ao meu partido, de Pablo Neruda

Ao meu partido (Pablo Neruda)

(tradução de Marília Moschkovich)

Você me deu a fraternidade com aquilo que não conheço.
Você me agregou à força de todos os que vivem.
Você me deu novamente a pátria, como em um nascimento.
Você me deu a liberdade que o solitário não tem.
Você me ensinou a acender, como fogo, a bondade.
Você me deu a retidão de que precisa a árvore.
Você me ensinou a ver a unidade e a diferença entre os homens.
Você me mostrou como a dor de um ser morreu na vitória de todos.
Você me ensinou a dormir nas camas duras de meus irmãos.
Você me fez construir sobre a realidade como sobre uma rocha.
Você me fez adversário do mau e muro do frenético.
Você me fez ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Você me fez indestrutível porque contigo não termino em mim.


A mi partido (Pablo Neruda)

Me has dado la fraternidad hacia el que no conozco.
Me has agregado la fuerza de todos los que viven.
Me has vuelto a dar la patria como en un nacimiento.
Me has dado la libertad que no tiene el solitario.
Me enseñaste a encender la bondad, como el fuego.
Me diste la rectitud que necesita el árbol.
Me enseñaste a ver la unidad y la diferencia de los hombres.
Me mostraste cómo el dolor de un ser ha muerto en la victoria de todos.
Me enseñaste a dormir en las camas duras de mis hermanos.
Me hiciste construir sobre la realidad como sobre una roca.
Me hiciste adversario del malvado y muro del frenético.
Me has hecho ver la claridad del mundo y la posibilidad de la alegría.
Me has hecho indestructible porque contigo no termino en mí mismo.


[as traduções que sempre vi espalhadas deste poema me incomodavam um pouco. talvez fosse a distorção causada pelo uso do tempo verbal que, em português, não tem o mesmo sentido que em espanhol – por isso usei o passado em sua possibilidade mais cotidiana e corriqueira, traduzindo o efeito do uso do tempo verbal escolhido pelo poeta em espanhol; comentários são sempre bem-vindos]

As escolas serão nossas comunas (ou: a quem pertence a educação?)

[texto publicado originalmente em http://pcbeducacao.org/a-quem-pertence-a-educacao/ ]

Ceará, Rio Grande do Sul, Goiás, São Paulo: em 2015 e 2016 temos assistido a uma sequência incandescente de lutas de estudantes secundaristas pela educação pública. Emboras as lutas estejam expressas em diferentes bandeiras e pautas específicas, podemos compreendê-las como tendo um fio condutor que se traduz na seguinte pergunta: a quem pertence a educação?

No Brasil a classe trabalhadora sustenta os serviços públicos, pagando uma proporção maior de impostos do que aqueles que vivem de renda, patrimônio e especulação. A educação não é exceção e isso não seria um problema se o Estado funcionasse a favor de nossos interesses. Historicamente, porém, os trabalhadores têm sido marginalizados e impedidos de acessarem esse direito básico (e outros) em nosso país. Sustentamos a educação e somos constantemente impedidos de acessá-la e, sobretudo, de tomar decisões sobre ela. Na atual conjuntura, ainda pior do que isso, o prognóstico é o de que o pouco dinheiro público que se mantiver destinado à educação, passe para as mãos de grandes corporações interessadas no setor (por exemplo por meio das OS). A história nos mostra como chegamos até aqui, e a sociologia reforça o quão estratégico é esse setor que está em franca disputa.

Educação e luta de classes no Brasil: ontem, hoje e… amanhã?

Nos tempos do império a ausência de um sistema público nacional fazia com que apenas as famílias nobres tivessem condições de pagar por tutores particulares ou para que seus filhos (homens, vale lembrar) estudassem na Europa. Quando começamos a criar nosso sistema de educação pública, ainda muito restrito, toda a população negra e pobre foi sumariamente excluída de seu acesso – por não serem considerados pessoas, aqueles que haviam sido escravizados, assim como seus filhos, não conseguiam se matricular em instituições de ensino.

Assim que isso começou a mudar, o Estado adotou dois tipos de política educacional, nenhum deles voltado aos interesses da classe trabalhadora: por um lado, transferindo dinheiro público a instituições religiosas de elite, em geral católicas, que ofereciam vagas eventuais a alunos considerados “excelentes” vindos da classe trabalhadora – mas como um aluno poderia se tornar excelente sem acesso primário à educação?

Por outro lado, a expansão da rede pública de ensino foi orientada explicitamente para formar “trabalhadores qualificados” (o discurso ideológico transmitido à classe trabalhadora é o mesmo de sempre: com mais qualificação, você terá um melhor emprego e viverá em condições melhores). Quem definia qual era o padrão de formação correto para aqueles oriundos da classe trabalhadora? A resposta é simples: quem estava presente no Estado, ou seja, empregadores e patrões, burgueses e/ou descendentes da nobreza imperial. Seus filhos estudavam nas escolas religiosas ou em instituições que, mesmo sendo públicas, realizavam exames de seleção e não aceitavam a matrícula de qualquer aluno. Esses exames (assim como o antigo “exame de admissão” que selecionava estudantes para matrícula no ginásio, ciclo correspondente aos atuais anos de escolarização do Fundamental II) se baseavam – como ainda hoje se baseiam – em conhecimentos e habilidades que não eram efetivamente oferecidos aos filhos da classe trabalhadora. O sociólogo Pierre Bourdieu elaborou ao conceito de capital cultural para explicar como a escola, por meio de seus exames e avaliações, demanda conhecimentos que não são homogeneamente distribuídos ou transmitidos entre as diferentes classes sociais.

Se olharmos a fundo, veremos que o sistema educacional a serviço dos interesses de classe da burguesia (formar trabalhadores qualificados para que se produza com mais eficiência, mantendo ou aumentando as taxas de lucro) é estratégico para a manutenção das classes sociais. Mesas e cadeiras individuais, enfileiradas; reforço do clima de competição; horário de almoço/intervalo curto e restrito; hierarquia reforçada com medidas disciplinares; etc.: toda semelhança da organização escolar com a organização dos locais de trabalho não é mera coincidência. A sociologia da educação nos auxilia a enxergar algumas nuances dessa afirmação e algumas interações complexas entre o sistema educacional e a organização social em classes.

Segmentação da educação escolar: origem e destino de classe

Embora tenham muitos elementos em comum umas com as outras, porém, sabemos que as escolas não são todas iguais. O conceito de segmentação da educação escolar (ou dos sistemas de ensino) nos auxilia a compreender essas desigualdades repletas de nuances. A segmentação ocorre quando o currículo é o mesmo para todas as mas a maneira como é abordado – e os objetivos de se trabalhar cada conhecimento (ou, no caso de muitas escolas, “conteúdo”) – variam enormemente. Essa variação em geral se dá segundo a origem social ou origem de classe das famílias que a escola atende. Um bom exemplo disso é a ineficácia da divisão públicas versus particulares para descrever as desigualdades educacionais brasileiras hoje.

Podemos dizer que hoje a segmentação do sistema de ensino no Brasil é mais complexa do que a mera divisão entre escolas públicas e privadas. Pesquisadores de diferentes universidades continuam apontando em suas pesquisas que as escolas acompanham a origem social de seus estudantes. Concretamente, isso significa que mesmo entre escolas privadas, há aquelas que servem a famílias de elites e grupos dominantes, há muitas gerações já familiarizadas com a alta escolarização; e há aquelas que servem comunidades da classe trabalhadora, inclusive suas fatias de renda média e média-alta, com sistemas apostilados e a promessa da ascensão social por meio do acesso a universidades públicas renomadas e concorridas. Entre as escolas públicas municipais e estaduais, a divisão se dá majoritariamente entre os bairros – bairros considerados “melhores” costumam abrigar escolas também consideradas “melhores”, o que não é nenhuma coincidência (o que nos faz considerar um bairro “melhor” senão sua distância da pobreza e de suas graves consequências sociais?).

No caso do ensino médio, há ainda uma divisão de classe poderosa entre escolas estaduais “comuns” e escolas que oferecem ensino técnico (sejam elas estaduais ou federais): para matricularem-se os estudantes devem prestar um exame (a meu ver criminoso) chamado “vestibulinho”, que nada mais é do que a mesma história de antes, repetida. Quem, afinal de contas, vai melhor num exame: quem teve acesso às escolas e bairros “melhores” ou quem teve acesso às escolas e bairros “piores” durante o ensino fundamental? Nosso sistema educacional e escolar é meticulosamente organizado para que a estrutura de classes se mantenha.

Segmentação e condições do trabalho docente

Essa organização meticulosa passa também pela segmentação e sucateamento das condições de trabalho dos professores. Na rede pública assistimos a uma série de ataques sistemáticos como as condições desumanas em que são realizadas as atribuições de aula; o salário de fome que faz com que professores precisem pegar muitas aulas para sustentar suas famílias, sem permitir o tempo adequado de descanso e de preparação de aulas; o corte de recursos para bibliotecas, materiais, laboratórios, infraestrutura; a estrutura de poder e administração centralizada e burocratizada que dá ao professor pouca autonomia sobre seu próprio trabalho (e outros ataques sérios a essa autonomia fundamental para a qualidade de ensino, feitos por iniciativas como o projeto de lei Escola Sem Partido; a entrada da polícia militar em escolas como supostas “parceiras” da direção e da administração criminalizando estudantes; a implementação de sistemas desenvolvidos por organizações de interesse privado mascaradas sob a fachada de “organizações sociais”).

Nada disso contribui para oferecer, aos filhos da classe trabalhadora e de grupos marginalizados, que estão nos “piores” bairros, nas “piores” escolas, chances mínimas de acesso a um ensino técnico, à educação superior (ou a ambos) ou até mesmo a uma formação de qualidade no ensino básico, que os preze enquanto sujeitos de sua própria vida, da história e da sociedade.

A situação de trabalho dos professores em escolas privadas também é massacrante. Salvo raríssimas exceções, a rotina de professores em escolas privadas passa por muita precariedade. Entre os exemplos, estão a pouca autonomia sobre suas aulas (ou nenhuma, em boa parte dos casos); o assédio moral constante da parte de diretorias e administrações mais preocupadas em manter a clientela satisfeita e as rematrículas para o semestre seguinte (e os lucros da empresa – afinal, a escola privada é uma empresa); os salários extremamente semelhantes (ou às vezes piores) do que aqueles oferecidos pela rede pública; a sobrecarga de horários e empregos para conseguir renda suficiente ao final do mês; o cotidiano com câmeras de vigilância instaladas para monitoramento das aulas; a exigência de cumprir trabalho não-pago fora de suas atribuições profissionais; os direitos trabalhistas básicos recusados ou condições de contratação precárias.

Essas condições  dificultam o acesso à educação de qualidade por parte também dos estudantes de escolas privadas, oriundos da classe trabalhadora (afinal, a mensalidade das escolas que são exceções a essa regra em geral ultrapassam facilmente a casa dos R$1500-R$2000, o que é inacessível para o grosso da população).

Na esfera do nível superior, a história se repete. O acesso não é universal e os exames são utilizados mais como forma de selecionar do que de avaliar a capacidade de estudantes de acompanharem os cursos superiores. O Estado governado por interesses de classe (e de maneira ainda mais explícita e voraz com Temer na presidência) transfere dinheiro público para empresas privadas de educação por meio de programas como o Prouni e o Fies enquanto corta verbas de ensino e pesquisa, dificulta a ampliação de vagas nas universidades estaduais e federais, e corre para aprovar uma lei que abre as portas para a privatização das universidade federais (por meio da máscara das “gestões por organizações sociais”, o que já ocorre no ensino municipal e estadual em diversos lugares do país) e das estaduais (por meio das fundações e dos cursos de pós-graduação pagos). Todas essas medidas são parte de um plano de desmonte e privatização sutil (ou nem tão sutil assim) do sistema educacional como um todo – mesmo do que lhe restar de público. É o Estado sendo colocado a serviço das taxas de lucro de empresas do sistema educacional.

Privatização da educação hoje

A reorganização da educação básica proposta e violentamente levada a cabo pela Secretaria Estadual de Educação em São Paulo a despeito da derrota política ocorrida em 2015, é mais uma audaz jogada que atropela os interesses da classe trabalhadora nesse tabuleiro. Trata-se de medidas que procuram demonstrar uma eficácia de recursos do sistema educacional, acima das necessidades e interesses das famílias e estudantes da rede pública paulista; essa é a forma que o Governo do Estado de Geraldo Alckmin tem de sinalizar a investidores brasileiros e estrangeiros da educação privada que haverá espaço para a progressiva privatização do sistema público: o Brasil tem hoje, após decisões políticas minuciosamente tomadas com este fim desde o período da ditadura militar, um dos dez maiores mercados educacionais do mundo, que movimenta anualmente cerca de R$55bilhões.

Não é de se espantar que alguns estados governados pelo PSDB, como o estado de Goiás, já estejam adequando suas legislações para permitir a transferência da gestão das escolas públicas para “organizações de interesse social”. Diferente de organizações sem fins lucrativos, porém, as OS podem legalmente lucrar com a educação. Na prática, o resultado dessas medidas é transferir para o setor privado a rede pública de ensino. Nesse contexto, será ainda mais difícil e improvável que qualquer interesse da classe trabalhadora, que depende do sistema público de educação, jamais seja atendido em relação a sua escolarização.

É urgente neste momento que nos perguntemos: qual é a educação que queremos? A que interesses ela deve atender? De que maneiras podemos promover uma educação que não sirva apenas aos interesses de um pequeno grupo de pessoas? Essas são as questões que devemos, junto aos estudantes que ocupam bravamente seus estabelecimentos de ensino, colocar na ordem do dia. Para respondermos a essa questão, podemos utilizar habilidades e conhecimentos que devem, em tese, ser estudados no currículo escolar: analisemos a história da educação, as estatísticas quanto à escolarização e diferentes segmentos de classe no Brasil, os números do mercado privado de educação, a nossa estrutura de classes, a arquitetura e engenharia aplicadas à construção de prédios que mais parecem prisões, os processos químicos e biológicos envolvidos em recursos necessários à permanência estudantil como a alimentação garantida no sistema de ensino…

Quando dizem que a luta política dos estudantes secundaristas atrapalha as aulas e o conhecimento escolar, então, se está repetindo uma falácia segundo a qual a educação poderia ser uma esfera completamente autônoma da sociedade. Não é, não será jamais. A educação é, em essência, o processo de transmissão/aquisição de disposições e conhecimentos que cada sociedade julga necessários para que uma pessoa possa ser considerada parte dela. Numa sociedade de classes, porém, essas partes não são iguais e não se relacionam horizontalmente. Daí a construção de sistemas segmentados para atender à formação de indivíduos segundo sua classe, garantindo a manutenção e a reprodução das classes sociais como são. A questão é: como direcionar a educação para os interesses da classe trabalhadora? A quem pertence a educação?

