Fui uma adolescente feliz

Screen-Shot-2013-02-27-at-8.59.15-AMA todas as meninas, meninos e menines que tive a honra de conhecer quando adolescentes, fosse como professora de inglês ou de sociologia. A quem não conheço mas passa pelas dores e delícias de ser adolescente hoje.

Bonitas, bonitos e bonites;

uma vez vocês me perguntaram por que eu gostava tanto de vocês. Devo ter respondido o mesmo que digo agora: fui uma adolescente feliz. É claro que a vida não dá trégua e nem tudo foi lindo. Quando adolescente vivi a morte do meu melhor amigo. Vivi medo de ficar grávida apesar de todos os métodos contraceptivos. Vivi o medo de “não dar certo”. Vivi o peso do mundo em minhas costas. Achei que a escola me definia. A adolescência é difícil. Não tem outra palavra. É difícil, mesmo. Ao mesmo tempo, parece que a maioria dos adultos se esqueceu de quão difícil é esse pedaço da vida, e acaba infernizando ainda mais a vida de quem o experimenta. Pois é. Tem gente que esquece rápido. Eu não esqueço.

Vocês que me conhecem e sabem meu tamanho ficariam espantados se soubessem que eu tinha esta mesma altura, mais ou menos, lá pelos meus 12 anos de idade. Sempre fui gigantesca perto de meu colegas e, ainda por cima, gorduchinha. Fui chamada de gorda-baleia-saco-de-areia. Me chateava porque nenhum menino da sala nunca gostou de mim. Eu nunca fui chamada de “feia” como cruelmente faziam com outras meninas. Eu apenas não era a menina de quem se devia gostar. Foi assim que descreveu um grande amigo que, numa certa época de nossa adolescência, teve uma paixonite passageira (e secretíssima) por mim. Gostar de mim era algo pra se ter vergonha.

Essa situação podia ter se tornado um inferno. Eu poderia ter sucumbido a uma autoestima lastimável. Eu poderia ter ficado deprimida. Eu poderia ter me detestado. Qualquer uma dessas opções seria absolutamente legítima frente às pressões e horrores de uma sociedade extremamente doente e sexista como a nossa, em que meninos se acham no direito de classificar as colegas. Se me amo como me amo (e não é pouco) hoje, devo isso a um reforço muito positivo de autoestima na minha família e, não menos importante, a uma estratégia que desenvolvi desde cedo: experimentar a vida fora da escola. Transitar em ambientes dos mais diversos, sempre. Vocês já experimentaram?

Até meus 13 anos de idade eu tinha a ideia de que nunca iria arrumar namorados ou namoradas, de que isso simplesmente não era pra mim. Eu podia ser a inteligente, a presidente do grêmio, a editora do jornal. Não era a menina de quem se devia gostar (de novo). Foi nessa época que eu comecei a frequentar cada vez mais círculos sociais com adolescentes de outras escolas, outros rolês, outras classes sociais. Minha participação no movimento escoteiro foi fundamental nesse processo, mas o contato com amigos de outros colégios, sobretudo por causa das ações do grêmio estudantil, também.

Foi mais ou menos aí que eu decidi mudar de colégio. Chegando no colégio novo, qual não foi meu espanto ao perceber que ninguém ali me achava gorda! Ninguém ali me achava descomunalmente grande. De fato, eu entendi que eu não era mais gorduchinha. Entendi que a maior parte dos meninos já alcançava a minha altura. Percebi que na escola antiga era a mesmíssima coisa, mas lá ninguém conseguia me enxergar sem o rótulo. Nem eu.

O encanto se quebrou, então, e o rótulo foi sumindo. Passei a explorar essa novidade de conhecer gente que não me conhecia e de conhecer gente que não conhecia meus rótulos. Fui a primeira a ter um namorado. Fui uma das primeiras a descobrir minha sexualidade não-sempre-hetero. Fui a primeira (se não, uma das) a ter uma vida sexual ativa. Fiquei pouco tempo na vida solteira e, quando solteira, jamais sozinha (biscate é assim, sabem, né?). Fui uma adolescente feliz.

Precisei mudar de ambiente pra sacar a mágica de recusar os rótulos. Às vezes não dá pra mudar de ambiente e as pessoas fazem isso de outras maneiras: conversando, saindo de balada, fazendo terapia, ou simplesmente tacando o foda-se para quem não está nem aí pra você e pro seu bem-estar.

Pois lembrei de tudo isso, e lembrei que queria dizer tudo isso a vocês, quando assisti este vídeo aí embaixo [tem legendas]. No vídeo, um jovem poeta faz uma reflexão sobre esses rótulos que nos limitam, sobre bullying, sobre a dificuldade e o sofrimento e a beleza da adolescência. Assistam. Reassistam. Compartilhem. Vejam juntos. Mostrem a todas e todos. E não esqueçam, como diria meu super-herói favorito: o poder é de vocês.

 

 

 

 

 

 

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