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Queridas ruivas,

foto de um encontro de ruivas, UOL

hoje fiquei sabendo que vocês decidiram se encontrar. Parece tudo muito legal, muito lindo e eu tenho certeza de que vocês têm a melhor e mais inocente das intenções ao fazê-lo. Mas me deixem explicar umas coisinhas.

Vivemos numa sociedade brutalmente desigual e altamente racializada. Isso significa duas coisas importantes:

Primeiro, que há diversos tipos de desigualdades (de gênero, de raça, de sexualidade, de classe social, de acesso à educação, etc-etc-etc-quase-sem-fim) que se entrecruzam. Todo mundo ocupa posições variadas em relação às diferentes desigualdades. Uma mulher branca sofre discriminações diferentes das que sofre um homem negro, por exemplo. Se essa mulher for magra e esse homem gordo, as relações são ainda outras. Se o homem negro for heterossexual e a mulher branca for lésbica, então… Entendem? Ok. Guardem a informação.

As desigualdades todas existem por causa da maneira como classificamos e hierarquizamos as pessoas na sociedade (segundo seu gênero, por exemplo, classificando as pessoas em homens e mulheres e atribuindo um valor positivo ao gênero masculino e negativo ao gênero feminino). Essas classificações e hierarquizações fazem com que mulheres ganhem menos do que homens, pessoas negras ganhem menos do que brancas, etc. Pra não falar nos resultados extremos (e infelizmente super comuns e frequentes) dessas classificações e hierarquizações, como os assassinatos de pessoas transgêneras e a violência contra gays, lésbicas e bissexuais.

Pois bem. Segunda coisa: o Brasil é extremamente racializado. Quer dizer que aqui onde vivemos, ser entendido socialmente como pertencente a uma certa “raça” ou outra faz muita diferença. Embora não haja leis declaradamente racistas, as pessoas negras são associadas automaticamente a crimes, sujeira, posições subalternas, etc. Isso está no nosso imaginário, porque nossa sociedade é estruturalmente racista. Mesmo que eu, você e todo mundo que conheçamos não sejam/sejamos conscientemente racistas, se a gente não prestar atenção reproduz essa estrutura que foi incutida na nossa forma de pensar e agir. É difícil pra  caralho a gente não ser racista nunca; e se a gente está no fenótipo considerado “branco”, é ainda mais difícil a gente conseguir enxergar o racismo em suas diversas faces.

Aqui vai uma pausa para avisar que tudo isso que estou dizendo foi extensivamente estudado por antropólogos, sociólogos, historiadores, ONGs, etc. e com um mínimo de boa vontade, no Google, dá pra se informar bem mais profundamente acerca do assunto. E que, sim, são dez da noite e eu estou com uma preguiça gigante de ficar caçando links. E que não, não sou obrigada.

Bom, dessas duas coisas se derivam outras duas. Primeiro, que ser ruiva, no Brasil, é ser lida como branca. Mesmo que você seja uma ruiva que não tem a pele branca, você é “embranquecida” socialmente pelo fato de ser ruiva. Ser ruiva, no Brasil, mesmo que você não fosse lida como branca, é uma posição de privilégio social. Ninguém ganha menos ou é preterido no mercado de trabalho por ser ruiva. A “ruivice” é, a bem da verdade, valorizada como ideal estético – tanto que muitas de nós (eu inclusive) pintamos o cabelo de ruivo (vejam lá minhas fotos do casamento: eu estava bem ruivinha, de propósito, porque acho lindo, porque me ensinaram que é lindo, porque sei que é visto como algo lindo). As pessoas ruivas são pouquíssimas na população mundial, na brasileira são ainda menos e, quando olhamos capas de revistas, comerciais, etc. lá estão elas. As negras, em compensação, cadê?

Em segundo-segundo lugar, ocupar uma posição de privilégio social como ruiva não significa que você tenha sempre, em toda e qualquer circunstância, as benesses de privilegiada. Isso depende de todos os outros fatores que geram desigualdade no Brasil. Se você for ruiva e gorda, por exemplo, certamente não será tratada pela sociedade da mesma maneira que uma ruiva com corpo de modelo. Se você for ruiva e lésbica, por exemplo, certamente terá uma experiência diferente de quem é ruiva e hetero. E assim por diante, como eu disse ali no começo.

