Por que o rei do camarote importa (sobre Marx, Bourdieu e Alexander de Almeida)

rei do camaroteEntão no final de semana um revista de imensa circulação publicou uma reportagem fazendo o que ela sempre fez, faz e fará: enaltecer um estilo de vida de um grupo social bem específico da maior cidade do Brasil. São Paulo não é Nova York, mas qual a diferença entre o rei do camarote e as patricinhas de Gossip Girl ou os ricaços dos Hamptons em Revenge? Eu, que acho esses seriados tão interessantes quanto o novo meme do rei do camarote, acho que há pouca diferença.

Em geral, frente ao esbanjamento mostrado na reportagem da Veja São Paulo, tenho encontrado alguns tipos de posicionamento. Quero refletir aqui sobre todos eles.

Antipatia pelo Rei

A primeira reação, que o próprio provavelmente classificaria como “inveja”. A antipatia, ao contrário da inveja, porém, vem da recusa de muita gente em aceitar que esse seja um estilo de vida bacana. Críticas mil, neste tipo de interpretação, ao mercado do luxo, ao esbanjamento, ao consumo desenfreado… e também à babaquice da criatura. Porque, sério, mesmo se ele não fosse rico, dá pra perceber que é um grandessíssimo babaca (e bem machistão).

Algumas coisas me incomodam um pouco nas opiniões e *zuêras* que tenho ouvido e que são antipáticas ao Rei. A primeira delas é a aparente necessidade das pessoas em ativarem a homofobia e o machismo para tirar sarro do cara. Sendo que a situação, a edição do vídeo, as coisas que ele diz, etc. já são, em si, um prato cheio para o humor. Não precisa tirar onda de que ele é gay (e se fosse? problema seria de quem, mesmo?), nem de que ele não come ninguém (e se não comer? problema é de quem, mesmo? ah, tá).

Outras coisas me parecem bem justas: esse cara, nesse vídeo, representa uma cultura de classe que é verdadeiramente opressora, seja para a classe média ou para os grupos populares. Cada garrafa de champagne com velinha acesa é, sim, motivo para tanto fuzuê. Porque vivemos numa sociedade altamente desigual que disfarça herança de mérito. Só é possível esbanjar espumante e Ferrari por aí explorando muita gente. O funcionamento desse mecanismo está muitíssimo bem descrito no volume I do Capital, de Karl Marx, leitura que recomendo a qualquer ser humano que deseje entender a organização da sociedade capitalista em qualquer uma de suas épocas. Mesmo quem não é marxista (e eu também não sou) precisa sim conhecer a teoria mais sólida que existe sobre o funcionamento da economia e do trabalho no capitalismo industrial. Sem chiar. Apenas leiam.

Empatia pelo Rei

Enquanto os *zoeiros* jogavam o Rei do Camarote nos mais diversos tipos de fogueira, apareceram também aqueles que, refletindo de maneira mais ampla sobre a sociedade de consumo e sua própria posição nessa estrutura, propuseram alguma empatia com a criatura. Afinal de contas, se eu não pago champanhe pra mulherada na balada mas faço questão de reforçar por aí que morreria sem meu iPhone, qual a diferença entre eu e o Rei?

Pois vejam só; a primeira diferença é que você não foi capa da Veja São Paulo. Isso significa um montão de coisas. Significa que ele tem acesso a meios de comunicação que, na luta de classes, existem justamente para enaltecer o estilo de vida dele e fazer com que pessoas como eu e você queiramos – um dia, se nos esforçarmos bastante – poder fazer o mesmo. O “estilo de vida” é parte integrante do conjunto de ideologias, ideias, símbolos, que fazem com que um grupo permaneça dominante em nossa sociedade.

Quando o Bourdieu estudou esse trem aí, ele viu que além do capital econômico (que o Rei tem de sobra), sociedades parecidas com a nossa também usam uma outra maneira de concentrar poder: o sistema escolar. Pode ser que o Rei não tenha (e parece que não tem mesmo) grande domínio do que chamamos de cultura legítima. Isso quer dizer que ele provavelmente não conhece tanta música erudita, não escuta Chico Buarque, não tem o vocabulário super sofisticado, entre outras coisinhas mais. Ainda assim, ele concentra poder pelo capital econômico. Tanto o capital cultural quanto o econômico não são homogeneamente distribuídos em nossa sociedade, e não dependem só do esforço individual para serem conquistados. É um sistema cruel e perverso que articula ambos de maneira a sempre manter os mesmos grupos em posições de poder.

Por isso, provavelmente esse pessoal que teve alguma empatia pelo Rei, tem na verdade apenas uma coisa em comum com ele: ocupam uma posição de enorme privilégio, que oprime grande parte da população. Se o Rei oprime pelo dinheiro, eu e vocês oprimimos pela escolarização e pela cultura legítima.