As escolas serão nossas comunas

As ocupações das escolas estaduais e técnicas por estudantes secundaristas desde 2015 mandam um recado claro à sociedade: é preciso mais do que reformas focadas em “otimização de recursos”. A educação precisa ser inteiramente revista – e não simplesmente para adequar os trabalhadores ao mercado de trabalho. Os estudantes nas ocupações trazem, elaboram, reelaboram e constroem coletivamente críticas bastante contundentes ao sistema escolar e às políticas públicas para a educação básica. Convidando professores, militantes e palestrantes de diversos grupos, partidos e movimentos sociais como aliados de luta, e envolvendo a comunidade escolar (com todas as suas contradições) no processo, os secundaristas estabelecem um diálogo público essencial sobre os interesses em jogo nas decisões sobre a educação no Brasil.

Esse diálogo público, porém, não se limita aos momentos de ocupação. Enquanto tática, as ocupações têm cumprido uma função essencial nessa batalha. Contudo, é mais do que evidente o crescimento e amadurecimento do movimento dos secundaristas entre os períodos de ocupação. O debate avança, as pautas avançam, e a atenção e a análise dos resultados concretos da luta de classes no processo das ocupações (ações da PM, instauração da CPI da merenda em SP presidida pelos próprios envolvidos no caso, tensionamento da lei da mordaça aos professores em Alagoas, cancelamento dos concursos para professores em Goiás etc.) permitem traçar novas táticas e revisar as estratégias de luta. No caminho, a educação é cada vez mais evidenciada enquanto setor estratégico na luta de classes no Brasil, e no enfrentamento direto contra os interesses do capital.

O trabalho educacional é um dos responsáveis pela manutenção das estruturas sociais: socializa, transmitindo não apenas conhecimentos ou “conteúdos” às novas gerações, mas incutindo nelas uma maneira de ser, de ver o mundo e de relacionar-se com ele a partir de um lugar social específico segundo sua classe e/ou grupo social (pesam aí racialidade, gênero, origem regional, e outros marcadores sociais de diferenças). Assim como no caso do trabalho produtivo, responsável pela produção e distribuição de recursos materiais e riquezas em nossa sociedade, o trabalho educacional precisa ser compreendido como trabalho alienado. Alienado dos professores, mas também alienado dos alunos.

Ao nos perguntarmos, então, que projeto de educação queremos no caminho para uma sociedade sem classes e livre de toda exploração entre seres humanos, a resposta pode ser apenas uma: um projeto de educação que coloque o trabalho educacional nas mãos dos sujeitos nele envolvidos e, mais, que essa desalienação seja condição para que se constituam enquanto sujeitos. Esse projeto só pode ser alcançado se questionarmos o controle dos meios de reprodução de classe: as escolas.

Como reagir diante de tantos ataques do governo Temer?

Estive uns três dias de cama, no final da semana passada. Bode com o mundo, desânimo completo. Fui derrubada. Sabe o que me moveu, acendeu a fagulha e me deu ganas de continuar vivendo e lutando? Um post da Talita que, muito sábia, disse:

“Galera, segura essa peteca e levanta a cabeça. Tá longe o momento de descansar, talvez esse momento não seja no nosso turno.”

Talvez esse momento não seja no nosso turno.

Essa frase ecoou na minha cabeça como os trovões e rajadas de vento da tempestade de ontem. Há momentos na história e na política que simplesmente não permitem esse sentimento individual e individualista de “se preservar”: é preciso agir para além de si. Só podemos existir – e só pudermos lutar nas últimas décadas e construir algumas pequenas vitórias – porque tanto na ditadura do Estado Novo, quanto na ditadura militar, quanto entre elas, havia gente agindo para além de si.

“Talvez esse momento não seja no nosso turno.”

Me vieram à cabeça todas as histórias que ouvi, da boca de quem sobreviveu pra contar. As memórias de infância, de ter crescido numa família ligada à política. “Meu pai faz greve”, respondeu meu irmão, ainda pequeno, em certa ocasião quando confrontado com a pergunta “O que seu pai faz?”. A história da fabulosa atiradora de bazuca da guerrilha chilena, contada pra mim diretamente de sua filha. As memórias de minha mãe que, ao passar no vestibular da USP escutou de meu avô, na época político da ARENA: “Cuidado, aquilo lá é um antro de comunistas”.

“Talvez esse momento não seja no nosso turno.”

Junto a esse post da Talita, com essa mensagem tão direta e clara, um outro post da Maíra Galvão (ah, família Galvão, aquela da Patrícia… ♥) falava sobre a estratégia de estarrecimento da população. Eles estão fazendo de propósito. É pra desbaratinar, é pra desarticular. Por isso, mais do que nunca, essa é a hora de lutar.

O nosso turno é o o turno de lutar e resistir.

O estarrecimento e a imobilidade frente a tantos ataques e tanta violência é o pior que pode acontecer. É hora da ação e, como bem pontuou a Renata Corrêa em mais um post [minhas amigas são minhas heroínas, cara]:

Acabou o amor.

Ocupar e juntar na rua pra fazer festa-show (vide 1º de maio no Anhangabaú), ciranda de abraços e danças circulares apenas dizendo “Não passarão” é quase o mesmo que dar a esses que não deviam passar um fucking passaporte. Sem uma atitude combativa da esquerda, eles passarão e nós nem passarinho (estilingues e gaiolas em toda parte).

Acabou o amor.

Lembram daquela história da carochinha que contaram pra mim e pra vocês desde os anos 1990, e que parecia fazer tanto sentindo nos 13 anos de governo do PT, de que a gente conseguiria mudança com “trabalho de formiguinha”? De que a sua ação individual podia “mudar o mundo” (“Seja você a mudança”)? De que bastava fazer “a sua parte” por um “mundo melhor”? Pois os fatos políticos estão mostrando cada vez mais o quanto não podemos contar com essas estratégias. Porque eles têm ferramentas pra jogar concreto no solo – e aí formigueiro cresce como?

Acabou o amor.

As ações diretas organizadas – ocupações politizadas, greves, desobediência civil organizada – são a nossa única chance de sobreviver. Mas também não se enganem: elas não são suficientes e não devem ser vistas como um fim em si mesmas. Uma boa lição sobre isso: os secundaristas em SP ocuparam a ALESP pedindo a CPI da merenda. Desocuparam e conseguiram a CPI. Presidida pelos próprios envolvidos no desvio da merenda. E aí? Comofaz?

Acabou o amor.

É preciso ir além. Nossa ação tem que ir além de nós mesmos, de nossos confortos e desconfortos individuais. Isso é política. Nossa luta tem que ir além dos momentos de ação direta e das reivindicações pontuais, se quisermos construir uma sociedade livre de toda exploração, se quisermos ser donos de nós mesmos, de nosso tempo, de nosso trabalho, do conhecimento e dos bens materiais e simbólicos que produzimos.

Acabou o amor.

A hora é de lutar, resistir. E essa luta e resistência precisam ser bem costuradas, articuladas, com a construção de um projeto de sociedade. Não se trata de pautas específicas. Os fatos políticos nos mostram que pautas específicas não darão conta. Se conseguir defender o SUS, ele será em seguida sucateado, ou o aborto será definido pelas igrejas, ou vão privatizar a educação básica e superior. Os inimigos têm a máquina estatal, os investimentos do grande capital internacional, o apoio político do Império (Temer é citado na Wikileaks como informante da CIA, estão sabendo? A embaixadora dos EUA presente no Brasil nesse processo de impeachment era a mesma que estava no Paraguai e no Equador nos seus respectivos golpes recentes, etc.). Nós temos as nossas mãos.

Façamos nós por nossas mãos.

A conjuntura política exige que nossas mãos atuem coordenadas; que construamos uma luta comum e organizada, por um projeto de sociedade comum (e não por pautas específicas). É hora de organizar. É hora de se articular. Organizados nossos braços se multiplicam, e a agonia da sensação de impotência é substituída pela força da coletividade. Porque eu sei que, enquanto estou auxiliando os estudantes em uma escola ocupada, meus camaradas do sindicato dos professores estão articulando estruturalmente um enfrentamento massivo. Porque eu sei que, enquanto estou em fóruns populares de saúde articulando a questão do aborto, meus camaradas trabalhadores e trabalhadoras do SUS estão estabelecendo as bases de uma luta que está por vir. Porque atuamos como um só em diversas frentes. As mãos de meus camaradas são também minhas mãos, e a ação organizada é que permite essa âncora, esse fio condutor do enfrentamento política.

Façamos nós por nossas mãos.

É hora, mais do que nunca, de se organizar. Seja em um partido, seja em seus sindicatos e associações profissionais, seja articulando seu coletivo com lutas mais amplas e frentes de massa. Sair do individual-individualista, sair da pauta específica.

É hora de ir além.


post originalmente publicado em meu perfil no Facebook: https://www.facebook.com/mari.moscou/posts/10153703615528576?pnref=story

por que entrei em um partido político

[aviso de textão: o texto é longo. leiam com calma, especialmente aquelas e aqueles que têm procurado refletir sobre militância e ação política nos dias de hoje, e quem está insatisfeito/a ou desiludido/a com as opções que têm aparecido pela frente. o que trago aqui parte do velho e se torna novo, prometo, frente aos fatos que temos vivido cotidianamente desde 2013. boa leitura!]

Minha história de militância é longa, para alguém com menos de trinta anos. Comecei cedo, quando um colega no ensino fundamental me chamou para fundar um grêmio estudantil. O ano era 1999. Até então, só havia me engajado em atividades políticas de meus pais: passeatas pelo impeachment do Collor, manifestações pelas eleições diretas, assembleias do sindicato dos bancários. Cordão umbilical cortado, passei a atuar no movimento estudantil sem filiação a nenhum partido ou coletivo em específico.

Nesses dezesseis anos de militância, ativismo e engajamento político (tenho mais anos de vida como militante do que sem), experimentei muitas formas de me organizar. Estive no movimento estudantil secundarista e em sua fração universitária. Fui do grêmio estudantil a uma articulação entre grêmios, passando pela proximidade com vários partidos (em especial com seus setores de juventude) que iam desde o PT até o PC Marxista-Leninista, incluindo no caminho PCdoB/UJS, PSTU e PCO. Me mantive do lado de fora, pois sentia que não queria me prender a nenhum tipo de orientação partidária. Estive em três edições do Fórum Social Mundial na cidade de Porto Alegre, escrevendo para jornais independentes e acompanhando oficinas organizadas por feministas. Participei politicamente de outros movimentos de juventude – como o movimento escoteiro -, vi a coordenadoria de juventude de Sampa surgir na gestão de Marta Suplicy e organizei com companheiros de militância os fóruns de jovens da cidade, os Forrós Sociais Mundiais e diversas atividades políticas entre grêmios estudantis de escolas públicas e privadas da zona oeste de São Paulo. Estive numa embrionária – mas infelizmente fracassada – tentativa de organizar um Movimento Pelo Fim do Vestibular.

Um pouco mais tarde, quando me mudei de São Paulo para cursar Ciências Sociais na Unicamp, minha militância se encaminhou para uma nova fase. Sobretudo a partir de 2005, atuei junto a ONGs locais, nacionais e internacionais, fiz trampos com setores da ONU, fui à Rio+20 fazer lobby pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres nos comitês de negociação e em debates propostos pela organização que eu representava. Na segunda metade da década de 2000 abandonei progressivamente o movimento estudantil e as disputas institucionais, e me afastei mais e mais dos partidos políticos, passando a fazer parte de coletivos independentes como o Coletivo Feminista da Unicamp. Também participei ativamente da criação e consolidação do coletivo virtual Blogueiras Feministas. Nesses últimos dez anos realizei também uma quantidade razoável de ações individuais, de maneira independente, tanto na internet por meio dos blogs, sites, textos e afins, quanto fora dela com cursos, palestras, apoio a outras pessoas interessadas em se engajar, grupos de estudos etc.

Neste ano de 2015, depois de muita reflexão e de um incômodo que eu não sabia muito bem nomear com o tipo de militância em que estava envolvida, decidi me juntar a um partido político. Não foi de repente, nem sem muito debate, pesquisa, auto-crítica e auto-reflexão. Esse é o processo que desejo compartilhar com quem me alcança através da internet – e que, como devem ter notado, se deu completamente offline. Da mesma forma como havia me afastado dos partidos, da política institucional e do movimento estudantil, entre 2014 e 2015 me afastei da militância virtual, da internet, dos blogs, das colunas em sites. Longe de dar satisfação ou prestar contas, escolhi compartilhar um pouco desse processo com vocês porque as reflexões que elaborei ao longo desse tempo me pareceram valiosas para qualquer pessoa disposta a fazer autocrítica sobre a própria militância.

os eventos de 2013 e a necessidade de um partido

Comecei a pensar seriamente em me juntar a um partido político depois do que vivemos em 2013. Eu havia, no início dos anos 2000, experimentado um momento de esgotamento e desgaste bruto do modelo capitalista neoliberal, vivido pelas pessoas não-militantes como um descontentamento geral em uma situação de crise – como de costume, sem dar nome aos bois; a crise é vivida, no senso-comum, como um fenômeno natural, como uma chuva forte que vai passar (daí a inspiração para este meu poema). Naquela ocasião acreditei, com muitos companheiros e companheiras de luta, que a saída pela política institucional – um partido de esquerda no poder, liderado por Lula – poderia ser algo positivo. Assim como o que havia ocorrido na prefeitura de São Paulo durante as gestões de Erundina e Marta, o governo federal se abriria a um debate, e a inserções dos movimentos sociais – incluindo aí todo um pedaço da militância formada no seio dos anos 2000, como eu, que não se filiava a partidos mas se articulava em coletivos, fóruns de bairro, ativismo digital. De fato, vivemos esse momento nos governos Lula. A realização das conferências participativas temáticas, a ampliação das universidades federais, a popularização do ensino superior (ainda que em parcerias público-privadas, o que era visto como uma medida temporária e paliativa por otimistas – eu, inclusive), o alargamento de programas sociais de distribuição de renda: tudo isso fazia parecer pessimista demais uma perspectiva de oposição ao governo Lula, ainda que fossem facilmente reconhecíveis naquela gestão as marcas do interesse privado e do capital (a inclusão social primordialmente operada a partir do consumo de bens e serviços de empresas privadas, por exemplo, mesmo quando se tratasse de educação – caso do Prouni).

As tensões que começaram a subir à superfície no ano de 2013 deixaram evidente que essas marcas haviam se espalhado, e que a gestão de Dilma (pela qual eu fiz campanha) seria problemática nesse sentido. Analisando a conjuntura na época da primeira eleição de Dilma, com a presença do PMDB na vice-presidência (que, ainda que tenha uma linha política semelhante à do PL, que ocupou as vice-presidências de Lula, definitivamente tem muito mais poder no jogo político), entendi que essa decisão levaria o PT e o que as gestões de Lula haviam conseguido construir para o buraco; sem Lula o PT perdia (e perdeu) o poder de barganha da mobilização de massas, que era a moeda de troca para que não se curvassem inteiramente aos interesses de classe mais puros dos grupos dominantes (especuladores, herdeiros, donos de grande fortunas e grupos empresariais como os barões da comunicação). Infelizmente, em 2013 e durante a campanha eleitoral de 2014 (este ano de 2015, então, nem se fala), minha análise de conjuntura se mostrou razoavelmente acurada.

