Oh, my God! Esses médicos não falam português!

Casa e locais onde fui atendida sem me comunicar na mesma língua do que o médico.
Casa e locais onde fui atendida sem me comunicar na mesma língua do que o médico.

Vou contar um treco pra vocês. Desta lenga-lenga toda da (falta de) classe médica sobre o programa Mais Médicos do Governo Federal, não tem argumento mais babaca do que o limite linguístico. BA-BA-CA.

Nessa breve vida louca, eu fui atendida em duas ocasiões por médicos que não falavam a minha língua. Uma vez em Seul, na Coréia do Sul e numa outra em Zonguldak, no interior da Turquia, litoral do mar negro. Na primeira vez a médica arriscou um inglês que não foi lá muito útil mas entre gestos, desenhos e muita paciência consegui explicar que eu tinha hipotereoidismo, havia perdido meus remédios e precisava de receita ou remédio pra mais 4 dias de viagem. Vejam só.

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50 tons de militância

mlk-mx
Percebo que todo mundo tem andado muito preto-no-branco quando se trata da militância política. A ânsia por se posicionar logo e “da maneira correta” (o que quer que isso queira dizer) acaba produzindo aberrações, como aquelas vistas nas últimas semanas quando o coletivo Fora do Eixo de tornou objeto de debate público.

A seção “Opinião” da Folha de São Paulo apresentou ontem e hoje (16 e 17/08) o posicionamento de dois jornalistas sobre a Mídia Ninja e o coletivo Fora do Eixo, autor do projeto. Quer dizer. Mais ou menos. Deveriam ser, pelo que parece, textos sobre a MN. Nenhum deles conseguia analisá-la enquanto um projeto, porém. Ambos carregam nas entrelinhas (e às vezes nas linhas também) a polarização que se deu na opinião pública desde o programa Roda Viva (05/08) que entrevistou Bruno Torturra e Pablo Capilé, apresentados como coordenadores do projeto e membros do coletivo Fora do Eixo.

Essa polarização, porém, pouco tem a ver com a Mídia Ninja, ao que tudo indica. A questão que dividiu a opinião pública, destruiu famílias e acabou com amizades é outra: o coletivo Fora do Eixo presta ou não presta?

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Isto não é sobre perdão

Na semana que terminou, um dos blogues mais populares sobre feminismo publicou um texto um tanto polêmico. Em “Escreva, Lola, Escreva“, a autora deu espaço a uma carta de pedido de desculpas de alguém que diz ter estuprado várias mulheres. Nos comentários pessoais que a autora fez após a carta, porém, ela confundiu duas coisas: a reivindicação punitivista enquanto bandeira política e a reivindicação pessoal/individual de punição por parte das vítimas de violência sexual.  Instaurou-se, daí, uma grande discussão entre blogueiras, twitteiras e facebuqueiras feministas.

Como em todo caso em que não me sinto capaz de opinar, procurei ficar calada e ler as opiniões – em especial de algumas pessoas que considero possuírem posicionamentos sufificentemente complexos e geralmente alinhado com meus valores e bandeiras. Hoje cedo trombei, no Facebook, com este texto da Camilla Magalhães, que explica por A+B o que eu jamais poderia ter dito tão bem. A Camilla é professora de direito, e sempre faz ótimas reflexões sobre criminologia, direito penal e movimentos sociais. Recomendo segui-la, se interessar (no Twitter). Parte importante da explicação vem de um comentário da Hailey Kaas, outra pessoa que tenho a honra de seguir, ler, e que me ensinou demais a repensar meu próprio feminismo, e que também recomendo que vocês acompanhem, leiam, escutem (Facebook e Twitter).

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Carta aos que ousam aprender

[Esta é uma carta endereçada aos adolescentes que foram, nos últimos meses, meus alunos e alunas no ensino médio em um colégio de elite da rede particular do interior paulista. Em sua grande maioria [esmagadora] são adolescentes brancos, filhos de famílias altamente escolarizadas, que moram em condomínios e têm a escola como centro de seu cotidiano.]

