Mataram um menino. Tinha arma de verdade.

unicamp 2013
Unicamp, em setembro de 2013

21 de setembro, 2013. Leio a notícia do assassinato de um estudante da Unicamp. Foi numa festa. Uma festa daquelas que passei 4 anos de minha vida frequentando e – ainda mais – organizando. Uma festa daquelas que me fizeram responder inquérito disciplinar na reitoria, no não tão longínquo ano de 2007, por fazer parte do Centro Acadêmico de Ciências Humanas. Uma festa que inaugurou um período em que fazíamos festas todos os dias como estratégia de não-violência na luta contra o posicionamento fascistóide da reitoria, comandada pelo excelentíssimo senhor reitor José Tadeu Jorge: o mesmo iluminado que na semana do assassinato de Denis Casagrande, seis anos mais tarde, tirou o corpo fora dizendo que a universidade não tem nada a ver com as festas.

Ora, a política da Unicamp, enquanto instituição, e também o reitor, têm tudo a ver com as festas e seus desdobramentos. Para entender isso, é preciso um pouco de contexto.

Unicamp: terra da “moral” e dos bons costumes

A Unicamp foi fundada no finalzinho dos anos 1970, em plena ditadura militar. Por ser uma universidade “nova”, na época, gozou de certa distância do regime em alguns termos. Havia professores ligados à esquerda, por exemplo, o que só era possível por ser um campus “no meio do nada” e “sem muita importância”, como alguns depoentes contam em livros que relatam a história da universidade. Durante meu mestrado tive a incrível oportunidade de ouvir um docente que, quando estudante, saiu do ITA para estudar na Unicamp pois era o único local em que não seriam, ele e os colegas, perseguidos pelo regime.

Do regime militar, a Unicamp guarda algumas lembranças desagradáveis, como o “Título X – Do Regime Disciplinar” de seu regulamento geral. O documento é claro sobre quais são as infrações consideradas pela universidade, que até hoje não se dispôs a rever e reformular tal seção do texto [grifos meus]:

Artigo 226. O Regime Disciplinar visa assegurar, manter e preservar a boa ordem, o respeito, os bons costumes e os preceitos morais, de forma a garantir harmônica convivência entre o pessoal docente, discente e técnico-administrativo e a disciplina indispensável às atividades universitárias.

Artigo 227. Sem prejuízo das disposições legais e das que cada Unidade estabelecer em seu Regimento sobre o respectivo regime disciplinar, constituem infrações à disciplina, para todos os que estiverem sujeitos às autoridades universitárias:

I. praticar atos definidos como infração pelas leis penais, tais como calúnia, injúria, difamação, rixa, vias de fato, lesão corporal, dano, desacato, jogos de azar;

II. manter má conduta na Universidade ou fora dela;

III. promover algazarra ou distúrbio;

IV. cometer ato de desrespeito, desobediência, desacato ou que de qualquer forma, importe em indisciplina;

V. fazer uso de substâncias entorpecentes ou psicotrópicas, ou de bebidas alcoólicas

VI. proceder de maneira considerada atentatória ao decoro;

VII. recorrer a meios fraudulentos, com o propósito de lograr aprovação ou promoção;

VIII. praticar manifestações, propaganda ou ato de caráter político-partidário ou ideológico, de discriminação religiosa ou racial, de incitamento ou de apoio à ausência aos trabalhos escolares.

Não é preciso ser nenhum tipo de gênio para concluir que essas determinações, se levadas ao pé da letra como em geral são levados os documentos jurídicos, promoveria um anacronismo ridículo na estrutura institucional universiária: puniria os CAs por “atos de caráter ideológico”, assim como os funcionários e docentes em  época de eleições para seus órgãos representativos, por exemplo. Além dessa disparidade, também há poucas definições e muitos termos vagos. O que é, por exemplo, “proceder de maneira considerada atentatória ao decoro”? Um beijo de um casal gay poderia facilmente entrar nessa categoria, se nos pautarmos pelo senso-comum. Comofaz, então?

