77 provas de que Mad Max é um filme (bastante) machista

isso era um post no facebook. ficou meio grande. publico aqui, também, pra quem quiser. um aviso: há spoilers.

imagem representativa da dinâmica de gênero em Mad Max: donzelas gostosas sendo salvas por um machão. duvida?
imagem representativa da dinâmica de gênero em Mad Max: donzelas gostosas sendo salvas por um machão. duvida?

Comecei a ver o filme de peito aberto. Afinal, já vi filmes de ação hollywoodianos serem razoavelmente feministas, como Sucker Punch e À Prova de Morte (e o seriado The Walking Dead, aliás). Quer dizer, com tanta gente dizendo que tinha achado incrível, me parecia ok acreditar que, sim, se pá seria um puta filme. Ou no mínimo que traria alguma coisa interessante em relação às personagens mulheres. Gastei uma grana pra ver no Imax já pensando nisso. Resumindo o lance, me decepcioney e me ferrey.

Mad Max passa no teste de Bechdel, sim. Quer dizer, tem personagens mulheres, que conversam entre si, sobre um assunto que não são os homens. E eu pergunto a vocês, senhoras e senhoras:

E daí? E-da-í?

O teste de Bechdel não é um atestado de feminismo e Mad Max é (uma das) prova cabal disso.

Há outros filmes que passam no teste de Bechdel sem serem minimamente feministas, e cito alguns deles aqui pra vocês (consultando o bechdeltest.com): Boyhood, Alien, Os Vingadores, quase todos os filmes da Barbie, A Culpa é das estrelas, Lego – O Filme, Leviatã (detestei, aliás), Magia ao Luar, Relatos Selvagens, Rio 2, Tartarugas Ninja, A Teoria de Tudo, 12 anos de escravidão, Antes da Meia-Noite, Dallas Buyers Club, Elysium, Faroeste Caboclo, VELOZES E FURIOSOS 6 (sim, você leu certo), Homem de Ferro 3, The Lunchbox, O Lobo de Wall Street. Isso pra ficar nos anos mais recentes (2013 pra cá).

O contrário é um pouco mais raro, mas também acontece. Alguns filmes que NÃO passam o teste de Bechdel mas são mais feministas do que vários que passam: Milk, Kick-Ass, Amores Brutos, Star Wars (vários deles), Quem tem medo de Virginia Woolf?, Praia do Futuro, Gravidade, Interior Leather Bar, Anna Karenina, Django Livre, Hemingway & Gellhorn, O Impossível, As Vantagens de Ser Invisível, A Garota com a Tatuagem de Dragão (SIM, LISBETH SALANDER NÃO PASSA NO TESTE, minha pova), Wuthering Heights (SIM, isso mesmo, da Emily Brontë).

O teste de Bechdel serve sim pra alguma coisa: pra começarmos a reparar na pouca representatividade das mulheres nos produtos culturais de massa. E só. Fim. The End. Acaba aí.

quadrinho original de Alison Bechdel que deu origem ao "teste de Bechdel"
quadrinho original de Alison Bechdel que deu origem ao “teste de Bechdel”

O teste de Bechdel não serve para avaliar a qualidade dessa representatividade, a função das personagens mulheres no roteiro, a representatividade intersecional, entre mil outras coisas. Muito menos ele serve pra atestar feminismo em filme de ação. A própria Alison Bechdel, na tirinha que originou o famoso “teste”, tira um grande sarro disso na verdade: na tirinha, chamada “The Rule”, uma das personagens diz que tem três regras para assistir a um filme – e cita as famosas “regras” do “teste de Bechdel” -; ela completa dizendo ironicamente que assistiu ALIEN, já que as duas mulheres falam sobre um monstro. Quer dizer, né. Calma aí, minha gente.

