Como encontrar bibliografia relevante?

Algumas dicas de onde e como procurar referências relevantes para sua dissertação de mestrado, tese de doutorado, TCC, artigo e afins. Aproveitem para postar outras dicas nos comentários!

Quando começamos a elaborar um tema de pesquisa sempre sentimos a necessidade de ler mais sobre o assunto que nos interessa, para podermos direcionar melhor as questões que orientam o experimento, observação ou estudo. É comum pedirmos dicas de autores, textos e referências a quem pesquisa o mesmo tema. São perguntas em geral pontuais, queremos saber exatamente o que devemos ler.

Esse tipo de pergunta não nos ajuda muito, se pararmos para pensar. Quer dizer, por que deveríamos depender das referências de outras pessoas para construir nossa bibliografia de pesquisa, se há tanta informação disponível?

Nossa “dependência” de indicações pontuais que colhemos com outras pessoas está ligada a uma falha na formação acadêmica. Você já reparou que raramente nos ensinam a fazer pesquisa bibliográfica? Há pouquíssima orientação sobre o assunto, inclusive na internet.

Reuni aqui algumas dicas que elaborei quando galguei o meu “caminho das pedras” durante o mestrado. Espero que sejam úteis e que vocês possam complementá-las nos comentários ao final do texto!

I. Onde buscar bibliografia?

O primeiro passo da construção de uma bibliografia consistente para sua pesquisa é selecionar as fontes, bases de dados, e “universos” nos quais você pode encontrar material relevante em sua área de estudos (seja ela qual for).

Claro que, além das indicações de amiguinhos bacanas, também é preciso dar uma fuçada por si mesmo. Na internet há um sem número de bancos de artigos, teses e dissertações eletrônicas, e-books e sistemas de acervos de bibliotecas pelo mundo todo. Isso significa que você pode encontrar artigos, teses, dissertações, livros e ainda por cima descobrir se algum material impresso está disponível numa biblioteca perto de você.

Descobrindo artigos relevantes

A primeira fonte-chave da bibliografia brasileira (e parte da latinoamericana) é a delicinha do Scielo (http://scielo.org). Nessa base você consegue buscar artigos por periódico, por autor, por palavra-chave, país de publicação, idioma, etc. Se ainda não conhece, vale o clique e uma navegada despretensiosa pra se familiarizar com o sistema.

Há diversas bases de artigos como o Scielo ao redor do mundo. Em vez de acessar uma a uma, ou listá-las individualmente aqui, sugiro o caminho mais simples. Que tal um mecanismo de busca que pesquise ao mesmo tempo em todas essas bases e ainda mais? Essa é a proposta do Google Acadêmico (http://scholar.google.com).

Curiosamente muita gente não conhece esse serviço do Google. Nele, é possível buscar artigos, livros, referências, citações, autores, etc. Há opções de exportar as referências bibliográficas para um software de gerenciamento de referências (eu uso o Citavi e gosto muito), ou então de copiar a referência já formatada e colar no seu arquivo de texto.

Uma questão importante sobre essas bases em que o GA pesquisa, é que nem sempre elas são abertas e gratuitas como o Scielo. Muitas vezes (muitas mesmo) elas são restritas. Se você topar com uma página em que há um preço pelo artigo ou pelo acesso ao periódico, não se desespere. Não clique em nada, não dê o número de seu cartão de crédito. Os preços desses periódicos são surrealmente astronômicos, em parte porque o custo de produção é alto, em parte porque as publicações acadêmicas têm se convertido num negócio muito lucrativo para empresas privadas, sobretudo fora do Brasil.

Quem pode pagar, então, e ter acesso a tais bases? É simples: sua universidade, por meio do programa de periódicos da CAPES. Uma das maiores despesas em pesquisa no Brasil hoje (financiada pela sociedade brasileira como um todo, vamos lembrar) é com o programa que garante o acesso a essas bases quando utilizado um computador de dentro da universidade. Claro, talvez nem todos os periódicos que você desejar acessar estejam disponíveis em todas as universidades. Mas dificilmente um artigo sozinho será tão fundamental que valha a pena você gastar individualmente com ele.

