastado a população da política.

Ir às ruas, porém, é um fato político. Mesmo de maneira despolitizada, ir às ruas politiza. Dá experiência. Aproxima. A vivência da política nas ruas, somada às discussões na internet, lembra os recém-despertos que eles não precisam voltar a dormir mas que, se não ficarem de olhos bem abertos, a bem da verdade estarão sonâmbulos.

Este é um post, mais que de esquerda, muito otimista. Apesar dos pesares. Meu otimismo momentâneo vem da beleza de algumas mensagens que recebi nessa semana. Sem identificar remetentes, compartilho com vocês algumas coisas das mais belas que já li e em seguida respondo como posso ao anseio de politização que tem tomado conta de tantos brasileiros e de tantas brasileiras.

São as flores que começam a povoar essa nossa primavera.

Você tem fome de quê?

Esses são alguns dos recados que recebi na semana passada. Encheram meu coração de esperança. É piegas, eu sei, mas queria dividir aqui com vocês. Digam se não é lindo…

“Tenho 32 anos de idade, voto desde os 16 e infelizmente, para minha vergonha, joguei 16 anos de direito meu no lixo, pois c*guei para a política até hoje. Hoje estou empenhado em mudar a MINHA postura. Se isso vai ajudar a mudar o BRASIL eu já não sei te dizer, mas quero tentar fazer a minha parte e a primeira é me questionar, procurar entender e estudar a fundo os assuntos.”

“Eu sinto, estava sentindo, tudo estranho. E medo. E receio. E via e vejo coisas estranhas. E deu vontade de estudar a respeito. De estar permanentemente alerta.”

“A prática pedagógica é o melhor e mais sincero espelho que já conheci. Dói reconher formas e amarras. Dói mais ainda não conseguir enxergá-las e saber que aqui estão. Nasci em 68 e sou filha do silêncio. Fruto ignorante da ditadura.”

“Você pode me indicar alguns livros de política , de todos os gêneros?”

“Tenho pouquíssimo conhecimento sobre política e sinto que, antes de agir, preciso primeiro conhecer a minha causa e a solução. Se possível, queria te pedir indicações… livros, sites, artigos, cursos, algum meio de comunicação”

“Não sou de esquerda nem de direita, sou um ignorante em política mas ando querendo ler mais sobre o assunto”

“Fiquei muito alienada, agora precisamos nos munir de informações. Meu medo com tudo isso, é a falta de comunicação. Mas só depende de nós.”

“Eu, sinceramente, nunca fui dada a entender a política a uns aninhos (poucos mesmo) atrás, mas venho tendo a sede de entender o que acontece e o por quê.”

É preciso estar atento e forte

Como fazer, então, pra manter os olhos abertos? Como recuperar as décadas e gerações de afastamento da política e construir uma opinião própria sobre tudo que acontece? Como evitar ser massa de manobra?

Ao contrário do que muitas pessoas me pediram, não pretendo passar nenhuma fórmula mágica, nenhuma fonte única. O segredo da formação política, aliás, está justamente em não comprar de imediato ideia nenhuma. É importante não esquecer, como disse a meus alunos e alunas, que isso dá um trabalho danado. Muita discussão, conversa, debate, leitura, pergunta. Quem já passou por isso, porém, promete que vale a pena. Afinal de contas, é um investimento que só você poder fazer em si mesmo e na sociedade em que vive.

lista de como se informar
retirado do Facebook: como se informar

Além da listinha acima, elaborei algumas outras dicas igualmente simples e úteis.