Bom, mas e daí? Fora o fato de passar no Teste de Bechdel, Mad Max tem algum outro elemento feminista? Procurei atentamente e consegui listá-los aqui:

  1. Uma personagem coadjuvante central com nome
  2. Uma segunda personagem mulher com nome
  3. Mulheres pegando em armas / realizando ações consideradas não-femininas
  4. Uma mulher de cabeça raspada e sem um braço
  5. Mulheres gordas e idosas
  6. Um sistema em que as mulheres são oprimidas e “se rebelam”

O problema é que cada um desses pontos precisa de mais algumas informações pra serem entendidos em sua complexidade. Vejamos:

  1. A personagem coadjuvante central com nome passa o filme desempenhando a função de “salvar a donzela” (é um pouco como quando as feministas de segunda onda achavam, num passado longínquo e distante, felizmente já superado pela antropologia e pela teoria de gênero, que o fato de certas sociedades serem matriarcais faziam com que não houvesse opressão das mulheres ali – até as antropólogas feministas mostrarem que mesmo que houvesse mulheres ocupando posições de poder, quem se fodia nessas sociedades ainda eram outras mulheres, em posições distintas no parentesco; esse é o lance da “ciculação de mulheres” sobre a qual Gayle Rubin lindamente escreveu, criticando de forma magistral a noção de “patriarcado” como explicação universal para a opressão das mulheres #fikdik).
  2. A segunda personagem com nome morre tão logo seu nome é falado. As outras meia dúzia de personagens mulheres que nos acompanham ao longo do filme não têm seus nomes citados. A função dessa segunda com nome na trama é, literalmente, de prêmio. De coisa a se perder ou coisa a se preservar/salvar. Já os personagens homens têm, mesmo os mais insignificantes, nomes que são consistentemente mencionados, ou apelidos que demonstram seu caráter ou a história por trás deles (como o “people eater” ou algo do tipo).
  3. As mulheres pegam, sim, em armas. É um filme de ação e não um filme da Disney, ok. Até aí, pode ser um ponto a favor do filme, mas certamente não é novidade (todos os filmes de heróis e espiões têm mulheres pegando em armas; gente, até princesas Disney pegam em armas – alô, Merida, é vc?). Bom, tudo bem, descontando isso e dando o braço a torcer, sim, elas pegam em armas. MAS. Sua relação com a violência é sempre colocada como a relação de “necessidade” (em algum ponto uma diz pra outra que não mate o Nux – viu, o nome dele dá até pra lembrar, rs – afinal ela havia prometido que não matariam ninguém *desnecessariamente* – tipo, oi? alguma morte em filme de ação é desnecessária?). Porque elas são mulheres e, né, mulheres não são seres capazes de violência. MESMO dentro do espectro de ações “duronas” ou não-tipicamente femininas, elas são colocadas sempre como mais fracas (apanham menos antes de caírem nas lutas), mais frágeis, e desempenhando funções “passivas” como dirigir um veículo enquanto homens se degladiam ao redor.
  4. A mulher de cabeça raspada e sem metade de um braço é a Charlize Theron. É como a Madonna deixando os pelos do sovaco crescerem, enquanto a sua colega aí do lado é motivo de chacota por estar com o buço apontando alguns primeiros pelos. Entendeu? Não? Então volte duas casas.
  5. As mulheres gordas, idosas e “a” não-branca (só contei uma) não têm nome, nem personalidade própria. As gordas são mostradas como algo um tanto grotesco esteticamente. As idosas são todas brancas, se mantém nas posições mais passivas e não têm nenhuma importância na trama que não esteja ligada a serem idosas – ou seja, *carregarem a memória de um tempo passado para que os xóvens tenham esperança e blablabla zzzz….* As gordas são as provedoras de leite materno. Literalmente vacas leiteiras. I rest my case.
  6. Nesse sistema, não são “as mulheres” que são oprimidas. São as donzelas (e as leiteiras, no caso). O filme mostra, em seu início, uma legião gigantesca de homens e mulheres que são efetivamente oprimidos. Multidões de homens sendo manipulados e oprimidos pelo ditador-mor da trama. As mulheres não se rebelam como coletividade. As donzelas fogem. Em busca de uma *vida melhor*. E mais: porque, como boas mães que são, não querem que seus filhos sejam senhores da guerra. Gente. Sério. Onde é que vocês estão vendo feminismo aqui?