Queridxs (ex) estudantes das minhas aulas de sociologia;

Quando descobri que gostava de ensinar acompanhar o processo de aprendizado de pessoas de diversas idades, me deparei com um livro de Paulo Freire. O livro se chamada “Cartas a quem ousa ensinar”. É um belo livro, mesmo eu preferindo não usar jamais a palavra “ensinar” nessa relação entre professora e estudantes. Vocês sabiam, aliás, que em algumas línguas como francês e holandês, a palavra “ensinar-aprender” é uma só? Como se isso já não fosse lindo, ela nada tem a ver nessas duas línguas com os radicais de “ensinar” que eu conheço. É só aprender. Eu aprendo, você aprende. Eu te aprendo, você me aprende. Massa, não?

Essa unificação do verbo faz todo sentido na minha cabeça, agora que faz dez anos que comecei a dar aulas. Dar aulas, aliás (é sempre bom lembrar), é outra coisa ainda, que muitas vezes não tem nada a ver com aprender. Quantos professores vocês já tiveram (ou ainda têm) que não aprenderam vocês, nadinha de nada, em absoluto? Pois é. Não é incomum. Essa era minha missão pessoal, desde o início: saber vocês, enquanto dividia um pouco das informações e do conhecimento sobre sociologia que acumulei nos últimos 8 anos de minha vida.

A educação não é uma coisa, nem um bem. É um processo. Como todo e qualquer processo, não há um indivíduo que detém aquela coisa e simplesmente transmite aos demais. A educação acontece com as pessoas, e somos cada um de nós os protagonistas dessa jornada. Quando as relações pessoais e afetivas fazem parte desse processo, ele nos cativa. E aprendemos mais. Taí o Vygostky que não me deixa mentir. Continuar lendo Carta aos que ousam aprender

Que golpe?

Uma explicação necessária e algumas novas peças para o quebra-cabeças dos recentes acontecimentos em todo o país.

Há pouco mais de 24 horas descobri que um texto que publiquei no Medium tinha se tornado “viral”, como dizem. Não consegui parar de ler comentários, emails, dúvidas, mensagens que chegavam me respondendo se eu estava louca mesmo (por achar que talvez houvesse um golpe de articulando, de alguma maneira). Outros, igualmente interessantes, discordavam de mim e debatiam os pontos que levantei de maneira bem inteligente. Alguns, claro, eram pura baboseira e ódio enrustido e esses, gente, eu não tenho culpa alguma em deletar.

O fato de tantas pessoas compartilharem comigo suas percepções individuais sobre os fatos mais recentes da política, das ruas, me colocou no lugar de espectadora privilegiada. Estou tendo acesso a muitas histórias, relatos, experiências que não teria de outra maneira. Para uma socióloga com um lado de jornalista, é um presente sem tamanho. Agradeço as mensagens e aviso que as responderei na medida do possível (sério, são muitas mesmo).

Essas percepções, histórias, relatos e experiências não deixam de ser peças importantíssimas nesse quebra-cabeças do qual talvez eu esteja sendo porta-voz, mas que claramente não é só meu. Quem não está confuso é porque está de olhos fechados, eu arrisco dizer. Pra ficarmos confusos e confusas todxs de vez, escolhi continuar investigando informalmente esses interesses políticos dissimulados que estão começando a se desenhar um pouco melhor de todos os lados do quadro atual. Continuar lendo Que golpe?

Nascer a primavera para não morrer

O lado lindo da instabilidade política é, afinal de contas, a fome de quem acabou de acordar.

Há quem esteja indignado com o nível de despolitização dos protestos em todos os locais do Brasil. No entanto, nada mais natural do que um protesto despolitizado se é a primeira vez que tanta gente vai às ruas. Se somos produto, enquanto nação, de uma história que tem sistematicamente afastado a população da política.

Ir às ruas, porém, é um fato político. Mesmo de maneira despolitizada, ir às ruas politiza. Dá experiência. Aproxima. A vivência da política nas ruas, somada às discussões na internet, lembra os recém-despertos que eles não precisam voltar a dormir mas que, se não ficarem de olhos bem abertos, a bem da verdade estarão sonâmbulos.

Este é um post, mais que de esquerda, muito otimista. Apesar dos pesares. Meu otimismo momentâneo vem da beleza de algumas mensagens que recebi nessa semana. Sem identificar remetentes, compartilho com vocês algumas coisas das mais belas que já li e em seguida respondo como posso ao anseio de politização que tem tomado conta de tantos brasileiros e de tantas brasileiras.