Foi justamente aí que a militância “independente” que eu vinha fazendo, e os espaços dos coletivos autônomos, passaram e me parecer cada vez mais insuficientes. O primeiro mandato de Dilma e os desdobramentos políticos de 2013 deixaram claro que estávamos perdendo. Nós, militantes e ativistas de direitos humanos, de minorias sociais, da construção de um mundo mais igualitário, estávamos sendo esmagados pela tentativa pífia de conciliação de classes na qual o PT insistia (e insistia com o apoio de vários setores da esquerda que, como eu, ainda estavam apegados ao otimismo do que havia se passado na década anterior durante os mandatos de Lula), de um lado, e pelos interesses de crescimento e lucro dos grupos eternamente dominantes do capitalismo global – representados, aqui, por uma fatia da elite herdeira historicamente constituída e consolidada (escrevi mais ou menos sobre esse processo pelo qual certos grupos vêm se mantendo no poder no Brasil há tanto tempo, aqui).

Pois bem, estávamos perdendo. O que fazer?

Nenhum coletivo de ativismo me parecia suficiente. Dizer-me “feminista independente”: o que significava isso no contexto político que começara a se formar? O ano de 2013 havia me mostrado – como a muita gente – a importância política de um posicionamento explícito. Eu, que sempre fui comunista (ainda que guardasse em meu coração eternamente adolescente um carinho enorme pelo anarquismo), percebi que ninguém sabia que eu era comunista. Textos que eu havia publicado na internet eram apropriados por grupos conservadores – e passei então a colocar, antes de cada texto, um aviso de que eram textos de esquerda (ah, a péssima qualidade de leitura dos conservadores…). Mudei meu sobrenome no Facebook para “de esquerda” na esperança de que os conservadores parassem de me seguir achando que, quando eu criticava o governo Dilma, estava querendo dizer que Aécio ou Marina teriam sido melhores. Nessa época, muitos amigos e amigas que nunca tiveram uma vida militante se “descobriram” de esquerda. Aqueles e aquelas que já se entendiam de esquerda, também passaram por processos semelhantes de posicionamento: surgiram em meu Facebook outros sobrenomes “de esquerda”, mas também “anarquista”, “comunista”, “socialista”. Confesso que achei bonito de ver, embora o contexto político que exigisse essa declaração explícita fosse por vezes bem feio.

“Sair do armário” não é uma tarefa fácil, embora seja politicamente fundamental. A saída do armário como comunista em um momento de avanço das ideologias conservadoras mostra que existimos. Assim como as feministas passaram, na segunda metade dos anos 2000, no Brasil, por uma espécie de “saída do armário” coletiva que permitiu ao feminismo se disseminar cada vez mais (ainda que apanhando na cabeça o tempo todo), o mesmo parecia ocorrer com alguns grupos de esquerda. Essa saída do armário diz que existimos, que estamos aqui, que nossa luta é real e concreta – e não um episódio deixado às traças em livros de história. A história é viva, a fazemos todo o tempo, e ela não acabou.

Dizer-me de esquerda ou comunista, porém, não parecia significar grande coisa sem uma atuação política nesse sentido. Não tinha certeza, porém, se me articular em um partido seria a melhor das opções em relação a isso. Afinal de contas, eu era comunista, mas também era feminista – e, mesmo sem saber muito bem o motivo, não me parecia muito sensato criar ou me filiar, caso existisse, a um “partido feminista”. Era uma dúvida legítima sobre o que significaria “entrar em um partido”, algo que minha intuição me dizia que faria sentido mas eu tampouco sabia explicar. Se eu não acreditava mais em eleições como forma de transformação social, eu acreditava em “partido”? O que era, afinal, “partido”?

Quando comecei a pensar seriamente sobre a questão, me lembro de perguntar a amigas ativistas o que achavam de minha entrada em algum partido. Sem contar aquelas que já faziam sua militância em partidos, a resposta massiva que recebi foi: “não faça isso, você vai se queimar e perder seus seguidores, admiradores, leitores; sua influência vai diminuir, em vez de aumentar”. Eu sabia muito bem quais eram os incômodos dessas amigas – e de muitas pessoas que acompanharam minha militância nessa “segunda fase” – com os partidos políticos. Retomei, então, na época, minha própria história com a militância partidária.

O pensamento “anti-partido” que muitas pessoas reproduziam e reproduzem em coletivos autônomos e ativismo digital me parecia cada vez mais mal informado e superficial. Uma rejeição à política institucional eleitoral – o que eu compreendia perfeitamente – mas que, ao mesmo tempo, não propunha nenhum tipo de projeto. Ficava às margens dessa estrutura, tecendo críticas e propondo modelos “alternativos” que me pareciam em certa medida infantis pois não lidavam com o problema, e se alimentavam de uma fantasia de que a ação individual ou de pequenos grupos isoladamente poderia combater toda uma estrutura (sendo que essa própria estrutura impunha os limites e formatos desses grupos, de suas ferramentas e de sua ação). De alguma maneira, quando essas pessoas me disseram que eu não deveria entrar num partido, minha intuição me disse que isso parecia um reforço da minha impressão de que entrar num partido seria mesmo a melhor coisa a fazer. Decidi maturar a ideia com alguma calma.

O que é um partido?

O momento de virada, para mim, foi quando almoçava entre amigos num boteco qualquer e, metida a visionária, quis apresentar a genial ideia de construir um coletivo que intersecionalmente desse conta de um projeto mais amplo de sociedade, integrando igualdade de gênero, igualdade racial, fim da monogamia compulsória, fim do capitalismo, etc., numa mudança estrutural e cultural significativa. Ao que uma pessoa que admiro muito me disse: “Ok, você quer propor então um partido?”. Me detive. Eu queria propor um partido? Tentei explicar minha ideia ainda na chave do “coletivo”. A mesma pessoa então me disse: “Qual é a diferença disso para um partido?”. Se eu tivesse menos familiaridade com a ciência política, teria dito talvez que um coletivo não disputa eleições. Mas eu sabia, em teoria e prática, que partidos não necessariamente disputam eleições, e sempre detestei esse atrelamento do papel do partido ao papel eleitoral, que eu ouvia nos discursos menos informados politicamente. Não precisei voltar aos livros, a Lênin, nem a minhas próprias memórias militantes para saber que, de fato, o que eu estava procurando era um partido.

Recobrando minhas leituras e reflexões anteriores, e reelaborando minha história de militância e minha formação acadêmica, consegui finalmente explicitar para mim mesma o que significava o partido: um projeto integrado de sociedade. Identifiquei pouco a pouco o que me incomodava nos coletivos autônomos: sua insuficiência em propor um projeto integrado, ao agregarem pessoas a partir de um ponto único (a partir do gênero, ou da raça, ou do local de moradia, etc), e não de um corpo ideológico mais amplo e complexo que englobasse essas questões, mas perpassasse também outras.

Um partido pra chamar de meu

Passei então a pensar em como eu poderia escolher um partido. Que critérios eu utilizaria? O que me parecia importante para que eu sentisse que poderia efetivamente contribuir com a militância num grupo? Que grupos me pareciam ter espaço aberto para disputas políticas (e não eleitoreiras)? Assim me apareceu o Partido Comunista Brasileiro.

Como muitas pessoas, eu também compartilhava da visão estereotipada de que o PCB era um partido de velhinhos comunistas ortodoxos, que não teria muito espaço para disputa (ou para questões feministas, LGBT, e outras pautas que muitos marxistas veem como “pós-modernas”) dada a estrutura do centralismo democrático, e que contaria com uma militância pré-programada, cartilhesca. Muito felizmente, eu estava enganada. Ao conhecer mais de perto a história recente do partido (sobretudo a partir do racha que formou o PPS) e o estado atual de sua militância, vi ali uma coletividade em que me senti extremamente contemplada.

Em primeiro lugar, porque em vez de rejeitar qualquer coisa que soasse teórica ou acadêmica como fazem os coletivos autônomos, a militância online e várias tendências de alguns partidos (num estereótipo bem capenga do que “teoria” e “academia” significam, vale dizer), o PCB tem uma preocupação muito central com esse tipo de diálogo, pois compreende que o trato com essas questões são parte essencial de uma militância bem formada, coesa, e da construção de um projeto revolucionário e de sociedade mais sólido. Isso ficou evidente pra mim ao conhecer seus militantes, e também ao conhecer a própria organização do partido – e a cada dia, e cada atividade, essa característica do partido me agrada mais e mais.

Em segundo lugar, porque o debate e as ações políticas são colocadas coletivamente (e isso tem bastante a ver com a proposta de centralismo democrático, e a organização leninista da atividade política, que se revelaram para mim pontos fortes e muito bem-vindos da militância no PCB), numa lógica de solidariedade. Sei que parece um contrassenso afirmar que “coletivos” autônomos partem de uma perspectiva individualizada – mas é exatamente o que estou afirmando.

A militância dos coletivos, online e offline, é centrada na ideia de indivíduo e de individualidade, o que gera dois fenômenos que em algum ponto se tornaram insuportáveis para mim: de um lado, um debate que ronda apenas os umbigos e experiências pessoais dos seus ativistas; de outro, uma dificuldade muito grande em propor projetos integrados e coesos de ação, de estratégia e de objetivo final (qual a sociedade que queremos construir?), uma vez que o mito do consenso entre indivíduos apaga a condição real e permanente de disputa política e ideológica de ideias e sobrepõe ao processo coletivo de construção da realidade a necessidade de “se sentir contemplado” enquanto indivíduo em cada proposta e decisão. O texto de autocrítica de Lucas-Legume, do MPL, publicado no dia 04 de agosto deste ano, traduz muitos desses meus incômodos com uma militância de que fiz parte por longos 10 anos (clique aqui e leia “O Movimento Passe Livre acabou?”).

Passei a não me sentir mais contemplada em grupos em que a individualidade era um valor soberano (se confundindo inclusive com a ideia de sujeito, e de sujeito político) – afinal, meu desejo político mais pulsante é construir uma sociedade que seja radicalmente outra, que opere em outra lógica; não me parecia mais possível fazer isso ao reproduzir no espaço de militância uma das piores características desta nossa atual maneira de estruturar a sociedade, que é justamente o individualismo exacerbado enquanto ideologia cultural e política.

Ao contrário do que eu mesma havia visto em diversos partidos – inclusive em vários partidos de tendências que dão uma importância desproporcional às eleições (como penso ser o caso do PSOL, por exemplo), constituindo sua dominância interna em geral a partir da capacidade de mobilização de massas e votos, e não a partir da disputa político-ideológica interna – os espaços do PCB se mostraram espaços em que predomina a importância da coletividade e a construção conjunta (sobretudo nos momentos de disputas de ideias e diálogos entre lados divergentes, o que é excelente). Isso é diferente, ao contrário do que a propaganda ideológica anti-soviética e anticomunista impregnada em nosso senso-comum diz, de uma anulação dos sujeitos e de suas possibilidades de ação. Esse “clima” não se configura por uma espécie de “iluminação” individual ou confluência de valores individuais, mas por decisões coletivas (muito sensatas, a meu ver) que vêm sendo feitas desde os anos 1990 e que incidem sobre diversas camadas da existência do partido – de sua estrutura à sua expressão pública, passando pelas atividades e ações políticas de seus militantes.

A terceira e última característica do PCB, que não encontrei em nenhum outro partido, foi a abertura para disputa de ideias em todas as instâncias internas do partido. Contrariando os mitos que rondam o partido mais antigo do Brasil, combatido fervorosamente ao longo da história por todas as forças conservadoras que existiram no país, o PCB não é um “partido stalinista” que tem uma linha única de marxismo considerada aceitável para seus militantes. Muito pelo contrário, a diversidade do PCB se mostra cada dia mais efetiva e interessante, uma vez que, diferentemente do PSOL e outros partidos de tendências, os grupos divergentes não se isolam em “guetos” (as tendências) e conseguem um diálogo e uma disputa permanentes uns com os outros no seio do partido.

Todas essas características dizem respeito a percepções que tive antes mesmo de efetivamente participar das atividades do PCB, apenas conhecendo melhor seus militantes, sua história e sua configuração atual. Bastou que eu desejasse me informar melhor quando decidi entrar em um partido mas tinha muitas ressalvas ao PSOL, sobretudo pelo fato de sua disputa interna estar fortemente atrelada à disputa eleitoral. Felizmente essas percepções se confirmaram e tenho podido desenvolver, na medida que meu extensivo trabalho no doutorado permite, uma militância sólida que muito me satisfaz.

O meu partido é a única solução?

Não penso, contudo, que  o PCB seja a única e nem necessariamente, a melhor escolha para todas as pessoas que também estão insatisfeitas com a militância em coletivos autônomos e procuram rever suas estratégias de luta, articulando-se em partidos. Eu me encontrei, em diversos sentidos, neste partido. Nem todas e todos necessariamente se encontrarão. A revolução não será organizada por um único partido, nem por um único grupo, penso eu. Me parece que a diversidade de grupos e possibilidades na esquerda organizada seja mais um bem do que um mal, contanto que consigamos nos articular nessa luta.

Para que nossa articulação possa ser efetiva, porém, é necessário transpor algumas barreiras – como a militância “individualistocêntrica” e os mitos que rondam os tais “coletivos autônomos”. É preciso nos construirmos, a partir daqui, mais como sujeitos e menos como indivíduos – e aí está o primeiro passo para que efetivamente sejamos capazes de solidariedade. Uma mudança efetiva, que bote de pé uma outra sociedade, que rompa o que temos pela base – ou seja, uma revolução – só poderá acontecer se partir desses princípios. Foi precisamente por isso que decidi me articular dentro de um partido, por um projeto integrado de sociedade; por uma sociedade que opere em outra lógica, sobre outros princípios – porque estes que temos estão nos matando.

77 provas de que Mad Max é um filme (bastante) machista

isso era um post no facebook. ficou meio grande. publico aqui, também, pra quem quiser. um aviso: há spoilers.

imagem representativa da dinâmica de gênero em Mad Max: donzelas gostosas sendo salvas por um machão. duvida?
imagem representativa da dinâmica de gênero em Mad Max: donzelas gostosas sendo salvas por um machão. duvida?

Comecei a ver o filme de peito aberto. Afinal, já vi filmes de ação hollywoodianos serem razoavelmente feministas, como Sucker Punch e À Prova de Morte (e o seriado The Walking Dead, aliás). Quer dizer, com tanta gente dizendo que tinha achado incrível, me parecia ok acreditar que, sim, se pá seria um puta filme. Ou no mínimo que traria alguma coisa interessante em relação às personagens mulheres. Gastei uma grana pra ver no Imax já pensando nisso. Resumindo o lance, me decepcioney e me ferrey.

