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“O” black bloc está estranho. Não é nada à toa.

Manifestação contra a ALCA em 2002, Sampa

Manifestação contra a ALCA em 2002, Sampa

Daí que em junho vivemos uma forte onda de manifestações. Elas deram uma diminuída (mas nem tanto) em julho e agosto, mas retornaram (principalmente no Rio de Janeiro) a todo vapor nas últimas semanas. A violência policial que acompanhou as manifestações de junho até agora também ganhou força nas últimas semanas. Há alguns dias em Sampa cerca de 50 pessoas foram presas simplesmente por se manifestarem. Diante de todo esse enrosco, um suposto “grupo” começou a se destacar: “o” black bloc. Quer dizer. Estou aqui pra mostrar a vocês que, justamente, não é bem assim a história.

“O” black bloc não existe

Pra começo de conversa, existe uma tentativa desonesta por parte de grupos conservadores (esses que tem muito espaço nos meios de comunicação, que sempre ocuparam posições de poder em nossa sociedade) de fazer com que acreditemos que existe um grupo organizado chamado “Black Bloc”, que teria líderes, uma ideologia, etc. Não acreditem nisso. Não existe “o” black bloc. “Black bloc” é uma tática usada durante confrontos em manifestações. Ela serve para a segurança dos manifestantes quando é preciso lidar com violência policial e, em alguns casos, como tática de radicalização. Em geral quem manja dessa tática e acaba colocando-a em prática são grupos anarquistas, justamente pela história de como ela se desenvolveu (e, olhem, para o meu espanto até a página da Wikipedia sabe disso).

Isso significa que quem domina a tática pode empregá-la. Faz parte dessa tática utilizar máscaras e roupas pretas. As primeiras servem para preservar os manifestantes em black bloc de identificação e perseguição política (e policial). As segundas servem para identificá-los frente aos demais manifestantes. Os manifestantes em black bloc já me defenderam de muita bomba de gás, bala de borracha e perseguição policial com suas barricadas, no início dos anos 2000 (leia um pouco dessa história aqui). Por isso a minha desconfiança quando vejo manifestantes trajados como aqueles que formam os black blocs rasgando bandeiras de partido e brigando com a direção das passeatas. Fico ainda mais incomodada quando vejo, diante disso, meus companheiros e companheiras da esquerda dizendo que deveríamos expulsá-los de manifestações. E digo:

Galera, que merda é essa, agora?

Está tudo ainda bem estranho

 Nesse debate sobre black blocs, eu realmente me pergunto se meus companheiros da esquerda estão *de zoeira* ou se são apenas extremamente desmemoriados. Não faz o menor sentido esse ataque repentino de manifestantes em black blocs aos demais manifestantes! Vamos pensar com a cabeça, meu povo. É duro ver a bandeira do partido rasgada, mas muita calma nessa hora. Recorramos aos fatos:

Não vou repetir aqui que está tudo muito estranho. Um monte de coisas que aconteceram desde que publiquei aquele fatídico texto nos mostraram que minhas suspeitas de um golpe de opinião pública para criminalizar movimentos sociais (e, em especial, manifestantes anônimos) não eram tão absurdas assim. O discurso da mídia de massas fez a associação direitinho, e não foram poucas vezes (o vídeo abaixo tem quase cinco minutos de noticiários editados que evidenciam a mensagem reforçada).

Seja como efeito desse discurso ou como parte dele, um dado divulgado pelo Datafolha indica que 95% dos 690 respondentes de uma enquete se disseram contra black blocs (sem provavelmente sequer saberem direito o que é isso – dêem uma olhada na pergunta feita aos entrevistados). A pesquisa também mostrou que o apoio a manifestações na cidade de São Paulo caiu drasticamente desde junho. Isso é esperado, depois de tanta manipulação de imagens e discurso propagados no senso-comum, entre quem jamais participou de manifestações ou foi apenas nas mais “brandas” de junho. O que não tem me deixado dormir é que essa mesma manipulação tenha feito tantas companheiras e companheiros militantes da esquerda de bobos. Caíram como patinhos.

Reparem bem, gente: a quem esse discurso serve? Quem se beneficia mais, em nossa sociedade, de ter militantes de esquerda contra outros militantes de esquerda?

(não preciso responder, né?)

Não parece pra vocês tudo casadinho demais com o discurso propagado nos meios de comunicação de massas?

Pois eu, que participei de muitas manifestações com pessoas em black bloc, nos últimos 14 anos da minha vida, tenho certeza absoluta de que o anonimato que protege esses companheiros está sendo usado da maneira mais desonesta e escrota possível. Tenho um feeling muito forte de que há sim muita gente infiltrada. Desde junho, aliás. As coisas que vi nas ruas em São Paulo e em Campinas simplesmente não são os grupos de defesa em black bloc e nem mesmo a própria tática que tem esse nome. O que eu vi nas ruas – e o que eu vejo com clareza quando um “mascarado” rasga bandeira de partido – é outra coisa. Essa coisa tem nome, e esse nome é armação.

Não caiamos nessa, companheiras e companheiros. Somos melhores do que isso.