O documento explica direitinho comofaz. Em todos os casos, quando o regimento não for claro ou não estiver especificado, é assim que faz: o reitor faz.

A figura do reitor é primordial nessa seção do regimento geral da Unicamp. Como se essa concentração de poder já não fosse, sozinha, absurda numa instituição que se propõe minimamente democrática (gerida, por exemplo, por um Conselho Universitário), ainda piora: os “auxiliares” do reitor nos processos disciplinares são sempre docentes em posições de poder (como diretores de faculdades e institutos). Não há nenhuma menção nesse trecho do regulamento à participação de estudantes e funcionários tomando decisões em processos disciplinares. Pra fechar com chave de bosta ouro: também não há indicação de participação do Conselho Universitário.

Isso tudo significa que, no caso específico das festas no campus, faz muita diferença quem ocupa o cargo de reitor. É a gestão da reitoria que define, também, em última instância, como lidar com um código disciplinar tão anacrônico. No fim das contas, o resultado disso tem sido o fechamento progressivo da universidade como espaço público, e como espaço de convivência entre estudantes, docentes e funcionários. Essa transformação não está em absoluto dissociada das ondas de assaltos, estupros, entre outros problemas graves à comunidade.

A gente quer comida, diversão e arte

As pessoas insistem em esquecer, mas até o início dos anos 2000, diversos shows, festivais e festas eram organizados na Unicamp com o apoio institucional da universidade – apesar do mesmíssimo código disciplinar no regimento. A venda de bebida alcóolica no campus era tolerada e, sabendo bem o que isso significa culturalmente no Brasil, dá pra supor com quase certeza que as pessoas ficavam mais no campus (e já que a Unicamp hoje em dia adora um corporativismozinho: há empresas montando bares em seus prédios, hoje, 2013, para aproximar equipes de funcionários). O campus era um espaço também de lazer, de encontro, de troca.

Em 2002, durante um show dos Titãs, um adolescente de 17 anos foi assassinado em frente ao ginásio onde a banda tocava. Luiz Felipe do Paraná Fischer morreu no dia 13 de setembro de 2002.

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Unicamp, setembro de 2002

Nos onze anos que separam esses dois tristes episódios da história da universidade, passamos por três diferentes reitores, sendo que o atual está em sua segunda gestão. A gestão que sucedeu o assassinato de 2002 teve como reitor Carlos Henrique de Brito Cruz, atual diretor científico da FAPESP. A “segurança no campus” foi uma de suas principais bandeiras eleitorais, quase como uma ironia do destino. Sua proposta não era, porém, como hoje vemos Tadeu Jorge dizer, abrir o campus à Polícia Militar. Uma reportagem da Folha de São Paulo, registrou, na época [grifos meus]:

De acordo com Brito Cruz, uma das metas do plano de segurança “é organizar o sistema de vigilância da universidade, de tal modo que a Unicamp não precise recorrer à Polícia Militar, senão em situações extremas para as quais a competência legal da instituição não seja suficiente”.

No entanto, os bares que existiam foram sendo fechados e a proibição de bebida alcóolica no campus se tornou efetiva. Os comerciantes que ocupam as cantinas terceirizadas, por exemplo, precisaram encerrar a venda de álcool para não perderem seus contratos. A cerveja passou a ser vendida por alguns centros acadêmicos, em algumas ocasiões e, claro, nas festas.

Quando entrei na Unicamp, em 2005, começava a primeira gestão de José Tadeu Jorge como reitor. Participando ativamente do Centro Acadêmico de Ciências Humanas, acompanhei de perto a agressividade das políticas da reitoria sobre festas e eventos organizados por entidades estudantis. Parecia que, pela primeira vez em anos (nos contavam os veteranos), o tal código disciplinar do regulamento estava sendo levado a sério.