Crítica de esquerda afobada

Um terceiro e último tipo de crítica que eu vi tentava extrapolar a empatia ou antipatia pessoal pelo cara, mas também não conseguia fazer grandes análises. Para os defensores do que chamo aqui de “crítica de esquerda afobada”, o ponto mais importante da coisa é que é um absurdo o cara concentrar tanto dinheiro assim e esbanjar isso, apoiado por um meio de comunicação que promove esse estilo de vida burguesão e tal. A questão – que me faz colocar o “afobada” no fim do subtítulo – é que esse caso não seria socialmente menos pior se o cara não esbanjasse. Nem se a revista não mostrasse. E é aqui que entra meu jeitinho especial de ver as coisas nessa bagunça toda: a gente precisa sim olhar para a burguesia e para os grupos dominantes. Já explico.

Luta Lupa de classes

Um dos mecanismos mais perversos de qualquer tipo de dominação, nos dias de hoje, é a dissimulação. Como somos, em status legal, livres, iguais, etc. parece que, a princípio, todas as desigualdades estruturais teriam sido abolidas. Afinal, se os negros são sujeitos de direito, como poderiam falar que nossa sociedade é racista? Pois aí é que entra o xis da questão. A dominação – em todos os sentidos – de uns grupos sobre os outros continua acontecendo, firme e forte. Com exceção de locais onde houve revoluções barulhentas e sangrentas (e mesmo nesse locais, ainda é questionável isso), a sociedade “democrática” de hoje não apagou a organização social que existia antes. Olha o Marx aí de novo, minha gente: somos produtos de nossa história.

A cultura se perpetua principalmente na transmissão de esquemas simbólicos, hierarquias, ideologias, classificações, definições. A cultura que sustentava essas sociedades extremamente machistas, elitistas e racistas de antes não sofreu uma transformação mágica, do dia para a noite, quando caíram os Estados absolutistas, a escravidão, ou quando as mulheres passaram a poder votar. Muitas maneiras de pensar e enxergar o mundo se adaptaram e se perpetuaram nos novos contextos sociais, políticos, econômicos e culturais que foram se apresentando. Por isso dizemos que o machismo, a divisão classista, o racismo, são estruturais: nossa sociedade está todinha baseada neles.

E daí? E o Rei do Camarote?

Daí que o Rei do Camarote – seja personagem ou não – é um exemplar legítimo de um dos grupos sociais que concentra mais poder em nossa sociedade. Desde sempre. Em vários sentidos: além de rico, ele é homem, cisgênero, branco, hetero. O Rei – como todo rei, aliás – é a dominação e a opressão, em pessoa. Carne e osso. E um pouco de champanhe. Isso não quer dizer, porém, que ele seja autoritário, ditador, etc. O poder do Rei em questão é outro. O Rei, aqui, tem e defende e propagandeia um estilo de vida que, tomado como ideal, respeitável de desejável, faz a máquina do capitalismo do século XXI funcionar. No centro dessa máquina está o consumo. Você é o que você consome. Só que para consumirmos, precisamos de dinheiro. A distribuição do dinheiro, como eu disse antes, não é meritocrática nem igualitária – assim como tampouco o é a distribuição dos saberes escolares (que poderiam, talvez, numa utopia em que muitas pessoas ainda acreditam, melhorar a distribuição do dinheiro).

Por que as pessoas trabalham loucamente, parcelam compras em 48x, se endividam, sustentam com o suor do rosto os banqueiros e especuladores milionários como o próprio Rei? Porque são idiotas? Não. Porque precisam consumir para sobreviver – física e biologicamente mas também culturalmente. Não sendo herdeiras de nenhum capital, se matam em fábricas e frentes de caixa de lanchonetes baratas, cubículos de telemarketing e subempregos dos mais variados. [e vale lembrar, pra rebater um outro discursinho moralizante e preconceituoso que tenho ouvido por aí, também: esse cara que parcela o smartphone em 99x sem juros definitivamente não é quem se beneficia dessa ideologia, dessa estrutura, dessa sociedade; é o oprimido e não o opressor]

Toda essa linha de raciocínio, porém, simplesmente não tem vez na urgência do cotidiano. É difícil pararmos para refletir. É difícil enxergarmos a estrutural social. É difícil observarmos opressões. Mas também é questão de hábito, e por isso é tão importante que a vida dos indivíduos dos grupos dominantes seja escancarada. Explicitada. Vista. Zoada. É importante que a vida das elites venha a público. Porque com ela vem toda a estrutura social injusta que vivemos (é por isso também que assisti e amei Mulheres Ricas).

Só que para funcionar como estratégia de luta, é preciso não nos deixarmos encantar. Por isso que, ao escolher o Alexander de Almeida como personagem, podemos dizer que a Veja São Paulo faz um grande favor à revolução anticapitalista (qualquer que seja ela). Não tem mesmo como a gente se encantar com um cara tão babaca.

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PS.: em tempo: os camarotes, não se esqueçam, eram os lugares altos nos teatros de onde os ricaços podiam cuspir e jogar merda na população que não tinha seu *STATUS*; a “cultura da pulseirinha VIP“, portanto, evoca o que há de mais escroto em nossa tradição cultural de colonizados por países europeus.

“O” black bloc está estranho. Não é nada à toa.