Para além dessas 6 falácias, há ainda outros elementos de Mad Max que mostram como ele é um filme completamente machista. Sim, “machista”, eu disse. Reparem:

  • O protagonista é um homem-macho com problemas de homem-macho (“ó, meu deus, como posso viver em paz sabendo que não salvei as donzelas que tinha que salvar?” – reparem que no começo do filme são apenas vozes femininas que *lembram* ele de seu fracasso como macho). Aí, pra dar conta de suas crises pessoais com as donzelas que ele não conseguiu salvar ele vai lá e faz o quê? Salva donzelas. Bingo.
  • Toda a trama das mulheres está em função da construção desse protagonista homem-macho e sua questão de homem-macho. Inclusive, o próprio protagonista é apresentado com a profundidade de um pires. E nem venham me dizer que é um lance do tipo do filme ou de filmes de ação, que há muitos filmes de ação não-feministas com protagonistas bem mais profundos do que Max. O próprio Robocop, aliás. Talvez até o Rambo. Não, mentira, tô zoando. Mas o Max não deixa muito a desejar pro Rambo, não.
  • A estética do filme é uma estética escolhida a dedo para erotizar as donzelas. Mulheres + armas + grandes máquinas automotivas = fórmula machista mais manjada do século. Daí quando o protagonista, depois de uma longa sequência de fuga, consegue alento, o que ele vê? Donzelas gostosas vestidas em micro-pedacinhos de pano, indefesas, que mal sabem falar, se refrescando com mangueiras de água e liberando suas bucetas de cintos de castidade. Eu ainda esperei pra ver se era zoeira, se essa cena seria desconstruída. Mas não. Só decepção, mesmo.
  • O fato de que a luta tenha se encerrado quando os “homens fortes” que teriam direito ao trono morrem é muito significativo. Se o herdeiro que ficou na Citadela não fosse uma pessoa com todos os problemas de mobilidade do mundo – ou seja, se fosse um exemplar viril de macho, capaz de defender sua posição de poder -, os demais homens que se submetiam a ele jamais teriam, pela lógica do filme, peitado-o em prol da imperatriz Furiosa. Significa, né.
  • Quando elas retornam à cidade, magicamente todos os problemas do povo estão resolvidos. Afinal, elas são mulheres, e mulheres governam sempre com bondade. São MÃES, afinal de contas, não? São elas que abrem as comportas de água, “cuidando” do povo antes oprimido pelo domínio masculino. Margaret Tatcher manda beijinhos no ombro das rads que devem ter derramado lágrimas nesse momento.
  • Pra colocar a cereja no bolo, reparem: nenhuma das mulheres comanda nas sequências de ação (aka o filme todo, já que não têm história, roteiro, enredo, etc). As falas imperativas são sempre ditas por homens. As decisões são tomadas e gritadas por homens.
  • E, claro, como bônus: o protagonista leva uma flechada no fucking CRÂNIO e segue lutando enquanto a Furiosa leva uma facada na costela e QUASE MORRE, se não fosse o bonitão SALVÁ-LA (como toda boa donzela, claro) com seu próprio sangue. e digo mais: que porra é aquele *romance* da ruiva sem nome com o Nux? é pra mostrar como as mulheres são seres puros e angelicais que salvam até as almas mais atormentadas?

Sabem o que é o pior? Eu poderia descontar tudo isso. Se o filme fosse bom enquanto filme. Se houvesse história. Se houvesse algum desenvolvimento de algum personagem. Se houvesse alguma coisa acontecendo que não grandes máquinas explodindo na função única de dar orgasmos cinematográficos a homens-macho que, num contexto onde a água é escassa, ainda prefeririam usá-la pra esfriar os motores de seus super-caminhões.

Mas não é.

Não se dêem o trabalho. Sério.

[ok, não foram 77 provas, mas uso aqui uma licença poética pra fazer título de post]

15 comentários sobre “77 provas de que Mad Max é um filme (bastante) machista”

  1. O diretor do filme estudou anos e anos para fazer o filme que ele quiser.

    Ninguém é obrigado a assistir ou gostar do filme. Se você não gostou do filme, faça como o diretor que lá no primeiro ou segundo filme vendeu seu carro para poder pagar os gastos do filme.