Mad Max passa no teste de Bechdel, sim. Quer dizer, tem personagens mulheres, que conversam entre si, sobre um assunto que não são os homens. E eu pergunto a vocês, senhoras e senhoras:

E daí? E-da-í?

O teste de Bechdel não é um atestado de feminismo e Mad Max é (uma das) prova cabal disso.

Há outros filmes que passam no teste de Bechdel sem serem minimamente feministas, e cito alguns deles aqui pra vocês (consultando o bechdeltest.com): Boyhood, Alien, Os Vingadores, quase todos os filmes da Barbie, A Culpa é das estrelas, Lego – O Filme, Leviatã (detestei, aliás), Magia ao Luar, Relatos Selvagens, Rio 2, Tartarugas Ninja, A Teoria de Tudo, 12 anos de escravidão, Antes da Meia-Noite, Dallas Buyers Club, Elysium, Faroeste Caboclo, VELOZES E FURIOSOS 6 (sim, você leu certo), Homem de Ferro 3, The Lunchbox, O Lobo de Wall Street. Isso pra ficar nos anos mais recentes (2013 pra cá).

O contrário é um pouco mais raro, mas também acontece. Alguns filmes que NÃO passam o teste de Bechdel mas são mais feministas do que vários que passam: Milk, Kick-Ass, Amores Brutos, Star Wars (vários deles), Quem tem medo de Virginia Woolf?, Praia do Futuro, Gravidade, Interior Leather Bar, Anna Karenina, Django Livre, Hemingway & Gellhorn, O Impossível, As Vantagens de Ser Invisível, A Garota com a Tatuagem de Dragão (SIM, LISBETH SALANDER NÃO PASSA NO TESTE, minha pova), Wuthering Heights (SIM, isso mesmo, da Emily Brontë).

O teste de Bechdel serve sim pra alguma coisa: pra começarmos a reparar na pouca representatividade das mulheres nos produtos culturais de massa. E só. Fim. The End. Acaba aí.

quadrinho original de Alison Bechdel que deu origem ao "teste de Bechdel"
quadrinho original de Alison Bechdel que deu origem ao “teste de Bechdel”

O teste de Bechdel não serve para avaliar a qualidade dessa representatividade, a função das personagens mulheres no roteiro, a representatividade intersecional, entre mil outras coisas. Muito menos ele serve pra atestar feminismo em filme de ação. A própria Alison Bechdel, na tirinha que originou o famoso “teste”, tira um grande sarro disso na verdade: na tirinha, chamada “The Rule”, uma das personagens diz que tem três regras para assistir a um filme – e cita as famosas “regras” do “teste de Bechdel” -; ela completa dizendo ironicamente que assistiu ALIEN, já que as duas mulheres falam sobre um monstro. Quer dizer, né. Calma aí, minha gente.

Bom, mas e daí? Fora o fato de passar no Teste de Bechdel, Mad Max tem algum outro elemento feminista? Procurei atentamente e consegui listá-los aqui:

  1. Uma personagem coadjuvante central com nome
  2. Uma segunda personagem mulher com nome
  3. Mulheres pegando em armas / realizando ações consideradas não-femininas
  4. Uma mulher de cabeça raspada e sem um braço
  5. Mulheres gordas e idosas
  6. Um sistema em que as mulheres são oprimidas e “se rebelam”

O problema é que cada um desses pontos precisa de mais algumas informações pra serem entendidos em sua complexidade. Vejamos:

  1. A personagem coadjuvante central com nome passa o filme desempenhando a função de “salvar a donzela” (é um pouco como quando as feministas de segunda onda achavam, num passado longínquo e distante, felizmente já superado pela antropologia e pela teoria de gênero, que o fato de certas sociedades serem matriarcais faziam com que não houvesse opressão das mulheres ali – até as antropólogas feministas mostrarem que mesmo que houvesse mulheres ocupando posições de poder, quem se fodia nessas sociedades ainda eram outras mulheres, em posições distintas no parentesco; esse é o lance da “ciculação de mulheres” sobre a qual Gayle Rubin lindamente escreveu, criticando de forma magistral a noção de “patriarcado” como explicação universal para a opressão das mulheres #fikdik).
  2. A segunda personagem com nome morre tão logo seu nome é falado. As outras meia dúzia de personagens mulheres que nos acompanham ao longo do filme não têm seus nomes citados. A função dessa segunda com nome na trama é, literalmente, de prêmio. De coisa a se perder ou coisa a se preservar/salvar. Já os personagens homens têm, mesmo os mais insignificantes, nomes que são consistentemente mencionados, ou apelidos que demonstram seu caráter ou a história por trás deles (como o “people eater” ou algo do tipo).
  3. As mulheres pegam, sim, em armas. É um filme de ação e não um filme da Disney, ok. Até aí, pode ser um ponto a favor do filme, mas certamente não é novidade (todos os filmes de heróis e espiões têm mulheres pegando em armas; gente, até princesas Disney pegam em armas – alô, Merida, é vc?). Bom, tudo bem, descontando isso e dando o braço a torcer, sim, elas pegam em armas. MAS. Sua relação com a violência é sempre colocada como a relação de “necessidade” (em algum ponto uma diz pra outra que não mate o Nux – viu, o nome dele dá até pra lembrar, rs – afinal ela havia prometido que não matariam ninguém *desnecessariamente* – tipo, oi? alguma morte em filme de ação é desnecessária?). Porque elas são mulheres e, né, mulheres não são seres capazes de violência. MESMO dentro do espectro de ações “duronas” ou não-tipicamente femininas, elas são colocadas sempre como mais fracas (apanham menos antes de caírem nas lutas), mais frágeis, e desempenhando funções “passivas” como dirigir um veículo enquanto homens se degladiam ao redor.
  4. A mulher de cabeça raspada e sem metade de um braço é a Charlize Theron. É como a Madonna deixando os pelos do sovaco crescerem, enquanto a sua colega aí do lado é motivo de chacota por estar com o buço apontando alguns primeiros pelos. Entendeu? Não? Então volte duas casas.
  5. As mulheres gordas, idosas e “a” não-branca (só contei uma) não têm nome, nem personalidade própria. As gordas são mostradas como algo um tanto grotesco esteticamente. As idosas são todas brancas, se mantém nas posições mais passivas e não têm nenhuma importância na trama que não esteja ligada a serem idosas – ou seja, *carregarem a memória de um tempo passado para que os xóvens tenham esperança e blablabla zzzz….* As gordas são as provedoras de leite materno. Literalmente vacas leiteiras. I rest my case.
  6. Nesse sistema, não são “as mulheres” que são oprimidas. São as donzelas (e as leiteiras, no caso). O filme mostra, em seu início, uma legião gigantesca de homens e mulheres que são efetivamente oprimidos. Multidões de homens sendo manipulados e oprimidos pelo ditador-mor da trama. As mulheres não se rebelam como coletividade. As donzelas fogem. Em busca de uma *vida melhor*. E mais: porque, como boas mães que são, não querem que seus filhos sejam senhores da guerra. Gente. Sério. Onde é que vocês estão vendo feminismo aqui?

Para além dessas 6 falácias, há ainda outros elementos de Mad Max que mostram como ele é um filme completamente machista. Sim, “machista”, eu disse. Reparem:

  • O protagonista é um homem-macho com problemas de homem-macho (“ó, meu deus, como posso viver em paz sabendo que não salvei as donzelas que tinha que salvar?” – reparem que no começo do filme são apenas vozes femininas que *lembram* ele de seu fracasso como macho). Aí, pra dar conta de suas crises pessoais com as donzelas que ele não conseguiu salvar ele vai lá e faz o quê? Salva donzelas. Bingo.
  • Toda a trama das mulheres está em função da construção desse protagonista homem-macho e sua questão de homem-macho. Inclusive, o próprio protagonista é apresentado com a profundidade de um pires. E nem venham me dizer que é um lance do tipo do filme ou de filmes de ação, que há muitos filmes de ação não-feministas com protagonistas bem mais profundos do que Max. O próprio Robocop, aliás. Talvez até o Rambo. Não, mentira, tô zoando. Mas o Max não deixa muito a desejar pro Rambo, não.
  • A estética do filme é uma estética escolhida a dedo para erotizar as donzelas. Mulheres + armas + grandes máquinas automotivas = fórmula machista mais manjada do século. Daí quando o protagonista, depois de uma longa sequência de fuga, consegue alento, o que ele vê? Donzelas gostosas vestidas em micro-pedacinhos de pano, indefesas, que mal sabem falar, se refrescando com mangueiras de água e liberando suas bucetas de cintos de castidade. Eu ainda esperei pra ver se era zoeira, se essa cena seria desconstruída. Mas não. Só decepção, mesmo.
  • O fato de que a luta tenha se encerrado quando os “homens fortes” que teriam direito ao trono morrem é muito significativo. Se o herdeiro que ficou na Citadela não fosse uma pessoa com todos os problemas de mobilidade do mundo – ou seja, se fosse um exemplar viril de macho, capaz de defender sua posição de poder -, os demais homens que se submetiam a ele jamais teriam, pela lógica do filme, peitado-o em prol da imperatriz Furiosa. Significa, né.
  • Quando elas retornam à cidade, magicamente todos os problemas do povo estão resolvidos. Afinal, elas são mulheres, e mulheres governam sempre com bondade. São MÃES, afinal de contas, não? São elas que abrem as comportas de água, “cuidando” do povo antes oprimido pelo domínio masculino. Margaret Tatcher manda beijinhos no ombro das rads que devem ter derramado lágrimas nesse momento.
  • Pra colocar a cereja no bolo, reparem: nenhuma das mulheres comanda nas sequências de ação (aka o filme todo, já que não têm história, roteiro, enredo, etc). As falas imperativas são sempre ditas por homens. As decisões são tomadas e gritadas por homens.
  • E, claro, como bônus: o protagonista leva uma flechada no fucking CRÂNIO e segue lutando enquanto a Furiosa leva uma facada na costela e QUASE MORRE, se não fosse o bonitão SALVÁ-LA (como toda boa donzela, claro) com seu próprio sangue. e digo mais: que porra é aquele *romance* da ruiva sem nome com o Nux? é pra mostrar como as mulheres são seres puros e angelicais que salvam até as almas mais atormentadas?

Sabem o que é o pior? Eu poderia descontar tudo isso. Se o filme fosse bom enquanto filme. Se houvesse história. Se houvesse algum desenvolvimento de algum personagem. Se houvesse alguma coisa acontecendo que não grandes máquinas explodindo na função única de dar orgasmos cinematográficos a homens-macho que, num contexto onde a água é escassa, ainda prefeririam usá-la pra esfriar os motores de seus super-caminhões.

Mas não é.

Não se dêem o trabalho. Sério.

[ok, não foram 77 provas, mas uso aqui uma licença poética pra fazer título de post]

Depilação é a burca brasileira

[texto originalmente publicado em 05/04/10, no antigo Mulher Alternativa]

Era o ano de 2005, em algum dia entre Agosto e Setembro. Eu tinha quase dezenove anos. Quase. Saía do país pela primeira vez, para participar de um fórum mundial de jovens. Superexperiência. O local? Tunísia, no norte da África, país muçulmano considerado um dos mais ocidentalizados entre os países árabes. Muitas histórias, muita coisa nova, muito aprendizado cultural – e era só a segunda metade do meu primeiro ano do bacharelado em Ciências Sociais. Imagino se eu voltasse lá hoje, como tudo seria diferente…

Fato é que eu estava no país fazia alguns dias já, quando conheci a primeira mulher tunisiana da minha idade. Na delegação tunisiana do evento só tinha representantes homens. Assim como nas outras delegações. Três anos depois em outra edição do mesmo evento, conversando com a única mulher árabe que representava seu país enquanto delegada, Fatma, egípcia, me explicaria que a dificuldade vai além das barreiras de gênero culturais, mas inclui também a legislação que não permite que mulheres viajem sem seus maridos ou familiares homens a não ser que tenham autorização expressa documentada. Em 2005, na Tunísia eu não sabia disso.

Em 2005, na Tunísia, eu não sabia de muitas coisas. Reproduzia, como vocês entenderão nesta breve anedota, um discurso segundo o qual as mulheres árabes muçulmanas são infelizes oprimidas e deveriam era fazer logo uma revolução, não usar véu e sair de fio dental por aí. Fio-dental sim é que era liberdade. Depois dessa viagem pensei, repensei, encontrei Marjane Satrapi na minha vida e tantas outras amigas árabes muçulmanas que me ajudaram a enxergar o quão complexas são as questões de dominação. Em qualquer lugar.

Então, ok. Cento e sei lá quantos jovens de dezenas de países diferentes, todos juntos. Fiz grandes amigos do Japão, da Irlanda, do México, da Argentina, do Canadá e por aí vai. Não à toa que minha página do Facebook tem centenas de amigos com nomes às vezes impronunciáveis em português. Culpa desses eventos deliciosos. O nome da primeira tunisiana que conheci não me lembro. Ela mudou minha vida e nem mesmo trocamos contato. Acho que na época nem eu nem ela sabíamos disso.

Eu dançava dança do ventre e numa oportunidade lá dei uma palhinha que chocou geral: brasileira, cara e nome de européia e chacoalhando na dança do ventre? É. Era eu mesma. Depois deste dia, ganhei a simpatia de todas as delegações árabes (e alguns pedidos absurdos – e sérios! – de casamento). Numa das saídas culturais para conhecer sítios históricos, arqueológicos e sabe-se-lá mais o que (faz tempo…) ela sentou ao meu lado no ônibus. Era verão. Fazia 40ºC na sombra. Os ônibus não tinham um ar condicionado potente e, mesmo se tivessem, duvido que refrescaria muito. O clima é muito quente e muito seco.

Começamos a conversar, ela supersimpática, uma fofa, fofa, fofa. Aí reparei que enquanto eu estava de saia (uns dois dedos acima do joelho pra não chocar geral entre outras consequências perigosas), blusinha de manguinhas e cabelo preso, ela estava de saia até o tornonzelo, meias, tênis fechado, blusa de manga comprida. Ela não usava véu. Não são muitas jovens que usam véu na Tunísia. Algumas senhoras apenas, pelo que vi durante a viagem de quase um mês ou pouco mais que isso, já não me lembro.

Imaginei que ela estivesse morrendo de calor e perguntei. Ela disse que não, que já estava acostumada e as roupas ainda a protegiam do sol. Em minha ignorância antropológica pensei “coitada, tão dominada…” e continuei cutucando o assunto pra ver se dava caldo. Quem sabe ela não começava uma revolta ali mesmo? Quem sabe eu, que era ocidental, educada na liberdade, não abria seus olhos?

Ela me disse, então, algo muito, mas muito, muito, muito sábio. Gostaria de ter registrado as palavras exatas, mas não lembro. Tentarei reproduzir.

– As roupas compridas aqui são a depilação de vocês.

– Hein? (claro, não entendi nada na época)

– Nós podemos, aqui na Tunísia, usar roupas curtas como as que você está usando.