Manifestação contra a ALCA em 2002, Sampa
Manifestação contra a ALCA em 2002, Sampa

Daí que em junho vivemos uma forte onda de manifestações. Elas deram uma diminuída (mas nem tanto) em julho e agosto, mas retornaram (principalmente no Rio de Janeiro) a todo vapor nas últimas semanas. A violência policial que acompanhou as manifestações de junho até agora também ganhou força nas últimas semanas. Há alguns dias em Sampa cerca de 50 pessoas foram presas simplesmente por se manifestarem. Diante de todo esse enrosco, um suposto “grupo” começou a se destacar: “o” black bloc. Quer dizer. Estou aqui pra mostrar a vocês que, justamente, não é bem assim a história.

“O” black bloc não existe

Pra começo de conversa, existe uma tentativa desonesta por parte de grupos conservadores (esses que tem muito espaço nos meios de comunicação, que sempre ocuparam posições de poder em nossa sociedade) de fazer com que acreditemos que existe um grupo organizado chamado “Black Bloc”, que teria líderes, uma ideologia, etc. Não acreditem nisso. Não existe “o” black bloc. “Black bloc” é uma tática usada durante confrontos em manifestações. Ela serve para a segurança dos manifestantes quando é preciso lidar com violência policial e, em alguns casos, como tática de radicalização. Em geral quem manja dessa tática e acaba colocando-a em prática são grupos anarquistas, justamente pela história de como ela se desenvolveu (e, olhem, para o meu espanto até a página da Wikipedia sabe disso).

Isso significa que quem domina a tática pode empregá-la. Faz parte dessa tática utilizar máscaras e roupas pretas. As primeiras servem para preservar os manifestantes em black bloc de identificação e perseguição política (e policial). As segundas servem para identificá-los frente aos demais manifestantes. Os manifestantes em black bloc já me defenderam de muita bomba de gás, bala de borracha e perseguição policial com suas barricadas, no início dos anos 2000 (leia um pouco dessa história aqui). Por isso a minha desconfiança quando vejo manifestantes trajados como aqueles que formam os black blocs rasgando bandeiras de partido e brigando com a direção das passeatas. Fico ainda mais incomodada quando vejo, diante disso, meus companheiros e companheiras da esquerda dizendo que deveríamos expulsá-los de manifestações. E digo:

Galera, que merda é essa, agora?

Está tudo ainda bem estranho

 Nesse debate sobre black blocs, eu realmente me pergunto se meus companheiros da esquerda estão *de zoeira* ou se são apenas extremamente desmemoriados. Não faz o menor sentido esse ataque repentino de manifestantes em black blocs aos demais manifestantes! Vamos pensar com a cabeça, meu povo. É duro ver a bandeira do partido rasgada, mas muita calma nessa hora. Recorramos aos fatos:

Não vou repetir aqui que está tudo muito estranho. Um monte de coisas que aconteceram desde que publiquei aquele fatídico texto nos mostraram que minhas suspeitas de um golpe de opinião pública para criminalizar movimentos sociais (e, em especial, manifestantes anônimos) não eram tão absurdas assim. O discurso da mídia de massas fez a associação direitinho, e não foram poucas vezes (o vídeo abaixo tem quase cinco minutos de noticiários editados que evidenciam a mensagem reforçada).

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Seja como efeito desse discurso ou como parte dele, um dado divulgado pelo Datafolha indica que 95% dos 690 respondentes de uma enquete se disseram contra black blocs (sem provavelmente sequer saberem direito o que é isso – dêem uma olhada na pergunta feita aos entrevistados). A pesquisa também mostrou que o apoio a manifestações na cidade de São Paulo caiu drasticamente desde junho. Isso é esperado, depois de tanta manipulação de imagens e discurso propagados no senso-comum, entre quem jamais participou de manifestações ou foi apenas nas mais “brandas” de junho. O que não tem me deixado dormir é que essa mesma manipulação tenha feito tantas companheiras e companheiros militantes da esquerda de bobos. Caíram como patinhos.

Reparem bem, gente: a quem esse discurso serve? Quem se beneficia mais, em nossa sociedade, de ter militantes de esquerda contra outros militantes de esquerda?

(não preciso responder, né?)

Não parece pra vocês tudo casadinho demais com o discurso propagado nos meios de comunicação de massas?

Pois eu, que participei de muitas manifestações com pessoas em black bloc, nos últimos 14 anos da minha vida, tenho certeza absoluta de que o anonimato que protege esses companheiros está sendo usado da maneira mais desonesta e escrota possível. Tenho um feeling muito forte de que há sim muita gente infiltrada. Desde junho, aliás. As coisas que vi nas ruas em São Paulo e em Campinas simplesmente não são os grupos de defesa em black bloc e nem mesmo a própria tática que tem esse nome. O que eu vi nas ruas – e o que eu vejo com clareza quando um “mascarado” rasga bandeira de partido – é outra coisa. Essa coisa tem nome, e esse nome é armação.

Não caiamos nessa, companheiras e companheiros. Somos melhores do que isso.

