50 tons de militância

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Percebo que todo mundo tem andado muito preto-no-branco quando se trata da militância política. A ânsia por se posicionar logo e “da maneira correta” (o que quer que isso queira dizer) acaba produzindo aberrações, como aquelas vistas nas últimas semanas quando o coletivo Fora do Eixo de tornou objeto de debate público.

A seção “Opinião” da Folha de São Paulo apresentou ontem e hoje (16 e 17/08) o posicionamento de dois jornalistas sobre a Mídia Ninja e o coletivo Fora do Eixo, autor do projeto. Quer dizer. Mais ou menos. Deveriam ser, pelo que parece, textos sobre a MN. Nenhum deles conseguia analisá-la enquanto um projeto, porém. Ambos carregam nas entrelinhas (e às vezes nas linhas também) a polarização que se deu na opinião pública desde o programa Roda Viva (05/08) que entrevistou Bruno Torturra e Pablo Capilé, apresentados como coordenadores do projeto e membros do coletivo Fora do Eixo.

Essa polarização, porém, pouco tem a ver com a Mídia Ninja, ao que tudo indica. A questão que dividiu a opinião pública, destruiu famílias e acabou com amizades é outra: o coletivo Fora do Eixo presta ou não presta?

Dezenas de pessoas me enviaram emails ou mensagens pedindo minha opinião. A página Mães de Maio deu uma declaração quando provavelmente tantos de seus seguidores fizeram o mesmo. Parecia, como às vezes tem parecido, que todo mundo TINHA QUE marcar sua posição. Parecia também, como quase sempre parece, que só havia duas posições a tomar: “conosco” ou “contra nós”. O curioso é que muitas pessoas que criticaram o FdE dizendo que eles tinham esse tipo de atitude acabaram por reproduzi-la para o lado contrário, sem reconhecer os ganhos e pontos positivos de uma iniciativa como a MN ou outros projetos do FdE.

Os grandes problemas que vieram à tona sobre o funcionamento do coletivo, na verdade, são comuns em diversas organizações e grupos de esquerda – e vale dizer que digo aqui “de esquerda” porque com a direita eu não dialogo; a direita não é objeto de disputa e militância para mim; mas têm os mesmíssimos problemas, muitas vezes de forma até agravada. Que atire a primeira pedra o grupo de esquerda, corrente de partido, etc. que nunca foi machista, racista, homofóbico, transfóbico. Que nunca foi acusado de não levar críticas em conta. Que nunca foi metido e arrogante com quem tentava formular uma crítica, se colocando como “superior” porque já “sabe a verdade das coisas”. Vamos lá, gente: quantas organizações, correntes, partidos, grupos, coletivos a gente consegue listar que já fizeram as mesmíssimas coisas que estão sendo criticadas sobre o Fora do Eixo? Não foi de longe a primeira vez que eu ouvi relatos de uso misógino e machista das militantes mulheres para “cooptar” mais membros. Não conheço nenhum partido da nossa esquerda sobre o qual eu não tenha colecionado relatos disso nos quase 15 anos de militância política que tenho nas costas. Façam-me o favor.

Mas olha só. Puxa. Isso quer dizer que nenhuma das ações, propostas, projetos, atividades, etc. de nenhum desses grupos e partidos é válida? Isso quer dizer que todos deles devam ser recusados, boicotados? Que devemos parar de dialogar com eles, de construir juntos?

Para mim, não.

É perfeitamente normal, embora não seja aceitável, que todos os grupos reproduzam os esquemas de dominação, opressão e desigualdade sobre os quais nossa sociedade se estrutura. Ninguém está “a salvo” só por conscientemente se saber contra essas opressões. Todas e todos fomos educados e vivemos no machismo, no racismo, no heterossexismo, no cissexismo, no elitismo. Um militante de esquerda, de um partido socialista, muitas vezes é elitista. Uma militante feminista pode ter atitudes machistas. E assim por diante, com todas as variáveis cruzadas. É por isso que insistimos tanto na intersecionalidade dos movimentos: nenhuma causa é prioritária ou superior. Não podemos pensar em revolução sem derrubar sistemas de pensamento, disse alguém aí outro dia [quem lembrar a fonte me avise].

Qual a diferença então entre esquerda e direita, nesse sentido?

Na esquerda há espaço, a princípio, para diálogo. Quando não há é que é problemático. Só que “diálogo” implica necessariamente em dialética, em levar em conta os pontos colocados pelo contra-argumentador. Discutir sobre o que já foi colocado. Isso simplesmente é incompatível com a ideia de “atacar” e “defender” que se tem adotado por aí. A questão quase nunca é apenas ser “contra” ou “a favor” um certo grupo, mas posicionar críticas que reconheçam os problemas e as virtudes. Dizer exatamente do que se está falando, sem “jogar a água do banho fora com o bebê” [não gosto muito dessa metáfora mas, né, cabeu].

Outro dia uma (ex) aluna me perguntou se não era hipócrita uma feminista se casar ou se depilar, por exemplo, sabendo que essas são marcas de uma cultura machista. Eu respondi que não achava hipócrita, mas que sim, é contraditório (hello, eu sou casada, hein? no esquema mais patriarcal, que é monogâmico e heteroafetivo, vejam só). Ela então quis saber se não era um problema. Respondi que somos seres de contradição, porque escolhemos questionar e lutar contra os esquemas de pensamento que existem e que nos constituem enquanto cidadãos. É preciso aceitar a contradição no nível individual – eu, pessoalmente, escolhi me casar neste modelo -, sem abandonar a percepção acurada sobre onde esse individual se localiza no estrutural, coletivo – não acho que seja a única, nem talvez a melhor forma de se relacionar amorosa e sexualmente para todo mundo, nem que seja necessariamente algo revolucionário ou até mesmo que seja “bom”.

Quer dizer, não é só porque eu fiz essa escolha que necessariamente acho ela a melhor do mundo. Gosto de assistir Big Brother Brasil uma vez a cada dois anos, mais ou menos, o que não signifique que eu ache que é um programa bom. Eu não preciso gostar só do que é bom e nem preciso achar algo bom e defender como bom só porque eu gosto. Ué. Seria meio arrogante, egocêntrico, não?

Mas é mais ou menos essa mentalidade que impede o FdE, muitos dos que os criticam, e tantos outros grupos de esquerda de se reiventarem, de melhorarem, de se corrigirem. É essa mentalidade que dificulta tanto a construção de movimentos sociais verdadeiramente intersecionais. É essa ideia boba de que assumir que errou, mudar de opinião, etc. é o mesmo que perder a credibilidade, ser “fraco”, etc. Minha gente, não existe “ganhar” argumento. Existe construir – pelo menos se estamos falando de um diálogo.

Tudo isso pra dizer que a esquerda está em disputa. Não caiamos nas armadilhas postas pela direita, que não quer disputa, só ataque e defesa. Também não caiamos no protocolo governista que temos visto por aí, de defender tudo de qualquer maneira a qualquer custo “só porque vem de uma organização de esquerda”. Muita calma nessa hora, que a militância não é preto-no-branco. É 50 tons de todas as cores do mundo.

 

 

 

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