Arquivar 2015

en la lucha de clases

as escolas ocupadas,
os trabalhadores da usina,
os povos indígenas,
soletram
s o l i d a r i e d a d e
em maiúsculas não-capitais
então, come;
come ananás.
prepara o natal e mastiga;
mastiga perdiz.
faz birra em redes sociais,
burguês,
 
estás
por um triz.

a crise vai passar

a crise vai passar.
você pode enquanto isso abrir
um guarda-chuva
ou esperar quietinho
sob um teto.

você pode economizar:
é só cada um respirar
apenas as moléculas realmente necessárias
e plantar
um número suficiente de árvores numa
economia colaborativa atmosférica
(chegou o futuro melhor!)
até que tudo se restabeleça.
a crise vai sim, passar.

em momentos de leveza você pode tentar
a dança da crise
ou encher as bochechas de
bolinhos de crise;
você pode se lembrar,
antes de sair de casa,
de olhar a previsão:
– tempestade no mercado
– queda brusca na temperatura do dólar
– sensação térmica desfavorável
– alta incidência de raios inflacionários

(melhor espalhar muito bem sobre as maçãs do rosto e o nariz
uma generosa camada de filtro. ignore o cheiro, é por pouco tempo
já que a crise, como eu disse, há de passar.)

ora, se nada disso der certo, ainda teremos
nossos abrigos anti-crise,
munidos de comida enlatada,
colchões de feno, batalha naval
em bloquinhos de papel,
volumes mortos nas prateleiras,
e apenas meia dúzia de ratos:
ali contaremos histórias

dos idos tempos de antes da crise,
de como éramos felizes, do privilégio
de termos planilhas pra manter a cabeça ocupada,
ou cinquenta horas de jornada.

escreveremos versos, faremos fogueiras imaginárias
e oraremos pela deusa inflação.
transmitiremos a cada nova geração
pouco espontânea a nossa cosmogonia:

num trapézio oferta e procura revezando-se com piruetas e acrobacias,
uma orquestra invisível regida pela mão da meritocracia, coreografia macabra
num circo mambembe de lona rasgada
com arquibancadas que cheiram a mijo e palhaços deprimidos que
no fim do espetáculo abusam meninos, enquanto elefantes
cansados com seus chifres e orelhas remendados
cagam nas margens do picadeiro sobre uma plateia de esfomeados.
engolem a bosta na esperança de alguma proteína, a massa
espectadora no chão de espelhos assiste
à própria chacina.

com gosto de esterco entre os dentes esculpidos em marfim,
aguentaremos um a um, e teremos fé.
nos esqueceremos do mundo lá fora, repleto de crise,
nos convenceremos e resistiremos à espera de um sinal divino.
proibiremos os dissidentes de abrirem as portas do alçapão:
não deixaremos a crise entrar.
com o passar dos meses, devoraremos
primeiro os membros menos importantes,
ao som do realejo que melancólico anuncia:

– abandonai as esperanças, vós que aqui estás;
a morte é certa como a crise,
e a crise, vocês sabem,
não se cansa
de passar.

time is never time at all

é duro mas também é belo. voluntariamente me jogar de um zepelim prateado sobre a lua. o frio na barriga sendo muito, abrir um guarda-chuva e atenuar a queda. encontrar meus demônios – uma longa batalha em que ora estou em vantagem, ora estou imóvel. enfim conseguir deixá-los para trás. em vez de tentar subir, descer. descer até o fundo mais fundo que se possa. o fundo que parece assustador mas é – enfim – belo. voltar um tantinho mais pra cima. jamais para terra firme. jamais estática. flutuo em um navio até, quem sabe, o próximo salto.


Time is never time at all
You can never ever leave without leaving a piece of youth
And our lives are forever changed
We will never be the same
The more you change the less you feel
Believe, believe in me, believe
That life can change, that you’re not stuck in vain
We’re not the same, we’re different tonight
Tonight, so bright
Tonight
And you know you’re never sure
But you’re sure you could be right
If you held yourself up to the light
And the embers never fade in your city by the lake
The place where you were born
Believe, believe in me, believe
In the resolute urgency of now
And if you believe there’s not a chance tonight
Tonight, so bright
Tonight
We’ll crucify the insincere tonight
We’ll make things right, we’ll feel it all tonight
We’ll find a way to offer up the night tonight
The indescribable moments of your life tonight
The impossible is possible tonight
Believe in me as I believe in you, tonight