Cartinha ao meu pai e uma foto histórica (pra mim)

Esses dias meu pai, que sempre foi de esquerda, me escreveu perguntando minha posição sobre “o” black bloc. Como pai é pai, eu me animei de responder. Talvez essa pequena carta ajude, de maneira sucinta, a resumir o ponto em que quero chegar aqui neste post:

“black bloc” é uma tática de defesa para quando há confrontos em manifestações. As pessoas que conhecem a tática – em geral ligadas a grupos anarquistas – se vestem daquela maneira para serem facilmente identificadas em manifestações sem sofrerem perseguições da polícia e do Estado. Desde que ficou popular, no fim dos anos 90 com as manifestações contra a globalização capitalista, os grupos treinados em black bloc sempre defenderam os companheiros de esquerda. Em muitas manifestações que fui foram eles que me defenderam de gás lacrimogêneo, balas de borracha e perseguição da polícia… Mesmo sendo anarquistas eles nunca se opuseram aos demais grupos e partidos de esquerda. Sempre estiveram junto conosco.
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O que eu percebo que está acontecendo desde junho é uma tentativa de criminalizar “mascarados” para em seguida criminalizar movimentos sociais em geral; lembra do Subcomandante Marcos, da guerrilha zapatista? Que andava com a cara coberta e a mídia chamava de “bandido” e o Estado perseguia? Pois então. Eu acho que a estratégia dos grupos conservadores é essa. Pra fazer com que essa ideologia se propague com mais força, eu suspeito que estejam inflitrando gente, vestida como se fossem de grupos que fazem black bloc, para rasgar bandeiras de partido e promoverem destruição gratuita fora do contexto de confronto. Aí esses grupos conservadores estão tendo o resultado que esperavam: a própria esquerda está querendo “eliminar” quem estiver “mascarado” ou vestido como grupos que atuam em black bloc. O que eu vi nas ruas em junho (e descrevi naquele texto que ficou famoso – “Está tudo tão estranho, não é à toa”) só reforça, pra mim, essa percepção.
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Na minha experiência de 14 anos de militância e manifestações por diversas causas, com e contra diferentes governos e políticas, nesse Brasil pós-ditadura, é essa a análise que eu acho mais coerente. O resto simplesmente não faz sentido na minha cabeça.

Na época em que fui mais defendida por manifestantes em black bloc, quando lutávamos contra a ALCA e contra privatizações, entre outras coisas, eu era mais ou menos assim:

Eu, em manifestação contra a ALCA. Sampa, 2002. Devia ter uns 15 anos. Acho.
Eu, em manifestação contra a ALCA. Sampa, 2002. Devia ter uns 15 anos. Acho.

Eu também já usei nariz de palhaço. Só que na época não havia coxinhas se apropriando dessa simbologia pra protestar “contra a corrupção”. 😉

 

 

Mataram um menino. Tinha arma de verdade.

unicamp 2013
Unicamp, em setembro de 2013

21 de setembro, 2013. Leio a notícia do assassinato de um estudante da Unicamp. Foi numa festa. Uma festa daquelas que passei 4 anos de minha vida frequentando e – ainda mais – organizando. Uma festa daquelas que me fizeram responder inquérito disciplinar na reitoria, no não tão longínquo ano de 2007, por fazer parte do Centro Acadêmico de Ciências Humanas. Uma festa que inaugurou um período em que fazíamos festas todos os dias como estratégia de não-violência na luta contra o posicionamento fascistóide da reitoria, comandada pelo excelentíssimo senhor reitor José Tadeu Jorge: o mesmo iluminado que na semana do assassinato de Denis Casagrande, seis anos mais tarde, tirou o corpo fora dizendo que a universidade não tem nada a ver com as festas.

Ora, a política da Unicamp, enquanto instituição, e também o reitor, têm tudo a ver com as festas e seus desdobramentos. Para entender isso, é preciso um pouco de contexto. Continuar lendo Mataram um menino. Tinha arma de verdade.

Queridas ruivas,

foto de um encontro de ruivas, UOL

hoje fiquei sabendo que vocês decidiram se encontrar. Parece tudo muito legal, muito lindo e eu tenho certeza de que vocês têm a melhor e mais inocente das intenções ao fazê-lo. Mas me deixem explicar umas coisinhas.

Vivemos numa sociedade brutalmente desigual e altamente racializada. Isso significa duas coisas importantes:

Primeiro, que há diversos tipos de desigualdades (de gênero, de raça, de sexualidade, de classe social, de acesso à educação, etc-etc-etc-quase-sem-fim) que se entrecruzam. Todo mundo ocupa posições variadas em relação às diferentes desigualdades. Uma mulher branca sofre discriminações diferentes das que sofre um homem negro, por exemplo. Se essa mulher for magra e esse homem gordo, as relações são ainda outras. Se o homem negro for heterossexual e a mulher branca for lésbica, então… Entendem? Ok. Guardem a informação. Continuar lendo Queridas ruivas,

Oh, my God! Esses médicos não falam português!

Casa e locais onde fui atendida sem me comunicar na mesma língua do que o médico.
Casa e locais onde fui atendida sem me comunicar na mesma língua do que o médico.

Vou contar um treco pra vocês. Desta lenga-lenga toda da (falta de) classe médica sobre o programa Mais Médicos do Governo Federal, não tem argumento mais babaca do que o limite linguístico. BA-BA-CA.

