Ano: 2015

POESIA

a crise vai passar

a crise vai passar. você pode enquanto isso abrir um guarda-chuva ou esperar quietinho sob um teto. você pode economizar: é só cada um respirar apenas as moléculas realmente necessárias e plantar um número suficiente de árvores numa economia colaborativa atmosférica (chegou o futuro melhor!) até que tudo se restabeleça. a crise vai sim, passar. em momentos de leveza você pode tentar a dança da crise ou encher as bochechas de bolinhos de crise; você pode se lembrar, antes de sair de casa, de olhar a previsão: – tempestade no mercado – queda brusca na temperatura do dólar – sensação

querido diário

time is never time at all

é duro mas também é belo. voluntariamente me jogar de um zepelim prateado sobre a lua. o frio na barriga sendo muito, abrir um guarda-chuva e atenuar a queda. encontrar meus demônios – uma longa batalha em que ora estou em vantagem, ora estou imóvel. enfim conseguir deixá-los para trás. em vez de tentar subir, descer. descer até o fundo mais fundo que se possa. o fundo que parece assustador mas é – enfim – belo. voltar um tantinho mais pra cima. jamais para terra firme. jamais estática. flutuo em um navio até, quem sabe, o próximo salto. Time is

POESIA

segundo exercício

planejo sobreviver com tempo. mentira. sem tempo sou o isso que planejo: filosofar nos minutos de intervalo entre a cama, o banheiro, o trabalho namorar personagens, enredos, roteiro quarto fechado, chorar no chuveiro (degustar aquela siririca) mas não só vejo o isso que planejo vislumbro um tododia sem rotina sem Dickinson presa em casa sem Mrs Dalloway barganhando flores sem Plath implorando pelo gás pelo simples motivo de mulher-e-casa-:- que-combinação- insuportável espero me deitar sobre as grandes coisas do mundo sobre guerras e revoluções sobre exércitos, cartas trocadas, amantes descobertas sexuais infantes, distopias sérias a mim resta cobrar de minha

POESIA

primeiro exercício

eu queria escrever com tempo. mentira. sem tempo. é isso que eu queria: escrever nos minutos de intervalo entre a cama, o banheiro, o trabalho criar personagens, enredos, roteiro quarto fechado, cantar no chuveiro (bater aquela siririca) mas não é só isso que eu queria eu queria um tododia sem rotina sem Dickinson presa em casa sem Mrs Dalloway comprando flores sem Plath afogando-se no gás pelo simples motivo de mulher-e-casa-:-que-combinação-insuportável eu queria escrever sobre as grandes coisas do mundo sobre guerras e revoluções sobre exércitos, cartas trocadas, amantes descobertas sexuais infantes, distopias sérias a mim cabe falar de minha

POESIA

manifesto

de um futuro eu me lembro : teus olhos assim pretos pontos de carvão em brasa   nós repartíamos fumo, nós repartíamos casa.   jogávamos – ao alto – moedas e sobre as moedas abríamos páginas: o futuro comum em rota de ascensão   as moedas caíam e repartíamos pão.

POESIA

léu

são ondas e timbres graves que lambendo recobrem-te do topo à base são lufadas e furacões são olhos fundos escuros contínuos vácuos surdos são galáxias constelações enfrentam-se em batalhas touros e escorpiões por teus universos sem sóis teus cabelos não têm caracóis

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