As escolas serão nossas comunas (ou: a quem pertence a educação?)

[texto publicado originalmente em http://pcbeducacao.org/a-quem-pertence-a-educacao/ ]

Ceará, Rio Grande do Sul, Goiás, São Paulo: em 2015 e 2016 temos assistido a uma sequência incandescente de lutas de estudantes secundaristas pela educação pública. Emboras as lutas estejam expressas em diferentes bandeiras e pautas específicas, podemos compreendê-las como tendo um fio condutor que se traduz na seguinte pergunta: a quem pertence a educação?

No Brasil a classe trabalhadora sustenta os serviços públicos, pagando uma proporção maior de impostos do que aqueles que vivem de renda, patrimônio e especulação. A educação não é exceção e isso não seria um problema se o Estado funcionasse a favor de nossos interesses. Historicamente, porém, os trabalhadores têm sido marginalizados e impedidos de acessarem esse direito básico (e outros) em nosso país. Sustentamos a educação e somos constantemente impedidos de acessá-la e, sobretudo, de tomar decisões sobre ela. Na atual conjuntura, ainda pior do que isso, o prognóstico é o de que o pouco dinheiro público que se mantiver destinado à educação, passe para as mãos de grandes corporações interessadas no setor (por exemplo por meio das OS). A história nos mostra como chegamos até aqui, e a sociologia reforça o quão estratégico é esse setor que está em franca disputa.

Educação e luta de classes no Brasil: ontem, hoje e… amanhã?

Nos tempos do império a ausência de um sistema público nacional fazia com que apenas as famílias nobres tivessem condições de pagar por tutores particulares ou para que seus filhos (homens, vale lembrar) estudassem na Europa. Quando começamos a criar nosso sistema de educação pública, ainda muito restrito, toda a população negra e pobre foi sumariamente excluída de seu acesso – por não serem considerados pessoas, aqueles que haviam sido escravizados, assim como seus filhos, não conseguiam se matricular em instituições de ensino.

Assim que isso começou a mudar, o Estado adotou dois tipos de política educacional, nenhum deles voltado aos interesses da classe trabalhadora: por um lado, transferindo dinheiro público a instituições religiosas de elite, em geral católicas, que ofereciam vagas eventuais a alunos considerados “excelentes” vindos da classe trabalhadora – mas como um aluno poderia se tornar excelente sem acesso primário à educação?

Por outro lado, a expansão da rede pública de ensino foi orientada explicitamente para formar “trabalhadores qualificados” (o discurso ideológico transmitido à classe trabalhadora é o mesmo de sempre: com mais qualificação, você terá um melhor emprego e viverá em condições melhores). Quem definia qual era o padrão de formação correto para aqueles oriundos da classe trabalhadora? A resposta é simples: quem estava presente no Estado, ou seja, empregadores e patrões, burgueses e/ou descendentes da nobreza imperial. Seus filhos estudavam nas escolas religiosas ou em instituições que, mesmo sendo públicas, realizavam exames de seleção e não aceitavam a matrícula de qualquer aluno. Esses exames (assim como o antigo “exame de admissão” que selecionava estudantes para matrícula no ginásio, ciclo correspondente aos atuais anos de escolarização do Fundamental II) se baseavam – como ainda hoje se baseiam – em conhecimentos e habilidades que não eram efetivamente oferecidos aos filhos da classe trabalhadora. O sociólogo Pierre Bourdieu elaborou ao conceito de capital cultural para explicar como a escola, por meio de seus exames e avaliações, demanda conhecimentos que não são homogeneamente distribuídos ou transmitidos entre as diferentes classes sociais.

Se olharmos a fundo, veremos que o sistema educacional a serviço dos interesses de classe da burguesia (formar trabalhadores qualificados para que se produza com mais eficiência, mantendo ou aumentando as taxas de lucro) é estratégico para a manutenção das classes sociais. Mesas e cadeiras individuais, enfileiradas; reforço do clima de competição; horário de almoço/intervalo curto e restrito; hierarquia reforçada com medidas disciplinares; etc.: toda semelhança da organização escolar com a organização dos locais de trabalho não é mera coincidência. A sociologia da educação nos auxilia a enxergar algumas nuances dessa afirmação e algumas interações complexas entre o sistema educacional e a organização social em classes.