Nessa breve vida louca, eu fui atendida em duas ocasiões por médicos que não falavam a minha língua. Uma vez em Seul, na Coréia do Sul e numa outra em Zonguldak, no interior da Turquia, litoral do mar negro. Na primeira vez a médica arriscou um inglês que não foi lá muito útil mas entre gestos, desenhos e muita paciência consegui explicar que eu tinha hipotereoidismo, havia perdido meus remédios e precisava de receita ou remédio pra mais 4 dias de viagem. Vejam só.

Continuar lendo Oh, my God! Esses médicos não falam português!

Que golpe?

Uma explicação necessária e algumas novas peças para o quebra-cabeças dos recentes acontecimentos em todo o país.

Há pouco mais de 24 horas descobri que um texto que publiquei no Medium tinha se tornado “viral”, como dizem. Não consegui parar de ler comentários, emails, dúvidas, mensagens que chegavam me respondendo se eu estava louca mesmo (por achar que talvez houvesse um golpe de articulando, de alguma maneira). Outros, igualmente interessantes, discordavam de mim e debatiam os pontos que levantei de maneira bem inteligente. Alguns, claro, eram pura baboseira e ódio enrustido e esses, gente, eu não tenho culpa alguma em deletar.

O fato de tantas pessoas compartilharem comigo suas percepções individuais sobre os fatos mais recentes da política, das ruas, me colocou no lugar de espectadora privilegiada. Estou tendo acesso a muitas histórias, relatos, experiências que não teria de outra maneira. Para uma socióloga com um lado de jornalista, é um presente sem tamanho. Agradeço as mensagens e aviso que as responderei na medida do possível (sério, são muitas mesmo).

Essas percepções, histórias, relatos e experiências não deixam de ser peças importantíssimas nesse quebra-cabeças do qual talvez eu esteja sendo porta-voz, mas que claramente não é só meu. Quem não está confuso é porque está de olhos fechados, eu arrisco dizer. Pra ficarmos confusos e confusas todxs de vez, escolhi continuar investigando informalmente esses interesses políticos dissimulados que estão começando a se desenhar um pouco melhor de todos os lados do quadro atual. Continuar lendo Que golpe?

Campinas: não existe qualidade de vida sem mobilidade

Viver em Campinas (SP) nos últimos 8 anos me ensinou que a qualidade de vida do trânsito caótico e do ar poluído de Sampa até que valem a pena quando confrontadas com uma cidade em que é impossível (e muito necessário) se mover.

Me mudei para a cidade de Campinas, no interior paulista, em Março de 2005, quando passei no vestibular para Ciências Sociais na Unicamp. Paulistana, decidi morar no centro da cidade após constatar que Barão Geraldo (distrito onde se localiza a conhecida universidade) não parecia lá muito “agitado”. Eu estudava à noite, trabalhava de dia, e quanto mais serviços, transporte, etc. disponíveis, melhor.

Após um ano morando no centro percebi que estava redondamente enganada e compreendi por que, afinal de contas, a grande maioria dos estudantes da Unicamp optava por morar em Barão Geraldo. A mobilidade na cidade é ainda pior do que o que eu experienciei nos anos anteriores morando em São Paulo. A cidade é inacessível e representa uma realidade que muitas pessoas vivem no interior paulista, não apenas em Campinas. Continuar lendo Campinas: não existe qualidade de vida sem mobilidade

Você É a política.

Tenho ouvido e lido muita gente dizer que “torce”, “espera”, “sonha”, “tem medo” que alguma coisa aconteça ou deixe de acontecer. Hoje conto a vocês que a gente só muda a política fazendo política, e que esse fazer também muda a gente que, por sua vez, muda a política. É preciso começar o ciclo.

“Estou com medo”, diz um. “Espero que não aconteça”, diz a outra. “Torço pela nossa democracia”, comenta um terceiro. Ao perceberem que há um jogo não muito evidente rolando na onda de manifestações, na cobertura da mídia, na repressão policial, muitas pessoas me escreveram com atitudes assim. Se estivermos mesmo diante de um golpe, de uma nova ditadura, de um Estado autoritário, ou da perda de direitos civis e políticos, como enfrentar a situação? O que fazer com a angústia no peito, com o medo crescente, com os planos secretos de fugir do país? Continuar lendo Você É a política.

Está tudo tão estranho; não é à toa

[texto publicado originalmente no Medium, em Junho-2013]

Um relato do quebra-cabeças que fui montando nos últimos dias. Aviso que o post é longo, mas prometo fazer valer cada palavra.

Começo explicando que não ia postar este texto na internet. Com medo. Pode parecer bobagem, mas um pressentimento me dizia que o papel impresso seria melhor. O papel impresso garantiria maiores chances de as pessoas lerem tudo, menores chances de copiarem trechos isolados destruindo todo o raciocínio necessário.

Enquanto forma de comunicação, o texto exige uma linearidade que é difícil. Difícil transformar os fatos, as coisas que vi e vivi nos últimos dias em texto. Estou falando aqui das ruas de São Paulo e da diferença entre o que vejo acontecer e o que está sendo propagandeado nos meios de comunicação e até mesmo em alguns blogs.

