Autor: @MariliaMoscou

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Entrevista AntiCast: junho de 2013, o golpe & beyond

No último mês de março tive o prazer de ser entrevistada pelo Ivan Mizanzuk para um episódio do podcast AntiCast, que aproveito para recomendar a quem se interessa por política e por diversos assuntos. Na entrevista, além de comentar sobre as análises que fiz em junho de 2013 (e que infelizmente estavam bastante corretas) sobre a possibilidade de golpe, recrudescimento do conservadorismo, etc., também proponho uma análise da conjuntura atual e explico alguns processos importantes para entendermos o que está acontecendo no Brasil e no mundo hoje. Você pode ouvir essa entrevista dando play a seguir:

POESIA

ao meu partido, de Pablo Neruda

Ao meu partido (Pablo Neruda) (tradução de Marília Moschkovich) Você me deu a fraternidade com aquilo que não conheço. Você me agregou à força de todos os que vivem. Você me deu novamente a pátria, como em um nascimento. Você me deu a liberdade que o solitário não tem. Você me ensinou a acender, como fogo, a bondade. Você me deu a retidão de que precisa a árvore. Você me ensinou a ver a unidade e a diferença entre os homens. Você me mostrou como a dor de um ser morreu na vitória de todos. Você me ensinou a dormir

POESIA

POÇO PEDRA PEIXE PULSO

a melancolia de asas rasgadas despenca as penas cinzas na beirada fênix num desfiladeiro de ossos & esterco pousa fundo no lago preto perco a melancolia e sua tez espelhada inunda de piche os campos de arroz deságua mata no mar de casas transvaza vala feroz fóssil  _____ & _______ pedra _____________ & _______________ peixe _____________________ & _______________________ areia a melancolia, garganta gelada berra a caverna cheia milênios de lâminas seladas rasgam água argilosa e porque limpa a caverna melancolia goza

POESIA

trinta

sonhei que te encontrava, meu amor e você me dizia sério o resultado das eleições presidenciais dos EUA e eu nem imaginava que já era hora pra isso acabei de acordar, não tomei meu café, ainda não comi nada (ou talvez nem tenha ido dormir que o corpo anda quente e quando durmo eu tenho frio) eu quis tomar um banho no escuro para ver se passava o corpo do menino decapitado pelo capitão-do-mato ou se passavam esses quase trinta anos desde a queda do muro de berlim eu quis escrever um poema para ver se convencia um algoritmo ou

POESIA

a crise vai passar

a crise vai passar. você pode enquanto isso abrir um guarda-chuva ou esperar quietinho sob um teto. você pode economizar: é só cada um respirar apenas as moléculas realmente necessárias e plantar um número suficiente de árvores numa economia colaborativa atmosférica (chegou o futuro melhor!) até que tudo se restabeleça. a crise vai sim, passar. em momentos de leveza você pode tentar a dança da crise ou encher as bochechas de bolinhos de crise; você pode se lembrar, antes de sair de casa, de olhar a previsão: – tempestade no mercado – queda brusca na temperatura do dólar – sensação

querido diário

time is never time at all

é duro mas também é belo. voluntariamente me jogar de um zepelim prateado sobre a lua. o frio na barriga sendo muito, abrir um guarda-chuva e atenuar a queda. encontrar meus demônios – uma longa batalha em que ora estou em vantagem, ora estou imóvel. enfim conseguir deixá-los para trás. em vez de tentar subir, descer. descer até o fundo mais fundo que se possa. o fundo que parece assustador mas é – enfim – belo. voltar um tantinho mais pra cima. jamais para terra firme. jamais estática. flutuo em um navio até, quem sabe, o próximo salto. Time is

POESIA

segundo exercício

planejo sobreviver com tempo. mentira. sem tempo sou o isso que planejo: filosofar nos minutos de intervalo entre a cama, o banheiro, o trabalho namorar personagens, enredos, roteiro quarto fechado, chorar no chuveiro (degustar aquela siririca) mas não só vejo o isso que planejo vislumbro um tododia sem rotina sem Dickinson presa em casa sem Mrs Dalloway barganhando flores sem Plath implorando pelo gás pelo simples motivo de mulher-e-casa-:- que-combinação- insuportável espero me deitar sobre as grandes coisas do mundo sobre guerras e revoluções sobre exércitos, cartas trocadas, amantes descobertas sexuais infantes, distopias sérias a mim resta cobrar de minha

POESIA

primeiro exercício

eu queria escrever com tempo. mentira. sem tempo. é isso que eu queria: escrever nos minutos de intervalo entre a cama, o banheiro, o trabalho criar personagens, enredos, roteiro quarto fechado, cantar no chuveiro (bater aquela siririca) mas não é só isso que eu queria eu queria um tododia sem rotina sem Dickinson presa em casa sem Mrs Dalloway comprando flores sem Plath afogando-se no gás pelo simples motivo de mulher-e-casa-:-que-combinação-insuportável eu queria escrever sobre as grandes coisas do mundo sobre guerras e revoluções sobre exércitos, cartas trocadas, amantes descobertas sexuais infantes, distopias sérias a mim cabe falar de minha

POESIA

manifesto

de um futuro eu me lembro : teus olhos assim pretos pontos de carvão em brasa   nós repartíamos fumo, nós repartíamos casa.   jogávamos – ao alto – moedas e sobre as moedas abríamos páginas: o futuro comum em rota de ascensão   as moedas caíam e repartíamos pão.

POESIA

léu

são ondas e timbres graves que lambendo recobrem-te do topo à base são lufadas e furacões são olhos fundos escuros contínuos vácuos surdos são galáxias constelações enfrentam-se em batalhas touros e escorpiões por teus universos sem sóis teus cabelos não têm caracóis

POESIA

cortina de ferro

sonho verossímil que vamos a berlim e escolho cuidadosa o fim que escrevo pouco a pouco o lápis range no papel rouco à minha frente o que nos separa : palavra feito tijolo e coração duro : para você um muro é só um muro é só um muro é só um muro

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