– Então como não usam, com um calor desses?

– Bom, aí é que está a questão. Poder, você pode. Mas se você usar, não consegue namorado, aí não consegue casar, aí é uma tristeza pra você e pra sua família…

– Mas e a depilação?

– Bom, imagino que dói fazer depilação, certo?

– Sim.

– Então por que vocês se depilam sempre? Teoricamente você pode parar certo?

– É, mas aí…

Creio, leitoras (e eventuais leitores), que não preciso continuar a conversa. Confio no nível de inteligência de vocês. O que tememos que aconteça se não nos depilarmos? Por que nos sentimos “sujas” ou “feias” se não estamos depiladas?

Depois desta lição de vida (e outras mais) na Tunísia, meu ponto de vista e minhas perspectivas e opiniões sobre depilação, véu, burca, dominação de gênero, estética e por aí vai, mudaram para sempre. A complexidade das relações que estabelecem um fenômeno social (como este sentimento de imprescindibilidade da depilação na sociedade brasileira) vai muito além de relações imediatistas de causa e consequência como somos levados a acreditar pelos meios de comunicação de massa. Prometo falar disto melhor um outro dia. Lembrem de me cobrar se estiverem interessadas/os.

Em suma: o buraco é muito mais embaixo.

[Ps.: prova disso é que eu queria colocar uma figurinha aqui que representasse dor de depilação; na internet inteira, via Google Images, só encontrei fotos de mulheres FELIZES, SORRINDO durante a depilação. Alguém aí sorri no meio da depilação? As únicas que apareciam de gente sentindo dor eram de… homens. Então tá, sociedade, falou, só homens sentem dor ao arrancarem pelos com cera quente.]

Mãe: biológica ou genética?

[texto publicado originalmente em 08/11/2011 no Mulher Alternativa]

A novela das nove ilustra bem o drama, mas ele vem da vida real. Muitas mulheres desejam ter filhos e, se deparando com uma barreira biológica como um problema com os gametas (sejam seus próprios óvulos ou os espermatozóides do companheiro), questionam-se sobre o que seria biologicamente a maternidade. Uma mãe que dá a luz é mais mãe que outras mães? Uma criança com material genético de pelo menos um dos pais é mais “filho” do que uma criança adotada ou gerada totalmente com gametas de doadores? A criança gerada na barriga da mãe de registro com gametas de doadores é mais “filha” do que uma criança adotada?

Essas questões são, além de delicadas, bem complexas. Exigem uma incursão em nossa própria forma de pensamento, enquanto sociedade, para entendermos de onde vem essa senação de inadequação das categorias sociais tradicionais às possibilidades criadas pelo desenvolvimento de novas tecnologias reprodutivas.

Não sou a primeira, única nem última a falar disso. Filósofas (como Donna Haraway) e antropólogas (como Marilyn Strathern) é que me deixaram com questões como essa na cabeça. Em seu livro After Nature, cujo objeto principal sequer são as tecnologias reprodutivas, Strathern toca nesse ponto. Ela traz dados sobre as ideias de diferentes sociedade melanésias sobre a concepção e a reprodução para tentar entender melhor o que nós pensamos e por que pensamos o que pensamos.

Strathern conta que embora as sociedades que usa como exemplo não tenham desenvolvido uma ciência análoga à nossa (o que seria segundo ela impossível pois a própria forma de conceber pensamento, tempo, etc. são distintas – e nem por isso piores), elas também entendem a concepção como uma transmissão de substância física entre pai ou mãe ou ambos e o feto. Em uma destas sociedades, entende-se que o feto é feito do sangue da mãe (logo mesntruação = não tem feto; genial) mas é preciso que haja ato sexual durante a gravidez pois é o sêmen que dá as características físicas das crianças – que têm de ser sempre parecidas com o pai. Já em outra, entende-se que o feto é feito de substância do pai, mas gerado no corpo da mãe. Interessante é que esta segunda sociedade é matrilinear, ou seja, os direitos, propriedades e parentesco são transmitidos sempre pela mãe.

Ok, o mundo deve ter caído pra alguns enquanto leram o parágrafo anterior. Outros devem estar duvidando, já que pra nós é tão óbvio, tão dado, tão natural, que os embriões são feitos de material genético da mãe e do pai. Mas é isso que os exemplos de Strathern ajudam a questionar.

Em nossa concepção científica de mundo, os fetos são formados da união de um gameta masculino ou feminino (embora hoje já se consiga em laboratório fertilizar um óvulo com material de outro óvulo, mas essa prática ainda não existe acessível ao “público” então vou ignorá-la por hora). Há transmissão de genes de cada um desses gametas para o feto (embora não igualmente 50/50, segundo alguns biólogos e geneticistas têm questionado). Todo feto teria, no entanto, um “pai” e uma “mãe” genéticos, aqueles que geraram os gametas que geraram o feto.

Por outro lado, quando o feto está crescendo, durante a gravidez, ele é parte do corpo da mulher. Não é, ainda, uma outra pessoa ou um outro indivíduo. Ele precisa daquele sistema todo (= corpo da grávida) para viver. Precisa, mais do que isso, da substância física que a grávida, sendo mãe genética ou não do feto, compartilha.

Essa é outra coisa que o trabalho de Strathern aponta de interessante sobre nosso próprio pensamento, na qual eu jamais havia reparado. Quando representamos um feto, frequentemente o representamos sem o corpo que o carrega – que é parte essencial e pressuposto para sua existência, mesmo em nosso pensamento científico moderno. Como se o feto fosse uma coisa distinta da mulher que o carrega; como se a única ligação entre feto e grávida fosse o cordão umbilical e ele flutuasse num oco lá dentro da barriga. Tira-se daí a impressão equivocada de que além do código genético, não há nenhuma outra substância física biológica compartilhada entre grávida e feto. Daí, considera-se muitas vezes que o termo “mãe biológica” significa aquela que compartilha o código genético.

Com as novas tecnologias reprodutivas, porém, o momento da fertilização foi separado da gestação, ao menos em possibilidade. A grávida que carrega o feto não necessariamente compartilha genes, mas necessariamente compartilha substância física. A “mãe genética” que gerou o óvulo não necessariamente será a grávida que carrega o feto.

Proponho aqui uma distinção clara entre a mãe biológica e a mãe genética, a partir dessa reflexão. Entendo, com isto tudo, que a mãe biológica é a grávida que carrega o feto e passa pelo parto. A mãe genética é aquela que gerou o óvulo. Acrescento a isso, ainda, a mãe cultural. Mãe cultural é aquela que, após o parto, tem a responsabilidade legal (mas também moral e social) de cuidar, nutrir, transmitir cultura. Aquela que mais comumente chamamos de “mãe”. Uma mulher pode, portanto, ser ambas as três coisas ou apenas uma ou duas delas simultaneamente.

Enquanto feminista, defendo essencialmente que o feto seja tratado como parte do corpo da mulher. Daí minha preocupação em propor esta terminologia. A maternidade é cheia de mitos e encontrar coerência em nosso próprio sistema de pensamento nem sempre é tão simples. Por outro lado, é um aspecto fundamental da construção da justiça social.

Que cada mulher tenha o direito pleno a decidir se quer ser mãe de alguma forma, e de que formas deseja ser mãe.

35 ações práticas para homens que querem apoiar o feminismo

(este texto é uma repostagem do blog da linda da Georgia Faust)
texto de Pamela Clark
tradução Georgia Martins Faust & Tarsila Mercer de Souza

 

No Facebook, um amigo recentemente linkou para um artigo chamado 20 Ferramentas para que os Homens Favoreçam a Revolução Feminista. Embora ele tenha gostado da lista, ele (corretamente) observou que a maioria das sugestões eram bastante acadêmicas. O amigo em questão, como eu, é um acadêmico, então essa observação não é para ser uma acusação ao artigo original. Só que ferramentas práticas e ferramentas acadêmicas podem ter lugares diferentes no mundo.

Os comentários dele me incentivaram a criar uma lista de ferramentas mais práticas. A maioria dos homens – em particular homens que se beneficiam de múltiplas formas de privilégio estrutural – fazem muitas coisas que direta e indiretamente contribuem para uma cultura de desigualdade de gênero. Até mesmo homens que apoiam o feminismo em teoria podem não ser tão bons em aplicar o feminismo em suas práticas diárias.

A lista traz sugestões de algumas ferramentas práticas que todos os homens podem aplicar em seu dia-a-dia para promover a igualdade em seus relacionamentos com mulheres, e para contribuir com uma cultura onde as mulheres sintam-se menos sobrecarregadas, inseguras e desrespeitadas.

Parte de viver em uma sociedade patriarcal é que os homens não são socializados para refletir sobre como seus hábitos e atitudes prejudicam mulheres. Essa lista foi feita para incentivar os homens a pensar mais conscientemente e pessoalmente sobre os efeitos diretos e indiretos que eles tem sobre as mulheres, e para pensar mais sobre como eles podem contribuir com o feminismo através de suas práticas diárias.

A lista não se pretende exaustiva nem exclusiva. Certos itens da lista vão se aplicar a alguns homens mais do que a outros, mas se você é um homem e humano, eu garanto que há pelo menos uma área da lista onde você possa melhorar. Caso você ache que esquecemos alguma coisa, me diga! Se você acha que algum ponto na lista é problemático, vamos conversar a respeito!

1. Faça 50% (ou mais) do trabalho doméstico

Você precisa fazer a sua parte do trabalho doméstico o tempo todo, por sua própria iniciativa, sem procrastinar, sem ser pedido, sem inventar desculpas. Reconheça que seus hábitos domésticos e suas idéias internalizadas sobre trabalho doméstico não-remunerado têm um enorme viés de gênero e beneficiam os homens incrivelmente, e aceite que é sua responsabilidade lutar contra isso. Se feminismo é a teoria, lavar a louça é a prática. Na próxima semana, observe quanto do trabalho doméstico você faz quando comparado com as mulheres que moram com você e observe se essa divisão é equitativa.

2. Dê 50% (ou mais) do supore emocional em seu relacionamento afetivo e amizades.

Reconheça que mulheres são desproporcionalmente responsáveis pelo trabalho emocional e que ser responsável por isso tira tempo e energia de outras coisas que elas consideram satisfatórias.

3. Consuma produtos culturais produzidos por mulheres.

Seja lá quais forem seus interesses – cinema Francês, astrofísica, baseball, ornitologia – certifique-se de que as vozes das mulheres e os produtos culturais das mulheres estejam representados naquilo que você está consumindo. Se não estão, esforce-se para incluí-las.

4. Dê espaço para as mulheres

Muitas mulheres andam por aí – especialmente à noite ou quando sozinhas – sentindo-se ameaçadas e inseguras. Estar em proximidade física com um homem desconhecido pode exacerbar essa sensação. Reconheça que esse medo não é tão irracioonal assim para mulheres, dado que tantas de nós já experienciaram perseguição ou abuso ou nos fizeram sentir inseguras por homens quando estamos em espaços públicos. Também reconheça que não importa se você é o tipo de homem que não dá motivo nenhum para ser temido, porque uma mulher na rua não tem como descobrir isso a seu respeito.

Exemplos: Se um banco estiver vago no transporte público perto de um homem, sente naquele assento ao invés de ao lado de uma mulher. Se você estiver andando em uma rua escura atrás de uma mulher andando sozinha, atravesse a rua para que ela não precise se preocupar que alguém esteja seguindo ela. Se uma mulher estiver de pé sozinha em uma plataforma do metrô, fique a certa distância dela.

5. … mas inclua-se em espaços onde você possa usar da sua masculinidade para interromper sexismo.

Exemplos: desafie homens que fazem comentários e piadas sexistas. Se você vir uma amiga mulher em um bar/em uma festa/no metrô/onde quer que seja se sentindo desconfortável com a abordagem de algum homem, tente interferir de maneira amigável para oferecer a ela uma saída caso ela assim deseje. Se você vir uma situação onde parece que uma mulher esteja em perigo quando em companhia de um homem, fique próximo o suficiente para ser uma presença física, monitore a situação e esteja a postos para chamar ajuda se necessário.

Coisas desse tipo podem ser super difíceis, estranhas e complicadas para saber como fazer, mas vale a pena tentar de qualquer jeito. Sentir-se momentaneamente desconfortável é uma troca justa para fazer com que uma mulher se sinta mais confortável.

6. Quando uma mulher te diz que alguma coisa é sexista, acredite nela.
7. Eduque-se a respeito de consenso sexual e certifique-se de que haja uma comunicação clara e inequívoca de consenso em todas as suas relações sexuais.
8. Seja responsável pela contracepção.

Se você está em um relacionamento onde a contracepção é necessária, ofereça-se para utilizar métodos que não tenham riscos à saúde da mulher (uso de hormônios, cirurgias, etc) e trate esses métodos como opções preferenciais. Se sua parceira preferir um método em particular, deixe-a ser responsável por tomar essa decisão sem questionar ou reclamar. Não faça manha sobre usar camisinha, e seja responsável por comprá-la e tê-la disponível caso esse seja o método que vocês estejam usando.

Assuma a responsabilidade financeira por qualquer custo relacionado à contracepção. Mulheres ganham menos que homens, e também precisam assumir todo o risco físico de uma gravidez. E mais, em instâncias onde a contracepção envolve qualquer tipo de risco físico, virtualmente são sempre as mulheres que têm que assumir esse risco. Como um gesto de compensação minúscula dessa disparidade, homens heterossexuais deveriam financiar todo o custo com contraceptivos.

9. Tome a vacina de HPV.

Se você for um homem jovem, tome. Se você tiver um filho jovem, certifique-se de que ele tome. Já que as mulheres são aquelas desproporcionalmente afetadas pelas consequências do HPV, por questão de justiça os homens deveriam ser aqueles que pelo menos assumam os riscos potenciais de ser vacinados. (Eu sou amplamente pró-vacinas em geral e não acredito que hajam riscos significativos, mas essa é uma questão de princípio.)

10. Tenha uma política de nomes progressista.

Se você e sua parceira mulher decidirem que a instituição do casamento é algo com a qual vocês querem se envolver, esteja aberto para que ambos mantenham seus sobrenomes. Se ter um sobrenome em comum com sua esposa é tão imporante para você, esteja disposto a mudar o seu sobrenome e trate isso como uma opção preferencial à sua esposa trocar o dela.

11. Se vocês tiverem filhos, sejam pais da mesma forma

Esteja disposto a tirar licença paternidade e ficar em casa cuidando deles quando eles forem pequenos. Divida as responsabilidades de cuidado de modo que você esteja fazendo pelo menos 50% do trabalho, e garanta que esse cuidado seja dividido para que você e sua parceira ambos possam ter uma quantidade igual de tempo para brincar com seus filhos também.

12. Preste atenção e desafie instâncias informais de reforço de papéis de gênero.

Por exemplo, você está em um evento de família ou em um jantar, preste atenção se são apenas (ou em sua maioria) mulheres que estão preparando a comida/limpando/cuidando das crianças enquanto os homens estão socializando e relaxando. Caso positivo, mude a dinâmica e implore que outros homens façam o mesmo.

