invisível

Violão no colo
o blues no peito
e te olhava
invisível

em balé trôpego
escorada na porta
tua
de tão bêbada
ou de tão feliz

te olhava ave rara
– pavão misterioso –
corpo tenso
imóvel
eu sorria besta em gozo
mas você me viu

pé ante pé
em pé parei ao teu lado
(seguia concentrado)
nas horas tão poucas
rápidas
e últimas da noite

teus olhos dançavam
balé e refrão
mergendo letra e melodia
no meio da canção você ria
espetáculo
raro e feito imaginação

[certas as horas
ex – pressas
passavam
modestas quando]

em sonho forte
fui eu,
acorde
e manhã revestida de azul
– teu torpor todo
em meu corpo
torpe
: você me abraçava nu
incendiava-me o sul
sorvia minha face (norte) e
eu provava do teu gozo
cru

foi coragem e fôlego
eu sóbria mas os pés trôpegos
e pernas bambas de ter que partir
(desviar de mim mesma sem cair)
me despedi

hoje guardadas as proporções,
memórias,
dilemas;
ou uns dias mais e te escrevo em poema
como quem represa água do mar
encaixota fumaça
: releio, rio, acho quase graça
que nenhum verso,
nem palavra nenhuma

jamais diz a cor,
o som,
o brilho

da tua pluma.

o beijo

queria tua sombra cativa
a boca saliva
o gosto de sal
memória olfativa

meu bem
és quem,
carnaval?

queria te ouvir que
me inventa samba
antes de dormir
vendada
mesmo deitada
minha perna bamba
(até a sexta
santa)

e no caminho do passeio ao farol
libertar sereia de anzol:

dizer que te quero em espanhol
beijar como Klimt sob o lençol