Algumas bases fechadas com muitos bons periódicos de diversas áreas são a base J-Stor e a base SAGe. Em geral essas duas bases são relativamente acessíveis na maioria das universidades públicas brasileiras. Não estou certa sobre a J-Stor, mas na base SAGe é possível criar uma espécie de “perfil de alerta” em que você recebe, em seu email, notificações de periódicos específicos cada vez que um artigo ou um número são publicados online. É uma forma interessante de se manter atualizado/a sobre o que está sendo produzido sobre seu tema de pesquisa.

E os livros?

Além dos artigos, é importante também incluir livros (que apresentam outro tipo de elaboração de teoria, dados e argumentos) em sua bibliografia. Para buscar livros, o melhor é consultar os sistemas de acervo das bibliotecas próximas de você.

No caso das bibliotecas das universidades estaduais paulistas, por exemplo, é possível pedir um “empréstimo entre bibliotecas”. Assim, um estudante em Jaboticabal pode pegar emprestado um livro de uma das bibliotecas da Unicamp, por exemplo, e vice-versa. Além disso, é importante lembrar que as bibliotecas das universidades públicas são também públicas. Isso quer dizer que qualquer pessoa pode utilizar os serviços dessas bibliotecas, mesmo quando não podem levar livros para casa.

Mesmo que você não possa ir até a biblioteca e prefira comprar livros, os sistemas de acervo são úteis para que você descubra que livros relevantes existem em sua área de pesquisa, ou sobre seu tema. Em livrarias dificilmente existe uma catalogação que te permite realizar uma boa pesquisa bibliográfica. O ideal é chegar na livraria com o nome do livro, do autor e a editora, facilitando sua vida e a vida dos livreiros. Os sistemas de acervo das bibliotecas te permitem fazer essa pesquisa antes de sair de casa e/ou encomendar um livro por meio de site.

Os acervos que eu, em São Paulo, costumo consultar, são o acervo da Unicamp, da USP, e o acervo de bibliotecas municipais da cidade de São Paulo. Para outros locais e estados, uma boa busca no Google com o nome da universidade pública mais próxima e as palavras “acervo” e “biblioteca” deve dar certo (veja um exemplo aqui). Além disso, as universidades públicas e uma parte das privadas em geral têm acervos digitais de todas as teses e dissertações lá defendidas, o que é extremamente útil também. Substitua as palavras “acervo” e “bibliotecas” em sua busca com “teses”/ “tese” e “digitais” para encontrar essas bases (outro exemplo aqui).

As minhas dicas para comprar livros especializados novos são a Livraria Cultura, a Livraria da Vila (sempre fui muito bem atendida lá) e os sites das editoras (muitas vezes há descontos e facilidades na compra). Para livros usados, recomendo fortemente o Estante Virtual, um sebo online que desde sua inauguração colaborou enormemente com minha graduação e meu mestrado.

Quando se trata de livros importados, minha dica é comprar sempre os e-books. Em geral eu faço isso pela Amazon.com, e baixo os livros no meu kindle. Se você não tem (nem quer ter) um kindle, não se desespere: você pode baixar o software de leitura dos livros de kindle em seu computador, smartphone ou tablet (mesmo Macbooks, iPhones e iPads), e ler tudinho sem ter o aparelho “kindle”. [Não sei se há a mesma opção para o kobo, mas se eu fosse o fabricante começaria a considerar disponibilizar esse serviço]

II. É melhor usar livros ou artigos? Qual a diferença?

Quando há muita disponibilidade de material, em geral nos sentimos um tanto “perdidos”. Se um autor importante na área tem dois artigos, um livro e uma tese que parecem mais ou menos sobre o mesmo assunto, será que você precisa ler tudinho de cabo a rabo? Se escolher um só, não estaria perdendo informação?

Para escolher com que tipo de material você quer estruturar sua bibliografia, além de saber o que existe e o que está disponível, é preciso entender quais as principais diferenças entre livros, artigos, dissertações e teses.