    Ou parafraseando as feministas: É o filme dele, é as regras dele.

  2. Olha não entendi nada do que você disse, me desculpa, mas não achei nem um pouco machista o filme. O filme chama Mad Max, mas deveria se chamar Imperatriz Furiosa, pois ela foi o personagem principal o tempo todo, o Max só tava ali por estar, pois o cara não falou quase nada o filme todo. E em relação ao nome, quase ninguém teve o nome revelado, até o do Max, que ele só fala no final do filme. E além de tudo isso, é só um filme, que se passa numa realidade impossível de acontecer, será que as pessoas não pode assistir um filme, sem ter que se preocupar, se é feminista, machista, ta tão chata a sociedade hoje, que tudo que causar, tudo que gerar polemica.

  3. Já acusaram esse filme de muitas coisas, de ser feminista, de não ser feminista, enfim…
    Quanto aos pontos que tu citou não tenho como argumentar contra a maioria deles, exceto aquele sobre as gordas, a função era justamente mostra-las como pessoas a única e exclusiva tarefa de fornecer leite tanto para os bebes quanto para as pessoas beberem.
    E ainda sobre a furiosa ter levado uma flechada, bem…, na verdade foi uma facada, se bem me lembro; e claro que é incrível o fato de aquele warboy ter levado uma flechada na cabeça e ter continuado vivo, tanto que depois ele grita: tetemunhem!!
    Acho que pode até ser um filme meio machista, mas ainda assim um filme de ação como há muito não se via.

  4. Mais uma coisinha: sim, de acordo com a versao de feminismo mais popular hoje em dia, mad max eh extremamente feminista: ele apresenta o mito da donzela e princesa indefesa misturado e coordenado a ideia de uma opressao patriarcal. A maioria das feministas vao discordar de vc justamente pq elas vem no vitimismo um feminismo, Acredito que vc matou a charada no entanto. Em um feminismo mais coerente, nao haveria sequer diferenca de sacrifico entre homens e mulheres, e ambos seriam igualmente expostos ao perigo e olhariamos indiferentemente para a morte de homens e mulheres. O autor de fato preserva as mulheres e as usa como instrumento de escadalo, isto eh, para manipular a tolerancia do publico – codizendo com uma versao tradicional das dinamicas de genero, onde mulheres sao “objetos valiosos”. Em suma, vc matou a charada, mas muita gente nao vai matar, pq o feminismo moderno tb comprou a ideia de “mulher valiosa” – embora nao como objeto, mas o que dah na mesma no final, pq continuam princesas, mas princesas supostamente empoderadas.

  5. Sou um critico do feminismo moderno, de orientacao ginocentrica (I. Young), e gostei muito do seu texto. Voce sacou. O filme – apesar de muito bom – eh tradicional em questoes de genero. E o tradicionalismo ali eh forte. Os homens sao estoicos sem sentimentos, as mulheres sao preservadas. Se no final triunfa uma especie de sociedade de mulheres da luta, isso nao muda o padrao geral da dinamica de genero ali representada. Por outro lado, isso nao eh necessariamente uma critica ao filme. Filmes podem ter interesse em representar justamente uma visao de genero tradicional, sem prejuizo para o seu valor artistico. Seja como for, fiquei interessado em saber que posicao feminista vc se coaduna. Vejo elementos no seu texto que me parecem fieis a visao de Beuvoir, humanista, e nao ginocentrica, onde elementos da violencia e da afirmacao masculina sao valorizados e mesmo ambicionados como meta para emancipacao feminina – o contrario do ginocentrismo que dominou o feminismo posteriormente, que se encontra, de fato, com as aspiracoes de mad max: onde mulheres sao apresentadas como moralmente superiores, embora essa moralidade seja uma especie de “fraqueza”, um romantismo da opressao feminina baseada na reciclagem dos velhos mitos de donzelas e princesas indefesas.