Tudo isso pra dizer que, nesse contexto, um “encontro de ruivas” é como um “encontro de pessoas brancas” ou um “encontro de pessoas ricas”. Ainda que a intenção de organizadoras e participantes não seja conscientemente ou propositalmente racista, de alguma maneira o encontro celebra uma posição de privilégio e por isso reforça o racismo, reforça um ideal estético racista.

Mas eu sei que estamos todas cansadas neste finzinho de quinta-feira e que amanhã o dia é longo, então vou deixar vocês em paz. Mas eu, se fosse vocês, não descansaria até entender a real seriedade e o problemão que é fazer e participar de um encontro desse tipo, nesta sociedade, neste contexto.

Boa noite! :)

 

 

  1. Gata, só pra avisar.
    Eu sou gorda, feminista, bi e ruiva pintada.
    Esse encontro de ruivos surgiu de um grupo no facebook que fala sobre coloração. A maioria das meninas que vao são de varias cores e biotipos, o que tem em comum é a cor do cabelo, pintada.
    Dessa foto que voce esta usando, apenas o Coloral é ruivo natural.

    Eu acho muito importante voce falar sobre isso e concordo com voce sobre desigualdade de raças por aqui. Mas espero que a critica seja sobre os grupos de ruivos brancos de classe media-alta, que estão putissimos da vida com o fato de haver um encontro maior, de ruivas tingidas. Pois segundo os mesmos, estamos enganando possiveis parceiros. Que alias, os encontros promovidos pelo grupo de ruivos naturais, tem como objetivo formais casais e pasme, procriar para manter a ~~~~raça~~.

    Resumindo, é um encontro de amigas que se falam diariamente, sobre como manter o ruivo, e este encontro tomou grandes proporções.

    • Oi, Steph! Eu entendi a proposta declarada do evento, e falei com as organizadoras no twitter. A questão não é que há intenções propositalmente racistas, nem que o evento esteja defendendo nenhum tipo de segregação ou supremacia. Mas é o racismo estrutural que faz um certo padrão estético (ser ruiva, ser loira, ser branca, ser magra, etc – multifacetado, aliás) ser privilegiado em relação a outros. Quando as pessoas promovem um encontro que celebra um padrão estético dominante (no caso, serem ruivas, mesmo que de farmácia), isso é um reflexo desse racismo estrutural, reforça e reproduz esse racismo ainda que não tenha sido essa a intenção. Por isso que sugiro no texto dar uma busca em boas fontes sobre racismo no Brasil, racismo estrutural, etc.

  2. Na época fiquei inconformada com um encontro do tipo, pelo simples fato de que; Desde quando a aparência é algo relevante para um encontro ou algo do tipo na av. Paulista; Que pensamento mais vazio, pequeno. É triste ver os valores das pessoas investidos neste tipo de coisa superficial. Não me refiro a cuidar da aparência, mas o fato dela receber um valor que não merece, sem contar a sensação racista que a situação passa, mesmo não sendo o motivo do evento. Mas pra que pensar mais a fundo? Vamos ser ingênuos, olhar para o próprio umbigo, “Afinal eu só quero a farra do cabelo colorido na Av. Paulista, o que isso passa pra sociedade já não é um problema meu”. Com o acesso ao seu texto a ideia se aprofundou. É revoltante que as pessoas pensem que só porque não são racistas e essa não é a ideia o resto não importa, é inconsequente, imaturo e fútil socialmente falando. Parabéns pelo texto!

  3. Obrigada, Ju. Mas foi isso que eu disse no twitter pras organizadoras do evento: o que estou criticando não é a proposta do evento, a intenção individual das organizadoras, etc. Mas sim, estou chamando a atenção para um racismo estrutural que sustenta a valorização de um certo biotipo e/ou padrão estético.

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