13. Esteja atento a diferenciais de poder com viés de gênero explícitos e implícitos em seus relacionamentos íntimos/domésticos com mulheres… seja com parceira, membros da família ou colegas de quarto.

Esforce-se para reconhecer diferenciais de poder estruturais inerentes baseados em raça, classe, gênero, orientação sexual, idade (e assim por diante). Onde você se beneficiar desses desequilíbrios estruturais, eduque-se a respeito de seu privilégio e trabalhe para encontrar formas de criar um equilíbrio de poder mais igualitário. Por exemplo, se você estiver em uma parceria doméstica onde você é o principal provedor financeiro, eduque-se a respeito da diferença salarial com viés de gênero, e trabalhe no sentido de dividir o trabalho e os recursos econômicos dentro de sua casa de um jeito que aumente a autonomia econômica de sua parceira.

14. Certifique-se que honestidade e respeito guiem seus relacioonamentos românticos e sexuais com mulheres.

A forma com que você trata mulheres com quem você tem um relacionamento é um espelho dos seus valores com relação a mulheres em geral. Não adianta abraçar a teoria feminista e tratar suas parceiras como lixo. Seja honesto e aberto sobre as suas intenções, comunique-se abertamente para que as mulheres possam tomar decisões informadas e autônomas sobre o que elas querem fazer.

15. Não seja um expectador quando em face de sexismo.

Desafie pessoas que façam, digam ou postem coisas sexistas na internet, especialmente em mídias sociais.

16. Seja responsável com dinheiro em relaciconamentos domésticos/românticos

Saiba que se você for irresponsável com dinheiro, isso necessariamente impacta sua parceira e já que mulheres ainda ganham menos que homens em geral (e vivem mais), essa é uma questão feminista.

Exemplo: Sua dívida no cartão de crédito/desperdício de dinheiro/problema com apostas têm impacto sobre a vida econômica e o futuro dela. Compartilhe o orçamento doméstico, a declaração de imposto de renda e as responsabilidades das finanças pessoais e seja aberto e honesto sobre o gerenciamento financeiro doméstico.

17. Seja responsável pela sua própria saúde.

Homens vão ao médico com menos frequência que mulheres quando algo os incomoda, e quando eles vão geralmente é por insistência das mulheres do seu convívio. Ter uma longa vida em parceria com sua esposa significa ser responsável pela sua própria saúde, prestar atenção a qualquer incômodo e levá-los a sério. Já que somos dependentes um do outro, sua saúde a longo prazo é também a saúde a longo prazo dela.

18. Não fique secando ou faça comentários sobre mulheres (ex. mantenha a boca fechada e seus comentarios pra si mesmo)

Ainda que possa ser mais provável que as mulheres usem roupas mais reveladoras que os homens, não fique as secando só porque você quer e pode. Mesmo que você ache alguém atraente, existe uma linha entre perceber a pessoa e ser um babaca/ desrespeitoso. Isso faz com que a pessoa que recebe a secada se sinta desconfortável, assim como qualquer outra mulher que perceba que você está secando alguém ou percebam dos comentários.

19. Preste atenção ao gênero dos especialistas e principais personalidades que apresentam informações para você na mídia

Quando você estiver assistindo a um especialista na TV, lendo artigos, etc., perceba com que frequência essa informação virá de um homem, e, no mínimo, imagine o quanto uma perspectiva feminina poderia ser diferente.

20. Assegure-se de que alguns de seus herois e modelos de exemplo sejam mulheres
21. Elogie as virtudes e conquistas das mulheres da sua vida para as outras pessoas.

Nas conversas diárias e na sua comunicação em geral, fale para os outros sobre as mulheres que você conhece sob um ângulo positivo. Sugira as suas amigas mulheres para projetos, trabalhos e colaborações com as outras pessoas que você conhece.

22. Seja íntegro com os seus amigos homens (ex. não seja um “parça”)

Quando um amigo homem está fazendo algo sexista (deixando de cumprir obrigações parentais, falando mal de mulheres, secando elas, gastando dinheiro compartilhado em segredo, mentindo para sua parceira, etc), seja íntegro e diga algo para o seu amigo. Não é suficiente pensar que está errado; faça-os saber que você acha que está errado.

23. Não trate a sua esposa como uma “pentelha”. Se ela está “pentelhando”, você está provavelmente deixando algo para trás.
24. Saiba que reconhecer suas próprias opiniões e estereótipos sexistas não é o suficiente. Faça algo a respeito disso.
25. Tenha amigas mulheres.

Se você não tem nenhuma amiga mulher, descubra o porquê e faça algumas amigas. Assegure-se de que sejam relações autênticas e significativas. Quanto mais a gente se preocupa e se identifica uns com os outros, mais chance a gente tem de criar uma sociedade mais igualitária.

26. Encontre mentoras/líderes mulheres (ex. seja subordinado à mulheres)

Se você está procurando um mentor, ou quer ser voluntário de uma organização, vá a uma mulher ou a uma organização liderada por uma mulher. Saiba que há muito a aprender de mulheres em posições de comando.

27. Quando estiver em um relacionamento romântico, seja responsável por eventos e datas especiais ligados ao seu lado da família.

Lembre-se dos aniversários dos membros da sua família e eventos importantes. Não deixe para a sua esposa a responsabilidade de enviar cartões, fazer ligações, organizar reuniões, etc. É sua família, e portanto sua responsabilidade de lembrar-se, preocupar-se e contatá-los.

28. Não policie a aparência de mulheres.

Mulheres são ensinadas a internalizar normas de beleza extremamente restritivas desde quando são crianças muito pequenas. Não faça ou diga coisas que façam com que as mulheres sintam que não estão cumprindo essas normas, ou crie pressão para que elas as cumpram. Ao mesmo tempo, também não é uma resposta feminista fazer ou falar coisas que pressionem mulheres a usar seu corpo para resistir a essas normas se elas não quiserem. Reconheça que há significativas sanções sociais para mulheres que desobedecem padrões de beleza e não podemos esperar que elas ajam como mártires e aceitem essas sanções se não quiserem.

Se de acordo com seu senso estético ou ideais você acha que ela usa muita maquiagem ou maquiagem de menos, retire pêlos corporais ou não o suficiente, não é da sua conta como as mulheres decidem a aparência de seus corpos.

29. Ofereça-se para acompanhar suas amigas mulheres se elas tiverem que caminhar para casa a noite sozinhas… ou em um espaço público onde provavelmente elas se sentiriam inseguras.

Mas não insista em fazê-lo ou aja como se você estivesse sendo o maior cavalheiro do mundo por fazer isso.

30. Injete feminismo em suas conversas diárias com outros homens.

Se o seu pai não faz a sua parte do trabalho doméstico, converse com ele sobre porquê isso é imporante. Se seu amigo trai a namorada dele ou fala dela negativamente, falefrancamente para ele que respeitar a mulher com quem ele tem um relacionamento íntimo faz parte de ter respeito com mulheres em geral. Tenha conversas com seus irmãos mais novos e seus filhos sobre sexo consentido.

31. Se você tem tendência a se comportar de maneira inadequada com mulheres quando você está sob a influência de drogas ou álcool, não consuma drogas ou álcool.
32. Tenha consciência do espaço físico e emocional que você ocupa, e não tome mais espaço do que você precisa.

Use sua cota justa de tempo de fala nas suas conversas, dê tanto às relações quanto você recebe, não sente com suas pernas abertas de modo que outras pessoas não consigam sentar confortavelmente ao seu lado, etc.

33. Faça o que deve ser feito com relação a desigualdade de renda.

Mulheres ainda ganham 77% do que homens ganham. Se você está em uma posição que te possibilite fazer isso, considere doar simbolicamente 23% do seu salário para causas orientadas à justiça social. Se 23% parece muito para você, é apenas porque é muito, e também é muito para mulheres que não tem escolha de receber esse valor ou não.

34. Adquira o hábito de tratar a sua masculinidade como um privilégio não-merecido que você precisa trabalhar ativamente para ceder ao invés de tratar a feminilidade como uma desvantagem não-merecida que as mulheres precisam batalhar para superar.
35. Auto-identifique-se como feminista.

Fale sobre feminismo como uma crença natural, normal, incontestável, porque deveria ser mesmo. Não se restrinja usando termos como “humanista” ou “aliado feminista” que reforçam a ideia de que a palavra Feminismo por si só é algo assustador.

Xoxotas, da origem do mundo à revolução

O “falo” de Freud não era exatamente um pênis, “o” pênis material. Era a masculinidade hegemônica – a forma dominante de ser masculino – que se materializava nessa imagem. A imagem da xoxota* é a antítese numa sociedade falocêntrica. A xoxota é uma revolução.

Os museus de arte são parte desse esquema de dominação, simplesmente porque a arte trabalha com símbolos e a definição sobre o cânone da arte está inscrita no mesmo modelo simbólico falocêntrico-masculino. A arte, como a educação, a literatura, etc. tendem a reproduzir a estrutura social, exceto quando pensadas enquanto ruptura política.

Quando uma artista mulher se prostra, xoxota à mostra, em frente a um quadro que mostra uma xoxota, é essa a tensão que podemos ver. O vídeo abaixo foi gravado no dia 29 de maio, no Musée d’Orsay, em Paris. Transcrevo e traduzo abaixo o texto que a artista lê repetidamente durante os seis minutos de duração.


Une artiste expose son sexe sous «L’origine du… por quoi2news

Je suis l’origine
[Eu sou a origem]

Je suis toutes les femmes
[Sou todas as mulheres]

Tu ne m’as pas vue
[Você não me viu]

Je veux que tu me reconnaisses
[Quero que me reconheça]

« Vierge comme l’eau créatrice du sperme. »
[“Virgem como a água que cria o esperma”]

A história da performance é toda genial. Começando pela ausência de artistas mulheres em museus como esse. Quando estive lá em 2010, me lembro de ver todo o acervo anotando quantas artistas mulheres tinham obras ali, em meu caderninho de quem é pão-dura demais (alguns diriam sensata, até) para comprar um moleskine. A soma total das obras de mulheres, pelos meus cálculos na época, foi de incríveis zero.

Ao mesmo tempo, o Centre Pompidou exibia três andares de obras produzidas exclusivamente por mulheres, numa exposição que inclusive veio ao Brasil em 2013. Devo ter ido pelo menos uns dois dias para ver tudo: de Frida Kahlo a Nikki de Saint-Phaille e Guerilla Girls. Na mesma época tomei contato com o genial documentário “Women Art Revolution”, que posto a seguir.

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A beleza e o impacto da performance de Deborah De Robertis em frente ao quadro de Gustave Courbet  fazem parte da desconstrução de um modelo já decadente de conformação dos gêneros. A artista questiona, de uma só vez, a organização falocêntrica da sociedade, a ausência das mulheres em museus, o tipo de presença das mulheres em museus, e uma moral hipócrita nas relações entre realidade e ficção. Numa entrevista, depois de ter sido presa e congratulada pelo diretor do museu, a artista disse:

“É difícil resumir em poucas palavras. Eu empresto meu rosto ao ‘A Origem Do Mundo’, mas sobretudo minha voz. No áudio, sigo que ‘sou todas as mulheres’. É simbólico. É uma reflexão também sobre a questão da censura. Gustave Courbet escandalizou em sua época com ‘A Origem do Mundo’ (1866). Quando as seguranças tentam me retirar dali, é como se estivessem roubando um quadro. Isso faz parte da performance. Eu havia previsto essa possibilidade, como também o oposto. Não havia derrota possível.”

[leia a entrevista completa em francês, aqui]

É curioso também que as seguranças do museu que aparecem no vídeo sejam mulheres. E dizem, em alto e bom som: “Ça suffit!” – ou seja, “Basta”, “Chega”. Devo discordar, caras amigas. Não chega. Não basta. O que precisamos é de um mundo em que a xoxota exista. Nas palavras da artista, “quero que você me reconheça“. Não queremos ser o segundo sexo, ou o sexo que não existe, pensando Beauvoir e Irigaray. Não queremos o corpo – a xoxota – como prisão mas como liberdade. Parafraseando Valesca: my pussy é o poder.

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*Xoxota sim, porque “vagina” é biológico demais, medicalizado demais, científico demais. A vagina é um trecho de um órgão como foi dividido pela medicina de quem nunca a possuiu. A xoxota existe na realidade. Fico, então, com ela.

O som, ao redor do Butantã

[Aviso: este é um post longo, pois são pequenos fatos que criam o clima de tensão e estranheza que tem estado no ar. Não prometo fazer valer a pena, cada palavra, como em outros tempos. Mas eu preciso deixar pública a informação – e talvez vocês verão que há muito mais para saber do que estão nos dizendo.]

Novamente, escrevo com a impressão de estar ficando maluca. Agora sei, porém, que os tempos é que estão loucos. Vivemos definitivamente uma tensão crescente entre classes sociais e interesses políticos no cenário nacional. O pior é que o momento de instabilidade, como tanto frisei em junho do ano passado, pode ser aproveitado para muitas coisas. Alguns discursos ganham força, e em geral os que pretendem retroceder nos direitos humanos e na democracia são os que se tornam mais populares.

Não se trata apenas de “fazer justiça com as próprias mãos” – como vimos em tantos casos recentes. Se trata de uma visão distorcida de mundo e de humanidade, em que cada um se coloca na posição de juiz e executor dos demais. Feriu minha moral sendo negro, homossexual, ou fazendo algo que desaprovo? Eu mato. A polícia e a justiça em geral se posicionam ao lado desses, e contra os princípios que deveriam em tese defender (como os direitos humanos, assegurados em nossa constituição e na declaração internacional da qual o Brasil é signatário). Nunca em minha breve vida de brasileira eu havia visto o Estado (porque a polícia é sim parte do Estado) sequer se envergonhar de ferir esses princípios. Assumir, sem vergonha nenhuma, que não somos todos cidadãos diante de seus olhos e de seu julgamento.

Estou com nojo. Muito nojo disso tudo.

Compartilho com vocês alguns fatos recentes que me deixaram com a orelha em pé, pronta para meses que provavelmente serão muito piores e nos quais veremos coisas tão ou mais escrotas quanto essas acontecerem. Preparem o coração.

UM

Moro num condomínio de prédios de classe média bem média, num bairro que tem pedaços bem pobres e outros bem mais ricos do que onde eu moro. Nunca foi um bairro especialmente violento. Sempre foi possível andar tranquilamente pelas ruas daqui – ou pelo menos tão tranquilamente quanto no resto da cidade. A maior favela da região sempre teve organização comunitária forte (eu mesma conheci alguns de seus líderes na época em que a secretaria da juventude da cidade era aberta semanalmente a organizações de jovens, na gestão da Marta Suplicy). O bairro sempre foi policiado, e há dois batalhões da PM bem próximos, um deles a menos de 1km de distância, exatamente ao lado da favela.

