Carta aos que ousam aprender

[Esta é uma carta endereçada aos adolescentes que foram, nos últimos meses, meus alunos e alunas no ensino médio em um colégio de elite da rede particular do interior paulista. Em sua grande maioria [esmagadora] são adolescentes brancos, filhos de famílias altamente escolarizadas, que moram em condomínios e têm a escola como centro de seu cotidiano.]

Queridxs (ex) estudantes das minhas aulas de sociologia;

Quando descobri que gostava de ensinar acompanhar o processo de aprendizado de pessoas de diversas idades, me deparei com um livro de Paulo Freire. O livro se chamada “Cartas a quem ousa ensinar”. É um belo livro, mesmo eu preferindo não usar jamais a palavra “ensinar” nessa relação entre professora e estudantes. Vocês sabiam, aliás, que em algumas línguas como francês e holandês, a palavra “ensinar-aprender” é uma só? Como se isso já não fosse lindo, ela nada tem a ver nessas duas línguas com os radicais de “ensinar” que eu conheço. É só aprender. Eu aprendo, você aprende. Eu te aprendo, você me aprende. Massa, não?

Essa unificação do verbo faz todo sentido na minha cabeça, agora que faz dez anos que comecei a dar aulas. Dar aulas, aliás (é sempre bom lembrar), é outra coisa ainda, que muitas vezes não tem nada a ver com aprender. Quantos professores vocês já tiveram (ou ainda têm) que não aprenderam vocês, nadinha de nada, em absoluto? Pois é. Não é incomum. Essa era minha missão pessoal, desde o início: saber vocês, enquanto dividia um pouco das informações e do conhecimento sobre sociologia que acumulei nos últimos 8 anos de minha vida.

A educação não é uma coisa, nem um bem. É um processo. Como todo e qualquer processo, não há um indivíduo que detém aquela coisa e simplesmente transmite aos demais. A educação acontece com as pessoas, e somos cada um de nós os protagonistas dessa jornada. Quando as relações pessoais e afetivas fazem parte desse processo, ele nos cativa. E aprendemos mais. Taí o Vygostky que não me deixa mentir.

O aprendizado, esse processo que se confunde um pouco com a educação (se é que não são a mesmíssima coisa), passa longe de uma série de formatos que nosso sistema escolar insiste em reproduzir. Um deles é a prova. Alguns tipos de prova podem ser úteis, a prova pode motivar, enfim, há coisas interessantes nessa ferramenta que se chama “prova”. O grande erro – e a grande mentira que nossa sociedade conta a vocês – é que as provas medem o quanto vocês aprendem. Quando a escola classifica vocês em salas pelas notas da prova, é isso que ela está dizendo e reforçando. A essa altura do campeonato, eu imagino que vocês já tenham percebido isso. Outro dia umx de vocês me disse que antes tirava notas melhores em sociologia, mas com as minhas aulas sentia que estava aprendendo mais. Pois é isso aí, as provas não medem nada. Elas podem ser úteis ou eficazes para outras coisas, mas definitivamente não traduzem o processo de aprendizado de ninguém em escalas numéricas.

Uma parte grande do aprendizado, da educação, está fora da escola. A rotina de vocês, nos locais onde a maioria de vocês mora, também não facilita muito essas experiências extra-escolares. O transporte público é praticamente inexistente e vocês ainda não podem dirigir, nem são legalmente responsáveis por si mesmos (apesar de serem legalmente considerados capazes de tomar uma das decisões mais importantes numa democracia, que é a escolha dos representantes no legislativo e no executivo – mas ok, essa contradição eu deixo pra outra hora). Então eu imaginava que vocês buscariam essas experiências nas férias. E descobri que não. Que a maioria de vocês passou as férias em casa, provavelmente numa rotina calma mas também um tanto entediante (não?). Fiquei pensando que há coisas que, se vocês não fizerem agora na vida (ou durante a graduação, no máximo), provavelmente não terão tempo, disposição, condições, etc. de fazer nunca mais. Viajar de bike até o Uruguai. Ir de trem pra Macchu Picchu. Passar uma semana na casa de praia com os amigos tendo que organizar sua própria grana, comida, atividades, mas com a segurança de que se algo der errado tem algum adulto pra dar aquela ajuda maneira. Ir à Praia do Sono. Fazer trilhas, subir montanhas, encontrar cachoeiras que quase ninguém conhece. Ver gente. Conhecer gente. Falar com todo mundo que aparece pelo caminho. São tantas coisas! O mundo é bão, gente. Não é esse horror e medo todo que botam em vocês. As pessoas são, em sua maioria esmagadora, verdadeiros anjos. O mundo é lindo, e vocês são jovens demais para comprarem com tanta fé essa ideia de que é preciso estar o tempo todo trabalhando ou estudando. Nisso eu tô com o Lafargue: essa lógica da centralidade do trabalho é uma armadilha das mais perigosas. Se vocês podem – e podem – ter outras experiências, por que não tê-las?