  6. Li o texto todo, até o final. Até concordo que podiam dar nomes e mais um importância a personagens femininas no novo filme Mas Max e que o filme teve certos exageros, mas o mimimi desse texto é chatíssimo.

  7. Por sinal, alguns outros casos de desonestidade intelectual:

    1 – Na “imagem representativa”, Max está lutando contra Furiosa e não “salvando donzelas”;

    2 – A reflexão sobre o Teste de Bechdel lembra muito (a ponto de parecer plágio) o video do The Big Picture sobre o assunto;

    3 – Dois filmes citados como exemplos “feministas”: Sucker Punch e Kick Ass.
    Ambos, segundo os critérios de que “armas e roupas curtas” são erotizantes e fetichizantes, deveriam ser criticados pela autora.
    Sucker Punch, por exemplo, é sobre vítimas de abuso sexual que são submetidas a longas cenas de dança erótica, glamurizando o abuso. E Hit-Girl, de Kick-Ass, é tão feminista, mas TÃO feminista, que ridiculariza o protagonista masculino do filme utilizando-se de termos machistas, como “pussy” e “bitch”.

    Sinceramente, sinto-me lendo um texto juvenil sobre o assunto. Lamentável.

  8. Nossa, que ironia que um texto fale tanto em “falácia” e em “superficialidade” e tenha a pachorra de apresentar a maioria desses argumentos.

    Vamos lá:

    1 – Sim, a protagonista feminina “salva”, inicialmente, as outras mulheres – mas apenas pelo fato de que ela encontrava-se em uma POSIÇÃO SOCIAL priveligiada, a de Imperadora, que permitia que ela fizesse isso – afinal, são mulheres que ficavam trancafiadas, literalmente, em um cofre. E elas exercem, sim, funções dentro da trama – contam munição, dão palpites e em determinado momento, usam-se como escudos, usando as noções de propriedade dos vilões contra eles mesmos.

    2-Não existe um contra-argumento quanto isso, simplesmente por não ser verdade. As mulheres tem seus nomes citados. Fica claro que a autora não prestou ou não quis prestar atenção. E não só são citados, como também dão indícios de seu caráter ou personalidade. O mesmo acontece com os coadjuvantes masculinos, que – ao contrário do que a autora diz – não tem seus nomes citados “constantemente” nem seu caráter desenvolvido.
    O filme introduz e insinua conceitos e deixa o espectador preencher as lacunas. “People Eater”, por exemplo, veste-se como um bancário e age como um contador. Mas isso pode escapar aos desatentos. São personagens com historia – basta a vontade de pensa-las.

    3-Mais uma vez, parece que a autora não viu o filme inteiro. Existe um diálogo que endereça essa crítica: se dá entre Capable e uma das Vulvalini. Enquanto a idosa diz que matou vários homens com um tiro limpo na cabeça, a jovem inocente responde com “achei que vocês garotas estivessem acima disso”. A senhora ri ironicamente, e mostra um pacote de sementes.

    O pacote de sementes é relevante para o tema do filme – a capacidade de “passar vida”. Enquanto as “Esposas” geravam vida com seus corpos, Max é doador sanguineo universal; A senhora porta a vida dentro das sementes, e Furiosa humaniza seus companheiros. É a partir desse comportamento que Max acompanha as mulheres e que as Esposas recusam-se a matar um warboy.

    4- Deslegitimar uma mulher pela sua aparência – ainda que uma aparência que se encaixe nos padrões de beleza – é uma falácia.

    5- As senhoras idosas tem importância central pra trama. São uma sociedade de mulheres que funcionou, por um bom tempo, sem homens. É um grupo de mulheres que criou Furiosa, que é capaz de lutar contra Max de igual para igual, sem um braço. Sobre sua passividade: quando Max dá sua sugestão perto do 3o ato do filme, cabe ao grupo de mulheres decidir. O plano é debatido e ponderado pelo grupo, e só dá certo pela participação das mulheres. Quanto a existência de “não-brancas”, ignoras a personagem de Megan Gale.

