façam ciências sociais

post originalmente publicado em meu perfil no Facebook, celebrando o dia do sociólogo

ontem foi dia do sociólogo e eu vim dizer: façam ciências sociais.

falei com um amigo que vai prestar vestibular, outro dia, e ele me disse que está pensando em mudar a escolha de curso para história, com medo de ficar sem emprego caso sociologia saia do currículo. o prognóstico da carreira acadêmica também não parece ser dos melhores, com corte de bolsas e verbas, com flexibilização e precarização das condições de trabalho em pesquisa e ensino. entre os meus colegas de graduação, os vários que não são acadêmicos ou professores (não só de sociologia mas também de filosofia, história e geografia) se tornaram bancários, doulas, massagistas, professores de ensino fundamental, comerciantes, músicos de casamento, artesãos/artesãs, produtores de eventos.

mas eu vim dizer: façam ciências sociais.

durante o curso de ciências sociais, mais ou menos no segundo ano, 75% dos estudantes de graduação simplesmente pira. entre o segundo e o terceiro uma parte abandona o curso, inclusive – precisaria de dado estatísticos pra confirmar, mas na experiência de pessoas de diferentes universidades com quem já conversei essa parece ser meio uma constante. não é simples viver todos os dias descobrindo novas camadas de significado em absolutamente tudo que está ao redor. o curso de ciências sociais faz a gente se sentir, em algum ponto, “floating in the most peculiar way” como o Major Tom de Bowie: passamos a enxergar tantas coisas novas sobre o mundo social e as interações cotidianas, que nos sentimos “destacados” da realidade que as outras pessoas parecem estar vivendo. e não é gostoso. às vezes rola a sensação de que ninguém que não esteja mais ou menos familiarizado com certos conceitos será jamais capaz de entender o que dizemos.

mas eu vim dizer: façam ciências sociais.

é muito comum que as ciências sociais não sejam levadas a sério como outras ciências. enquanto vivemos todos os dias a força da autoridade médica (história e socialmente construída), por exemplo, as afirmações de cientistas sociais são tratadas como “questão de opinião” em diversos contextos. quando dizemos que estudamos ciências sociais as pessoas ficam caladas por não terem ideia do que fazemos, confundem nossa área com serviço social ou perguntam como vamos fazer pra pagar as contas.

mas eu vim dizer: façam ciências sociais.

eu poderia dizer a vocês como o mercado de trabalho é cada vez mais aberto a cientistas sociais. poderia dizer como em qualquer área, na hora de prestar vestibular, a gente nunca sabe bem toda a ampla gama de possibilidades de trabalho com aquilo – por não estarmos ainda dentro da área. poderia contar pra vocês, então, como os bancos contratam cada vez mais cientistas sociais pra integrar equipes de análise de dados. como consultorias privadas têm feito o mesmo. como empresas de pesquisas de opinião e mercado também precisam de cientistas sociais o tempo todo. eu poderia lembrar das agências públicas de produção de dados e pesquisas como o IBGE, o INEP, e as próprias secretarias de governos municipais, estaduais e federais que também estão repletas de cientistas sociais. as fundações ligadas a partidos políticos que também têm equipes e mais equipes de cientistas sociais em seus projetos. tudo isso pra dizer que, olha, fazer ciências sociais não é morrer de fome nem ficar desempregado. mas sempre é possível morrer de fome e ficar desempregado, ou não topar os trampos que aparecem específicos pra cientistas sociais – vocês topariam trabalhar como os antropólogos do exército estadunidense, que mapeiam os processos culturais de diferentes locais a serem invadidos aumentando a eficácia das estratégias de guerra?

por isso eu vim dizer: façam ciências sociais.

porque o mercado de trabalho não é uma força da natureza (e é certamente menos estável do que várias delas, como as luas e marés). é uma construção cotidiana que está no jogo que disputamos se desejamos atuar na sociedade de maneira crítica. como parte do jogo, o “mercado” deve também ser disputado e sobretudo questionado. e, para disputar, nada mais necessário do que fazer ciências sociais e compreender esses processos, estruturas, dinâmicas. como desmontar uma máquina (ou um quebra-cabeça) sem conseguir distinguir uma peça da outra e a relação entre elas?

então façam ciências sociais.

a possibilidade de desemprego e instabilidade econômica estará sempre aí. para a juventude da classe trabalhadora, ainda mais. por isso, se o objetivo de vocês buscarem uma formação de graduação for apenas e exclusivamente ter um bom emprego, e se isso for muito maior pra vocês do que o papel essencial e estratégico das ciências sociais na construção de uma sociedade mais justa e livre de toda exploração e dominação de uns sobre os outros, então não, não façam ciências sociais.

As escolas serão nossas comunas (ou: a quem pertence a educação?)

[texto publicado originalmente em http://pcbeducacao.org/a-quem-pertence-a-educacao/ ]

Ceará, Rio Grande do Sul, Goiás, São Paulo: em 2015 e 2016 temos assistido a uma sequência incandescente de lutas de estudantes secundaristas pela educação pública. Emboras as lutas estejam expressas em diferentes bandeiras e pautas específicas, podemos compreendê-las como tendo um fio condutor que se traduz na seguinte pergunta: a quem pertence a educação?

No Brasil a classe trabalhadora sustenta os serviços públicos, pagando uma proporção maior de impostos do que aqueles que vivem de renda, patrimônio e especulação. A educação não é exceção e isso não seria um problema se o Estado funcionasse a favor de nossos interesses. Historicamente, porém, os trabalhadores têm sido marginalizados e impedidos de acessarem esse direito básico (e outros) em nosso país. Sustentamos a educação e somos constantemente impedidos de acessá-la e, sobretudo, de tomar decisões sobre ela. Na atual conjuntura, ainda pior do que isso, o prognóstico é o de que o pouco dinheiro público que se mantiver destinado à educação, passe para as mãos de grandes corporações interessadas no setor (por exemplo por meio das OS). A história nos mostra como chegamos até aqui, e a sociologia reforça o quão estratégico é esse setor que está em franca disputa.