São as flores que começam a povoar essa nossa primavera. Continuar lendo Nascer a primavera para não morrer

Campinas: não existe qualidade de vida sem mobilidade

Viver em Campinas (SP) nos últimos 8 anos me ensinou que a qualidade de vida do trânsito caótico e do ar poluído de Sampa até que valem a pena quando confrontadas com uma cidade em que é impossível (e muito necessário) se mover.

Me mudei para a cidade de Campinas, no interior paulista, em Março de 2005, quando passei no vestibular para Ciências Sociais na Unicamp. Paulistana, decidi morar no centro da cidade após constatar que Barão Geraldo (distrito onde se localiza a conhecida universidade) não parecia lá muito “agitado”. Eu estudava à noite, trabalhava de dia, e quanto mais serviços, transporte, etc. disponíveis, melhor.

Após um ano morando no centro percebi que estava redondamente enganada e compreendi por que, afinal de contas, a grande maioria dos estudantes da Unicamp optava por morar em Barão Geraldo. A mobilidade na cidade é ainda pior do que o que eu experienciei nos anos anteriores morando em São Paulo. A cidade é inacessível e representa uma realidade que muitas pessoas vivem no interior paulista, não apenas em Campinas. Continuar lendo Campinas: não existe qualidade de vida sem mobilidade

Você É a política.

Tenho ouvido e lido muita gente dizer que “torce”, “espera”, “sonha”, “tem medo” que alguma coisa aconteça ou deixe de acontecer. Hoje conto a vocês que a gente só muda a política fazendo política, e que esse fazer também muda a gente que, por sua vez, muda a política. É preciso começar o ciclo.

“Estou com medo”, diz um. “Espero que não aconteça”, diz a outra. “Torço pela nossa democracia”, comenta um terceiro. Ao perceberem que há um jogo não muito evidente rolando na onda de manifestações, na cobertura da mídia, na repressão policial, muitas pessoas me escreveram com atitudes assim. Se estivermos mesmo diante de um golpe, de uma nova ditadura, de um Estado autoritário, ou da perda de direitos civis e políticos, como enfrentar a situação? O que fazer com a angústia no peito, com o medo crescente, com os planos secretos de fugir do país? Continuar lendo Você É a política.

O curso é “muito teórico”?

Por que continuamos acreditando que um curso “muito teórico” é ruim para arrumar emprego, enquanto o recrutamento das grandes empresas nos diz justamente o contrário?

Recentemente uma pessoa que conheço prestou vestibular e foi aprovada nas três universidades estaduais paulistas e em uma universidade privada ‘de ponta’ no Rio de Janeiro. Em dúvida sobre o que escolher, me fez algumas perguntas sobre a Unicamp, onde estudei na graduação e no mestrado. Me perguntava, a ‘xóvem’: Como é o bairro? Quanto custa o aluguel aí perto? Como encontro vagas em república? Como é a estrutura da universidade? E assim por diante.

Fomos conversando, até que ela chegou numa pergunta que já ouvi muitas, muitas vezes (e que provavelmente, antes de entrar na universidade, também fiz pra várias pessoas): o curso não é muito “teórico”, pouco voltado “ao mercado de trabalho”?

Meu cérebro de socióloga e mestre em educação só me dizia que a pergunta era muito interessante. Me lembrei de quando eu mesma pensava assim, opondo essas duas coisas que, na prática, descobri não serem nada opostas. Continuar lendo O curso é “muito teórico”?

Como encontrar bibliografia relevante?

Algumas dicas de onde e como procurar referências relevantes para sua dissertação de mestrado, tese de doutorado, TCC, artigo e afins. Aproveitem para postar outras dicas nos comentários!

Quando começamos a elaborar um tema de pesquisa sempre sentimos a necessidade de ler mais sobre o assunto que nos interessa, para podermos direcionar melhor as questões que orientam o experimento, observação ou estudo. É comum pedirmos dicas de autores, textos e referências a quem pesquisa o mesmo tema. São perguntas em geral pontuais, queremos saber exatamente o que devemos ler.

Esse tipo de pergunta não nos ajuda muito, se pararmos para pensar. Quer dizer, por que deveríamos depender das referências de outras pessoas para construir nossa bibliografia de pesquisa, se há tanta informação disponível?