    Quanto ao fato das mulheres gordas servirem de “vacas leiteiras”: sim, elas são, dentro de uma sociedade patriarcal e opressora liderada pelo vilão do filme. Não é uma prática endossada pela história nem pelo roteiro, é associada aos vilões. Ou se tem um vilão, ou se tem atos de justiça partindo de todos os personagens – mas não se pode ter as duas coisas. I rest my case.

    6 – Sobre “mulheres não sendo oprimidas”, acho que a autora desconsiderou o que escreveu no tópico anterior sobre as “vacas leiteiras”, então, vou poupar de falar sobre isso. Mas não, o filme não é sobre uma revolução de mulheres. Não é o plano de Furiosa que seja, nem a trama do filme. O plano de Furiosa é resgatar as “preciosidades” do vilão do filme, atingindo-o diretamente, e libertando mulheres que eram constantemente abusadas sexualmente por ele.

    Sobre as outras bobagens:

    – O “macho” fica o filme inteiro fugindo com as mulheres porque os vilões também querem mata-lo. Ele é movido por interesse próprio. No terceiro ato, então, resolve ajuda-las – e não salva-las – por supostamente ter criado ligação com as individuas em questão. Entrando no tema da “humanização” do personagem que já mencionei: Max é um personagem que importa-se apenas consigo mesmo, pois perdeu sua humanidade NO PRIMEIRO FILME DA SÉRIE, QUANDO SUA ESPOSA E FILHA FORAM MORTAS. DAÍ AS VOZES QUE OUVE. “Fury Road” é o QUARTO FILME da série.

    – Não, não é. Max não é o protagonista do filme. Não promove o começo da ação e não passa por nenhuma grande transformação no decorrer da trama, e não possui nenhum arco – deve escapar de quem o persegue. Ponto final.
    Furiosa, por sua vez, começa como Imperatriz, abdica do título e parte em busca do que acha certo. No meio do caminho, descobre que o lugar que idealizou e que motivou suas ações não existe mais. O mesmo serve para as “Esposas”. Começam com certa fragilidade e inocência e ao final do filme sobreviveram a uma grande batalha.

    -As mulheres são, de fato, erotizadas nessa cena. O que é curioso, pois é a única cena em que isso ocorre. Falar que o fato delas usarem armas e dirigirem carros as erotiza, porém, é uma – mais uma – falácia. Erotiza pra quem? Que mulheres pegam em armas? Elas não deveriam pegar em armas?

    -Mais uma vez: a sociedade retratada no filme é machista e patriarcal, de forma extremamente caricata. Apontar isso como uma posição do filme, quando os herois do mesmo lutam em combate disso e o filme é feito para que torçamos que essa sociedade sucumba, é idiotice.

    -O filme acaba quando as mulheres retornam e eu não vi nenhum problema do povo ser solucionado. O que vi foram mulheres sendo ovacionadas pela população e erguendo-se à posição de liderança. Não posso contra-argumentar com um filme imaginado pela autora.

    -Mais uma vez, mentira. Furiosa dá as ordens para Max acelarar o caminhão na cena da troca de combustível. O plano final é acatado pelas mulheres, e durante essa cena de ação, o veículo e as ordens são dadas por Furiosa. O filme chega ao ponto de nunca mostrar Mad Max assassinando alguém em tela – sempre são corpos derrubados do veículo. Furiosa, por sua vez, faz um disparo e assistimos o corpo sendo alvejado e derrubado.

    -Flecha usada pra perfurar pneus. Vide: Mad Max 2.

    O filme tem muito o que ser problematizado por mulheres e mulheres feministas. Não trata-se de um filme SOBRE o feminismo ou de um filme europeu sobre relações humanas, e sim sobre um filme de ação multimilionário, um filme que pertence a um gênero com clichês machistas que toca em temas de emancipação e empoderamento feminino – mas dentro de seus limites de blockbuster.

    Então, sim, deve ser problematizado, mas de forma inteligente e racional, preferencialmente por alguém que prestou atenção no filme e que não baseia seus argumentos em fatos imaginados e leituras distorcidas. A impressão que fica é a de uma pessoa que quer ser “do contra” para chamar a atenção, e esse texto é extremamente vergonhoso de ser lido em alguns momentos.

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