Xoxotas, da origem do mundo à revolução

O “falo” de Freud não era exatamente um pênis, “o” pênis material. Era a masculinidade hegemônica – a forma dominante de ser masculino – que se materializava nessa imagem. A imagem da xoxota* é a antítese numa sociedade falocêntrica. A xoxota é uma revolução.

Os museus de arte são parte desse esquema de dominação, simplesmente porque a arte trabalha com símbolos e a definição sobre o cânone da arte está inscrita no mesmo modelo simbólico falocêntrico-masculino. A arte, como a educação, a literatura, etc. tendem a reproduzir a estrutura social, exceto quando pensadas enquanto ruptura política.

Quando uma artista mulher se prostra, xoxota à mostra, em frente a um quadro que mostra uma xoxota, é essa a tensão que podemos ver. O vídeo abaixo foi gravado no dia 29 de maio, no Musée d’Orsay, em Paris. Transcrevo e traduzo abaixo o texto que a artista lê repetidamente durante os seis minutos de duração.


Une artiste expose son sexe sous «L’origine du… por quoi2news

Je suis l’origine
[Eu sou a origem]

Je suis toutes les femmes
[Sou todas as mulheres]

Tu ne m’as pas vue
[Você não me viu]

Je veux que tu me reconnaisses
[Quero que me reconheça]

« Vierge comme l’eau créatrice du sperme. »
[“Virgem como a água que cria o esperma”]

A história da performance é toda genial. Começando pela ausência de artistas mulheres em museus como esse. Quando estive lá em 2010, me lembro de ver todo o acervo anotando quantas artistas mulheres tinham obras ali, em meu caderninho de quem é pão-dura demais (alguns diriam sensata, até) para comprar um moleskine. A soma total das obras de mulheres, pelos meus cálculos na época, foi de incríveis zero.

Ao mesmo tempo, o Centre Pompidou exibia três andares de obras produzidas exclusivamente por mulheres, numa exposição que inclusive veio ao Brasil em 2013. Devo ter ido pelo menos uns dois dias para ver tudo: de Frida Kahlo a Nikki de Saint-Phaille e Guerilla Girls. Na mesma época tomei contato com o genial documentário “Women Art Revolution”, que posto a seguir.

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A beleza e o impacto da performance de Deborah De Robertis em frente ao quadro de Gustave Courbet  fazem parte da desconstrução de um modelo já decadente de conformação dos gêneros. A artista questiona, de uma só vez, a organização falocêntrica da sociedade, a ausência das mulheres em museus, o tipo de presença das mulheres em museus, e uma moral hipócrita nas relações entre realidade e ficção. Numa entrevista, depois de ter sido presa e congratulada pelo diretor do museu, a artista disse:

“É difícil resumir em poucas palavras. Eu empresto meu rosto ao ‘A Origem Do Mundo’, mas sobretudo minha voz. No áudio, sigo que ‘sou todas as mulheres’. É simbólico. É uma reflexão também sobre a questão da censura. Gustave Courbet escandalizou em sua época com ‘A Origem do Mundo’ (1866). Quando as seguranças tentam me retirar dali, é como se estivessem roubando um quadro. Isso faz parte da performance. Eu havia previsto essa possibilidade, como também o oposto. Não havia derrota possível.”

[leia a entrevista completa em francês, aqui]

É curioso também que as seguranças do museu que aparecem no vídeo sejam mulheres. E dizem, em alto e bom som: “Ça suffit!” – ou seja, “Basta”, “Chega”. Devo discordar, caras amigas. Não chega. Não basta. O que precisamos é de um mundo em que a xoxota exista. Nas palavras da artista, “quero que você me reconheça“. Não queremos ser o segundo sexo, ou o sexo que não existe, pensando Beauvoir e Irigaray. Não queremos o corpo – a xoxota – como prisão mas como liberdade. Parafraseando Valesca: my pussy é o poder.

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*Xoxota sim, porque “vagina” é biológico demais, medicalizado demais, científico demais. A vagina é um trecho de um órgão como foi dividido pela medicina de quem nunca a possuiu. A xoxota existe na realidade. Fico, então, com ela.

2 comentários sobre “Xoxotas, da origem do mundo à revolução”

  1. Mostrar a xota num mundo de pornografia onde xotas são exibidas como mercadorias para os machos….nossa,que revolução!!! Realmente vamos mesmo ser vistas como seres humanos imitando Valesca popozuda,sendo a puta que o patriarcado criou para sermos!! e viva la liberte,dos homens!!

  2. Admiro seu texto em geral, mas, não obstante, não terias aí incorrido em alguma modalidade de superinterpretação? Um homem que, por qualquer razão, resolvesse colocar o pinto para fora num lugar público não seria igualmente alvo de um movimento de repressão ao seu ato? Confesso que minha primeira impressão acerca da performance em questão foi de redundância: afinal, a imortal xoxota de Courbet já estava ali, na parede, aberta e imensa, para qualquer um que quisesse lhe observar longamente. Qual a razão de mostrar outra?

    Mais sério do que a redundância (que em si nem é um mal, sendo, antes disso, irrelevância) é a citação de Valesca (se bem entendi, ou seja, como uma referência positiva de sua parte). O que Valesca, as funkeiras-putaria e as vadias em marcha parecem não entender é que a pussy só tem poder numa sociedade machista, um poder que, não obstante, é impotente para gerar liberdade.

    O corpo é uma prisão apenas e tão somente para os indivíduos que têm negada a condição de sujeitos. E de nada adianta fazer apologia do próprio corpo, da xoxota, tentando conferir positividade a uma condição criada pelo machismo. A piriguete e a funkeira que promete ser tão “comedora” quanto os homens, são tão oprimidas quanto as usuárias muçulmanas da burca. Em ambos os casos, apenas limitam-se a cumprir uma condição criada para elas pelo machismo.

    A verdadeira revolução da mulher não virá da luta pelo pobre direito de exibir o corpo como objeto e não ser tratada como objeto (o que é, a propósito, uma contradição nos termos). Virá de algo próximo ao contrário disso, ou seja, do direito de não exibir o próprio corpo e de não ser social/culturalmente desvalorizada por isso. Quando chegar este dia, aí sim, a mulher poderá fazer do seu corpo o que quiser, mostrá-lo ou não, que isso não será mais importante, já que ela deixará finalmente de ser referenciada como corpo/objeto, passando a ser, plena e tão somente, um sujeito – ou sujeita.

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