Todos os posts de @MariliaMoscou

útero frio

volto ao escuro
torno ao útero frio
e tudo que eu era
antes esvazio

do alto do murro
que levo na face
mastigo lenta o cordão
que me sufoca

quase

recebo luz
recebo sal
recebo dor
recebo na pele pontadas
duras de calor

invento o velho
e vento o novo
fênix que eclode
livre
o próprio ovo

vipera aspis

você às quartas junkie
eu terças acordo menor
sonho úmido
sei de cor:

que subverta-me toda
submeta-me e foda
vidrada, áspide cresce dura
e cospe em minha boca
mistura amarga
veneno
tabu

sábado gozo
e domingo
no teu rosto
nu

escorro
ao comer começo
do meu cu e guio profano ao fundo
assim justo
porque ainda
cru

celebro meu ano
a cada gota que te guardo
feito joia
em meu copo
corpo

baú

grito fundamental

En la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras,
noches,
poemas

(Leminski)

 

lanço esta pedra
– camaradas futuros! –
fundamental
já lascada
polida
aponta a ponta e crava
na ferida

Fundo esta luta
– camardas eternos! –
classe a classe
que atiça o fogo
em catarse.
A chuva contralto
mezzo soprano
corrói aguda em ácido e molha
profano.

(Acre
com acre se combate
– companheiro; por acaso queres
um pouco de vinagre?)

Fumo esta pedra
– camaradas extintos! –
filosofal
já moída e dichavada
contorcida
bem bolada
nas folhas de meus livros militantes
ou nas fotografias em papel-jornal
queimadas às pressas
aos prantos
e sinto
aquilo que também canto.

Vos mando então, camaradas
à fogueira
às favas
ao que resta das palavras
este monolito:
meu eterno,
futuro,
e agora já extinto

grito.

 

 

* * *

[poema escrito para a coletânea “poemaço contra a copa”, organizada pelo querido Tomaz Amorim e disponível por inteiro a quem gosta de bons poemas aqui]

* * *

[a quem interessar possa: este poema é também um diálogo com meu eterno amor maiakovski, por este motivo]

invisível

Violão no colo
o blues no peito
e te olhava
invisível

em balé trôpego
escorada na porta
tua
de tão bêbada
ou de tão feliz

te olhava ave rara
– pavão misterioso –
corpo tenso
imóvel
eu sorria besta em gozo
mas você me viu

pé ante pé
em pé parei ao teu lado
(seguia concentrado)
nas horas tão poucas
rápidas
e últimas da noite

teus olhos dançavam
balé e refrão
mergendo letra e melodia
no meio da canção você ria
espetáculo
raro e feito imaginação

[certas as horas
ex – pressas
passavam
modestas quando]

em sonho forte
fui eu,
acorde
e manhã revestida de azul
– teu torpor todo
em meu corpo
torpe
: você me abraçava nu
incendiava-me o sul
sorvia minha face (norte) e
eu provava do teu gozo
cru

foi coragem e fôlego
eu sóbria mas os pés trôpegos
e pernas bambas de ter que partir
(desviar de mim mesma sem cair)
me despedi

hoje guardadas as proporções,
memórias,
dilemas;
ou uns dias mais e te escrevo em poema
como quem represa água do mar
encaixota fumaça
: releio, rio, acho quase graça
que nenhum verso,
nem palavra nenhuma

jamais diz a cor,
o som,
o brilho

da tua pluma.

o beijo

queria tua sombra cativa
a boca saliva
o gosto de sal
memória olfativa

meu bem
és quem,
carnaval?

queria te ouvir que
me inventa samba
antes de dormir
vendada
mesmo deitada
minha perna bamba
(até a sexta
santa)

e no caminho do passeio ao farol
libertar sereia de anzol:

dizer que te quero em espanhol
beijar como Klimt sob o lençol

Hoje eu subi numa bicicleta

hoje eu subi numa bicicleta.

uma bike, magrela, bici. era meio verde, pneus mais grossinhos, mas não era BMX. só sei porque a placa dizia lá: “não temos bicicletas BMX, não usem a pista de bicicross”. senão não ia reparar. ela tinha câmbio, um escritozinho “shimano” embaixo do botão de mudar a marcha. já ouvi essa palavra antes, “shimano”. eu que era a outsider por não andar de bike. quer dizer. saber até sabia, “mas faz vinte anos que não subo numa”, explicava eu. eu sei que não se esquece; não era esse meu medo. tampouco era medo de cair (quem me conhece sabe muito bem que caio muito, até andando, então não preciso de bike pra isso). meu medo era a gente, sabe. todas as pessoas.