Segmentação da educação escolar: origem e destino de classe

Embora tenham muitos elementos em comum umas com as outras, porém, sabemos que as escolas não são todas iguais. O conceito de segmentação da educação escolar (ou dos sistemas de ensino) nos auxilia a compreender essas desigualdades repletas de nuances. A segmentação ocorre quando o currículo é o mesmo para todas as mas a maneira como é abordado – e os objetivos de se trabalhar cada conhecimento (ou, no caso de muitas escolas, “conteúdo”) – variam enormemente. Essa variação em geral se dá segundo a origem social ou origem de classe das famílias que a escola atende. Um bom exemplo disso é a ineficácia da divisão públicas versus particulares para descrever as desigualdades educacionais brasileiras hoje.

Podemos dizer que hoje a segmentação do sistema de ensino no Brasil é mais complexa do que a mera divisão entre escolas públicas e privadas. Pesquisadores de diferentes universidades continuam apontando em suas pesquisas que as escolas acompanham a origem social de seus estudantes. Concretamente, isso significa que mesmo entre escolas privadas, há aquelas que servem a famílias de elites e grupos dominantes, há muitas gerações já familiarizadas com a alta escolarização; e há aquelas que servem comunidades da classe trabalhadora, inclusive suas fatias de renda média e média-alta, com sistemas apostilados e a promessa da ascensão social por meio do acesso a universidades públicas renomadas e concorridas. Entre as escolas públicas municipais e estaduais, a divisão se dá majoritariamente entre os bairros – bairros considerados “melhores” costumam abrigar escolas também consideradas “melhores”, o que não é nenhuma coincidência (o que nos faz considerar um bairro “melhor” senão sua distância da pobreza e de suas graves consequências sociais?).

No caso do ensino médio, há ainda uma divisão de classe poderosa entre escolas estaduais “comuns” e escolas que oferecem ensino técnico (sejam elas estaduais ou federais): para matricularem-se os estudantes devem prestar um exame (a meu ver criminoso) chamado “vestibulinho”, que nada mais é do que a mesma história de antes, repetida. Quem, afinal de contas, vai melhor num exame: quem teve acesso às escolas e bairros “melhores” ou quem teve acesso às escolas e bairros “piores” durante o ensino fundamental? Nosso sistema educacional e escolar é meticulosamente organizado para que a estrutura de classes se mantenha.

Segmentação e condições do trabalho docente

Essa organização meticulosa passa também pela segmentação e sucateamento das condições de trabalho dos professores. Na rede pública assistimos a uma série de ataques sistemáticos como as condições desumanas em que são realizadas as atribuições de aula; o salário de fome que faz com que professores precisem pegar muitas aulas para sustentar suas famílias, sem permitir o tempo adequado de descanso e de preparação de aulas; o corte de recursos para bibliotecas, materiais, laboratórios, infraestrutura; a estrutura de poder e administração centralizada e burocratizada que dá ao professor pouca autonomia sobre seu próprio trabalho (e outros ataques sérios a essa autonomia fundamental para a qualidade de ensino, feitos por iniciativas como o projeto de lei Escola Sem Partido; a entrada da polícia militar em escolas como supostas “parceiras” da direção e da administração criminalizando estudantes; a implementação de sistemas desenvolvidos por organizações de interesse privado mascaradas sob a fachada de “organizações sociais”).

Nada disso contribui para oferecer, aos filhos da classe trabalhadora e de grupos marginalizados, que estão nos “piores” bairros, nas “piores” escolas, chances mínimas de acesso a um ensino técnico, à educação superior (ou a ambos) ou até mesmo a uma formação de qualidade no ensino básico, que os preze enquanto sujeitos de sua própria vida, da história e da sociedade.

A situação de trabalho dos professores em escolas privadas também é massacrante. Salvo raríssimas exceções, a rotina de professores em escolas privadas passa por muita precariedade. Entre os exemplos, estão a pouca autonomia sobre suas aulas (ou nenhuma, em boa parte dos casos); o assédio moral constante da parte de diretorias e administrações mais preocupadas em manter a clientela satisfeita e as rematrículas para o semestre seguinte (e os lucros da empresa – afinal, a escola privada é uma empresa); os salários extremamente semelhantes (ou às vezes piores) do que aqueles oferecidos pela rede pública; a sobrecarga de horários e empregos para conseguir renda suficiente ao final do mês; o cotidiano com câmeras de vigilância instaladas para monitoramento das aulas; a exigência de cumprir trabalho não-pago fora de suas atribuições profissionais; os direitos trabalhistas básicos recusados ou condições de contratação precárias.