Educação e luta de classes no Brasil: ontem, hoje e… amanhã?

Nos tempos do império a ausência de um sistema público nacional fazia com que apenas as famílias nobres tivessem condições de pagar por tutores particulares ou para que seus filhos (homens, vale lembrar) estudassem na Europa. Quando começamos a criar nosso sistema de educação pública, ainda muito restrito, toda a população negra e pobre foi sumariamente excluída de seu acesso – por não serem considerados pessoas, aqueles que haviam sido escravizados, assim como seus filhos, não conseguiam se matricular em instituições de ensino.

Assim que isso começou a mudar, o Estado adotou dois tipos de política educacional, nenhum deles voltado aos interesses da classe trabalhadora: por um lado, transferindo dinheiro público a instituições religiosas de elite, em geral católicas, que ofereciam vagas eventuais a alunos considerados “excelentes” vindos da classe trabalhadora – mas como um aluno poderia se tornar excelente sem acesso primário à educação?

Por outro lado, a expansão da rede pública de ensino foi orientada explicitamente para formar “trabalhadores qualificados” (o discurso ideológico transmitido à classe trabalhadora é o mesmo de sempre: com mais qualificação, você terá um melhor emprego e viverá em condições melhores). Quem definia qual era o padrão de formação correto para aqueles oriundos da classe trabalhadora? A resposta é simples: quem estava presente no Estado, ou seja, empregadores e patrões, burgueses e/ou descendentes da nobreza imperial. Seus filhos estudavam nas escolas religiosas ou em instituições que, mesmo sendo públicas, realizavam exames de seleção e não aceitavam a matrícula de qualquer aluno. Esses exames (assim como o antigo “exame de admissão” que selecionava estudantes para matrícula no ginásio, ciclo correspondente aos atuais anos de escolarização do Fundamental II) se baseavam – como ainda hoje se baseiam – em conhecimentos e habilidades que não eram efetivamente oferecidos aos filhos da classe trabalhadora. O sociólogo Pierre Bourdieu elaborou ao conceito de capital cultural para explicar como a escola, por meio de seus exames e avaliações, demanda conhecimentos que não são homogeneamente distribuídos ou transmitidos entre as diferentes classes sociais.

Se olharmos a fundo, veremos que o sistema educacional a serviço dos interesses de classe da burguesia (formar trabalhadores qualificados para que se produza com mais eficiência, mantendo ou aumentando as taxas de lucro) é estratégico para a manutenção das classes sociais. Mesas e cadeiras individuais, enfileiradas; reforço do clima de competição; horário de almoço/intervalo curto e restrito; hierarquia reforçada com medidas disciplinares; etc.: toda semelhança da organização escolar com a organização dos locais de trabalho não é mera coincidência. A sociologia da educação nos auxilia a enxergar algumas nuances dessa afirmação e algumas interações complexas entre o sistema educacional e a organização social em classes.

Segmentação da educação escolar: origem e destino de classe

Embora tenham muitos elementos em comum umas com as outras, porém, sabemos que as escolas não são todas iguais. O conceito de segmentação da educação escolar (ou dos sistemas de ensino) nos auxilia a compreender essas desigualdades repletas de nuances. A segmentação ocorre quando o currículo é o mesmo para todas as mas a maneira como é abordado – e os objetivos de se trabalhar cada conhecimento (ou, no caso de muitas escolas, “conteúdo”) – variam enormemente. Essa variação em geral se dá segundo a origem social ou origem de classe das famílias que a escola atende. Um bom exemplo disso é a ineficácia da divisão públicas versus particulares para descrever as desigualdades educacionais brasileiras hoje.

Podemos dizer que hoje a segmentação do sistema de ensino no Brasil é mais complexa do que a mera divisão entre escolas públicas e privadas. Pesquisadores de diferentes universidades continuam apontando em suas pesquisas que as escolas acompanham a origem social de seus estudantes. Concretamente, isso significa que mesmo entre escolas privadas, há aquelas que servem a famílias de elites e grupos dominantes, há muitas gerações já familiarizadas com a alta escolarização; e há aquelas que servem comunidades da classe trabalhadora, inclusive suas fatias de renda média e média-alta, com sistemas apostilados e a promessa da ascensão social por meio do acesso a universidades públicas renomadas e concorridas. Entre as escolas públicas municipais e estaduais, a divisão se dá majoritariamente entre os bairros – bairros considerados “melhores” costumam abrigar escolas também consideradas “melhores”, o que não é nenhuma coincidência (o que nos faz considerar um bairro “melhor” senão sua distância da pobreza e de suas graves consequências sociais?).

No caso do ensino médio, há ainda uma divisão de classe poderosa entre escolas estaduais “comuns” e escolas que oferecem ensino técnico (sejam elas estaduais ou federais): para matricularem-se os estudantes devem prestar um exame (a meu ver criminoso) chamado “vestibulinho”, que nada mais é do que a mesma história de antes, repetida. Quem, afinal de contas, vai melhor num exame: quem teve acesso às escolas e bairros “melhores” ou quem teve acesso às escolas e bairros “piores” durante o ensino fundamental? Nosso sistema educacional e escolar é meticulosamente organizado para que a estrutura de classes se mantenha.

