primeiro exercício

eu queria escrever com tempo.
mentira. sem tempo.
é isso que eu queria:

escrever nos minutos de intervalo
entre a cama, o banheiro, o trabalho
criar personagens, enredos, roteiro
quarto fechado, cantar no chuveiro
(bater aquela siririca)
mas não é só isso que eu queria
eu queria um tododia sem rotina
sem Dickinson presa em casa
sem Mrs Dalloway comprando flores
sem Plath afogando-se no gás pelo simples motivo de
mulher-e-casa-:-que-combinação-insuportável

eu queria escrever sobre as grandes coisas do mundo
sobre guerras e revoluções
sobre exércitos, cartas trocadas, amantes
descobertas sexuais infantes, distopias sérias
a mim cabe falar de minha era
espiões russos imigrantes poloneses
uma gueixa no Japão
máquinas do tempo demônios espíritos
poetas

mas a mim só tenho eu mesma
a à minha era ela mesma
e à minha cabeça ela mesma
e ao meu medo de ficar louca
o que eu queria mesmo era ser
outra

uma história emocionante
sem suicídio
ao final.


daí que a ana erre, amiga, ídala e poeta, propôs um pequeno exercício. ou melhor. ela vai, às sextas-feiras, propor exercícios. nós amigas, conhecidas, admiradoras que escrevemos e não somos bobas, decidimos entrar na onda. publicar os exercícios em nossos blogs para que uma leia a outra e assim por diante. como uma dinâmica coletiva de criação literária via web. quem sabe assim a gente desenferrüscha, que o semestre anda puxado para todas nós e a escrita às vezes fica carente no cantinho dela, com medo de pedir a atenção que merece. aí está meu primeiro exercício, a partir da pergunta da ana: como eu quero escrever? voilà. o curioso é que saiu um poema. eu, que me reivindiquei não-poeta a certa altura do campeonato, estranhamente só tenho conseguido escrever poemas. não necessariamente bons, claro. mas tem me dado mais tesão. acho que tesão é necessário. talvez seja um reflexo do tanto de prosa não-poética-e-tampouco-literária que tenho sido forçada a produzir pelas minhas escolhas de trabalho. estou escrevendo um livro, traduzindo dois, mais um capítulo pra outro livro, revisão do projeto de pesquisa AND terminei um artigo longo e trabalhoso recentemente. sem mencionar o que tenho lido. quer dizer. significa, né. nada mais justo do que um pouco de verso no meu cotidiano de prosa. esse cotidiano que tanto me atormenta. eu honestamente não desejo terminar com a cabeça no forno. às vezes é difícil.

manifesto

de um futuro
eu me lembro
: teus olhos assim
pretos
flutuando verbetes
amanhecidos
– as jaboticalavras.

nós repartíamos
fumo,
nós repartíamos
casa.

jogávamos
– ao alto –
moedas
e sobre as moedas
abríamos
páginas:

o futuro
comum
em rota de ascensão

as
moedas
caíam

e repartíamos
pão.

ninfa

este meu corpo sou eu,
descoberta planície eu
relevo :

distante
me dobro

em terra sobro

sobre
relva.

sou água :
eu turva,
eu mato.
se escorro

morro
e vibro;
ato.

em canto
eu corpo
e a vagina orvalha.

gozo
um gozo :

navalha.

cortina de ferro

sonho verossímil
que vamos a berlim
e escolho cuidadosa
o fim que escrevo
pouco a pouco

o lápis range
no papel rouco

à minha frente
o que nos separa
: palavra
feito tijolo
e coração duro :

para você um muro
é só um muro
é só um muro
é só um muro

ébria

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sonho e garrafa
café anuncia

olho e cerrado
ou boemia

drogas adictas
futuras

poesia

útero frio

volto ao escuro
torno ao útero frio
e tudo que eu era
antes esvazio

do alto do murro
que levo na face
mastigo lenta o cordão
que me sufoca

quase

recebo luz
recebo sal
recebo dor
recebo na pele pontadas
duras de calor

invento o velho
e vento o novo
fênix que eclode
livre
o próprio ovo

vipera aspis

você às quartas junkie
eu terças acordo menor
sonho úmido
sei de cor:

que subverta-me toda
submeta-me e foda
vidrada, áspide cresce dura
e cospe em minha boca
mistura amarga
veneno
tabu

sábado gozo
e domingo
no teu rosto
nu

escorro
ao comer começo
do meu cu e guio profano ao fundo
assim justo
porque ainda
cru

celebro meu ano
a cada gota que te guardo
feito joia
em meu copo
corpo

baú

grito fundamental

En la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras,
noches,
poemas

(Leminski)

 

lanço esta pedra
– camaradas futuros! –
fundamental
já lascada
polida
aponta a ponta e crava
na ferida

Fundo esta luta
– camardas eternos! –
classe a classe
que atiça o fogo
em catarse.
A chuva contralto
mezzo soprano
corrói aguda em ácido e molha
profano.

(Acre
com acre se combate
– companheiro; por acaso queres
um pouco de vinagre?)

Fumo esta pedra
– camaradas extintos! –
filosofal
já moída e dichavada
contorcida
bem bolada
nas folhas de meus livros militantes
ou nas fotografias em papel-jornal
queimadas às pressas
aos prantos
e sinto
aquilo que também canto.

Vos mando então, camaradas
à fogueira
às favas
ao que resta das palavras
este monolito:
meu eterno,
futuro,
e agora já extinto

grito.

 

 

* * *

[poema escrito para a coletânea “poemaço contra a copa”, organizada pelo querido Tomaz Amorim e disponível por inteiro a quem gosta de bons poemas aqui]

* * *

[a quem interessar possa: este poema é também um diálogo com meu eterno amor maiakovski, por este motivo]

invisível

Violão no colo
o blues no peito
e te olhava
invisível

em balé trôpego
escorada na porta
tua
de tão bêbada
ou de tão feliz

te olhava ave rara
– pavão misterioso –
corpo tenso
imóvel
eu sorria besta em gozo
mas você me viu

pé ante pé
em pé parei ao teu lado
(seguia concentrado)
nas horas tão poucas
rápidas
e últimas da noite

teus olhos dançavam
balé e refrão
mergendo letra e melodia
no meio da canção você ria
espetáculo
raro e feito imaginação

[certas as horas
ex – pressas
passavam
modestas quando]

em sonho forte
fui eu,
acorde
e manhã revestida de azul
– teu torpor todo
em meu corpo
torpe
: você me abraçava nu
incendiava-me o sul
sorvia minha face (norte) e
eu provava do teu gozo
cru

foi coragem e fôlego
eu sóbria mas os pés trôpegos
e pernas bambas de ter que partir
(desviar de mim mesma sem cair)
me despedi

hoje guardadas as proporções,
memórias,
dilemas;
ou uns dias mais e te escrevo em poema
como quem represa água do mar
encaixota fumaça
: releio, rio, acho quase graça
que nenhum verso,
nem palavra nenhuma

jamais diz a cor,
o som,
o brilho

da tua pluma.