Na semana passada, apareceu no espaço destinado a recados, no elevador do meu prédio, um folheto chamando os moradores a participarem de uma “passeata pela segurança na região”. Olhei torto, extremamente desconfiada: haveria acontecido algo de que eu não estava sabendo? Quem estava contabilizando estatisticamente que o bairro estava mais violento? De onde veio esse discurso? Quem estava organizando a passeata (não havia essa informação no cartaz, claro)? Com que objetivos? Na prática, nada de anormal havia acontecido. Pelo menos até a semana passada.

DOIS

No último sábado estava um silêncio meio anormal. Não havia o baile funk que habitualmente povoa o ar da madrugada em meu bairro. Havia algumas vozes de pessoas conversando em casas, quintais, talvez na rua. Aproveitei e tentei dormir mais cedo, já que não havia saído e tinha mil coisas pra resolver no domingo. Acordei com cinco tiros. Ritmados. Um seguido do outro. Sincronizadinhos. Cinco.

– Pou! Pou! Pou! Pou! Pou!

Cinco. Contei de novo, mentalmente. Foram cinco. Não era rojão. Não era escapamento de moto. Um homem gritava (acho que foi a única coisa que consegui escutar direitinho, com nitidez, fora os tiros):

– MÃO NA CABEÇA! MÃO PRA CIMA! PÕE A MÃO NA CABEÇA!

O tom de voz e o jeito eram de policial, embora na hora eu não tivesse como saber se era mesmo alguém da polícia. Não havia sons de sirene nem luzes de carros de polícia. Não havia outras vozes (policiais em serviço em geral trabalham em duplas ou grupos). Seguiram-se gritos. A voz do homem se transformara e abaixara, de maneira que eu passei a achar que era outra pessoa falando e que a pessoa que havia atirado teria ido embora. Depois ouvi sirenes – a polícia chegando, oficialmente. Muitos gritos. Muito choro. Eu tive certeza que alguém tinha morrido.

Corri ao facebook, já sem sono, para postar o horror que estava ouvindo. Uma vizinha que me segue e havia conseguido enxergar tudo melhor de sua sacada me contou a cena: o homem que atirara estava no local, enquanto um outro estava caído no chão com uma motocicleta, também derrubada. O homem armado falava ao celular e mandava todas as pessoas e veículos que chegavam ao local passarem direto, impedindo quaisquer transeuntes de observar verdadeiramente a cena. Não havia mais ninguém armado. Não houve mais nenhum tiro além dos cinco que eu ouvi (ao contrário de mim, a vizinha estava bem acordada na hora do ocorrido).

TRÊS

Deu no jornal: moradores incendeiam ônibus em protesto contra morte de jovem. Fui ler e soube que a poucos metros da minha sacada uma das balas disparadas na madrugada acertara uma menina adolescente, que morreu na hora. O jornal chamou de “tiroteio”. É possível um tiroteio de uma pessoa só? Claro que não era só essa a mentira deslavada contada pela polícia aos jornalistas.

Inventaram um tiro que teria partido de um suposto assaltante – tiro esse que ninguém ouviu.
Inventaram que eram dois numa moto, e que o segundo teria fugido com a moto e, óbvio, por isso ninguém encontrara a arma deles. O detalhe é que a moto estava lá, caída no chão, deixando mais evidente que havia ali uma distorção proposital dos fatos, por parte da polícia. Do segundo ninguém tem notícia, também, claro.

Não dá pra saber, com as informações que tenho, se inventaram que estava rolando um assalto, mas eu não me surpreenderia se inventassem, considerando a forte ligação de policiais civis e militares com grupos de extermínio, frequentemente usando esse disfarce, de supostos assaltos, para assassinar jovens negros e pobres como o que estava caído no chão, no meu bairro, naquela madrugada. Dá pra saber, além disso, que existe um interesse de grupos conservadores contra os direitos humanos (por exemplo, quem defende redução da maioridade penal) em instaurar o pânico da falta de segurança. Com medo e em pânico, fica fácil obter apoio popular para políticas públicas que ameaçam a democracia. A ditadura militar no Brasil foi instaurada com apoio popular, utilizando essa mesma estratégia. Do pânico para o Estado de exceção é um passo muito curto.

QUATRO

Passei o dia com a história toda na cabeça. Me perguntando se o carro que escutei sair arrancado da garagem do meu prédio pouco tempo antes era o policial civil indo atrás de alguém na rua. Mesmo que não seja, de fato, poderia ser. “Esse cara pode ser meu vizinho”, pensei. “Que nojo!”

Quando cheguei em casa agora à noite havia um carro em chamas, no meio da rua. Uma viatura e dois PMs ao lado. Muita gente na rua olhando. Tremi. Que era aquilo, agora? Mais um ato encenado? Quem botara fogo ali? Entrei e tentei falar com os porteiros, que não atenderam o interfone. Logo consegui contatar a vizinha que havia passado o dia ali. Ela desceu e voltava com informações.

Parece que ontem, quando o policial civil disparava os cinco tiros que me acordaram, moradores dos prédios – que são um tanto mais ricos do que os moradores das casinhas e do “vale” que é formado por algumas ruas mais para baixo – gritavam em tom de torcida organizada frases como “Morre”, reforçando a sede “justiceira” do assassino fardado (que não estava fardado, aliás, porque não estava em serviço). Então os moradores da comunidade, sabendo que poderia ter sido qualquer um deles o alvo do policial e o alvo do ódio dos coxinhas que gritavam na janela, simplesmente por existirem como negros e pobres neste mundo, decidiram dar o troco queimando o carro na frente de um dos prédios da rua.

Escutei esses dias muita gente falando que “o governo” ou “a mídia” teriam incitado um ódio entre classes sociais. Ledo engano. Essa tensão, esse ódio, sempre existiu. É da exploração de uma classe que a outra se sustenta. Essa situação é inerente à existência de classes e ao capitalismo (está lá em Marx, “luta de classes”, podem procurar – um dos conceitos mais antigos do pensamento de esquerda). Ela extrapola a situação econômica, também, como mostrou um cara chamado Pierre Bourdieu. Contudo, segue firme e forte no século XXI. Está aí.

A ideologia conservadora que vai contra os princípios democráticos e os direitos humanos sustenta a exclusão e a desigualdade. Sustenta uma série de privilégios e poderes extremamente mal distribuídos como são hoje. Faz, neste sistema, a roda do capitalismo (que não existe sem essa discrepância) girar.

O que me choca é ver o Estado e suas instituições assumirem, sem a menor vergonha ou pudor, que os princípios democráticos e os direitos humanos não são uma prioridade no Brasil, hoje. Isso tem acontecido desde o ano passado em diversos níveis, mas está ficando cada vez mais forte. Ao fazê-lo, o Estado dá aval para grupos de justiceiros e fascistas tomarem em suas mãos as vidas dos segmentos mais vulneráveis da população – como é o caso dos jovens negros, que estão sendo exterminados como ratos em episódios cotidianos iguaizinhos esse do meu bairro, Brasil afora.

CINCO

Juntando as pecinhas, algumas perguntas me atormentam nessa madrugada: quem organizou a passeata “pela segurança” num bairro que não tinha nenhum problema específico com segurança naquele momento? Por que um episódio tão violento aconteceu bem ao lado dos prédios de classe média que haviam sido convocados para a tal passeata? Por que logo poucos dias depois da tal passeata, que não tinha nenhuma reivindicação específica? Por que a polícia distorceu o ocorrido? Por que justamente aqui tantos moradores teriam gritado incentivando o policial civil a executar uma pessoa?

Neste fim de fim de semana me sinto no filme de Kleber Mendonça Filho, “O Som Ao Redor”. A poucos metros, um muro e muitas injustiças de distância de mim, um jovem foi baleado e uma adolescente morreu. Ambos pobres. Sem evidência de assalto. Sem evidência de que houvesse mais alguém armado. O policial civil atirou cinco vezes porque ele quis.

Eu honestamente gostaria que isso tudo fosse ficção.

Sigo de olhos abertos.

O ar está pesado, cada vez mais estranho e continua não sendo à toa.

Agora tem um carro pegando fogo, aqui na frente de casa.

Ontem um policial civil (sabe, daqueles que foram lá na cracolândia e tocaram o terror? então) disparou 5 tiros, feriu um cara e matou uma menina.

A versão oficial da polícia é que havia bandidos assaltando que atiraram primeiro. Mentira. Só houve cinco tiros disparados em seguida, ritmados, com o mesmíssimo som. Não houve tiro e revide. Foi o escroto que atirou porque sim. Cinco vezes seguidas.

A versão oficial da polícia é que um bandido saiu fugindo, na moto que estava usando para assaltar. Mentira. Os vizinhos dos andares mais altos viram a moto caída no chão, assim como o homem atingido, enquanto o policial civil falava no telefone e mandava os carros e pessoas passarem direto pelo local, sem parar.

A polícia militar demorou 20 minutos para chegar. Sendo que o batalhão fica a menos de 1km do local, e que não havai trânsito por ser de madrugada. O SAMU demorou mais 20 minutos.

Nunca aconteceu algo assim neste bairro e de maneira MUITO suspeita, no útlimo sábado alguns moradores e síndicos de condomínio organizaram uma “passeata pela segurança na região”.

Hoje o carro queimado, e ninguém se pronunciando sobre o que aconteceu. Escutei apenas um homem dizer que “se fosse eu também não deixava quieto”. Hoje de manhã reportaram um ônibus queimado em protesto pela morte da menina.

Dezessete anos. Ela tinha 17 anos, morreu com os tiros que me acordaram a poucos metros, um muro e muitas injustiças de distância.

Tem uma coisa bem estranha no ar, e não é à toa. Insisto.

Não sei o que é ainda. Mas que aí tem, isso tem.

Por que tanta chacota com Rachel Sheherazade?

Começo dizendo que este não é um post sobre a pessoa da Rachel Sheherazade. Este não é um post sobre o conteúdo de seus textos e opiniões veiculados na televisão ou na internet. Este não é um post sobre se devemos ou não criticá-la, nem sobre o conteúdo das críticas feitas a ela. Este não é um post sobre nenhuma pessoa específica, mas sim sobre um fenômeno.

Dito isso, passemos ao ponto que me interessa neste post: a reação de chacota que observo ser extremamente mais forte (e quase exclusiva eu diria) com as falas de Rachel Sheherazade, na internet. A esta altura do campeonato deve estar claro para quem lê que meu debate aqui não é com a direita ou com pessoas que concordam com a jornalista. Meu debate é com quem, como eu, desaprova as opiniões que ela emite em rede nacional. Mesmo que o post não seja sobre essas opiniões.

Nunca antes na história desse país (para não perder a piada), houve tantos memes avacalhando o conteúdo da fala de jornalistas e comentaristas de direita, conservadores e reacionários, quando vemos por aí de Rachel Sheherazade. Há bastante tempo acompanho redes sociais, sempre excluindo ou não seguindo gente reaça (porque não sou obrigada e me amo demais pra me fazer passar por isso). Minhas timelindas são compostas praticamente só por gente de esquerda, veículos de comunicação alternativos, etc. Nessas timelindas (reparem bem: minha experiência) nunca houve tantos memes e críticas públicas e explícitas sobre nenhum dos comentaristas sagradíssimos da comunicação brasileira – como Boris Casoy, Datena, Arnaldo Jabor. Todos eles dizem coisas senão iguais, piores do que as que Rachel Sheherazade professa em seu espaço no SBT. A frase a seguir poderia ter sido dita por qualquer um desses jornalistas. Quem acha que o conteúdo das coisas ditas por Sheherazade é especialmente horrível precisa olhar de novo. Escutar mais. Reler. Ouvir as gravações. Os quatro dizem coisas absurdas, do mais baixo nível (há quem, por ignorar a escrotidão dos textos utra-machistas de Jabor, diga que ele se diferencia dos demais; eu não poderia discordar mais)

“Muitos já entendem que o Estado não é a ‘solução’, mas é o ‘problema’. Já sabem que um Estado gigante suga como um vampiro a sociedade e não devolve em serviços e reformas o que nós emprestamos a ele. Já sabemos que a sociedade acordou, apesar de amedrontada pelos fascistas dos black blocs, como vimos em junho de 2013.”

A questão que permanece para mim é: por que apenas as frases e textos de Sheherazade são reimpressas, guardadas, feitas meme, compartilhadas no Facebook? Façam o exercício comigo. Digitem no Google o nome do/a referido/a jornalista seguido de “meme”, no Google Imagens, e vejam quantos memes de esquerda, criticando e fazendo chacota da pessoa ou das opiniões aparecem para cada um/a. Viram? No caso do Boris Casoy, apenas um episódio (o dos garis) é lembrado. Um. Em quantos anos de televisão? Há memes para praticamente tudo que Rachel Sheherazade faz e diz. Eu digo, pra brincar com meu próprio bordão: não é à toa.

Se trata de um caso de machismo estrutural. Isso não significa, como eu disse lá no começo, que individualmente quem critica a jornalista é machista. Isso não significa que devamos não criticá-la para evitarmos machismo. Significa apenas que é o machismo estrutural que nos faz ter essa reação específica com ela, em massa, que não temos com os demais que falam barbaridades iguais ou até piores, também diariamente. A reação envolve desde prestarmos atenção (ela está na nossa mira, de alguma forma), até criar tantos memes. Mesmo – sim! – quando o conteúdo da crítica não é machista. Não é do conteúdo da crítica nem do conteúdo das opiniões de Sheherazade que estou falando, já disse.

A estrutura machista de nossa sociedade nos faz sermos mais rígidos com as mulheres, de maneira automática, inconsciente. É uma das faces do tal machismo estrutural (não vou nem comentar no *detalhe* igualmente importante do fato de Sheherazade ser nordestina). Por isso reagimos com tanta força contra mulheres que dizem e fazem absurdos (no caso aqui, absurdos reaças, rs), especialmente quando no espaço público. Mais um exemplo é o fato de Thatcher ser demonizada mas outros liberais que fizeram horrores iguais e/ou piores não terem sofrido a mesma reação. De novo: não é que devamos deixar de criticá-las. Mas precisamos definitivamente compreender por que as criticamos com furor tão maior do que criticamos os seus semelhantes homens. Mais que isso, por que sempre com chacota?

A chacota é uma ferramenta muito forte da dominação machista. É sistemático que se faça chacota (da esquerda para a direita e vice-versa) quando os sujeitos públicos de que se fala são mulheres. Quando são homens se faz em geral críticas, ou até mesmo se ignora. As mulheres são feitas piada. Para quem compreende o machismo e o sente na pele, essa é uma constante. Precisamos o tempo todo fazermos força para sermos levadas a sério. Este é um dos problemas na reação massiva que tenho acompanhado em relação a Rachel Sheherazade.

Novamente: o problema dessa reação massiva é que ela só tem acontecido dessa maneira e com essa intensidade quando  os reaças em questão são mulheres. Da parte dos reaças, é isso que fazem, também, com as mulheres de esquerda. É isso que se faz, inclusive, dentro da esquerda com muitas de suas militantes que procuram fazer crítica interna (como essa que eu estou me debatendo para fazer ser compreendida – por que tanta resistência em entender o machismo e como ele funciona? por causa do próprio machismo, oras).