Nossa “dependência” de indicações pontuais que colhemos com outras pessoas está ligada a uma falha na formação acadêmica. Você já reparou que raramente nos ensinam a fazer pesquisa bibliográfica? Há pouquíssima orientação sobre o assunto, inclusive na internet.

Reuni aqui algumas dicas que elaborei quando galguei o meu “caminho das pedras” durante o mestrado. Espero que sejam úteis e que vocês possam complementá-las nos comentários ao final do texto! Continuar lendo Como encontrar bibliografia relevante?

Está tudo tão estranho; não é à toa

[texto publicado originalmente no Medium, em Junho-2013]

Um relato do quebra-cabeças que fui montando nos últimos dias. Aviso que o post é longo, mas prometo fazer valer cada palavra.

Começo explicando que não ia postar este texto na internet. Com medo. Pode parecer bobagem, mas um pressentimento me dizia que o papel impresso seria melhor. O papel impresso garantiria maiores chances de as pessoas lerem tudo, menores chances de copiarem trechos isolados destruindo todo o raciocínio necessário.

Enquanto forma de comunicação, o texto exige uma linearidade que é difícil. Difícil transformar os fatos, as coisas que vi e vivi nos últimos dias em texto. Estou falando aqui das ruas de São Paulo e da diferença entre o que vejo acontecer e o que está sendo propagandeado nos meios de comunicação e até mesmo em alguns blogs.

Talvez essa dimensão da coisa me seja possível porque conheço realmente muita gente, de vários círculos; talvez porque sempre tenha sido ligada à militância política, desde adolescente; talvez porque tenha tido a oportunidade de ir às ruas; talvez porque pude estar conectada na maior parte do tempo. Não sei. Mas gostaria de compartilhar com vocês.

E gostaria que, ao fim, me dissessem se estou louca. Eu espero verdadeiramente que sim, pois a minha impressão é a de que tudo é muito mais grave do que está parecendo.

Tentei escrever este texto mais ou menos em ordem cronológica. Se não foi uma boa estratégia, por favor me avisem e eu busco uma maneira melhor de contar. Peço paciência. O texto é longo. Continuar lendo Está tudo tão estranho; não é à toa

Fora ALCA e o FMI! Epa, peraí, errei. Ou não?

Relembrando as batalhas políticas do finalzinho dos anos 1990 e início dos anos 2000, a “primavera brasileira” faz todo sentido do mundo. Como viemos parar aqui, mais de dez anos depois?

Episódio um: 500 anos de QUAL Brasil?

No início do ano 2000 eu tinha 13 anos. A economia do Brasil era um pouco capenga (embora já bem melhor do que uma década antes) e devíamos muito dinheiro ao Fundo Monetário Internacional. Fazia pouco tempo que tínhamos alcançado a universalização da educação básica, e o número de analfabetos ainda era maior do que hoje. A desigualdade social também era maior, o desemprego também era maior. Nesse contexto, que era relativamente dramático, “celebrava-se” os supostos “500 anos” do Brasil.

A Rede Globo e empresas parceiras haviam instalado, na Avenida Paulista (vejam só!), um relógio que fazia uma contagem regressiva para o dia 22 de Abril de 2000. Um relógio ridículo, patrocinado, afirmando que os povos que viviam aqui nos séculos anteriores à chegada dos portugueses simplesmente não eram gente. Como se não fizessem parte da nossa formação. Acho (não, tenho certeza) que faltou um pouco de Darcy Ribeiro pro Roberto Marinho. Pois é.

Adivinhem o que aconteceu?

Fomos lá protestar (e, se possível, demonstrar exatamente naquele relógio, símbolo da palhaçada toda o que sentíamos em relação ao país naquele momento). Foi a primeira vez que eu vi a tropa de choque.Estava com meu irmão, que é um ano mais velho, e alguns amigos e amigas da escola. Corri muito. O coração a mil.

Quando contamos à minha mãe o que não apareceu na TV, ela se horrorizou. Não pela possibilidade de termos nos machucado. Como eudisse aqui, foi ela mesma quem me ensinou que cidadania e política a gente faz sempre arriscando a própia integridade física de alguma maneira, nos momentos mais críticos. Minha mãe se indignou com a semelhança entre nosso relato e a ação da polícia nos protestos dos quais ela participava durante o regime militar.