Em 2007, a reitoria de Tadeu passou a colocar seguranças à paisana nas festas, filmando e fotografando participantes e organizadores. Numa ocasião houve algum “dano ao patrimônio” (quebraram uma porta de banheiro ou algo que o valha), se bem me lembro, e a perseguição aos estudantes dos CAs ficou ainda mais forte. Como forma de reagir, passamos a organizar festas todo santo dia. Todo dia. Não tinha um dia sem festa no campus. Nos organizamos para a auto-defesa: nenhum de nós tinha nome, nenhum de nós nos identificávamos, nem identificávamos os nossos colegas. Quando perguntados pelos seguranças do campus, ao montar uma festa ou desembarcar caixas de cerveja no CA, “qual seu nome?”, a resposta-padrão era: “Centro Acadêmico de Ciências Humanas” ou “não sou obrigado/a a dizer”. O clima era uma versão branda de 1968.

Por essas belezas que a vida tem, foi justamente nessa época que organizamos as maiores festas dentro do campus em muitos anos – O Ifchstock em suas primeiras edições. Um festival de bandas nonstop que ficou na memória (ou quase isso, rs) de muita gente que pôde aproveitar o campus como não se faz mais. A repressão da reitoria também veio forte, e foi ficando cada vez mais difícil fazer festas. Houve no período uma greve grande, também, resultado de uma maneira um tanto autoritária do reitor e lidar com a universidade.

A gestão seguinte da reitoria, que teve como reitor o professor Fernando Costa, não parece ter enrijecido a política anti-campus, anti-público, mas apenas continuado as limitações que haviam sido reforçadas por Tadeu. Qual não foi meu espanto ao ver, no início deste ano, professores, funcionários e colegas que sempre disseram defender a Unicamp pública, a ocupação dos espaços do campus, etc. apoiando Tadeu para reitor. As mesmas pessoas que viveram o que eu vivi na gestão que foi de 2005 a 2009, na Unicamp, pareciam ter esquecido totalmente o que significava esse voto.

No entanto, resumir a reação atual do reitor e da universidade à figura autoritária de Tadeu também é simplificar muito uma questão complexa. Ao convocar a PM a entrar na Unicamp, Tadeu segue a tendência recente do governo do Estado de São Paulo, e dos reitores de suas universidades. A ideia de uma universidade que seja individualista, para formar técnicos de altíssimo nível e produzir patentes de inovação em colaboração com o setor privado não é nova, e nem é de autoria do reitor da Unicamp. Assim a universidade reduz e limita seu objetivo, sua função. Os resultados disso, porém, são desastrosos como os episódios de 2002 e de 2013, e como no problema crônico de estupros no campus e no bairro onde fica a universidade.

Quando a universidade se torna menos pública e mais excludente, ela passa a ser vista pelas pessoas como algo que não lhes pertence. Não lhes pertencendo, não lhes diz respeito, não é nada com o que devam se preocupar. Se torna um local símbolo de violência, de uma violência que só quem é excluído sabe o que é sofrê-la, todos os dias.

Ao buscar esse modelo de campus individualista e elitista, a Unicamp comete uma espécie de suicídio. O que acontece lá dentro fora das atividades estritamente acadêmicas, em sala de aula, não é responsabilidade de ninguém. A vida no campus fica abandonada e, como todo lugar abandonado nesse Brasil, caso de polícia e morada de milícias.

Modus operandi da Unicamp: Banco pode. Festa não pode.

Hoje trombei no Facebook com este texto (abaixo), escrito pelo Rafael Gomes da Silva, ex-estudante da Unicamp, da mesma época em que fiz graduação. Participando do Centro Acadêmico do Instituto de Artes, também esteve no front por uma Unicamp pública durante as últimas gestões da reitoria. Numa das festas que geraram processos disciplinares para os CAs, inclusive, a questão era justamente uma que ele aponta agora, olhando para o assassinato de Denis Casagrande: um espaço de lazer importante para os estudantes seria usado para a construção de uma agência de um banco privado. Uma festa foi organizada na campanha contra o abuso, e novamente houve “dano ao patrimônio” (ah, sempre ele, o cara mais importante do Brasil) quando algusn estudantes derrubaram tijolos da construção (em fase de fundação) da agência.