É hora de, sem deixar a crítica às opiniões conservadoras da jornalista de lado, realizar uma importante autocrítica. Pelo menos se não quisermos reproduzir uma das horrorosas ideias que Sheherazade, Datena, Casoy e Jabor insistem em defender.

Por que alguns homens “feministas” não falam sobre as questões das mulheres? (ou: IUZÔMI?)

Você tem vontade de falar sobre homens cada vez que alguém começa a falar de igualdade para as mulheres?
Aqui está um novo teste pra determinar se você é realmente feminista.
 

 

por Emer O’Toole
tradução livre; original aqui, em inglês

Primeira anedota: Ano passado, eu dei uma palestra sobre pelos e sexismo no festival Women of The World. Um amigo feminista assistiu, e me mansou uma mensagem de texto dizendo que os homens são pressionados de maneira similar quando se trata do corpo, apenas com algumas diferenças. Respondi que 9 entre 10 distúrbios alimentares acontecem entre mulheres, 95% das cirurgias plásticas estéticas são feitas em mulheres, e que eu não tinha ainda conhecido nenhum homem que se envergonhasse de pernas peludas. Mesmo assim, ele insistiu que, se eu tivesse falado sobre os homens em minha palestra, teria conseguido mais aliados.

Segunda anedota: Eu estava discutindo assédio nas ruas, com um amigo feminista. Ele disse que os homens têm mais probabilidade de sofrer violência nas ruas do que as mulheres. Eu concordei de verdade, e depois continuei falando sobre assédio. Já aprendi que, se espero que os homens  sejam aliados do feminismo, não posso falar de assobios e passadas de mão enquanto os homens correm o risco de levar chutes na boca.

Terceira anedota: Num bar, um grupo de amigos estava discutindo os obstáculos que uma menina nascida hoje poderia ter durante sua vida. Um amigo feminista disse que na firma de advocacia onde trabalha as mulheres com três filhos estão se tornando sócias, e que em 20 anos – ele garantia – o “teto de vidro” não vai mais existir; o problema real, segundo ele, é que os homens que estudam direito estão abandonando suas faculdades. No dia seguinte, ele me enviou um email dizendo que se identifica como feminista, e que o feminismo deve ser mais do que “sexismo reverso”, que as questões masculinas precisam ser levadas em consideração. Ele incluiu um link da Wikipedia sobre homens no feminismo.

Esses não são incidentes isolados e, que conste, eu respeito todos esses homens: eles são pessoas inteligentes e bacanas. Mas não os quero como aliados, mais do que quero passar a me chamar de “generista” porque o Joss Whedon acha que “feminista” soa mal. A questão pra mim é a seguinte: por que esses homens se descreverm como feministas, se eles são incapazes de falar sobre as questões das mulheres sem bradar “E OS HOMENS?” [iuzômi], ou sem insistir que um movimento pelos direitos das mulheres comprometa seus objetivos para que os homens fiquem mais à vontade?

Bem, eu tenho uma teoria. Em algum momento, alguém inventou um teste espertinho e bem expressivo sobre o feminismo, que pode ser ilustrado da seguinte maneira:

Fluxogramas feminismo 01

É inteligente, certo? Não sei quem usou isso primeiro, mas é esse o tom da Caitlin Moram em “Como Ser Uma Mulher”, e  o “Guia do Homem para o Feminismo”, de Michael Kaufman e Michael Kimmel, tem uma passagem perguntando ao leitor se ele “pegou” algum feminismo, o que é uma variação disso.

O teste é divertido, direto, inclusivo: faz com que as pessoas entrem no feminismo, e  leva mais homens a se identificarem como feministas. Aliados – EBA!

Só que o teste também é um pouco mentiroso. É preciso acreditar em outras coisas importantes para ser feminista, o que pode ser ilustrado mais ou menos assim:

Fluxogramas feminismo 2

Opa! Se surpreendeu ao receber um resultado negativo (“Não é feminista”) sendo que se autointitula feminista há anos? Está se prendendo na semântica, dizendo que “depende do que você quer dizer com igualdade”, em vez de responder as questões da maneira direta como estão colocadas? Se sente excluído de um movimento por igualdade que você sente que também deveria ser seu, de alguma maneira? Talvez esteja um pouco nervoso de ter sido excluído? Quem sabe esteja pensando: “Então tá bom! Se é assim que querem definir o feminismo, tudo bem! Mas estou avisando: estão me perdendo como aliado!”.

Rolezinho: isso não é (só) sobre consumo

Quando começaram os protestos de junho, houve quem me chamasse de louca por considerar que estávamos diante da “primavera brasileira”. Houve quem dissesse que os protestos não eram protestos, verdadeiramente, já que as pessoas não sabiam muito bem o que fazer nas ruas, nem conhecessem precisamente maneiras um tanto “técnicas” de travar a luta política. Houve quem dissesse que nenhuma reivindicação desejava mudança estrutural. Desde o começo me pareceu muito claro: podemos sim, dizer que começou ali uma primavera brasileira. Uma insatisfação com a maneira geral como nos organizamos em sociedade. Em especial, com o abandono que sentimos em relação ao Estado, uma estrutura que deveria servir aos interesses de muitos mas se curva diante de caprichos de poucos. Assim como os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus em todo o Brasil, e contra os abusos da FIFA na Copa das Confederações e Copa do Mundo, os rolezinhos vão na mesma onda, gritando: assim não está bom.

Os rolezinhos e a luta contra o aumento das passagens (e, em última instância, pelo passe livre) têm absolutamente tudo em comum. Muito tem se dito sobre os rolezinhos serem uma questão de “consumo”, apenas. Dizer isso é banalizar o rolezinho. Se fosse uma questão de consumo, individual, bastava um grupo de quatro ou cinco amigos da periferia combinar de ir ao cinema um dia num shopping como o Iguatemi JK que estaria tudo certo. Mas o rolezinho não é isso. O que é que estão dizendo as centenas e milhares de jovens que se engajaram em rolezinhos, quando utilizam uma das táticas de luta política mais antigas e sólidas – a ocupação – em shoppings de grandes cidades?

Não dá pra ficar em casa trancado“, disse Jefferson Luís, o rapaz de 20 anos que organizou o rolezinho no Shopping Internacional em Guarulhos, SP. A frase martela em minha cabeça: não dá pra ficar em casa trancado. Não dá pra ficar em casa trancado. Não dá. Nenhuma outra frase resume tão bem a questão social e política que o rolezinho combate. Reproduzindo a estrutura social vigente, nossas cidades segregam. Segregam porque se baseiam na acumulação de capital, e não na eqüidade entre indivíduos, grupos, setores. Se o local de moradia e a possibilidade de circular pela cidade, saindo dele, dependem de dinheiro, num contexto em que o dinheiro não é distribuído de maneira homogênea, então também é assim com o acesso a serviços, opções de lazer e cultura e, pasmem, até com o consumo e a certos bens.

No nosso caso, ainda, há uma segregação racial que acompanha a segregação social. Por conta de nossa história de políticas racistas de Estado (como trazer mão-de-obra assalariada branca de fora do Brasil para não ter que contratar negros na lavoura e na indúsrtia; ou como a proibição aos negros de frequentarem escolas públicas associada à proibição de voto dos analfabetos), a população negra ficou relegada aos estratos mais baixos da nossa hierarquia social – essa que se baseia em acumulação de capital, grana, money, tutu, dindin. Pois então, no momento em que uma parcela dessa população negra começa a quebrar (ainda que com muito suor e sangue) esse esquema, acumulando algum dinheiro e consumindo o que não lhes era socialmente designado, o racismo fica ainda mais escancarado. É impressionante que até a lógica capitalista, tão arraigada em nosso pensamento, seja preterida quando se trata da lógica racista. Segundo o shopping JK Iguatemi, é melhor recusar centenas de clientes e consumidores, caso eles sejam negros.

(Não dá pra fazer olimpíadas da opressão, eu sei; mas às vezes me parece que, se fosse possível, certeza que o racismo estaria ganhando disparado neste país)

Isso tudo mostra que o rolezinho não é, definitivamente, sobre consumo. É sobre racismo, e sobre a estrutura sócio-racial que mantém jovens negros e pobres em casa, trancados, aos finais de semana. É sobre um Estado que concentra esforços para atender as demandas de gente com dinheiro e pele branca, e que abandona todo o resto. É sobre como a lógica do capital se entrelaçou de vez com o racismo quando, ao fim da escravidão, se estabeleceu políticas de imigração europeia para que se impedisse, de fato, qualquer tipo de ascensão social por parte das pessoas negras no Brasil. É sobre como o passe livre poderia reverter essa estrutura, proporcionando acesso dessa população já marginalizada a espaços centrais, a opções de cultura e lazer diversas. É sobre como o sistema de transporte também segrega, mantendo a estrutura social (lembrando casos de rolezinhos em Campinas, cidade em que os shoppings quase não têm acesso por meio de ônibus, nos quais foi simples fechar o shopping – bastou fechar as entradas de pedestres). É como essa estrutura se reflete em todo e cada espaço das nossas cidades.

O rolezinho é, enfim, uma incrível arma na luta por uma sociedade verdadeiramente igualitária.

PS.: em tempo: você, que concorda com tudo isso mas continua estigmatizando o funk e @s funkeir@s com memes ridículos sobre fones e ouvido e afins, faça um favor ao mundo e reveja profundamente seus preconceitos.

AI-5 e a canção de protesto

Marcha dos Cem Mil, 1968: meses mais tarde, a reação dos militares seria o AI5
Marcha dos Cem Mil, 1968: alguns meses mais tarde, a reação dos militares ao protesto seria o Ato Institucional nº5 (AI-5)

13 de dezembro, do ano de 1968: era decretado o Ato Institucional nº5 em todo o território brasileiro. A partir daquele momento, o presidente possuía poder total e completo sobre toda a estrutura do Estado. A ditadura estava finalmente consilidada, com bases e disposições legais. Os partidos que até então existiam na legalidade sabiam que logo deixariam de atuar nas instâncias agora comandadas pelo presidente.

[Leia aqui a íntegra do Ato Institucional Número Cinco (AI-5)]

Como 2013, o ano de 1968 foi um ano politicamente agitado. A luta armada avançava, assim como a desumana perseguição aos militantes de guerrilhas. No Rio de Janeiro,  o estudante secundarista Edson Luís foi assassinado pelos militares durante uma manifestação. Poucos meses depois, a Marcha dos Cem Mil mostrou, nas ruas, que grande parte da população se colocava contra a ditadura (inclusive setores da classe média que haviam comemorado sua instauração alguns anos antes, jamais imaginando que seus próprios filhos seriam assassinados, perseguidos e torturados pelo regime). Também foi naquele ano que estudantes de esquerda da USP e o grupo de ultra-direita Comando de Caça aos Comunistas, formado por alunos do Mackenzie, travaram uma verdadeira batalha na Rua Maria Antônia, em São Paulo. Logo em seguida, os militares acabaram com o congresso da UNE, realizado em Ibiúna, levando cerca de 900 estudantes presos.

A resposta dos ditadores à efervescência política foi justamente essa: o AI-5.

Suas consequências foram o acirramento do regime, com a retirada dos direitos individuais e políticos de todos os cidadãos brasileiros – exceto os ditadores e seus protegidos. Foi também a partir dessas garantias legais que a censura se tornou mais forte. A revolucionária música de contracultura da Tropicália passou a ser duramente censurada, e seus autores perseguidos sem descanso. Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos logo após a publicação do documento. Nos meses seguintes, dezenas de ativistas políticos, ex-parlamentares, intelectuais e artistas foram exilados, se auto-exilaram, foram perseguidos, sofreram tortura ou foram executados sumariamente pelas forças militares. Seu crime: divergir.

Entre os divergentes que não foram exilados, sofrendo perseguição em solo nacional, estava o baiano Antônio José Santana Martins, mais conhecido como Tom Zé. Alguns anos mais tarde, já no fim da ditadura, em 1985 num show no teatro Lira Paulistana o músico apresentou uma série de canções refletindo sobre a ditadura e o período político na época. Assim como em “O Povo Novo“, de 2013, a sagacidade das letras de Tom Zé é impressionante em “O Jardim da Política”.

[Clique aqui para ouvir o disco (mp3)]

Alguns de meus versos favoritos do disco, que ganhei de presente do próprio cantor, com toda a honra do mundo, estão abaixo. Provavelmente teriam sido censurados se não estivessem num show ao vivo, no fim do regime militar.

Em “Democracia”, jogos de palavras e outras pequenas esperanças frente à quase abertura política, que só iria se consolidar em 1989 com a promulgação da nova constituição (que este ano fez 25 anos – agora pensem: o AI5 durou 20 anos, minha gente; o horror).

“democracia não se dita
maldita seja se dura,
palpita pela doçura.”

[da canção ‘Democracia’]

Dialogando diretamente com alguns grupos de esquerda que, formados majoritariamente por jovens de classe média, se propunham a falar em nome do povo, Tom Zé ironizava:

“Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária.

Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Os operários que se calem,
que procurem seu lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia que virá
e na felicidade dos operários.

Se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
Tom Zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária.”

[da canção ‘Classe Operária’]

Também aparece no show a pluralidade partidária, que começava a retornar ao cotidiano político do país – não sem menos tiração de sarro:

“E o PMDB padece patifa patifa fafá
no colo do PDS patifa patifa fafafá
o PTB percebeu patifa patifa fafafá
mas o PDT quer deter
se apetece ao PT ter poder
pode ser, pode não ser”

[da canção ‘Marcha Partido’]

Todas as letras do disco podem ser lidas aqui.

Mesmo depois da ditadura, porém, o período e temas correlatos continuaram sendo musicados por Tom Zé. No disco “Imprensa Cantada”, a canção “Sem saia, sem cera, censura” é uma das mais bonitas:

[embedplusvideo height=”480″ width=”640″ editlink=”http://bit.ly/19mYqOA” standard=”http://www.youtube.com/v/c4uSppkdiSk?fs=1″ vars=”ytid=c4uSppkdiSk&width=640&height=480&start=&stop=&rs=w&hd=0&autoplay=0&react=1&chapters=&notes=” id=”ep8633″ /]

 A capacidade artística de transformar experiências em sensação, em toque, em poesia foi uma das estratégias de resistências mais importantes durante o período do AI-5 no Brasil. A sapiência de Julinho de Adelaide para driblar a censura, por exemplo, é magistral. Assim como o teatro e o cinema, entre as décadas de 1970 e 1980 no Brasil, a música mantinha as pessoas vivas, lutando, caminhando e cantando.

Sem a canção de protesto não havia quem segurasse tamanho rojão.

Se o AI-5 foi um dos maiores crimes cometidos contra a sociedade brasileira, alivia saber que foi tamanha a lucidez de diversos artistas frente ao ato.

Seremos a esses eternamente gratas/os.