  1. Antes de mais nada, nunca se esqueça: você não é obrigado a ter aquela velha, nem aquela nova, nem nenhuma opinião formada sobre tudo com rapidez. Mais vale uma atitude investigativa, curiosa, do que a repetição vazia de discursos que não te representam.
  2. Atenção à linguagem utilizada. A escolha das palavras diz muito sobre o posicionamento de um texto. Quando ler textos de opiniões diferentes, repare nas palavras diferentes e nas palavras semelhantes utilizadas para falar de um mesmo assunto/coisa/pessoa. Se pergunte o que essa variação significa.
  3. Contextualize a informação ou opinião. Repare em quem é o emissor da mensagem e localize-o num contexto mais geral. O que pensa? O que defende? Com quem anda? Que interesses demonstra? Ninguém existe num “vácuo” de relações e contextualizar o emissor da mensagem (que pode ser uma pessoa, empresa, organização, grupo, etc) ajuda a refletir sobre os objetivos dela.
  4. Para cada argumento, busque refletir no que ele está baseado e como é construído. Quais são as premissas não-ditas ou não-explícitas da mensagem? Que pressupostos estão baseando a ideia? Uma boa dica para fazer isso é se perguntar o “por quê” de tudo. Quando estiver difícil de justificar, provavelmente você chegou em um pressuposto ou premissa do raciocínio. Aproveite a viagem e questione-os também.
  5. Se apenas um posicionamento está chegando até você pela sua rede de contatos, procure quem pense o contrário. Escute, leia, pergunte sobre as fontes, peça links, informações concretas para refletir sobre o assunto.
  6. Desconfie de ideias muito diretas que não apresentam espaço para dúvida ou debate. Um bom exemplo foram as pessoas que questionaram minha associação dos símbolos nacionais com o fascismo no texto “Está tudo tão estranho…”. A associação direta e simplista, generalizada, como está no texto, é pra ser questionada. Desconfie. [continuo defendendo a associação, que não é tão simples assim quanto a forma como escrevi, mas não vou elaborar o assunto agora; fica pra outra hora]
  7. Não tenha medo de conversar. Nem de debater. Nem de perguntar. Muito menos de estar errado e mudar de opinião. Qualquer debate saudável precisa da possibilidade de chegar num outro lugar que não o ponto de partida, ou então não passa de bate-boca.
  8. Ignore trollagens e ofensas. Essas pessoas não merecem seu tempo ou atenção. Aproveite e pratique o radar de ad hominem. Quer dizer: treine bastante pra perceber quando um argumento está discutindo ou criticando uma ideia, e quando está apenas querendo desvalorizar a pessoa que a defende.
  9. Não tenha medo de mostrar sua ignorância sobre algum assunto. Assuma a ignorância e você rapidamente encontrará quem queira explicar, ou pelo menos tentar te ajudar no “caminho das pedras” de um assunto mais difícil.
  10. Procure as fontes de suas fontes. Quando encontrar uma fonte que parece interessante, pergunte-se quem (ou o quê) lhe serve como fonte e entre em contato/siga esse meio de comunicação ou pessoa pública também.

Há flores em tudo que eu vejo

Imagino que talvez ainda haja uma dúvida geral, depois dessa pequena lista, sobre conteúdos. Onde é legal se informar? Onde não é? Por onde começar a aprender política? Que conceitos?

Infelizmente não é possível responder essas perguntas de forma simples. Vejam, eu me preocupo e me informo sobre o assunto há anos e ainda me sinto incapaz de opinar sobre a PEC37, por exemplo, por achar que não entendi totalmente o que está em jogo. Me dou o direito de, por enquanto, não ter opinião.

Uma das estratégias mais interessantes, porém, para aprender sobre política, é se organizando politicamente. Você não precisa fazer isso por meio de um partido, se não quiser. Grêmios estudantis, centros acadêmicos, associações de bairro, movimentos sociais, etc. costumam ser excelentes experiências de formação política. É importante ter uma troca permanente com outras pessoas, de maneira mais sistemática do que apenas pela internet.

Algumas sugestões rápidas para ampliar o repertório, a formação e a atuação política de quem quiser, são:

  • Junte pessoas interessadas em conhecer mais sobre política. Descubram e discutam juntos notícias, textos, opiniões, vídeos, filmes, documentários, letras de música, fatos históricos, etc. que interessem a vocês.
  • Procure refletir, individual e coletivamente pensando qual é a sociedade dos seus sonhos. Busque uma utopia para guiar suas ações concretas na realidade. Saber onde quer chegar já é metade do caminho (ainda que o destino final mude quantas vezes você achar necessárias).
  • Tente conversar ou escrever sobre o assunto, explicá-lo a outras pessoas. Isso ajuda você a perceber “buracos” em sua formação e identificar novos pontos de interesse sobre os quais deseja aprender.
  • Descubra se você tem uma causa que te move mais do que outras. Alguma questão social que te toca. Informe-se extensivamente sobre ela. A internet é cheia de pérolas, e cheia de gente disposta a ajudar. A partir daí, você pode levar a causa para a vida real, junto com organizações e movimentos que já existem, ou começando seu próprio grupo organizado.
 [Este post foi publicado originalmente no Medium, em Junho-2013]

 

 

 

 

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