Segmentação e condições do trabalho docente

Essa organização meticulosa passa também pela segmentação e sucateamento das condições de trabalho dos professores. Na rede pública assistimos a uma série de ataques sistemáticos como as condições desumanas em que são realizadas as atribuições de aula; o salário de fome que faz com que professores precisem pegar muitas aulas para sustentar suas famílias, sem permitir o tempo adequado de descanso e de preparação de aulas; o corte de recursos para bibliotecas, materiais, laboratórios, infraestrutura; a estrutura de poder e administração centralizada e burocratizada que dá ao professor pouca autonomia sobre seu próprio trabalho (e outros ataques sérios a essa autonomia fundamental para a qualidade de ensino, feitos por iniciativas como o projeto de lei Escola Sem Partido; a entrada da polícia militar em escolas como supostas “parceiras” da direção e da administração criminalizando estudantes; a implementação de sistemas desenvolvidos por organizações de interesse privado mascaradas sob a fachada de “organizações sociais”).

Nada disso contribui para oferecer, aos filhos da classe trabalhadora e de grupos marginalizados, que estão nos “piores” bairros, nas “piores” escolas, chances mínimas de acesso a um ensino técnico, à educação superior (ou a ambos) ou até mesmo a uma formação de qualidade no ensino básico, que os preze enquanto sujeitos de sua própria vida, da história e da sociedade.

A situação de trabalho dos professores em escolas privadas também é massacrante. Salvo raríssimas exceções, a rotina de professores em escolas privadas passa por muita precariedade. Entre os exemplos, estão a pouca autonomia sobre suas aulas (ou nenhuma, em boa parte dos casos); o assédio moral constante da parte de diretorias e administrações mais preocupadas em manter a clientela satisfeita e as rematrículas para o semestre seguinte (e os lucros da empresa – afinal, a escola privada é uma empresa); os salários extremamente semelhantes (ou às vezes piores) do que aqueles oferecidos pela rede pública; a sobrecarga de horários e empregos para conseguir renda suficiente ao final do mês; o cotidiano com câmeras de vigilância instaladas para monitoramento das aulas; a exigência de cumprir trabalho não-pago fora de suas atribuições profissionais; os direitos trabalhistas básicos recusados ou condições de contratação precárias.

Essas condições  dificultam o acesso à educação de qualidade por parte também dos estudantes de escolas privadas, oriundos da classe trabalhadora (afinal, a mensalidade das escolas que são exceções a essa regra em geral ultrapassam facilmente a casa dos R$1500-R$2000, o que é inacessível para o grosso da população).

Na esfera do nível superior, a história se repete. O acesso não é universal e os exames são utilizados mais como forma de selecionar do que de avaliar a capacidade de estudantes de acompanharem os cursos superiores. O Estado governado por interesses de classe (e de maneira ainda mais explícita e voraz com Temer na presidência) transfere dinheiro público para empresas privadas de educação por meio de programas como o Prouni e o Fies enquanto corta verbas de ensino e pesquisa, dificulta a ampliação de vagas nas universidades estaduais e federais, e corre para aprovar uma lei que abre as portas para a privatização das universidade federais (por meio da máscara das “gestões por organizações sociais”, o que já ocorre no ensino municipal e estadual em diversos lugares do país) e das estaduais (por meio das fundações e dos cursos de pós-graduação pagos). Todas essas medidas são parte de um plano de desmonte e privatização sutil (ou nem tão sutil assim) do sistema educacional como um todo – mesmo do que lhe restar de público. É o Estado sendo colocado a serviço das taxas de lucro de empresas do sistema educacional.

Privatização da educação hoje

A reorganização da educação básica proposta e violentamente levada a cabo pela Secretaria Estadual de Educação em São Paulo a despeito da derrota política ocorrida em 2015, é mais uma audaz jogada que atropela os interesses da classe trabalhadora nesse tabuleiro. Trata-se de medidas que procuram demonstrar uma eficácia de recursos do sistema educacional, acima das necessidades e interesses das famílias e estudantes da rede pública paulista; essa é a forma que o Governo do Estado de Geraldo Alckmin tem de sinalizar a investidores brasileiros e estrangeiros da educação privada que haverá espaço para a progressiva privatização do sistema público: o Brasil tem hoje, após decisões políticas minuciosamente tomadas com este fim desde o período da ditadura militar, um dos dez maiores mercados educacionais do mundo, que movimenta anualmente cerca de R$55bilhões.

Não é de se espantar que alguns estados governados pelo PSDB, como o estado de Goiás, já estejam adequando suas legislações para permitir a transferência da gestão das escolas públicas para “organizações de interesse social”. Diferente de organizações sem fins lucrativos, porém, as OS podem legalmente lucrar com a educação. Na prática, o resultado dessas medidas é transferir para o setor privado a rede pública de ensino. Nesse contexto, será ainda mais difícil e improvável que qualquer interesse da classe trabalhadora, que depende do sistema público de educação, jamais seja atendido em relação a sua escolarização.

É urgente neste momento que nos perguntemos: qual é a educação que queremos? A que interesses ela deve atender? De que maneiras podemos promover uma educação que não sirva apenas aos interesses de um pequeno grupo de pessoas? Essas são as questões que devemos, junto aos estudantes que ocupam bravamente seus estabelecimentos de ensino, colocar na ordem do dia. Para respondermos a essa questão, podemos utilizar habilidades e conhecimentos que devem, em tese, ser estudados no currículo escolar: analisemos a história da educação, as estatísticas quanto à escolarização e diferentes segmentos de classe no Brasil, os números do mercado privado de educação, a nossa estrutura de classes, a arquitetura e engenharia aplicadas à construção de prédios que mais parecem prisões, os processos químicos e biológicos envolvidos em recursos necessários à permanência estudantil como a alimentação garantida no sistema de ensino…

Quando dizem que a luta política dos estudantes secundaristas atrapalha as aulas e o conhecimento escolar, então, se está repetindo uma falácia segundo a qual a educação poderia ser uma esfera completamente autônoma da sociedade. Não é, não será jamais. A educação é, em essência, o processo de transmissão/aquisição de disposições e conhecimentos que cada sociedade julga necessários para que uma pessoa possa ser considerada parte dela. Numa sociedade de classes, porém, essas partes não são iguais e não se relacionam horizontalmente. Daí a construção de sistemas segmentados para atender à formação de indivíduos segundo sua classe, garantindo a manutenção e a reprodução das classes sociais como são. A questão é: como direcionar a educação para os interesses da classe trabalhadora? A quem pertence a educação?

