POÇO PEDRA PEIXE PULSO

a melancolia de asas rasgadas
despenca as penas cinzas na beirada
fênix num desfiladeiro de ossos & esterco
pousa fundo no lago preto

perco

a melancolia e sua tez espelhada
inunda de piche os campos de arroz
deságua mata no mar de casas
transvaza vala feroz

fóssil
 _____ &
_______ pedra
_____________ &
_______________ peixe
_____________________ &
_______________________ areia

a melancolia, garganta gelada
berra a caverna cheia
milênios de lâminas seladas
rasgam água argilosa
e porque limpa a caverna
melancolia
goza

trinta

sonhei que te encontrava,
meu amor e você me dizia
sério
o resultado das eleições presidenciais dos EUA
e eu nem imaginava que já era hora pra isso

acabei de acordar,
não tomei meu café,
ainda não comi nada
(ou talvez nem tenha ido dormir
que o corpo anda quente
e quando durmo
eu tenho frio)

eu quis tomar um banho no escuro para ver se passava
o corpo do menino decapitado pelo capitão-do-mato
ou se passavam esses quase trinta anos
desde a queda do muro de berlim

eu quis escrever um poema
para ver se convencia um algoritmo
ou para ver se me convencia
a não tomar um trago amargo
(só um,
por favor)

ando doente do fígado
e as últimas três décadas velhas
as vivi como se fossem
os anos trinta

essa cirrose nas entradas dos portais

guerras quentes em duchas na madrugada
o cheiro de ferro em cada ralo
mísseis bomba agá choques elétricos
e a gente nascendo como pra dizer
que sim
ou como pra dizer que não
ou como pra dizer

que o extermínio
é impossível
até que se extermine tudo
e quando digo tudo
quero dizer todos

metralhadoras histéricas de sementes
as covas molhadas de cuspe e versos
e no fogo cruzado a manhã
me queima o chá de camomila
e a esperança
de que se acabassem
alguma hora
minhas malditas
baterias

a crise vai passar

a crise vai passar.
você pode enquanto isso abrir
um guarda-chuva
ou esperar quietinho
sob um teto.

você pode economizar:
é só cada um respirar
apenas as moléculas realmente necessárias
e plantar
um número suficiente de árvores numa
economia colaborativa atmosférica
(chegou o futuro melhor!)
até que tudo se restabeleça.
a crise vai sim, passar.

em momentos de leveza você pode tentar
a dança da crise
ou encher as bochechas de
bolinhos de crise;
você pode se lembrar,
antes de sair de casa,
de olhar a previsão:
– tempestade no mercado
– queda brusca na temperatura do dólar
– sensação térmica desfavorável
– alta incidência de raios inflacionários

(melhor espalhar muito bem sobre as maçãs do rosto e o nariz
uma generosa camada de filtro. ignore o cheiro, é por pouco tempo
já que a crise, como eu disse, há de passar.)

ora, se nada disso der certo, ainda teremos
nossos abrigos anti-crise,
munidos de comida enlatada,
colchões de feno, batalha naval
em bloquinhos de papel,
volumes mortos nas prateleiras,
e apenas meia dúzia de ratos:
ali contaremos histórias

dos idos tempos de antes da crise,
de como éramos felizes, do privilégio
de termos planilhas pra manter a cabeça ocupada,
ou cinquenta horas de jornada.

escreveremos versos, faremos fogueiras imaginárias
e oraremos pela deusa inflação.
transmitiremos a cada nova geração
pouco espontânea a nossa cosmogonia:

num trapézio oferta e procura revezando-se com piruetas e acrobacias,
uma orquestra invisível regida pela mão da meritocracia, coreografia macabra
num circo mambembe de lona rasgada
com arquibancadas que cheiram a mijo e palhaços deprimidos que
no fim do espetáculo abusam meninos, enquanto elefantes
cansados com seus chifres e orelhas remendados
cagam nas margens do picadeiro sobre uma plateia de esfomeados.
engolem a bosta na esperança de alguma proteína, a massa
espectadora no chão de espelhos assiste
à própria chacina.

com gosto de esterco entre os dentes esculpidos em marfim,
aguentaremos um a um, e teremos fé.
nos esqueceremos do mundo lá fora, repleto de crise,
nos convenceremos e resistiremos à espera de um sinal divino.
proibiremos os dissidentes de abrirem as portas do alçapão:
não deixaremos a crise entrar.
com o passar dos meses, devoraremos
primeiro os membros menos importantes,
ao som do realejo que melancólico anuncia:

– abandonai as esperanças, vós que aqui estás;
a morte é certa como a crise,
e a crise, vocês sabem,
não se cansa
de passar.

segundo exercício

planejo sobreviver com tempo.
mentira. sem tempo
sou o isso que planejo:

filosofar nos minutos de intervalo
entre a cama, o banheiro, o trabalho
namorar personagens, enredos, roteiro
quarto fechado, chorar no chuveiro
(degustar aquela siririca)
mas não só vejo o isso que planejo

vislumbro um tododia sem rotina
sem Dickinson presa em casa
sem Mrs Dalloway barganhando flores
sem Plath implorando pelo gás pelo
simples motivo de mulher-e-casa-:-
que-combinação-
insuportável

espero me deitar sobre as grandes coisas do mundo
sobre guerras e revoluções
sobre exércitos, cartas trocadas, amantes
descobertas sexuais infantes, distopias sérias
a mim resta cobrar de minha era
espiões russos imigrantes poloneses
uma gueixa no Japão
máquinas do tempo demônios espíritos
poetas

a mim sobrei eu mesma
e a minha era, ela mesma
e a minha cabeça, ela mesma
e o meu medo de acordar louca
o que planejo é morrer
outra

uma história emocionante
sem suicídio
ao final.