Mal sabíamos nós que a repressão daquele dia na Avenida Paulista, “justificada” pela polícia por conta de bexiguinhas cheias de guache (sai com água, tá, gente?) lançadas contra o relógio, era um sinal de uma movimentação política maior. Um descontentamento e umquestionamento numa batalha política que a “primavera brasileira” me mostra que ainda está rolando. Esse horror infelizmente voltaria em outros três episódios marcantes nos últimos 13 anos: o A20 (2001), a invasão da PM na reitoria da USP (2011) e o massacre de Pinheirinho (2012). Em paralelo, o massacre invisível da juventude negra paulistaque nunca deixou de acontecer e tem se intensificado nos últimos anos. Embora todos tenham sua importância simbólica e histórica, e todos esse eventos façam parte da insatisfação geral que nos leva às ruas hoje, é o A20 que nos mostra que a nossa primavera vem se desenhando já há algum tempo.

Episódio dois: o “A20″ – Alcaralho com o FMI!

Não é à toa, amiguinhos e amiguinhas, que o “apelido” da manifestação de quinta ficou como “J13″. Não é de hoje essa maneira de marcar os nomes de grandes massacres da polícia em cima de manifestantes. No dia 20 de Abril de 2001, um pouco mais de um ano depois do episódio do relógio, o modus operandi da PM voltou ainda pior. Naquele dia, diversos manifestantes “contra a globalização capitalista” se reuniram na Avenida Paulista (ela, de novo). Manifestantes de diversas classes sociais, cores de pele, correntes, partidos, movimentos. De diversas idades. Não estive nessa manifestação, mas muitos amigos e conhecidos participaram. Uma parte razoável deles terminou no hospital depois da chegada da PM.

Adolescentes de 15 anos com fraturas, estilhaços pelo corpo, cortes, hematomas mil. Uma parte na cadeia, outra no hospital. Não havia internet, nem redes sociais para publicarmos nossos relatos e recebermos relatos dos amigos e colegas. Era no boca-a-boca, nos jornaizinhos de grêmios estudantis e informes de centros acadêmicos, nos jornais de sindicatos, nas reuniões políticas de grupos e associações. A mídia de massas jamais contou essa história. Nenhum jornalista sofreu ferimentos, dos pouquíssimo que foram cobrir o protesto.

Mas o que eram afinal essas manifestações “contra a globalização capitalista”? A “globalização” não é um fenômeno que aconteceu e ponto final? Como é que dava pra ser “contra” se parece que a globalização não foi exatamente uma escolha das pessoas? Mais importante ainda: o que isso tem a ver com a “primavera” que estamos vivendo, no mundo e no Brasil, e o descontentamento geral com os sistemas públicos, com Copa e Olimpíadas, genocídio indígena…?

A história explica:

Com o fim das ditaduras militares na América Latina, impulsionadas fortemente pela guerra fria, os primeiros governos supostamente democráticos foram bem conservadores. Por aqui, a ideia das instituições internacionais, de países hegemônicos e de grandes corporações era continuar mantendo o Brasil como um país extremamente dependente. A dependência econômica era um trunfo que mantinha a distribuição internacional de poder mais ou menos igual. Além disso, o Brasil era um mercado consumidor muito fértil, e a febre das importações (quando a economia novamente se abriu no governo Collor) nos mostra que as corporações e o governo do EUA sabiam muito bem disso.

Pensando nacionalmente, a dependência econômica e a desigualdade social também mantinham a distribuição de poder no país mais ou menos igual. O fim da nossa ditadura militar não significou uma mudança substancial nos grupos ocupando o poder político e econômico (taí Sarney que não nos deixa mentir, a hegemonia dos meios de comunicação de massa controlados pelas mesmas famílias de antes cujas concessões foram dadas pelos ditadores, etc), nesse primeiro momento.

Havia, na época, uma pressão internacional muito grande sobre os países latinoamericanos, para que se voltassem aos interesses puramente econômicos e corporativos internacionais. As definições do FMI e do G8 no Fórum Econômico Mundial representavam essas diretivas que nossos governos seguiram durante esse tempo todo. proposta da ALCA, uma “área de livre comércio das américas” faria as economias latinas serem finalmente engolidas e enterradas pela economia dos EUA.