Esses episódios revelam um modus-operandi institucional da Unicamp: aproveitar momentos de fragilidade da comunidade universitária para impor políticas restritivas, rumo a uma universidade cada vez menos pública. O Rafael explicou muito bem nossa indignação; o texto é longo e, como eu fiquei conhecida recentemente por dizer, faz valer cada palavra [grifos meus]:

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“Todo mundo sabe que a nossa polícia militar não trabalha da maneira mais correta, isso nunca foi novidade na minha vida desde que eu me lembre. Talvez tenha demorado muito pra eu entender a gravidade toda que estava por trás disso. Talvez, porque hoje o meu bairro estar sendo vigiado 24 horas por dia, eu percebo melhor o que isso significa.

Um garoto morreu. Um garoto de 21 anos de idade morreu. Morreu em uma festa. Uma festa no meu bairro. Alguma medida tinha que ser tomada e essa foi a medida adotada.

Na escola, aprendi que essa instituição já foi usada muitas vezes pra defender o interesse de alguns poucos. Durante a ditadura militar, qualquer pessoa poderia ser interrogada. A qualquer instante. A qualquer momento. Pessoas que hoje são idolatradas (e que já eram idolatradas naquela época) tiveram que deixar o país que amavam pra poder fazer algo muito simples: viver.

Não é nem preciso voltar tanto atrás no tempo, todos sabem que em alguns lugares, existem milícias. Corporações militares usadas pra defender o interesse de uns poucos.

Eu não ousaria dizer que não precisamos de polícia, que não precisamos nos defender de ninguém. Isso seria uma completa ingenuidade da minha parte. Ainda que eu acreditasse e preferisse viver em um mundo utópico, onde todos os seres humanos se respeitassem, eu sei que não é nesse mundo que eu vivo. Eu sei que eu vivo em um mundo onde as pessoas matam uns aos outros. Onde o bem mais valioso que eu considero existir, muitos vezes é ignorado: a vida.

Alguns podem dizer que isso é papo universitário que quer mais é bagunça e que não quer saber de estudar. Coisa de quem quer ver continuar existir as festas que organizou enquanto ainda era um universitário.

Tudo que eu posso dizer é que isso, na verdade, é coisa de quem fez, sim, várias festas durante o período na universidade. Festas que contavam com estrutura de segurança. E nenhum desses seguranças precisava vestir a farda da PM pra festas acontecerem com tranquilidade.

Você pode dizer que em alguma das festas que eu organizei, vidros de carro foram estourados pra que toca-fitas fossem roubados. Tudo que eu posso dizer é que a maioria (absoluta) desses casos aconteceram a 50 metros de uma guarita da vigilância do câmpus.

Os vigilantes não quiseram fazer nada? Tenho certeza de que se PUDESSEM, teriam feitos. Mas a ordem que vem de cima é de que não se envolvam em nada que tenha a ver com a festa. A universidade não pode assumir parte nessas festas. Esse é o procedimento e ele permite que as coisas caminhem da melhor forma pra universidade.

Mas um garoto morreu. Um garoto de 21 anos de idade morreu. Morreu em uma festa. Uma festa no meu bairro. Na universidade em que eu estudei. No local onde eu já organizei várias festas.

Poderia ter sido em uma das festas que eu organizei. Alguma medida tinha que ser tomada. Alguma medida tinha que TER SIDO tomada.

Enquanto agonizava no chão, os vigilantes foram chamados pra prestar socorro. Mas eles não podiam fazer nada. A ordem que vem de cima é de que não se envolvam em nada que tenha a ver com a festa. A universidade não pode assumir parte nessas festas. Afinal de contas, segundo aqueles que estão em cima, a universidade não é aquilo que está escrito nos papéis. A universidade é o que eles querem que seja e não aquilo que era pra ser: um lugar construído pelos professores, funcionários, estudantes e por toda sociedade. Com três papéis básicos: ensino, pesquisa e extensão.