As escolas serão nossas comunas

As ocupações das escolas estaduais e técnicas por estudantes secundaristas desde 2015 mandam um recado claro à sociedade: é preciso mais do que reformas focadas em “otimização de recursos”. A educação precisa ser inteiramente revista – e não simplesmente para adequar os trabalhadores ao mercado de trabalho. Os estudantes nas ocupações trazem, elaboram, reelaboram e constroem coletivamente críticas bastante contundentes ao sistema escolar e às políticas públicas para a educação básica. Convidando professores, militantes e palestrantes de diversos grupos, partidos e movimentos sociais como aliados de luta, e envolvendo a comunidade escolar (com todas as suas contradições) no processo, os secundaristas estabelecem um diálogo público essencial sobre os interesses em jogo nas decisões sobre a educação no Brasil.

Esse diálogo público, porém, não se limita aos momentos de ocupação. Enquanto tática, as ocupações têm cumprido uma função essencial nessa batalha. Contudo, é mais do que evidente o crescimento e amadurecimento do movimento dos secundaristas entre os períodos de ocupação. O debate avança, as pautas avançam, e a atenção e a análise dos resultados concretos da luta de classes no processo das ocupações (ações da PM, instauração da CPI da merenda em SP presidida pelos próprios envolvidos no caso, tensionamento da lei da mordaça aos professores em Alagoas, cancelamento dos concursos para professores em Goiás etc.) permitem traçar novas táticas e revisar as estratégias de luta. No caminho, a educação é cada vez mais evidenciada enquanto setor estratégico na luta de classes no Brasil, e no enfrentamento direto contra os interesses do capital.

O trabalho educacional é um dos responsáveis pela manutenção das estruturas sociais: socializa, transmitindo não apenas conhecimentos ou “conteúdos” às novas gerações, mas incutindo nelas uma maneira de ser, de ver o mundo e de relacionar-se com ele a partir de um lugar social específico segundo sua classe e/ou grupo social (pesam aí racialidade, gênero, origem regional, e outros marcadores sociais de diferenças). Assim como no caso do trabalho produtivo, responsável pela produção e distribuição de recursos materiais e riquezas em nossa sociedade, o trabalho educacional precisa ser compreendido como trabalho alienado. Alienado dos professores, mas também alienado dos alunos.

Ao nos perguntarmos, então, que projeto de educação queremos no caminho para uma sociedade sem classes e livre de toda exploração entre seres humanos, a resposta pode ser apenas uma: um projeto de educação que coloque o trabalho educacional nas mãos dos sujeitos nele envolvidos e, mais, que essa desalienação seja condição para que se constituam enquanto sujeitos. Esse projeto só pode ser alcançado se questionarmos o controle dos meios de reprodução de classe: as escolas.

Mãe: biológica ou genética?

[texto publicado originalmente em 08/11/2011 no Mulher Alternativa]

A novela das nove ilustra bem o drama, mas ele vem da vida real. Muitas mulheres desejam ter filhos e, se deparando com uma barreira biológica como um problema com os gametas (sejam seus próprios óvulos ou os espermatozóides do companheiro), questionam-se sobre o que seria biologicamente a maternidade. Uma mãe que dá a luz é mais mãe que outras mães? Uma criança com material genético de pelo menos um dos pais é mais “filho” do que uma criança adotada ou gerada totalmente com gametas de doadores? A criança gerada na barriga da mãe de registro com gametas de doadores é mais “filha” do que uma criança adotada?

Essas questões são, além de delicadas, bem complexas. Exigem uma incursão em nossa própria forma de pensamento, enquanto sociedade, para entendermos de onde vem essa senação de inadequação das categorias sociais tradicionais às possibilidades criadas pelo desenvolvimento de novas tecnologias reprodutivas.

Não sou a primeira, única nem última a falar disso. Filósofas (como Donna Haraway) e antropólogas (como Marilyn Strathern) é que me deixaram com questões como essa na cabeça. Em seu livro After Nature, cujo objeto principal sequer são as tecnologias reprodutivas, Strathern toca nesse ponto. Ela traz dados sobre as ideias de diferentes sociedade melanésias sobre a concepção e a reprodução para tentar entender melhor o que nós pensamos e por que pensamos o que pensamos.

Strathern conta que embora as sociedades que usa como exemplo não tenham desenvolvido uma ciência análoga à nossa (o que seria segundo ela impossível pois a própria forma de conceber pensamento, tempo, etc. são distintas – e nem por isso piores), elas também entendem a concepção como uma transmissão de substância física entre pai ou mãe ou ambos e o feto. Em uma destas sociedades, entende-se que o feto é feito do sangue da mãe (logo mesntruação = não tem feto; genial) mas é preciso que haja ato sexual durante a gravidez pois é o sêmen que dá as características físicas das crianças – que têm de ser sempre parecidas com o pai. Já em outra, entende-se que o feto é feito de substância do pai, mas gerado no corpo da mãe. Interessante é que esta segunda sociedade é matrilinear, ou seja, os direitos, propriedades e parentesco são transmitidos sempre pela mãe.