Livros: o primeiro passo

Em geral, no Brasil, as pessoas primeiro têm contato com livros. Os livros são publicações de pesquisas mais completas e têm uma liberdade de formato e disposição dos dados, etc. que nem os artigos, nem as teses e dissertações têm. Por um lado isso é excelente – às vezes é muito mais gostoso de ler, mais fácil de compreender o raciocínio do autor, as teorias, etc. Por outro lado, para publicar um livro basta o contato com uma editora e algum dinheiro – quer dizer, não há uma “seleção” do material a ser publicado e, quando existe, ela é rara. [e, calma, vamos falar também da “seleção” dos artigos mais adiante]

Também é possível encontrar livros no estilo “coletânea” onde cada autor escreve uma espécie de artigo. Numa boa coletânea os artigos são articulados uns com os outros e elucidam diferentes aspectos de um mesmo assunto. É claro que há as coletâneas nem-tão-bem-feitas, em que os artigos parecem um pouco desconexos. Sempre se pode aproveitar alguma coisa delas, ainda assim. De toda maneira, é importante lembrar que um livro-coletânea é diferente de um livro de autor único, especialmente dos livros teóricos. O objetivo é diferente, a forma de organização e publicação é diferente, e a abordagem do assunto de pesquisa é diferente também.

Os capítulos de um livro-coletânea são escritos por autores convidados, que em geral integram redes e grupos de pesquisa. Eles seguem a estrutura de um artigo, com a diferença de que são escritos a convite e não necessariamente são “postos à prova” como alguns artigos. Isso não os torna ruins, assim como nem todo artigo “posto à prova” é bom. É preciso apenas ter isso em mente na hora de escolher seu material.

Artigos e periódicos

Os artigos em geral seguem uma estrutura de escrita muito própria. Um artigo deve apresentar dados articulados a teorias, revelando pequenas e pontuais descobertas sobre um objeto de pesquisa. A argumentação é necessariamente baseada em dados apresentados no próprio artigo, e os bons artigos em geral apontam também que aspectos do problema aqueles dados não são capazes de explicar.

Os artigos já escritos são submetidos a periódicos. O editor do periódico envia os artigos recebidos a acadêmicos renomados na área/tema/assunto para que estes avaliem o texto e, mais ainda, o conteúdo. Em alguns raros casos, os artigos são aceitos “de primeira” e publicados em uma edição do periódico. Na maioria das vezes, os pareceristas apontam reformulações, mudanças, etc. que são necessárias para deixar o artigo “tinindo” na opinião editorial daquele periódico.

Por meio desse processo de “avaliação por pares”, o periódico empresta seu prestígio aos artigos ali publicados. Quer dizer, se a sua fonte for um periódico muito reconhecido na área, há poucas chances (embora jamais totalmente nulas) de você estar lidando com artigos “picaretas” de pesquisas mal feitas, etc. Essa espécie de “seleção” faz com que os artigos sejam um bom começo para uma pesquisa bibliográfica, já que através deles você pode mapear a produção científica sobre seu tema/objeto/etc. como explico na próxima seção deste texto.

Nem sempre, porém, há artigos publicados sobre uma pesquisa muito bem-feita. A cultura de se escrever artigos não é largamente difundida em todas as áreas de estudos no Brasil, embora tenha sido incentivada e promovida com bastante empenho [se isso é bom ou ruim, deixo para discutirmos em outro momento]. Por isso, as dissertações e teses podem sempre ser um complemento bom para sua coleta de material e referências.

Quando utilizar dissertações e teses?

Dissertações e teses são resultados de diferentes tipos de pesquisa. Uma dissertação é o produto final de uma pesquisa de mestrado, que em geral dura dois anos ou três. Uma tese é o resultado de uma pesquisa de doutorado, que dura entre três e cinco anos, com algumas exceções. As dissertações e teses são avaliadas por uma banca examinadora para que o autor ou autora receba o título a que se candidatou (Mestre/a ou Doutor/a).

As dissertações e teses também seguem um formato específico de escrita, que precisa dar ao leitor muita clareza de como as conclusões são sustentadas pelos dados apresentados. São excelentes ferramentas para compreender melhor o caminho que levou o pesquisador ou pesquisadora a chegar em certa teoria, elaboração, informação, conclusão, etc. Como os bons artigos, as boas teses e dissertações também deixam claro aquilo que os dados e conclusões não explicam, não alcançam no objeto estudado.