hoje eu montei numa bike.

foi naquele parque, no mesmíssimo parque que a última vez. não me lembro se caí. não lembro de trombei com alguém. se fui chamada de gorda. se riram de mim. não lembro. mesmo. mas lembro que contei os anos, de cabeça, desde então. contei que havia um mês não subia numa bike. depois seis meses. um ano. dois. cinco. dez. quinze. minto quando digo que foram vinte – é só pra arredondar, sabem como é. era algum dia de verão quando eu tinha 10 anos de idade, provavelmente no início de 1998 ou finzinho de 1997. me recordo da clareza com que contei os dias; talvez eu soubesse que passaria muitos anos sem andar de bicicleta (quem sabe?). dezessete anos, cara. dezessete anos sem empoleirar numa magrela.

hoje eu me empoleirei numa magrela.

depois de tantas tentativas abortadas, hoje eu tinha me decidido. não ficaria mais nenhum dia sem saber, na vida adulta, o que é estar numa bicicleta. minhas amigas andam de bicicleta. eu frequento o bar da galera da bicicleta. foram tantas dicas, palavras de encorajamento, lindos relatos. eu tinha que saber o que era aquilo, afinal. em todas as vezes anteriores desmarquei, enrolei, achei desculpas. desculpinhas, desculpões. porque é isso que são, só: desculpas. não existe nenhum bom motivo pra não andar de bicicleta. foi lá, em cima da bendita, meio cambaleante no começo, sentindo as coxas empurrarem os pedais, olhando para a frente e ventando para trás, que eu entendi, então, o que tinha me impedido, nos últimos dezessete anos, de andar de bicicleta: aquela peça esquisita, meio desengonçada, que fica sobre o selim e se apoia no guidão. conhecem?

hoje eu subi numa bicicleta.

numa bicicleta, livre de mim mesma. ainda me desconcentrando com pessoas, temerosa pelos carrinhos de bebê desavisados que cruzavam meu caminho. mas eu fui. na pior das hipóteses quem cairia seria eu, a frear desajeitada nas bordas da pista. levei dezessete anos para descobrir que quem decidia isso não era ninguém; só eu. dezessete anos pra sacar que eu podia estar ali, guiando, pedalando, decidindo, fazendo vento com os pés. eu estava sozinha, mas não estava só. depois das primeiras pedaladas e de uma freada desajeitada, encontrei na pista uma família. a menina devia ter a idade que eu tinha quando pedalei pela última vez, e o pai a ensinava a pedalar. a mãe gritava palavras de encorajamento. sentei num banco e olhei. chorei. que coisa linda, isso de andar em bicicleta. lembrei das tardes na praia, indo longe com os primos e primas. eu chegaria em qualquer lugar que eu quisesse, com minha própria força e energia. tem um quê de liberdade aí, é inegável. naquele parque em que eu parei de andar de bicicleta, a menina aprendia a liberdade que eu perdi. enchi o peito diante da cena, olhei para frente e fui.

hoje eu voei numa bici,
bike
magrela.

hoje eu voltei a andar de bicicleta.

feliz

feliz

 

Fui uma adolescente feliz

Screen-Shot-2013-02-27-at-8.59.15-AMA todas as meninas, meninos e menines que tive a honra de conhecer quando adolescentes, fosse como professora de inglês ou de sociologia. A quem não conheço mas passa pelas dores e delícias de ser adolescente hoje.

Bonitas, bonitos e bonites;

uma vez vocês me perguntaram por que eu gostava tanto de vocês. Devo ter respondido o mesmo que digo agora: fui uma adolescente feliz. É claro que a vida não dá trégua e nem tudo foi lindo. Quando adolescente vivi a morte do meu melhor amigo. Vivi medo de ficar grávida apesar de todos os métodos contraceptivos. Vivi o medo de “não dar certo”. Vivi o peso do mundo em minhas costas. Achei que a escola me definia. A adolescência é difícil. Não tem outra palavra. É difícil, mesmo. Ao mesmo tempo, parece que a maioria dos adultos se esqueceu de quão difícil é esse pedaço da vida, e acaba infernizando ainda mais a vida de quem o experimenta. Pois é. Tem gente que esquece rápido. Eu não esqueço.

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