Ok, o mundo deve ter caído pra alguns enquanto leram o parágrafo anterior. Outros devem estar duvidando, já que pra nós é tão óbvio, tão dado, tão natural, que os embriões são feitos de material genético da mãe e do pai. Mas é isso que os exemplos de Strathern ajudam a questionar.

Em nossa concepção científica de mundo, os fetos são formados da união de um gameta masculino ou feminino (embora hoje já se consiga em laboratório fertilizar um óvulo com material de outro óvulo, mas essa prática ainda não existe acessível ao “público” então vou ignorá-la por hora). Há transmissão de genes de cada um desses gametas para o feto (embora não igualmente 50/50, segundo alguns biólogos e geneticistas têm questionado). Todo feto teria, no entanto, um “pai” e uma “mãe” genéticos, aqueles que geraram os gametas que geraram o feto.

Por outro lado, quando o feto está crescendo, durante a gravidez, ele é parte do corpo da mulher. Não é, ainda, uma outra pessoa ou um outro indivíduo. Ele precisa daquele sistema todo (= corpo da grávida) para viver. Precisa, mais do que isso, da substância física que a grávida, sendo mãe genética ou não do feto, compartilha.

Essa é outra coisa que o trabalho de Strathern aponta de interessante sobre nosso próprio pensamento, na qual eu jamais havia reparado. Quando representamos um feto, frequentemente o representamos sem o corpo que o carrega – que é parte essencial e pressuposto para sua existência, mesmo em nosso pensamento científico moderno. Como se o feto fosse uma coisa distinta da mulher que o carrega; como se a única ligação entre feto e grávida fosse o cordão umbilical e ele flutuasse num oco lá dentro da barriga. Tira-se daí a impressão equivocada de que além do código genético, não há nenhuma outra substância física biológica compartilhada entre grávida e feto. Daí, considera-se muitas vezes que o termo “mãe biológica” significa aquela que compartilha o código genético.

Com as novas tecnologias reprodutivas, porém, o momento da fertilização foi separado da gestação, ao menos em possibilidade. A grávida que carrega o feto não necessariamente compartilha genes, mas necessariamente compartilha substância física. A “mãe genética” que gerou o óvulo não necessariamente será a grávida que carrega o feto.

Proponho aqui uma distinção clara entre a mãe biológica e a mãe genética, a partir dessa reflexão. Entendo, com isto tudo, que a mãe biológica é a grávida que carrega o feto e passa pelo parto. A mãe genética é aquela que gerou o óvulo. Acrescento a isso, ainda, a mãe cultural. Mãe cultural é aquela que, após o parto, tem a responsabilidade legal (mas também moral e social) de cuidar, nutrir, transmitir cultura. Aquela que mais comumente chamamos de “mãe”. Uma mulher pode, portanto, ser ambas as três coisas ou apenas uma ou duas delas simultaneamente.

Enquanto feminista, defendo essencialmente que o feto seja tratado como parte do corpo da mulher. Daí minha preocupação em propor esta terminologia. A maternidade é cheia de mitos e encontrar coerência em nosso próprio sistema de pensamento nem sempre é tão simples. Por outro lado, é um aspecto fundamental da construção da justiça social.

Que cada mulher tenha o direito pleno a decidir se quer ser mãe de alguma forma, e de que formas deseja ser mãe.

Rolezinho: isso não é (só) sobre consumo

Quando começaram os protestos de junho, houve quem me chamasse de louca por considerar que estávamos diante da “primavera brasileira”. Houve quem dissesse que os protestos não eram protestos, verdadeiramente, já que as pessoas não sabiam muito bem o que fazer nas ruas, nem conhecessem precisamente maneiras um tanto “técnicas” de travar a luta política. Houve quem dissesse que nenhuma reivindicação desejava mudança estrutural. Desde o começo me pareceu muito claro: podemos sim, dizer que começou ali uma primavera brasileira. Uma insatisfação com a maneira geral como nos organizamos em sociedade. Em especial, com o abandono que sentimos em relação ao Estado, uma estrutura que deveria servir aos interesses de muitos mas se curva diante de caprichos de poucos. Assim como os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus em todo o Brasil, e contra os abusos da FIFA na Copa das Confederações e Copa do Mundo, os rolezinhos vão na mesma onda, gritando: assim não está bom.

Os rolezinhos e a luta contra o aumento das passagens (e, em última instância, pelo passe livre) têm absolutamente tudo em comum. Muito tem se dito sobre os rolezinhos serem uma questão de “consumo”, apenas. Dizer isso é banalizar o rolezinho. Se fosse uma questão de consumo, individual, bastava um grupo de quatro ou cinco amigos da periferia combinar de ir ao cinema um dia num shopping como o Iguatemi JK que estaria tudo certo. Mas o rolezinho não é isso. O que é que estão dizendo as centenas e milhares de jovens que se engajaram em rolezinhos, quando utilizam uma das táticas de luta política mais antigas e sólidas – a ocupação – em shoppings de grandes cidades?

Não dá pra ficar em casa trancado“, disse Jefferson Luís, o rapaz de 20 anos que organizou o rolezinho no Shopping Internacional em Guarulhos, SP. A frase martela em minha cabeça: não dá pra ficar em casa trancado. Não dá pra ficar em casa trancado. Não dá. Nenhuma outra frase resume tão bem a questão social e política que o rolezinho combate. Reproduzindo a estrutura social vigente, nossas cidades segregam. Segregam porque se baseiam na acumulação de capital, e não na eqüidade entre indivíduos, grupos, setores. Se o local de moradia e a possibilidade de circular pela cidade, saindo dele, dependem de dinheiro, num contexto em que o dinheiro não é distribuído de maneira homogênea, então também é assim com o acesso a serviços, opções de lazer e cultura e, pasmem, até com o consumo e a certos bens.