A impressão que me dá é a de que em nenhum lugar dessa universidade está sendo pesquisado o fato de que a sociedade é uma construção coletiva. De que há limites pra tudo. De que todos podem e devem fazer parte dessa construção. Não deveria depender do fato de que algumas pessoas foram favorecidas e estudaram em escolas mais caras, que por sua vez, permitiram que elas tivessem o direito de estudar ali.

Até onde me foi dito, a universidade onde eu estudei era um espaço público. Um lugar onde todos poderiam circular. Um lugar onde aos finais de semana várias famílias frequentam para se divertir. Ainda que no meu conceito, isso fosse parte integral do que chamam de extensão. A sociedade toda devia poder usar da estrutura e dos bens da universidade.

Mas festa não pode.

Não pode porque incomoda a vizinhança. Não pode porque o dever do estudante não é se divertir. Não pode porque os estudantes não se preocupam em dialogar com a Reitoria do campus e fazer as coisas da maneira mais correta. Não pode porque não existe forma de que isso aconteça.

Participei do centro acadêmico do meu instituto por 4 anos. Por outros quatro, organizei o festival de artes do meu instituto. Nos meus seis anos de faculdade, talvez, tudo que eu tenha feito foi organizar festas. Dentro dessa mesma universidade, fui elogiado publicamente pelas festas que fiz. Elogiado por essa mesma universidade. Organizei tanta festa que hoje ganho a vida organizando festas. Não lá dentro, porque gente de fora não pode organizar nada dentro da universidade.

Quer dizer, quando uma empresa de tecnologia quer financiar uma feira lá dentro, pode. Quando um banco quer montar um stand lá dentro pros alunos poderem abrir suas contas pode. Mas quando é pra pra fazer um evento festivo não pode. Não pode porquê dá trabalho demais. Tem muita coisa pra pensar e o que é que a universidade ganha com isso?

A tecnologia é importante na vida daqueles alunos, a conta bancária é importante na vida daqueles alunos. Mas a festa não. A festa é secundária. Até porque na constituição do nosso país não deve estar escrito que todo cidadão sediado aqui tem direito a lazer.

Daí, você pode dizer que existem mil outras formas de se divertir. E, sim, uma delas é ir lá no bar em que eu trabalho hoje. Se não tivesse festa na universidade que fica perto do bar que eu trabalho, tinha mais festa no bar que eu trabalho. Eu ganhava mais dinheiro e podia cuidar mais da minha vida do que ficar me preocupando com as festas que só atrapalham minha vida profissional e de toda a vizinhança do meu bairro.

Mas um garoto morreu.

Se o seu médico te dissesse “olha, você precisa comer mais cálcio!”, você tomaria mais leite ou comeria mais carne de vaca? O leite tem cálcio, mas vem da carne da vaca. Logo, faz sentido comer mais carne de vaca, certo?

Se a polícia é quem garante a nossa segurança, porque brigar por menos polícia? Ou melhor, porque brigar contra a polícia MILITAR que é a polícia que temos nos defendendo diariamente?

Porque eu tenho medo da polícia.

Eu tenho medo da polícia, não só porque eles andam armados, mas porque nem todos sabem a hora certa de usar.

Eu tenho medo da polícia, não porque eu não acho que existir polícia diminui o risco de um bandido ir pra rua, mas porque meus amigos já foram espancados por policiais enquanto se divertiam na rua.

Eu tenho medo da polícia, não porque eles não cuidam dos ladrões, mas porque o meu chefe foi assaltado e mesmo que os ladrões ainda estivessem dentro do campo de visão do policial, era mais importante pedir o documento do meu chefe do que correr atrás dos ladrões que fugiam a pé.

Eu tenho medo da polícia, não porque eles não cuidam dos assassinos, mas, sim, porque um familiar já foi assassinado por um policial, simplesmente por ser uma suspeita de um crime, crime esse que ele não tinha cometido.