Talvez essa dimensão da coisa me seja possível porque conheço realmente muita gente, de vários círculos; talvez porque sempre tenha sido ligada à militância política, desde adolescente; talvez porque tenha tido a oportunidade de ir às ruas; talvez porque pude estar conectada na maior parte do tempo. Não sei. Mas gostaria de compartilhar com vocês.

E gostaria que, ao fim, me dissessem se estou louca. Eu espero verdadeiramente que sim, pois a minha impressão é a de que tudo é muito mais grave do que está parecendo.

Tentei escrever este texto mais ou menos em ordem cronológica. Se não foi uma boa estratégia, por favor me avisem e eu busco uma maneira melhor de contar. Peço paciência. O texto é longo. Continuar lendo Está tudo tão estranho; não é à toa

Fora ALCA e o FMI! Epa, peraí, errei. Ou não?

Relembrando as batalhas políticas do finalzinho dos anos 1990 e início dos anos 2000, a “primavera brasileira” faz todo sentido do mundo. Como viemos parar aqui, mais de dez anos depois?

Episódio um: 500 anos de QUAL Brasil?

No início do ano 2000 eu tinha 13 anos. A economia do Brasil era um pouco capenga (embora já bem melhor do que uma década antes) e devíamos muito dinheiro ao Fundo Monetário Internacional. Fazia pouco tempo que tínhamos alcançado a universalização da educação básica, e o número de analfabetos ainda era maior do que hoje. A desigualdade social também era maior, o desemprego também era maior. Nesse contexto, que era relativamente dramático, “celebrava-se” os supostos “500 anos” do Brasil.

A Rede Globo e empresas parceiras haviam instalado, na Avenida Paulista (vejam só!), um relógio que fazia uma contagem regressiva para o dia 22 de Abril de 2000. Um relógio ridículo, patrocinado, afirmando que os povos que viviam aqui nos séculos anteriores à chegada dos portugueses simplesmente não eram gente. Como se não fizessem parte da nossa formação. Acho (não, tenho certeza) que faltou um pouco de Darcy Ribeiro pro Roberto Marinho. Pois é.

Adivinhem o que aconteceu?

Fomos lá protestar (e, se possível, demonstrar exatamente naquele relógio, símbolo da palhaçada toda o que sentíamos em relação ao país naquele momento). Foi a primeira vez que eu vi a tropa de choque.Estava com meu irmão, que é um ano mais velho, e alguns amigos e amigas da escola. Corri muito. O coração a mil.

Quando contamos à minha mãe o que não apareceu na TV, ela se horrorizou. Não pela possibilidade de termos nos machucado. Como eudisse aqui, foi ela mesma quem me ensinou que cidadania e política a gente faz sempre arriscando a própia integridade física de alguma maneira, nos momentos mais críticos. Minha mãe se indignou com a semelhança entre nosso relato e a ação da polícia nos protestos dos quais ela participava durante o regime militar.

Mal sabíamos nós que a repressão daquele dia na Avenida Paulista, “justificada” pela polícia por conta de bexiguinhas cheias de guache (sai com água, tá, gente?) lançadas contra o relógio, era um sinal de uma movimentação política maior. Um descontentamento e umquestionamento numa batalha política que a “primavera brasileira” me mostra que ainda está rolando. Esse horror infelizmente voltaria em outros três episódios marcantes nos últimos 13 anos: o A20 (2001), a invasão da PM na reitoria da USP (2011) e o massacre de Pinheirinho (2012). Em paralelo, o massacre invisível da juventude negra paulistaque nunca deixou de acontecer e tem se intensificado nos últimos anos. Embora todos tenham sua importância simbólica e histórica, e todos esse eventos façam parte da insatisfação geral que nos leva às ruas hoje, é o A20 que nos mostra que a nossa primavera vem se desenhando já há algum tempo.

Episódio dois: o “A20″ – Alcaralho com o FMI!

Não é à toa, amiguinhos e amiguinhas, que o “apelido” da manifestação de quinta ficou como “J13″. Não é de hoje essa maneira de marcar os nomes de grandes massacres da polícia em cima de manifestantes. No dia 20 de Abril de 2001, um pouco mais de um ano depois do episódio do relógio, o modus operandi da PM voltou ainda pior. Naquele dia, diversos manifestantes “contra a globalização capitalista” se reuniram na Avenida Paulista (ela, de novo). Manifestantes de diversas classes sociais, cores de pele, correntes, partidos, movimentos. De diversas idades. Não estive nessa manifestação, mas muitos amigos e conhecidos participaram. Uma parte razoável deles terminou no hospital depois da chegada da PM.

Adolescentes de 15 anos com fraturas, estilhaços pelo corpo, cortes, hematomas mil. Uma parte na cadeia, outra no hospital. Não havia internet, nem redes sociais para publicarmos nossos relatos e recebermos relatos dos amigos e colegas. Era no boca-a-boca, nos jornaizinhos de grêmios estudantis e informes de centros acadêmicos, nos jornais de sindicatos, nas reuniões políticas de grupos e associações. A mídia de massas jamais contou essa história. Nenhum jornalista sofreu ferimentos, dos pouquíssimo que foram cobrir o protesto.