No nosso caso, ainda, há uma segregação racial que acompanha a segregação social. Por conta de nossa história de políticas racistas de Estado (como trazer mão-de-obra assalariada branca de fora do Brasil para não ter que contratar negros na lavoura e na indúsrtia; ou como a proibição aos negros de frequentarem escolas públicas associada à proibição de voto dos analfabetos), a população negra ficou relegada aos estratos mais baixos da nossa hierarquia social – essa que se baseia em acumulação de capital, grana, money, tutu, dindin. Pois então, no momento em que uma parcela dessa população negra começa a quebrar (ainda que com muito suor e sangue) esse esquema, acumulando algum dinheiro e consumindo o que não lhes era socialmente designado, o racismo fica ainda mais escancarado. É impressionante que até a lógica capitalista, tão arraigada em nosso pensamento, seja preterida quando se trata da lógica racista. Segundo o shopping JK Iguatemi, é melhor recusar centenas de clientes e consumidores, caso eles sejam negros.

(Não dá pra fazer olimpíadas da opressão, eu sei; mas às vezes me parece que, se fosse possível, certeza que o racismo estaria ganhando disparado neste país)

Isso tudo mostra que o rolezinho não é, definitivamente, sobre consumo. É sobre racismo, e sobre a estrutura sócio-racial que mantém jovens negros e pobres em casa, trancados, aos finais de semana. É sobre um Estado que concentra esforços para atender as demandas de gente com dinheiro e pele branca, e que abandona todo o resto. É sobre como a lógica do capital se entrelaçou de vez com o racismo quando, ao fim da escravidão, se estabeleceu políticas de imigração europeia para que se impedisse, de fato, qualquer tipo de ascensão social por parte das pessoas negras no Brasil. É sobre como o passe livre poderia reverter essa estrutura, proporcionando acesso dessa população já marginalizada a espaços centrais, a opções de cultura e lazer diversas. É sobre como o sistema de transporte também segrega, mantendo a estrutura social (lembrando casos de rolezinhos em Campinas, cidade em que os shoppings quase não têm acesso por meio de ônibus, nos quais foi simples fechar o shopping – bastou fechar as entradas de pedestres). É como essa estrutura se reflete em todo e cada espaço das nossas cidades.

O rolezinho é, enfim, uma incrível arma na luta por uma sociedade verdadeiramente igualitária.

PS.: em tempo: você, que concorda com tudo isso mas continua estigmatizando o funk e @s funkeir@s com memes ridículos sobre fones e ouvido e afins, faça um favor ao mundo e reveja profundamente seus preconceitos.

Racismo: uma questão de (mau) gosto?

online dating ptbr
clique para ver em tamanho maior

[texto original de Jenny L. Davis, tradução livre e adaptação da imagem por Marília Moschkovich]

O site de negócios e marketing Quartz soltou recentemente dados sobre o aplicativo de namoro “Are You Interested“, que conecta pessoas solteiras dentro de suas redes do Facebook. Os dados do Quartz se baseiam numa série de questões do tipo “sim ou não” sobre o interesses dos usuários uns pelos outros, assim como nas taxas de resposta entre usuários denotando possíveis combinações de sucesso. Os dados mostram que homens brancos e mulheres asiáticas são alvo de mais interesse, enquantos homens e mulheres negros são os de menor interesse. Os repórteres do Quartz resumiram os resultados da seguinte maneira:

Infelizmente os dados nos mostram ganhadores e perdedores. Todos os homens, exceto os asiáticos, preferam mulheres asiáticas, enquanto todas as mulheres, exceto as negras, preferem os homens brancos. Ambos homens e mulheres negros receberam as menores taxas de resposta de seu respectivo gênero.

A imagem no topo do post mostra os resultados.

Como socióloga, não estou nada surpresa com o fato de que a raça faz diferença, especialmente num processo tão pessoal quanto namoros e relacionamentos. No entanto, essas descobertas podem parecer uma grande novidade para a parcela (bem significativa) da população que se identifica como “não-racialista”; esses que acreditam que vivemos numa sociedade “pós-racial”.

Por isso os sites de relacionamentos são tão legais. Os psicólogos sociais sabem que há muito pouca relação empírica entre o que as pessoas dizem e o que elas fazem. Os sites de namoro mostram o que fazemos e nos mostra essas informações. Eles expõem quem somos, o que queremos e, claro, o que não queremos. Como mostrado pelo Quartz, “nós” fetichizamos mulheres asiáticas enquanto desvalorizamos as negras.

Com uma defasagem entre o que as pessoas dizem e fazem; entre o que dizem e o que pensam inconscientemente, questionários sobre atitudes raciais são sempre limitadas. As pessoas podem dizer o que quiserem – que a raça não importa, que não ligam para a cor da pele – mas no momento de escolher parceiros e parceiras, e os critérios dessas decisões são formalizados por meio de perfis e decisões de resposta, nós, como indivíduos e como sociedade, não conseguimos nos enganar. Os números se voltam contra nós, nos forçando a encarar desconfortáveis atitudes culturais e identitárias individual e coletivamente.

De fato, antes que alguém responda qualquer coisa, a arquitetura dos sites de ralcionamentos nos dizem muito. Especificamente, ao definirem quais preferências podemos ou não ter, eles nos dizem quais características provavelmente nos importam como critérios, e com quais deveríamos nos importar.

Ambos os dados dos usuários e a presença da identificação étnico-racial e da opção de escolher esse tipo de preferência são reveladores, pondo abaixo quaisquer argumentos sobre não se olhar a cor da pele ou vivermos em uma sociedade/cultura “pós-racial”.