 

segundo exercício

planejo sobreviver com tempo.
mentira. sem tempo
sou o isso que planejo:

filosofar nos minutos de intervalo
entre a cama, o banheiro, o trabalho
namorar personagens, enredos, roteiro
quarto fechado, chorar no chuveiro
(degustar aquela siririca)
mas não só vejo o isso que planejo

vislumbro um tododia sem rotina
sem Dickinson presa em casa
sem Mrs Dalloway barganhando flores
sem Plath implorando pelo gás pelo
simples motivo de mulher-e-casa-:-
que-combinação-
insuportável

espero me deitar sobre as grandes coisas do mundo
sobre guerras e revoluções
sobre exércitos, cartas trocadas, amantes
descobertas sexuais infantes, distopias sérias
a mim resta cobrar de minha era
espiões russos imigrantes poloneses
uma gueixa no Japão
máquinas do tempo demônios espíritos
poetas

a mim sobrei eu mesma
e a minha era, ela mesma
e a minha cabeça, ela mesma
e o meu medo de acordar louca
o que planejo é morrer
outra

uma história emocionante
sem suicídio
ao final.


 

daí que a ana erre, amiga, ídala e poeta, está propondo exercícios de produção literária a cada sexta-feira. no primeiro, deveríamos pensar como desejamos escrever. daí que escrevi este poema. no segundo, a ideia era pegar o primeiro texto e substituir todos os verbos. falhei, como podem ver. mas até que deu. e como é difícil. no fim não gostei do poema, mas talvez já não gostasse dele antes. vai saber.

primeiro exercício

eu queria escrever com tempo.
mentira. sem tempo.
é isso que eu queria:

escrever nos minutos de intervalo
entre a cama, o banheiro, o trabalho
criar personagens, enredos, roteiro
quarto fechado, cantar no chuveiro
(bater aquela siririca)
mas não é só isso que eu queria
eu queria um tododia sem rotina
sem Dickinson presa em casa
sem Mrs Dalloway comprando flores
sem Plath afogando-se no gás pelo simples motivo de
mulher-e-casa-:-que-combinação-insuportável

eu queria escrever sobre as grandes coisas do mundo
sobre guerras e revoluções
sobre exércitos, cartas trocadas, amantes
descobertas sexuais infantes, distopias sérias
a mim cabe falar de minha era
espiões russos imigrantes poloneses
uma gueixa no Japão
máquinas do tempo demônios espíritos
poetas

mas a mim só tenho eu mesma
a à minha era ela mesma
e à minha cabeça ela mesma
e ao meu medo de ficar louca
o que eu queria mesmo era ser
outra

uma história emocionante
sem suicídio
ao final.


daí que a ana erre, amiga, ídala e poeta, propôs um pequeno exercício. ou melhor. ela vai, às sextas-feiras, propor exercícios. nós amigas, conhecidas, admiradoras que escrevemos e não somos bobas, decidimos entrar na onda. publicar os exercícios em nossos blogs para que uma leia a outra e assim por diante. como uma dinâmica coletiva de criação literária via web. quem sabe assim a gente desenferrüscha, que o semestre anda puxado para todas nós e a escrita às vezes fica carente no cantinho dela, com medo de pedir a atenção que merece. aí está meu primeiro exercício, a partir da pergunta da ana: como eu quero escrever? voilà. o curioso é que saiu um poema. eu, que me reivindiquei não-poeta a certa altura do campeonato, estranhamente só tenho conseguido escrever poemas. não necessariamente bons, claro. mas tem me dado mais tesão. acho que tesão é necessário. talvez seja um reflexo do tanto de prosa não-poética-e-tampouco-literária que tenho sido forçada a produzir pelas minhas escolhas de trabalho. estou escrevendo um livro, traduzindo dois, mais um capítulo pra outro livro, revisão do projeto de pesquisa AND terminei um artigo longo e trabalhoso recentemente. sem mencionar o que tenho lido. quer dizer. significa, né. nada mais justo do que um pouco de verso no meu cotidiano de prosa. esse cotidiano que tanto me atormenta. eu honestamente não desejo terminar com a cabeça no forno. às vezes é difícil.

manifesto

de um futuro

eu me lembro

: teus olhos assim

pretos pontos
de carvão em brasa

 

nós repartíamos

fumo,

nós repartíamos

casa.

 

jogávamos

– ao alto –

moedas

e sobre as moedas
abríamos

páginas:

o futuro
comum
em rota de ascensão

 

as

moedas

caíam

e repartíamos

pão.

léu

são ondas e timbres
graves que lambendo recobrem-te
do topo
à base

são lufadas
e furacões
são olhos
fundos
escuros contínuos
vácuos
surdos
são galáxias
constelações

enfrentam-se em batalhas touros
e escorpiões
por teus universos
sem sóis

teus cabelos não têm
caracóis