Mas o que eram afinal essas manifestações “contra a globalização capitalista”? A “globalização” não é um fenômeno que aconteceu e ponto final? Como é que dava pra ser “contra” se parece que a globalização não foi exatamente uma escolha das pessoas? Mais importante ainda: o que isso tem a ver com a “primavera” que estamos vivendo, no mundo e no Brasil, e o descontentamento geral com os sistemas públicos, com Copa e Olimpíadas, genocídio indígena…?

A história explica:

Com o fim das ditaduras militares na América Latina, impulsionadas fortemente pela guerra fria, os primeiros governos supostamente democráticos foram bem conservadores. Por aqui, a ideia das instituições internacionais, de países hegemônicos e de grandes corporações era continuar mantendo o Brasil como um país extremamente dependente. A dependência econômica era um trunfo que mantinha a distribuição internacional de poder mais ou menos igual. Além disso, o Brasil era um mercado consumidor muito fértil, e a febre das importações (quando a economia novamente se abriu no governo Collor) nos mostra que as corporações e o governo do EUA sabiam muito bem disso.

Pensando nacionalmente, a dependência econômica e a desigualdade social também mantinham a distribuição de poder no país mais ou menos igual. O fim da nossa ditadura militar não significou uma mudança substancial nos grupos ocupando o poder político e econômico (taí Sarney que não nos deixa mentir, a hegemonia dos meios de comunicação de massa controlados pelas mesmas famílias de antes cujas concessões foram dadas pelos ditadores, etc), nesse primeiro momento.

Havia, na época, uma pressão internacional muito grande sobre os países latinoamericanos, para que se voltassem aos interesses puramente econômicos e corporativos internacionais. As definições do FMI e do G8 no Fórum Econômico Mundial representavam essas diretivas que nossos governos seguiram durante esse tempo todo. proposta da ALCA, uma “área de livre comércio das américas” faria as economias latinas serem finalmente engolidas e enterradas pela economia dos EUA.

Mas havia uma pedra no meio do caminho. Ufa.

Na América Latina a população havia passado os últimos 30 anos lutando por direitos políticos, civis e sociais contra seus ditadores. Era inaceitável consolidarmos nossas democracias nos baseando apenas em interesses econômicos de fora. Seria o fim de um projeto de país que estava em disputa, ali. Em outros contextos, as pessoas em muitos outros países (em outros continentes) perceberam que sua qualidade de vida poderia ser fortemente afetada se a preocupação dos Estados nacionais deixasse de ser o bem-estar dos cidadãos, os direitos civis básicos, etc (como vimos acontecer com os próprios EUA, país em que não há sistemas de serviço público e gratuito de saúde, educação, etc).

Organizou-se, então, o movimento “contra a globalização capitalista”. As bandeiras que bradávamos no Brasil e na América Latina eram “Fora Alca!”“Fora FMI” e “Alcaralho com o FMI” (a mais interessante, sempre achei). Nessa época a Argentina entrou em crise depois de abrir as pernas para o FMI, o que seguia comprovando a percepção intuitiva (e histórica) de quem militava nessas causas. Discutiu-se uma moratória geral da dívida externa por parte de todos os países latinoamericanos, proposta que foi rechaçada com força pelo governo brasileiro, comandado por FHC.

Parte desse movimento criou o “Fórum Social Mundial” justamente em oposição ao “Fórum Econômico Mundial”. Se o econômico se realizava sempre em “Davôs”, centro do mundo, o Fórum Social Mundial se realizaria sempre na “periferia” do mundo. Nos países em que o capitalismo mostrava cotidianamente suas falhas, seus problemas, seus resultados dramáticos. Tive a honra de participar de três desses eventos, em Porto Alegre, em janeiro dos anos de 2002, 2003 e 2005. Milhares de pessoas, militantes ou não, ativistas ou não, num espaço privilegiado de convivência para pensar que “um outro mundo é possível”e, afinal, que mundo seria esse.

Não sabíamos. Mas sabíamos que não queríamos aquele que estava se instaurando.

Essa história nos mostra que a “globalização capitalista” não aconteceu da maneira como aconteceu (com o Brasil podendo realizar políticas sociais como o bolsa-família, ou as políticas de cotas e expansão de universidades federais, etc) porque forças divinas assim quiseram. Essa possibilidade existiu porque, em luta, nós barramos a ALCA (sigla que meus alunos, nascidos em 1996 e 1997 nunca escutaram, graças a quem brigou por isso). Construímos os Fóruns Sociais Mundiais.

Em suma, o que dissemos, no início dos anos 2000 foi: queremos um Estado que se volte para as pessoas, e não para interesses de corporações, empresários, e “do capital” (que simboliza esse jogo perverso).

Pois me digam: não é exatamente isso que estamos afirmando agora?