O curioso, dentro disso tudo, é que mesmo considerando a preocupação com *mercado de trabalho* (essa que vocês são novos demais e socialmente privilegiados demais pra terem), ainda faz mais sentido passar as férias em mochilões pela América Latina do que no quarto ouvindo seu iPod. Eu juro. Basta olhar o perfil das pessoas aprovadas em seleções de trainee. São sempre jovens que além de terem um bom desempenho escolar (ou um razoável desempenho escolar, muitas vezes), têm experiências interessantes de vida. O que são experiências interessantes de vida? Em geral, são aquelas que te engrandescem enquanto pessoa. Que te botam em contato com outras culturas, modos de vida. Que te fazem precisar resolver problemas que no seu quarto você não precisa resolver. Que te forçam a pensar por outro ângulo. A encontrar soluções rápidas, criativas e eficazes. Tipo o quê? Dar aula como voluntário no Cabo Verde durante um semestre; começar sua própria ONG ou coletivo de ação social; se envolver em redes de gente que ultrapassem os muros da escola; viajar para lugares que você nem sabia que existiam; aprender uma língua no próprio país; liderar uma campanha por uma causa na qual você acredite; participar ativamente da política por meio dos conselhos municipais da criança e do adolescente ou secretarias municipais de juventude (caso sua cidade tenha); ler um livro difícil pra caralho; participar de um clube de leitura fora da escola; criar um grêmio estudantil (direito de vocês por lei, que nenhuma escola pode coibir ou negar); ir até a periferia; aprender um instrumento musical do qual ninguém ouviu falar; etecétera.

Vocês devem estar se perguntando o que tudo isto tem a ver comigo e com o fato de não me verem há uma semana. Pois então. Nessa semana que acaba eu pedi demissão. Não voltarei a dar aulas de sociologia pra vocês na escola. E eu disse tudo isso pra explicar duas coisas importantes sobre a minha demissão, antes que vocês venham perguntar.

A primeira é que, até agora, mesmo convivendo com alguns formatos da escola que são inevitáveis (como as odiadas provas), tinha sido possível aprender. Aprender eu mesma, e aprender vocês. Consegui inclusive usar as provas como ferramenta para isso, quando pedi que vocês assistissem filmes, lessem literatura e quadrinhos para responder questões de sociologia. Bendita hora em que eu tive essa ideia, e que bom que ela pôde funcionar durante um semestre. Serei eternamente grata, pois aprendi muito. Aprendi vocês, ali, naquelas questões de prova. E me parece que vocês foram me aprendendo um pouco também.

Minha demissão não tem a ver com questões burocráticas ou técnicas da escola (como a necessidade de provas, o uso da lousa, etc). Tem a ver com a impossibilidade, que se colocou à minha frente, de continuar aprendendo vocês. Eu estava em dúvida sobre pedir demissão ou não, e consultei uma amiga que já mudou de emprego várias vezes e costuma ser bem feliz profissionalmente (ela tem 23 anos, nenhum curso superior completo, e é ultra bem-sucedida no mercado de trabalho disputadíssimo do marketing, porque tem uma vida interessante, c.q.d. – o blog dela é esse aqui). Ela me recomendou que fizesse uma lista de prós e contras pra ajudar a pensar. Pois foi o que eu fiz. Aos poucos, com calma, durante o dia. No fim, minha lista de prós tinha apenas um item:

“Alunxs”

Contrapondo esse pró aos contras, percebi que esse pró poderia, na medida do possível, continuar na minha vida. Via Facebook, por meio do Ask e, num futuro muito mais próximo do que vocês imaginam, nas universidades Brasil e mundo afora. Então esse “pró” era um “pró” permanente, fixo. Um presente que eu ganhei, para o resto da minha vida, com essa experiência que foi dar aula nesse colégio durante meio ano. Obrigada. Mesmo. Vocês são demais.

Por isso decidi pedir demissão. E aí entra o segundo ponto que eu queria explicar pra vocês. Não quero que vocês fiquem tristes com a minha despedida. De despedida, aliás, ela não tem nada. Esta é uma carta de boas vindas. É um prenúncio de uma vida que é muito, mas muito, muito, muito mais legal depois da escola. É nessa vida que eu quero encontrar vocês. Sem essa relação de poder obrigatória, sem ser obrigada a ficar sobre um tablado como se eu fosse superior a vocês, sem uniformes, sem inspeção, sem ter que pedir permissão pra fazer necessidades básicas corporais. A escola é só o epílogo. A vida é incrível e eu continuo na incrível vida, para trocarmos ideias sobre o que quer que seja. Isso não é um fim, sacam?

Vejo vocês em Macchu Picchu.
Ou na universidade.
Tanto faz.

[PS.: ainda bem que dá pra fazer isso pela internet, porque se fosse pra falar eu cairia no choro]

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