Mas havia uma pedra no meio do caminho. Ufa.

Na América Latina a população havia passado os últimos 30 anos lutando por direitos políticos, civis e sociais contra seus ditadores. Era inaceitável consolidarmos nossas democracias nos baseando apenas em interesses econômicos de fora. Seria o fim de um projeto de país que estava em disputa, ali. Em outros contextos, as pessoas em muitos outros países (em outros continentes) perceberam que sua qualidade de vida poderia ser fortemente afetada se a preocupação dos Estados nacionais deixasse de ser o bem-estar dos cidadãos, os direitos civis básicos, etc (como vimos acontecer com os próprios EUA, país em que não há sistemas de serviço público e gratuito de saúde, educação, etc).

Organizou-se, então, o movimento “contra a globalização capitalista”. As bandeiras que bradávamos no Brasil e na América Latina eram “Fora Alca!”“Fora FMI” e “Alcaralho com o FMI” (a mais interessante, sempre achei). Nessa época a Argentina entrou em crise depois de abrir as pernas para o FMI, o que seguia comprovando a percepção intuitiva (e histórica) de quem militava nessas causas. Discutiu-se uma moratória geral da dívida externa por parte de todos os países latinoamericanos, proposta que foi rechaçada com força pelo governo brasileiro, comandado por FHC.

Parte desse movimento criou o “Fórum Social Mundial” justamente em oposição ao “Fórum Econômico Mundial”. Se o econômico se realizava sempre em “Davôs”, centro do mundo, o Fórum Social Mundial se realizaria sempre na “periferia” do mundo. Nos países em que o capitalismo mostrava cotidianamente suas falhas, seus problemas, seus resultados dramáticos. Tive a honra de participar de três desses eventos, em Porto Alegre, em janeiro dos anos de 2002, 2003 e 2005. Milhares de pessoas, militantes ou não, ativistas ou não, num espaço privilegiado de convivência para pensar que “um outro mundo é possível”e, afinal, que mundo seria esse.

Não sabíamos. Mas sabíamos que não queríamos aquele que estava se instaurando.

Essa história nos mostra que a “globalização capitalista” não aconteceu da maneira como aconteceu (com o Brasil podendo realizar políticas sociais como o bolsa-família, ou as políticas de cotas e expansão de universidades federais, etc) porque forças divinas assim quiseram. Essa possibilidade existiu porque, em luta, nós barramos a ALCA (sigla que meus alunos, nascidos em 1996 e 1997 nunca escutaram, graças a quem brigou por isso). Construímos os Fóruns Sociais Mundiais.

Em suma, o que dissemos, no início dos anos 2000 foi: queremos um Estado que se volte para as pessoas, e não para interesses de corporações, empresários, e “do capital” (que simboliza esse jogo perverso).

Pois me digam: não é exatamente isso que estamos afirmando agora?

Ao reivindicarmos o livre direito de circular pela cidade sem depender de dinheiro; quando os turcos reivindicam “mais parques” e “menos shoppings”; quando criticamos a Copa e as Olimpíadas; quando pedimos por um marco regulatório nas comunicações; quando lutamos para barrar o Estatuto do Nascituro; quando brigamos pelo direito das pessoas trans* à sua identidade de gênero; quando exigimos que todas as pessoas possam se casar com quem quiserem, se quisere; quando nos recusamos a aceitar que a PM massacre as pessoas na rua; quando denunciamos o genocídio da juventude negra; quando protestamos contra a construção de uma usina que fere direitos indígenas e mata populações e culturas; quando exigimos um sistema único de saúde que funcione e atenda a demanda; quando desejamos um sistema educacional eficaz; quando buscamos ampliar o acesso à universidade:

Não é isso que estamos dizendo? Que queremos um Estado que sirva primeiro aos interesses dos cidadãos, e depois aos interesses de corporações e consumidores?

No fim das contas, parece que todo mundo já entendeu muito bem que essa não é uma luta por 20 centavos. O que precisamos entender, por fim, é que essa é uma luta para definir o que queremos do Estado. O Estado somos nós.

Brace yourselves: spring is coming.