Essas condições  dificultam o acesso à educação de qualidade por parte também dos estudantes de escolas privadas, oriundos da classe trabalhadora (afinal, a mensalidade das escolas que são exceções a essa regra em geral ultrapassam facilmente a casa dos R$1500-R$2000, o que é inacessível para o grosso da população).

Na esfera do nível superior, a história se repete. O acesso não é universal e os exames são utilizados mais como forma de selecionar do que de avaliar a capacidade de estudantes de acompanharem os cursos superiores. O Estado governado por interesses de classe (e de maneira ainda mais explícita e voraz com Temer na presidência) transfere dinheiro público para empresas privadas de educação por meio de programas como o Prouni e o Fies enquanto corta verbas de ensino e pesquisa, dificulta a ampliação de vagas nas universidades estaduais e federais, e corre para aprovar uma lei que abre as portas para a privatização das universidade federais (por meio da máscara das “gestões por organizações sociais”, o que já ocorre no ensino municipal e estadual em diversos lugares do país) e das estaduais (por meio das fundações e dos cursos de pós-graduação pagos). Todas essas medidas são parte de um plano de desmonte e privatização sutil (ou nem tão sutil assim) do sistema educacional como um todo – mesmo do que lhe restar de público. É o Estado sendo colocado a serviço das taxas de lucro de empresas do sistema educacional.

Privatização da educação hoje

A reorganização da educação básica proposta e violentamente levada a cabo pela Secretaria Estadual de Educação em São Paulo a despeito da derrota política ocorrida em 2015, é mais uma audaz jogada que atropela os interesses da classe trabalhadora nesse tabuleiro. Trata-se de medidas que procuram demonstrar uma eficácia de recursos do sistema educacional, acima das necessidades e interesses das famílias e estudantes da rede pública paulista; essa é a forma que o Governo do Estado de Geraldo Alckmin tem de sinalizar a investidores brasileiros e estrangeiros da educação privada que haverá espaço para a progressiva privatização do sistema público: o Brasil tem hoje, após decisões políticas minuciosamente tomadas com este fim desde o período da ditadura militar, um dos dez maiores mercados educacionais do mundo, que movimenta anualmente cerca de R$55bilhões.

Não é de se espantar que alguns estados governados pelo PSDB, como o estado de Goiás, já estejam adequando suas legislações para permitir a transferência da gestão das escolas públicas para “organizações de interesse social”. Diferente de organizações sem fins lucrativos, porém, as OS podem legalmente lucrar com a educação. Na prática, o resultado dessas medidas é transferir para o setor privado a rede pública de ensino. Nesse contexto, será ainda mais difícil e improvável que qualquer interesse da classe trabalhadora, que depende do sistema público de educação, jamais seja atendido em relação a sua escolarização.

É urgente neste momento que nos perguntemos: qual é a educação que queremos? A que interesses ela deve atender? De que maneiras podemos promover uma educação que não sirva apenas aos interesses de um pequeno grupo de pessoas? Essas são as questões que devemos, junto aos estudantes que ocupam bravamente seus estabelecimentos de ensino, colocar na ordem do dia. Para respondermos a essa questão, podemos utilizar habilidades e conhecimentos que devem, em tese, ser estudados no currículo escolar: analisemos a história da educação, as estatísticas quanto à escolarização e diferentes segmentos de classe no Brasil, os números do mercado privado de educação, a nossa estrutura de classes, a arquitetura e engenharia aplicadas à construção de prédios que mais parecem prisões, os processos químicos e biológicos envolvidos em recursos necessários à permanência estudantil como a alimentação garantida no sistema de ensino…

Quando dizem que a luta política dos estudantes secundaristas atrapalha as aulas e o conhecimento escolar, então, se está repetindo uma falácia segundo a qual a educação poderia ser uma esfera completamente autônoma da sociedade. Não é, não será jamais. A educação é, em essência, o processo de transmissão/aquisição de disposições e conhecimentos que cada sociedade julga necessários para que uma pessoa possa ser considerada parte dela. Numa sociedade de classes, porém, essas partes não são iguais e não se relacionam horizontalmente. Daí a construção de sistemas segmentados para atender à formação de indivíduos segundo sua classe, garantindo a manutenção e a reprodução das classes sociais como são. A questão é: como direcionar a educação para os interesses da classe trabalhadora? A quem pertence a educação?

