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time is never time at all

é duro mas também é belo. voluntariamente me jogar de um zepelim prateado sobre a lua. o frio na barriga sendo muito, abrir um guarda-chuva e atenuar a queda. encontrar meus demônios – uma longa batalha em que ora estou em vantagem, ora estou imóvel. enfim conseguir deixá-los para trás. em vez de tentar subir, descer. descer até o fundo mais fundo que se possa. o fundo que parece assustador mas é – enfim – belo. voltar um tantinho mais pra cima. jamais para terra firme. jamais estática. flutuo em um navio até, quem sabe, o próximo salto.


Time is never time at all
You can never ever leave without leaving a piece of youth
And our lives are forever changed
We will never be the same
The more you change the less you feel
Believe, believe in me, believe
That life can change, that you’re not stuck in vain
We’re not the same, we’re different tonight
Tonight, so bright
Tonight
And you know you’re never sure
But you’re sure you could be right
If you held yourself up to the light
And the embers never fade in your city by the lake
The place where you were born
Believe, believe in me, believe
In the resolute urgency of now
And if you believe there’s not a chance tonight
Tonight, so bright
Tonight
We’ll crucify the insincere tonight
We’ll make things right, we’ll feel it all tonight
We’ll find a way to offer up the night tonight
The indescribable moments of your life tonight
The impossible is possible tonight
Believe in me as I believe in you, tonight

 

Hoje eu subi numa bicicleta

hoje eu subi numa bicicleta.

uma bike, magrela, bici. era meio verde, pneus mais grossinhos, mas não era BMX. só sei porque a placa dizia lá: “não temos bicicletas BMX, não usem a pista de bicicross”. senão não ia reparar. ela tinha câmbio, um escritozinho “shimano” embaixo do botão de mudar a marcha. já ouvi essa palavra antes, “shimano”. eu que era a outsider por não andar de bike. quer dizer. saber até sabia, “mas faz vinte anos que não subo numa”, explicava eu. eu sei que não se esquece; não era esse meu medo. tampouco era medo de cair (quem me conhece sabe muito bem que caio muito, até andando, então não preciso de bike pra isso). meu medo era a gente, sabe. todas as pessoas.

hoje eu montei numa bike.

foi naquele parque, no mesmíssimo parque que a última vez. não me lembro se caí. não lembro de trombei com alguém. se fui chamada de gorda. se riram de mim. não lembro. mesmo. mas lembro que contei os anos, de cabeça, desde então. contei que havia um mês não subia numa bike. depois seis meses. um ano. dois. cinco. dez. quinze. minto quando digo que foram vinte – é só pra arredondar, sabem como é. era algum dia de verão quando eu tinha 10 anos de idade, provavelmente no início de 1998 ou finzinho de 1997. me recordo da clareza com que contei os dias; talvez eu soubesse que passaria muitos anos sem andar de bicicleta (quem sabe?). dezessete anos, cara. dezessete anos sem empoleirar numa magrela.

hoje eu me empoleirei numa magrela.

depois de tantas tentativas abortadas, hoje eu tinha me decidido. não ficaria mais nenhum dia sem saber, na vida adulta, o que é estar numa bicicleta. minhas amigas andam de bicicleta. eu frequento o bar da galera da bicicleta. foram tantas dicas, palavras de encorajamento, lindos relatos. eu tinha que saber o que era aquilo, afinal. em todas as vezes anteriores desmarquei, enrolei, achei desculpas. desculpinhas, desculpões. porque é isso que são, só: desculpas. não existe nenhum bom motivo pra não andar de bicicleta. foi lá, em cima da bendita, meio cambaleante no começo, sentindo as coxas empurrarem os pedais, olhando para a frente e ventando para trás, que eu entendi, então, o que tinha me impedido, nos últimos dezessete anos, de andar de bicicleta: aquela peça esquisita, meio desengonçada, que fica sobre o selim e se apoia no guidão. conhecem?

hoje eu subi numa bicicleta.

numa bicicleta, livre de mim mesma. ainda me desconcentrando com pessoas, temerosa pelos carrinhos de bebê desavisados que cruzavam meu caminho. mas eu fui. na pior das hipóteses quem cairia seria eu, a frear desajeitada nas bordas da pista. levei dezessete anos para descobrir que quem decidia isso não era ninguém; só eu. dezessete anos pra sacar que eu podia estar ali, guiando, pedalando, decidindo, fazendo vento com os pés. eu estava sozinha, mas não estava só. depois das primeiras pedaladas e de uma freada desajeitada, encontrei na pista uma família. a menina devia ter a idade que eu tinha quando pedalei pela última vez, e o pai a ensinava a pedalar. a mãe gritava palavras de encorajamento. sentei num banco e olhei. chorei. que coisa linda, isso de andar em bicicleta. lembrei das tardes na praia, indo longe com os primos e primas. eu chegaria em qualquer lugar que eu quisesse, com minha própria força e energia. tem um quê de liberdade aí, é inegável. naquele parque em que eu parei de andar de bicicleta, a menina aprendia a liberdade que eu perdi. enchi o peito diante da cena, olhei para frente e fui.

hoje eu voei numa bici,
bike
magrela.

hoje eu voltei a andar de bicicleta.

feliz

feliz

 

Fui uma adolescente feliz

Screen-Shot-2013-02-27-at-8.59.15-AMA todas as meninas, meninos e menines que tive a honra de conhecer quando adolescentes, fosse como professora de inglês ou de sociologia. A quem não conheço mas passa pelas dores e delícias de ser adolescente hoje.

Bonitas, bonitos e bonites;

uma vez vocês me perguntaram por que eu gostava tanto de vocês. Devo ter respondido o mesmo que digo agora: fui uma adolescente feliz. É claro que a vida não dá trégua e nem tudo foi lindo. Quando adolescente vivi a morte do meu melhor amigo. Vivi medo de ficar grávida apesar de todos os métodos contraceptivos. Vivi o medo de “não dar certo”. Vivi o peso do mundo em minhas costas. Achei que a escola me definia. A adolescência é difícil. Não tem outra palavra. É difícil, mesmo. Ao mesmo tempo, parece que a maioria dos adultos se esqueceu de quão difícil é esse pedaço da vida, e acaba infernizando ainda mais a vida de quem o experimenta. Pois é. Tem gente que esquece rápido. Eu não esqueço.

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