[Este texto foi publicado originalmente no Medium, em Junho-2013]

 

Que ano é hoje, mesmo?

Não fomos assassinadxs, torturadxs e perseguidxs para que o direito à livre-manifestação fosse ameaçado pela PM.

Na segunda-feira, dia 10 de junho, expliquei aos meus alunos do primeiro ano do ensino médio: o Estado detém o monopólio legítimo sobre o uso da violência física. Mal sabia eu que no dia seguinte o Estado, essa supra-organização fundamentada na dominação racional (já diria Weber) daria um exemplo claro da minha explicação, nas ruas da cidade onde nasci, cresci e participei de manifestações.

Venho de uma família de militantes. Aprendi desde bem cedo que ir às ruas causa mudanças sociais, incomoda. Aprendi também que ir às ruas é, no Brasil e em qualquer lugar do mundo, colocar a sua própria segurança e integridade física em jogo. É uma troca. Nos colocamos vulneráveis ali porque a causa é maior. A causa pode ser o direito à cidade, o direito de ir e vir, o fim de um regime autoritário ou eleições diretas.É uma causa sempre maior do que julgamos ser nossa segurança pessoal, individual.

[Aos que ainda não aprenderam, que fique claro: cidadania não tem nada de “individual”. “Individual” é direito do consumidor. Cidadania é necessariamente coletivo.]

Cidadania é a coragem de arriscar sua individualidade pelo bem-estar do maior número de pessoas o possível. O risco que protestar representa à segurança dos indivíduos felizmente nunca fez ninguém deixar de exercer a própria cidadania. Mesmo nos tempos em que ela foi proibida.

Esse é um dos melhores motivos para no indignarmos com o que aconteceu em São Paulo no dia 11 de junho, e com o que está acontecendo hoje, dia 13 (apenas dois dias depois). Para saber mais, recomendo a cobertura da Fórum, a cobertura em tempo real da Folha(apesar dos pesares), o incrível tumblr “O que não sai na TV”, a cobertura da Agência Pública de notícias em seu Facebook e, claro, a página do Movimento Passe Livre.

Um resumo dos fatos poderia ser o seguinte: temos presos políticos. O fato de termos, nesse momento da história do Brasil, presos políticos, diz muito sobre a relação entre Estado e cidadania que estamos vivendo. Jornalistas, trabalhadores e estudantes foramdeliberadamente encarcerados no dia 11. Mesmo com alvará de soltura de dois presos, eles foram transferidos para presídios dificultando a liberação. Fianças desproporcionais foram estabelecidas. Na manifestação marcada para hoje, estima-se que 60 pessoas tenham sido presas na primeira hora de concentração (ou seja, antes mesmo de começar a manifestação), entre elas um jornalista da Carta Capital. Sessenta cidadãos e cidadãs foram detidxs pela possibilidade de haver protestos. Líderes do movimento estão sendo investigados pela Abin com base em atuação nas redes sociais e alguns foram caçados e presos no ato agora há pouco, pelo que informam os manifestantes.

Aí eu pergunto:

Que porra é essa?
QUE PORRA É ESSA?

Em 2013 precisaremos cobrir o rosto para que a polícia não nos filme, como já avisou por meios dos jornais que faria? Precisaremos combinar local de manifestações no boca-a-boca, usando codinomes, como se fazia durante o regime militar? Foi pra isso que centenas de pessoas arriscaram sua segurança, sua integridade física e suas vidas durante a ditadura?

Minha mãe, meus professores, meus heróis e heroínas foram presos, torturados, mortos para que eu pudesse ter o direito constitucional de me manifestar numa democracia. A PM corrupta (mantida corrupta e mantida no poder pelo PSDB que ocupa o governo do estado há 20 anos) empoderada pela ausência e omissão do prefeito em quem EU VOTEI e pra quem FIZ CAMPANHA, está jogando esse direito no lixo. Está fazendo pouco com a nossa cara. Está impedindo o exercício da cidadania.

Como bem disse o blogueiro no “Esquema”, essa luta obviamente não é mais sobre 20 centavos (leia aqui). Assim como a luta em Istambul não é sobre o Parque Gezi. Assim como a luta em Belo Monte não é (e nunca foi) sobre uma usina hidrelétrica.

[Este texto foi publicado originalmente no Medium, em Junho-2013]