As escolas serão nossas comunas

As ocupações das escolas estaduais e técnicas por estudantes secundaristas desde 2015 mandam um recado claro à sociedade: é preciso mais do que reformas focadas em “otimização de recursos”. A educação precisa ser inteiramente revista – e não simplesmente para adequar os trabalhadores ao mercado de trabalho. Os estudantes nas ocupações trazem, elaboram, reelaboram e constroem coletivamente críticas bastante contundentes ao sistema escolar e às políticas públicas para a educação básica. Convidando professores, militantes e palestrantes de diversos grupos, partidos e movimentos sociais como aliados de luta, e envolvendo a comunidade escolar (com todas as suas contradições) no processo, os secundaristas estabelecem um diálogo público essencial sobre os interesses em jogo nas decisões sobre a educação no Brasil.

Esse diálogo público, porém, não se limita aos momentos de ocupação. Enquanto tática, as ocupações têm cumprido uma função essencial nessa batalha. Contudo, é mais do que evidente o crescimento e amadurecimento do movimento dos secundaristas entre os períodos de ocupação. O debate avança, as pautas avançam, e a atenção e a análise dos resultados concretos da luta de classes no processo das ocupações (ações da PM, instauração da CPI da merenda em SP presidida pelos próprios envolvidos no caso, tensionamento da lei da mordaça aos professores em Alagoas, cancelamento dos concursos para professores em Goiás etc.) permitem traçar novas táticas e revisar as estratégias de luta. No caminho, a educação é cada vez mais evidenciada enquanto setor estratégico na luta de classes no Brasil, e no enfrentamento direto contra os interesses do capital.

O trabalho educacional é um dos responsáveis pela manutenção das estruturas sociais: socializa, transmitindo não apenas conhecimentos ou “conteúdos” às novas gerações, mas incutindo nelas uma maneira de ser, de ver o mundo e de relacionar-se com ele a partir de um lugar social específico segundo sua classe e/ou grupo social (pesam aí racialidade, gênero, origem regional, e outros marcadores sociais de diferenças). Assim como no caso do trabalho produtivo, responsável pela produção e distribuição de recursos materiais e riquezas em nossa sociedade, o trabalho educacional precisa ser compreendido como trabalho alienado. Alienado dos professores, mas também alienado dos alunos.

Ao nos perguntarmos, então, que projeto de educação queremos no caminho para uma sociedade sem classes e livre de toda exploração entre seres humanos, a resposta pode ser apenas uma: um projeto de educação que coloque o trabalho educacional nas mãos dos sujeitos nele envolvidos e, mais, que essa desalienação seja condição para que se constituam enquanto sujeitos. Esse projeto só pode ser alcançado se questionarmos o controle dos meios de reprodução de classe: as escolas.

Como reagir diante de tantos ataques do governo Temer?

Estive uns três dias de cama, no final da semana passada. Bode com o mundo, desânimo completo. Fui derrubada. Sabe o que me moveu, acendeu a fagulha e me deu ganas de continuar vivendo e lutando? Um post da Talita que, muito sábia, disse:

“Galera, segura essa peteca e levanta a cabeça. Tá longe o momento de descansar, talvez esse momento não seja no nosso turno.”

Talvez esse momento não seja no nosso turno.

Essa frase ecoou na minha cabeça como os trovões e rajadas de vento da tempestade de ontem. Há momentos na história e na política que simplesmente não permitem esse sentimento individual e individualista de “se preservar”: é preciso agir para além de si. Só podemos existir – e só pudermos lutar nas últimas décadas e construir algumas pequenas vitórias – porque tanto na ditadura do Estado Novo, quanto na ditadura militar, quanto entre elas, havia gente agindo para além de si.

“Talvez esse momento não seja no nosso turno.”