Eu tenho medo da polícia, não porque não sei que são eles que garantem que estupradores sejam presos, mas porque no meu bairro uma garota foi estuprada e não tinha um policial trabalhando naquela hora pra atendê-la. Era mais fácil ela não ter saído de casa. Era mais fácil o policial perguntar pra ela, no dia seguinte, se não foi ela quem provocou isso.

Eu tenho medo da polícia, não porque acredito que todas as situações podem ser resolvidas com calma e pacificidade, mas porque eu sei que quando um juiz ou um grande empresário chama a polícia pra uma ocorrência, tudo se resolve rápido e o tratamento é o mais razoável possível.

Com 15 anos de idade, eu comecei a sair de casa pra assistir shows de bandas da minha cidade. Uma das primeiras coisas que meu irmão me disse foi “Fica esperto com a malandragem, mas fica mais esperto ainda com os ‘homi’!”. Talvez tenha demorado muito pra eu entender a gravidade toda que estava por trás disso.

Sempre andei esperto nas madrugadas da minha cidade, coincidentemente nunca fui abordado por um policial e nem pela malandragem. Durante as madrugadas. Mas durante o dia, precisei correr pra não apanhar de ladrões que roubaram meu skate. Durante o dia, fui abordado por um policial.

Eu não devia temer um policial. Ele é parte essencial da minha segurança e de toda sociedade. Mas não importava se eu estava com uma mochila nas costas e o uniforme da minha escola – que ficava a 4 quarteirões daquele local. Veio uma ordem de cima. Essa ordem dizia que estavam ocorrendo muitos assaltos naquela região por menores de idade com mochilas nas costas.

Mesmo que eu estudasse em uma escola cara, a quatro quarteirões daquele lugar, eu precisei ter uma arma apontada pra minha cabeça. Porque segundo esse policial, isso era um procedimento padrão. Um procedimento pra assegurar a minha própria segurança. Eu devia me sentir seguro com uma arma apontada pra minha própria cabeça. Só porque ele era da PM!

Uma vizinha me disse um dia que, antigamente, ali naquela região as crianças frequentavam mais a rua. Mas depois de um tempo, elas pararam. As mães pediram pra que elas parassem de brincar na rua. Não porque existiam bandidos ali, mas porque as mães queriam que seus filhos parassem de ser abordados por um policial. Não porque eles estavam fazendo alguma coisa errada na rua. Eles estavam brincando. Mas quando os policiais os abordavam, eles ficavam nervosos.

Quem fica nervoso com abordagem policial só pode estar fazendo coisa errada. Quem está fazendo coisa errada precisa é tomar umas bofetadas pra poder dizer logo o que estava fazendo. Afinal de contas, se ele não estiver mesmo fazendo nada errado, não tem porque se preocupar. É um caso isolado e o procedimento permite encontro os subversivos.

Acho essa palavra bem boa pro contexto. Lembra a que era usada uns 40 anos atrás.

Eu não quero o fim da polícia. Eu não quero que exista nenhum outro Dênis. Eu não quero que exista nenhuma outra boate Kiss. Eu não quero que exista nenhum Vladimir Herzog. Eu não quero viver com medo. Medo da polícia. Medo de perder meu emprego. Medo de que ninguém mais possa se divertir. Medo de não ver nenhuma medida ser tomada.

Eu quero que as medidas CERTAS sejam tomadas. Não dá pra comer mais carne, se meu problema é cálcio.

Não dá pra aceitar a luz vermelha que pisca na esquina da minha casa. Na outra esquina existe um segurança local. E nas redondezas da minha casa, o número de assaltos é infinitamente menor do que nas redondezas da delegacia do meu bairro.

EU CANSEI. Cansei de não me sintir seguro perto de um PM. Cansei de não me sintir seguro com a PM que existe no meu país.

Eu quero aquilo que eu acho ser o mais certo. É só isso que eu quero. Eu quero o fim dessa PM. Eu só quero me sentir seguro. 

De verdade.

 

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