Por que o rei do camarote importa (sobre Marx, Bourdieu e Alexander de Almeida)

rei do camaroteEntão no final de semana um revista de imensa circulação publicou uma reportagem fazendo o que ela sempre fez, faz e fará: enaltecer um estilo de vida de um grupo social bem específico da maior cidade do Brasil. São Paulo não é Nova York, mas qual a diferença entre o rei do camarote e as patricinhas de Gossip Girl ou os ricaços dos Hamptons em Revenge? Eu, que acho esses seriados tão interessantes quanto o novo meme do rei do camarote, acho que há pouca diferença.

Em geral, frente ao esbanjamento mostrado na reportagem da Veja São Paulo, tenho encontrado alguns tipos de posicionamento. Quero refletir aqui sobre todos eles.

Antipatia pelo Rei

A primeira reação, que o próprio provavelmente classificaria como “inveja”. A antipatia, ao contrário da inveja, porém, vem da recusa de muita gente em aceitar que esse seja um estilo de vida bacana. Críticas mil, neste tipo de interpretação, ao mercado do luxo, ao esbanjamento, ao consumo desenfreado… e também à babaquice da criatura. Porque, sério, mesmo se ele não fosse rico, dá pra perceber que é um grandessíssimo babaca (e bem machistão).

Algumas coisas me incomodam um pouco nas opiniões e *zuêras* que tenho ouvido e que são antipáticas ao Rei. A primeira delas é a aparente necessidade das pessoas em ativarem a homofobia e o machismo para tirar sarro do cara. Sendo que a situação, a edição do vídeo, as coisas que ele diz, etc. já são, em si, um prato cheio para o humor. Não precisa tirar onda de que ele é gay (e se fosse? problema seria de quem, mesmo?), nem de que ele não come ninguém (e se não comer? problema é de quem, mesmo? ah, tá).

Outras coisas me parecem bem justas: esse cara, nesse vídeo, representa uma cultura de classe que é verdadeiramente opressora, seja para a classe média ou para os grupos populares. Cada garrafa de champagne com velinha acesa é, sim, motivo para tanto fuzuê. Porque vivemos numa sociedade altamente desigual que disfarça herança de mérito. Só é possível esbanjar espumante e Ferrari por aí explorando muita gente. O funcionamento desse mecanismo está muitíssimo bem descrito no volume I do Capital, de Karl Marx, leitura que recomendo a qualquer ser humano que deseje entender a organização da sociedade capitalista em qualquer uma de suas épocas. Mesmo quem não é marxista (e eu também não sou) precisa sim conhecer a teoria mais sólida que existe sobre o funcionamento da economia e do trabalho no capitalismo industrial. Sem chiar. Apenas leiam.

Empatia pelo Rei

Enquanto os *zoeiros* jogavam o Rei do Camarote nos mais diversos tipos de fogueira, apareceram também aqueles que, refletindo de maneira mais ampla sobre a sociedade de consumo e sua própria posição nessa estrutura, propuseram alguma empatia com a criatura. Afinal de contas, se eu não pago champanhe pra mulherada na balada mas faço questão de reforçar por aí que morreria sem meu iPhone, qual a diferença entre eu e o Rei?

Pois vejam só; a primeira diferença é que você não foi capa da Veja São Paulo. Isso significa um montão de coisas. Significa que ele tem acesso a meios de comunicação que, na luta de classes, existem justamente para enaltecer o estilo de vida dele e fazer com que pessoas como eu e você queiramos – um dia, se nos esforçarmos bastante – poder fazer o mesmo. O “estilo de vida” é parte integrante do conjunto de ideologias, ideias, símbolos, que fazem com que um grupo permaneça dominante em nossa sociedade.

Quando o Bourdieu estudou esse trem aí, ele viu que além do capital econômico (que o Rei tem de sobra), sociedades parecidas com a nossa também usam uma outra maneira de concentrar poder: o sistema escolar. Pode ser que o Rei não tenha (e parece que não tem mesmo) grande domínio do que chamamos de cultura legítima. Isso quer dizer que ele provavelmente não conhece tanta música erudita, não escuta Chico Buarque, não tem o vocabulário super sofisticado, entre outras coisinhas mais. Ainda assim, ele concentra poder pelo capital econômico. Tanto o capital cultural quanto o econômico não são homogeneamente distribuídos em nossa sociedade, e não dependem só do esforço individual para serem conquistados. É um sistema cruel e perverso que articula ambos de maneira a sempre manter os mesmos grupos em posições de poder.

Por isso, provavelmente esse pessoal que teve alguma empatia pelo Rei, tem na verdade apenas uma coisa em comum com ele: ocupam uma posição de enorme privilégio, que oprime grande parte da população. Se o Rei oprime pelo dinheiro, eu e vocês oprimimos pela escolarização e pela cultura legítima.

Crítica de esquerda afobada

Um terceiro e último tipo de crítica que eu vi tentava extrapolar a empatia ou antipatia pessoal pelo cara, mas também não conseguia fazer grandes análises. Para os defensores do que chamo aqui de “crítica de esquerda afobada”, o ponto mais importante da coisa é que é um absurdo o cara concentrar tanto dinheiro assim e esbanjar isso, apoiado por um meio de comunicação que promove esse estilo de vida burguesão e tal. A questão – que me faz colocar o “afobada” no fim do subtítulo – é que esse caso não seria socialmente menos pior se o cara não esbanjasse. Nem se a revista não mostrasse. E é aqui que entra meu jeitinho especial de ver as coisas nessa bagunça toda: a gente precisa sim olhar para a burguesia e para os grupos dominantes. Já explico.

