grito fundamental

En la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras,
noches,
poemas

(Leminski)

 

lanço esta pedra
– camaradas futuros! –
fundamental
já lascada
polida
aponta a ponta e crava
na ferida

Fundo esta luta
– camardas eternos! –
classe a classe
que atiça o fogo
em catarse.
A chuva contralto
mezzo soprano
corrói aguda em ácido e molha
profano.

(Acre
com acre se combate
– companheiro; por acaso queres
um pouco de vinagre?)

Fumo esta pedra
– camaradas extintos! –
filosofal
já moída e dichavada
contorcida
bem bolada
nas folhas de meus livros militantes
ou nas fotografias em papel-jornal
queimadas às pressas
aos prantos
e sinto
aquilo que também canto.

Vos mando então, camaradas
à fogueira
às favas
ao que resta das palavras
este monolito:
meu eterno,
futuro,
e agora já extinto

grito.

 

 

* * *

[poema escrito para a coletânea “poemaço contra a copa”, organizada pelo querido Tomaz Amorim e disponível por inteiro a quem gosta de bons poemas aqui]

* * *

[a quem interessar possa: este poema é também um diálogo com meu eterno amor maiakovski, por este motivo]

invisível

Violão no colo
o blues no peito
e te olhava
invisível

em balé trôpego
escorada na porta
tua
de tão bêbada
ou de tão feliz

te olhava ave rara
– pavão misterioso –
corpo tenso
imóvel
eu sorria besta em gozo
mas você me viu

pé ante pé
em pé parei ao teu lado
(seguia concentrado)
nas horas tão poucas
rápidas
e últimas da noite

teus olhos dançavam
balé e refrão
mergendo letra e melodia
no meio da canção você ria
espetáculo
raro e feito imaginação

[certas as horas
ex – pressas
passavam
modestas quando]

em sonho forte
fui eu,
acorde
e manhã revestida de azul
– teu torpor todo
em meu corpo
torpe
: você me abraçava nu
incendiava-me o sul
sorvia minha face (norte) e
eu provava do teu gozo
cru

foi coragem e fôlego
eu sóbria mas os pés trôpegos
e pernas bambas de ter que partir
(desviar de mim mesma sem cair)
me despedi

hoje guardadas as proporções,
memórias,
dilemas;
ou uns dias mais e te escrevo em poema
como quem represa água do mar
encaixota fumaça
: releio, rio, acho quase graça
que nenhum verso,
nem palavra nenhuma

jamais diz a cor,
o som,
o brilho

da tua pluma.

o beijo

queria tua sombra cativa
a boca saliva
o gosto de sal
memória olfativa

meu bem
és quem,
carnaval?

queria te ouvir que
me inventa samba
antes de dormir
vendada
mesmo deitada
minha perna bamba
(até a sexta
santa)

e no caminho do passeio ao farol
libertar sereia de anzol:

dizer que te quero em espanhol
beijar como Klimt sob o lençol