Ao reivindicarmos o livre direito de circular pela cidade sem depender de dinheiro; quando os turcos reivindicam “mais parques” e “menos shoppings”; quando criticamos a Copa e as Olimpíadas; quando pedimos por um marco regulatório nas comunicações; quando lutamos para barrar o Estatuto do Nascituro; quando brigamos pelo direito das pessoas trans* à sua identidade de gênero; quando exigimos que todas as pessoas possam se casar com quem quiserem, se quisere; quando nos recusamos a aceitar que a PM massacre as pessoas na rua; quando denunciamos o genocídio da juventude negra; quando protestamos contra a construção de uma usina que fere direitos indígenas e mata populações e culturas; quando exigimos um sistema único de saúde que funcione e atenda a demanda; quando desejamos um sistema educacional eficaz; quando buscamos ampliar o acesso à universidade:

Não é isso que estamos dizendo? Que queremos um Estado que sirva primeiro aos interesses dos cidadãos, e depois aos interesses de corporações e consumidores?

No fim das contas, parece que todo mundo já entendeu muito bem que essa não é uma luta por 20 centavos. O que precisamos entender, por fim, é que essa é uma luta para definir o que queremos do Estado. O Estado somos nós.

Brace yourselves: spring is coming.

[Este texto foi publicado originalmente no Medium, em Junho-2013]

 

Que ano é hoje, mesmo?

Não fomos assassinadxs, torturadxs e perseguidxs para que o direito à livre-manifestação fosse ameaçado pela PM.

Na segunda-feira, dia 10 de junho, expliquei aos meus alunos do primeiro ano do ensino médio: o Estado detém o monopólio legítimo sobre o uso da violência física. Mal sabia eu que no dia seguinte o Estado, essa supra-organização fundamentada na dominação racional (já diria Weber) daria um exemplo claro da minha explicação, nas ruas da cidade onde nasci, cresci e participei de manifestações.

Venho de uma família de militantes. Aprendi desde bem cedo que ir às ruas causa mudanças sociais, incomoda. Aprendi também que ir às ruas é, no Brasil e em qualquer lugar do mundo, colocar a sua própria segurança e integridade física em jogo. É uma troca. Nos colocamos vulneráveis ali porque a causa é maior. A causa pode ser o direito à cidade, o direito de ir e vir, o fim de um regime autoritário ou eleições diretas.É uma causa sempre maior do que julgamos ser nossa segurança pessoal, individual.

[Aos que ainda não aprenderam, que fique claro: cidadania não tem nada de “individual”. “Individual” é direito do consumidor. Cidadania é necessariamente coletivo.]

Cidadania é a coragem de arriscar sua individualidade pelo bem-estar do maior número de pessoas o possível. O risco que protestar representa à segurança dos indivíduos felizmente nunca fez ninguém deixar de exercer a própria cidadania. Mesmo nos tempos em que ela foi proibida.

Esse é um dos melhores motivos para no indignarmos com o que aconteceu em São Paulo no dia 11 de junho, e com o que está acontecendo hoje, dia 13 (apenas dois dias depois). Para saber mais, recomendo a cobertura da Fórum, a cobertura em tempo real da Folha(apesar dos pesares), o incrível tumblr “O que não sai na TV”, a cobertura da Agência Pública de notícias em seu Facebook e, claro, a página do Movimento Passe Livre.

Um resumo dos fatos poderia ser o seguinte: temos presos políticos. O fato de termos, nesse momento da história do Brasil, presos políticos, diz muito sobre a relação entre Estado e cidadania que estamos vivendo. Jornalistas, trabalhadores e estudantes foramdeliberadamente encarcerados no dia 11. Mesmo com alvará de soltura de dois presos, eles foram transferidos para presídios dificultando a liberação. Fianças desproporcionais foram estabelecidas. Na manifestação marcada para hoje, estima-se que 60 pessoas tenham sido presas na primeira hora de concentração (ou seja, antes mesmo de começar a manifestação), entre elas um jornalista da Carta Capital. Sessenta cidadãos e cidadãs foram detidxs pela possibilidade de haver protestos. Líderes do movimento estão sendo investigados pela Abin com base em atuação nas redes sociais e alguns foram caçados e presos no ato agora há pouco, pelo que informam os manifestantes.

Aí eu pergunto:

Que porra é essa?
QUE PORRA É ESSA?

Em 2013 precisaremos cobrir o rosto para que a polícia não nos filme, como já avisou por meios dos jornais que faria? Precisaremos combinar local de manifestações no boca-a-boca, usando codinomes, como se fazia durante o regime militar? Foi pra isso que centenas de pessoas arriscaram sua segurança, sua integridade física e suas vidas durante a ditadura?

Minha mãe, meus professores, meus heróis e heroínas foram presos, torturados, mortos para que eu pudesse ter o direito constitucional de me manifestar numa democracia. A PM corrupta (mantida corrupta e mantida no poder pelo PSDB que ocupa o governo do estado há 20 anos) empoderada pela ausência e omissão do prefeito em quem EU VOTEI e pra quem FIZ CAMPANHA, está jogando esse direito no lixo. Está fazendo pouco com a nossa cara. Está impedindo o exercício da cidadania.

Como bem disse o blogueiro no “Esquema”, essa luta obviamente não é mais sobre 20 centavos (leia aqui). Assim como a luta em Istambul não é sobre o Parque Gezi. Assim como a luta em Belo Monte não é (e nunca foi) sobre uma usina hidrelétrica.

[Este texto foi publicado originalmente no Medium, em Junho-2013]