Cartinha ao meu pai e uma foto histórica (pra mim)

Esses dias meu pai, que sempre foi de esquerda, me escreveu perguntando minha posição sobre “o” black bloc. Como pai é pai, eu me animei de responder. Talvez essa pequena carta ajude, de maneira sucinta, a resumir o ponto em que quero chegar aqui neste post:

“black bloc” é uma tática de defesa para quando há confrontos em manifestações. As pessoas que conhecem a tática – em geral ligadas a grupos anarquistas – se vestem daquela maneira para serem facilmente identificadas em manifestações sem sofrerem perseguições da polícia e do Estado. Desde que ficou popular, no fim dos anos 90 com as manifestações contra a globalização capitalista, os grupos treinados em black bloc sempre defenderam os companheiros de esquerda. Em muitas manifestações que fui foram eles que me defenderam de gás lacrimogêneo, balas de borracha e perseguição da polícia… Mesmo sendo anarquistas eles nunca se opuseram aos demais grupos e partidos de esquerda. Sempre estiveram junto conosco.
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O que eu percebo que está acontecendo desde junho é uma tentativa de criminalizar “mascarados” para em seguida criminalizar movimentos sociais em geral; lembra do Subcomandante Marcos, da guerrilha zapatista? Que andava com a cara coberta e a mídia chamava de “bandido” e o Estado perseguia? Pois então. Eu acho que a estratégia dos grupos conservadores é essa. Pra fazer com que essa ideologia se propague com mais força, eu suspeito que estejam inflitrando gente, vestida como se fossem de grupos que fazem black bloc, para rasgar bandeiras de partido e promoverem destruição gratuita fora do contexto de confronto. Aí esses grupos conservadores estão tendo o resultado que esperavam: a própria esquerda está querendo “eliminar” quem estiver “mascarado” ou vestido como grupos que atuam em black bloc. O que eu vi nas ruas em junho (e descrevi naquele texto que ficou famoso – “Está tudo tão estranho, não é à toa”) só reforça, pra mim, essa percepção.
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Na minha experiência de 14 anos de militância e manifestações por diversas causas, com e contra diferentes governos e políticas, nesse Brasil pós-ditadura, é essa a análise que eu acho mais coerente. O resto simplesmente não faz sentido na minha cabeça.

Na época em que fui mais defendida por manifestantes em black bloc, quando lutávamos contra a ALCA e contra privatizações, entre outras coisas, eu era mais ou menos assim:

Eu, em manifestação contra a ALCA. Sampa, 2002. Devia ter uns 15 anos. Acho.

Eu, em manifestação contra a ALCA. Sampa, 2002. Devia ter uns 15 anos. Acho.

Eu também já usei nariz de palhaço. Só que na época não havia coxinhas se apropriando dessa simbologia pra protestar “contra a corrupção”. ;)

 

 

  1. Marilia, concordo com o que você apresentou sobre essa coisa “meio estranha” que vem acontecendo com os Black Bloc. Acho que a polícia está infiltrada, fazendo se parecer com os Black Bloc. No fundo, estão tentando criar um cenário que justifique a instalação de um estado de exceção. Eu não tenho dúvida quanto a isso.

  2. Boa noite,
    Li sua postagem meio por acaso e também achei umas coisas estranhas. Quem sabe voce poderia me ajudar.
    1: se Black bloc é uma tática de guerrilha urbana porque aqueles mascarados tinham pichados em seus escudos esses dizeres?
    2: aquela cena de mascarados espancando um policial desarmado foi montagem? Ou eram policias disfarçados de arruaceiros espancando um colega de corporação?
    3: tem um Video circulando na internet em que um membro do sindicato dos professores do rio em discurso em carro aberto agradece a presença dos Black bloc e ainda diz que são bem vindos. Esse Video é editado tb?
    Tem mais algumas perguntas mas paro por aqui pra não ficar muito extenso.
    Abraços,
    Marcelo

  3. Não acho que se trate de uma “armação conservadora”, muita coisa mudou desde a década de 90 e o inicio do século. Acho que estes “mascarados atuais” fazem parte de um grupo que se assemelha aos “anarquistas de capitalismo (anarcocapitalista) ou grupos de postura liberal extremista, cujo objetivo é a eliminação do estado, não possuem um projeto de governança política, desprezam profundamente os partidos e as organizações de interesse coletivo.

  4. Não lhe passou pela mente que poderiam ser esquerdistas jovens, inexperientes, que não fazem idéia do que estão fazendo, não entendem nada sobre política e etc, mas acham que protestar contra o sistema é algo legal de se fazer, se vestindo de preto e dando uma de “black block”?
    Eu acho que é uma questão de definição, é possível que o black block de hoje realmente seja outra coisa, e com isso o posicionamento contrário ao black block seja em relação aos dias de hoje e não em relação ao que esse nome representava no passado.

    Não podemos nos iludir e achar que na direita, esquerda (e todos outros intermediários) tenhamos apenas pessoas conscientes, existem sim muitas pessoas agindo por impulso.

    Concluo dizendo que não acredito que tudo seja sempre manipulação e infiltração da oposição, podem ser sim pessoas de esquerda que não tem idéia do que estão fazendo, e acham que essas táticas são corretas, infelizmente.

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