 

daí que a ana erre, amiga, ídala e poeta, está propondo exercícios de produção literária a cada sexta-feira. no primeiro, deveríamos pensar como desejamos escrever. daí que escrevi este poema. no segundo, a ideia era pegar o primeiro texto e substituir todos os verbos. falhei, como podem ver. mas até que deu. e como é difícil. no fim não gostei do poema, mas talvez já não gostasse dele antes. vai saber.

primeiro exercício

eu queria escrever com tempo.
mentira. sem tempo.
é isso que eu queria:

escrever nos minutos de intervalo
entre a cama, o banheiro, o trabalho
criar personagens, enredos, roteiro
quarto fechado, cantar no chuveiro
(bater aquela siririca)
mas não é só isso que eu queria
eu queria um tododia sem rotina
sem Dickinson presa em casa
sem Mrs Dalloway comprando flores
sem Plath afogando-se no gás pelo simples motivo de
mulher-e-casa-:-que-combinação-insuportável

eu queria escrever sobre as grandes coisas do mundo
sobre guerras e revoluções
sobre exércitos, cartas trocadas, amantes
descobertas sexuais infantes, distopias sérias
a mim cabe falar de minha era
espiões russos imigrantes poloneses
uma gueixa no Japão
máquinas do tempo demônios espíritos
poetas

mas a mim só tenho eu mesma
a à minha era ela mesma
e à minha cabeça ela mesma
e ao meu medo de ficar louca
o que eu queria mesmo era ser
outra

uma história emocionante
sem suicídio
ao final.


daí que a ana erre, amiga, ídala e poeta, propôs um pequeno exercício. ou melhor. ela vai, às sextas-feiras, propor exercícios. nós amigas, conhecidas, admiradoras que escrevemos e não somos bobas, decidimos entrar na onda. publicar os exercícios em nossos blogs para que uma leia a outra e assim por diante. como uma dinâmica coletiva de criação literária via web. quem sabe assim a gente desenferrüscha, que o semestre anda puxado para todas nós e a escrita às vezes fica carente no cantinho dela, com medo de pedir a atenção que merece. aí está meu primeiro exercício, a partir da pergunta da ana: como eu quero escrever? voilà. o curioso é que saiu um poema. eu, que me reivindiquei não-poeta a certa altura do campeonato, estranhamente só tenho conseguido escrever poemas. não necessariamente bons, claro. mas tem me dado mais tesão. acho que tesão é necessário. talvez seja um reflexo do tanto de prosa não-poética-e-tampouco-literária que tenho sido forçada a produzir pelas minhas escolhas de trabalho. estou escrevendo um livro, traduzindo dois, mais um capítulo pra outro livro, revisão do projeto de pesquisa AND terminei um artigo longo e trabalhoso recentemente. sem mencionar o que tenho lido. quer dizer. significa, né. nada mais justo do que um pouco de verso no meu cotidiano de prosa. esse cotidiano que tanto me atormenta. eu honestamente não desejo terminar com a cabeça no forno. às vezes é difícil.

léu

são ondas e timbres
graves que lambendo recobrem-te
do topo
à base

são lufadas
e furacões
são olhos
fundos
escuros contínuos
vácuos
surdos
são galáxias
constelações

enfrentam-se em batalhas touros
e escorpiões
por teus universos
sem sóis

teus cabelos não têm
caracóis

útero frio

volto ao escuro
torno ao útero frio
e tudo que eu era
antes esvazio

do alto do murro
que levo na face
mastigo lenta o cordão
que me sufoca

quase

recebo luz
recebo sal
recebo dor
recebo na pele pontadas
duras de calor

invento o velho
e vento o novo
fênix que eclode
livre
o próprio ovo

vipera aspis

você às quartas junkie
eu terças acordo menor
sonho úmido
sei de cor:

que subverta-me toda
submeta-me e foda
vidrada, áspide cresce dura
e cospe em minha boca
mistura amarga
veneno
tabu

sábado gozo
e domingo
no teu rosto
nu

escorro
ao comer começo
do meu cu e guio profano ao fundo
assim justo
porque ainda
cru

celebro meu ano
a cada gota que te guardo
feito joia
em meu copo
corpo

baú

grito fundamental

En la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras,
noches,
poemas

(Leminski)

 

lanço esta pedra
– camaradas futuros! –
fundamental
já lascada
polida
aponta a ponta e crava
na ferida

Fundo esta luta
– camardas eternos! –
classe a classe
que atiça o fogo
em catarse.
A chuva contralto
mezzo soprano
corrói aguda em ácido e molha
profano.

(Acre
com acre se combate
– companheiro; por acaso queres
um pouco de vinagre?)

Fumo esta pedra
– camaradas extintos! –
filosofal
já moída e dichavada
contorcida
bem bolada
nas folhas de meus livros militantes
ou nas fotografias em papel-jornal
queimadas às pressas
aos prantos
e sinto
aquilo que também canto.

Vos mando então, camaradas
à fogueira
às favas
ao que resta das palavras
este monolito:
meu eterno,
futuro,
e agora já extinto

grito.

 

 

* * *

[poema escrito para a coletânea “poemaço contra a copa”, organizada pelo querido Tomaz Amorim e disponível por inteiro a quem gosta de bons poemas aqui]

* * *

[a quem interessar possa: este poema é também um diálogo com meu eterno amor maiakovski, por este motivo]