Luta Lupa de classes

Um dos mecanismos mais perversos de qualquer tipo de dominação, nos dias de hoje, é a dissimulação. Como somos, em status legal, livres, iguais, etc. parece que, a princípio, todas as desigualdades estruturais teriam sido abolidas. Afinal, se os negros são sujeitos de direito, como poderiam falar que nossa sociedade é racista? Pois aí é que entra o xis da questão. A dominação – em todos os sentidos – de uns grupos sobre os outros continua acontecendo, firme e forte. Com exceção de locais onde houve revoluções barulhentas e sangrentas (e mesmo nesse locais, ainda é questionável isso), a sociedade “democrática” de hoje não apagou a organização social que existia antes. Olha o Marx aí de novo, minha gente: somos produtos de nossa história.

A cultura se perpetua principalmente na transmissão de esquemas simbólicos, hierarquias, ideologias, classificações, definições. A cultura que sustentava essas sociedades extremamente machistas, elitistas e racistas de antes não sofreu uma transformação mágica, do dia para a noite, quando caíram os Estados absolutistas, a escravidão, ou quando as mulheres passaram a poder votar. Muitas maneiras de pensar e enxergar o mundo se adaptaram e se perpetuaram nos novos contextos sociais, políticos, econômicos e culturais que foram se apresentando. Por isso dizemos que o machismo, a divisão classista, o racismo, são estruturais: nossa sociedade está todinha baseada neles.

E daí? E o Rei do Camarote?

Daí que o Rei do Camarote – seja personagem ou não – é um exemplar legítimo de um dos grupos sociais que concentra mais poder em nossa sociedade. Desde sempre. Em vários sentidos: além de rico, ele é homem, cisgênero, branco, hetero. O Rei – como todo rei, aliás – é a dominação e a opressão, em pessoa. Carne e osso. E um pouco de champanhe. Isso não quer dizer, porém, que ele seja autoritário, ditador, etc. O poder do Rei em questão é outro. O Rei, aqui, tem e defende e propagandeia um estilo de vida que, tomado como ideal, respeitável de desejável, faz a máquina do capitalismo do século XXI funcionar. No centro dessa máquina está o consumo. Você é o que você consome. Só que para consumirmos, precisamos de dinheiro. A distribuição do dinheiro, como eu disse antes, não é meritocrática nem igualitária – assim como tampouco o é a distribuição dos saberes escolares (que poderiam, talvez, numa utopia em que muitas pessoas ainda acreditam, melhorar a distribuição do dinheiro).

Por que as pessoas trabalham loucamente, parcelam compras em 48x, se endividam, sustentam com o suor do rosto os banqueiros e especuladores milionários como o próprio Rei? Porque são idiotas? Não. Porque precisam consumir para sobreviver – física e biologicamente mas também culturalmente. Não sendo herdeiras de nenhum capital, se matam em fábricas e frentes de caixa de lanchonetes baratas, cubículos de telemarketing e subempregos dos mais variados. [e vale lembrar, pra rebater um outro discursinho moralizante e preconceituoso que tenho ouvido por aí, também: esse cara que parcela o smartphone em 99x sem juros definitivamente não é quem se beneficia dessa ideologia, dessa estrutura, dessa sociedade; é o oprimido e não o opressor]

Toda essa linha de raciocínio, porém, simplesmente não tem vez na urgência do cotidiano. É difícil pararmos para refletir. É difícil enxergarmos a estrutural social. É difícil observarmos opressões. Mas também é questão de hábito, e por isso é tão importante que a vida dos indivíduos dos grupos dominantes seja escancarada. Explicitada. Vista. Zoada. É importante que a vida das elites venha a público. Porque com ela vem toda a estrutura social injusta que vivemos (é por isso também que assisti e amei Mulheres Ricas).

Só que para funcionar como estratégia de luta, é preciso não nos deixarmos encantar. Por isso que, ao escolher o Alexander de Almeida como personagem, podemos dizer que a Veja São Paulo faz um grande favor à revolução anticapitalista (qualquer que seja ela). Não tem mesmo como a gente se encantar com um cara tão babaca.

—————————

PS.: em tempo: os camarotes, não se esqueçam, eram os lugares altos nos teatros de onde os ricaços podiam cuspir e jogar merda na população que não tinha seu *STATUS*; a “cultura da pulseirinha VIP“, portanto, evoca o que há de mais escroto em nossa tradição cultural de colonizados por países europeus.

Como encontrar bibliografia relevante?

Algumas dicas de onde e como procurar referências relevantes para sua dissertação de mestrado, tese de doutorado, TCC, artigo e afins. Aproveitem para postar outras dicas nos comentários!

Quando começamos a elaborar um tema de pesquisa sempre sentimos a necessidade de ler mais sobre o assunto que nos interessa, para podermos direcionar melhor as questões que orientam o experimento, observação ou estudo. É comum pedirmos dicas de autores, textos e referências a quem pesquisa o mesmo tema. São perguntas em geral pontuais, queremos saber exatamente o que devemos ler.

Esse tipo de pergunta não nos ajuda muito, se pararmos para pensar. Quer dizer, por que deveríamos depender das referências de outras pessoas para construir nossa bibliografia de pesquisa, se há tanta informação disponível?

Nossa “dependência” de indicações pontuais que colhemos com outras pessoas está ligada a uma falha na formação acadêmica. Você já reparou que raramente nos ensinam a fazer pesquisa bibliográfica? Há pouquíssima orientação sobre o assunto, inclusive na internet.

Reuni aqui algumas dicas que elaborei quando galguei o meu “caminho das pedras” durante o mestrado. Espero que sejam úteis e que vocês possam complementá-las nos comentários ao final do texto! Continuar lendo Como encontrar bibliografia relevante?