Se o prestígio de um artigo pode ser em geral “medido” pelo periódico em que é publicado, o prestígio de uma tese ou dissertação pode ser “medido” pela banca examinadora. A banca confere seu prestígio (ou desprestígio, em alguns casos) ao trabalho que aprova. Dar uma checada na banca examinadora é uma maneira interessante de contextualizar a tese ou dissertação que você tem em mãos (ou em PDF) para ler. Isso se faz por meio de uma boa fuçada nos trabalhos dos membros da banca, caso você não os conheça.

A lista completa de trabalhos em geral pode ser encontrada nos currículos Lattes dessas pessoas. Desconfie de currículos Lattes inexistentes ou muito desatualizados (por exemplo, sem atualizações há dois ou três anos), já que a informação atualizada nessa base de dados é pré-requisito para se fazer pesquisa em qualquer instituição séria no Brasil hoje [embora baseada em dados, essa é minha opinião e, como tal, absolutamente discutível].

III. Como otimizar sua busca (um pouco sobre palavras-chave e outras referências)

Então você já sabe onde pesquisa e como decidir em que tipo de material vale mais a pena investir, quando, como verificar sua “reputação”, entre outras coisas. Muito bem. Essas informações não valem tanta coisa, porém, se não houver um pouco de malandragem sobre como fazer essa busca. Há muita informação e nem sempre essa informação é registrada ou catalogada nos termos que você imagina. Por isso, é preciso ter alguns cuidados na forma de pesquisar por material bibliográfico, de qualquer tipo que seja.

Palavras-chave

Sempre que um artigo, tese, dissertação ou livro especializado é publicado, o material precisa ser classificado em palavras-chave. Quem faz isso em geral é o próprio autor ou a editora responsável pela obra. É por meio dessas palavras-chave, em geral, que se encontra (ou deixa de encontrar) material relevante para seu tema de pesquisa.

Essa classificação, porém, tem um problema. Como toda classificação, ela é um tanto arbitrária. O número de palavras-chave é limitado, o que também precisa ser levado em conta. Como escolher três palavras-chave para um trabalho que analisa, por exemplo [fictício], a ocorrência de uma certa doença em oito grupos sociais e étnicos diferentes, distribuídos em três regiões geográficas? A palavra-chave mais importante, claro, é o nome da doença. Mas e as demais? Que grupos escolher? Será que vale a pena colocar o método de análise como palavra-chave? Ou uma das regiões? Qualquer combinação que se escolha estará “escondendo” de alguma maneira uma parte da pesquisa. Se eu quiser mapear os trabalhos já publicados sobre uma certa etnia e ela não constar na lista de palavras-chave dessa publicação, há grandes chances de ela ficar de fora do meu “mapeamento” se eu utilizar apenas as palavras-chave como maneira de pesquisar.

A solução para isso vem em três partes. A primeira é alternar palavras-chave, usando sinônimos e termos correlatos e sempre testando novas palavras-chave. A segunda é usar em suas buscas as palavras-chave usadas em livros, artigos, teses e dissertações que você já leu e já considerou relevantes. A terceira é simplesmente não se basear apenas nas palavras-chave.

Muito além das palavras-chave

As consultas por palavras-chave são sempre uma boa maneira de começar. A partir dos primeiros trabalhos relevantes que você encontrar, porém, é possível expandir as formas de buscar conteúdo.

Assim como com as palavras-chave, você pode buscar autores que já descobriu serem relevantes. Não se limite a eles, porém: observe a bibliografia que eles mesmos citam e faça um mapeamento da produção dos autores que esses autores estão utilizando (ou com os quais dialogam). Repare de novo nas palavras-chave e autores desses novos trabalhos e assim por diante.

Nem tudo será extremamente relevante, mas você pode mapear bem a bibliografia e escolher por onde começar. Lembre-se de não fazer uma lista gigantesca que você jamais vai cumprir, pois isso só te deixará frustrado/a. O ideal é ir lendo e pesquisando e lendo e pesquisando. O trabalho de construir uma bibliografia consistente nunca acaba. Daí a vantagem dos organizadores de referências.

Mas esse é assunto para um próximo post.

[esse post foi publicado originalmente no Medium, em Junho-2013]

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