Me vieram à cabeça todas as histórias que ouvi, da boca de quem sobreviveu pra contar. As memórias de infância, de ter crescido numa família ligada à política. “Meu pai faz greve”, respondeu meu irmão, ainda pequeno, em certa ocasião quando confrontado com a pergunta “O que seu pai faz?”. A história da fabulosa atiradora de bazuca da guerrilha chilena, contada pra mim diretamente de sua filha. As memórias de minha mãe que, ao passar no vestibular da USP escutou de meu avô, na época político da ARENA: “Cuidado, aquilo lá é um antro de comunistas”.

“Talvez esse momento não seja no nosso turno.”

Junto a esse post da Talita, com essa mensagem tão direta e clara, um outro post da Maíra Galvão (ah, família Galvão, aquela da Patrícia… ♥) falava sobre a estratégia de estarrecimento da população. Eles estão fazendo de propósito. É pra desbaratinar, é pra desarticular. Por isso, mais do que nunca, essa é a hora de lutar.

O nosso turno é o o turno de lutar e resistir.

O estarrecimento e a imobilidade frente a tantos ataques e tanta violência é o pior que pode acontecer. É hora da ação e, como bem pontuou a Renata Corrêa em mais um post [minhas amigas são minhas heroínas, cara]:

Acabou o amor.

Ocupar e juntar na rua pra fazer festa-show (vide 1º de maio no Anhangabaú), ciranda de abraços e danças circulares apenas dizendo “Não passarão” é quase o mesmo que dar a esses que não deviam passar um fucking passaporte. Sem uma atitude combativa da esquerda, eles passarão e nós nem passarinho (estilingues e gaiolas em toda parte).

Acabou o amor.

Lembram daquela história da carochinha que contaram pra mim e pra vocês desde os anos 1990, e que parecia fazer tanto sentindo nos 13 anos de governo do PT, de que a gente conseguiria mudança com “trabalho de formiguinha”? De que a sua ação individual podia “mudar o mundo” (“Seja você a mudança”)? De que bastava fazer “a sua parte” por um “mundo melhor”? Pois os fatos políticos estão mostrando cada vez mais o quanto não podemos contar com essas estratégias. Porque eles têm ferramentas pra jogar concreto no solo – e aí formigueiro cresce como?

Acabou o amor.

As ações diretas organizadas – ocupações politizadas, greves, desobediência civil organizada – são a nossa única chance de sobreviver. Mas também não se enganem: elas não são suficientes e não devem ser vistas como um fim em si mesmas. Uma boa lição sobre isso: os secundaristas em SP ocuparam a ALESP pedindo a CPI da merenda. Desocuparam e conseguiram a CPI. Presidida pelos próprios envolvidos no desvio da merenda. E aí? Comofaz?

Acabou o amor.

É preciso ir além. Nossa ação tem que ir além de nós mesmos, de nossos confortos e desconfortos individuais. Isso é política. Nossa luta tem que ir além dos momentos de ação direta e das reivindicações pontuais, se quisermos construir uma sociedade livre de toda exploração, se quisermos ser donos de nós mesmos, de nosso tempo, de nosso trabalho, do conhecimento e dos bens materiais e simbólicos que produzimos.

Acabou o amor.

A hora é de lutar, resistir. E essa luta e resistência precisam ser bem costuradas, articuladas, com a construção de um projeto de sociedade. Não se trata de pautas específicas. Os fatos políticos nos mostram que pautas específicas não darão conta. Se conseguir defender o SUS, ele será em seguida sucateado, ou o aborto será definido pelas igrejas, ou vão privatizar a educação básica e superior. Os inimigos têm a máquina estatal, os investimentos do grande capital internacional, o apoio político do Império (Temer é citado na Wikileaks como informante da CIA, estão sabendo? A embaixadora dos EUA presente no Brasil nesse processo de impeachment era a mesma que estava no Paraguai e no Equador nos seus respectivos golpes recentes, etc.). Nós temos as nossas mãos.

Façamos nós por nossas mãos.

A conjuntura política exige que nossas mãos atuem coordenadas; que construamos uma luta comum e organizada, por um projeto de sociedade comum (e não por pautas específicas). É hora de organizar. É hora de se articular. Organizados nossos braços se multiplicam, e a agonia da sensação de impotência é substituída pela força da coletividade. Porque eu sei que, enquanto estou auxiliando os estudantes em uma escola ocupada, meus camaradas do sindicato dos professores estão articulando estruturalmente um enfrentamento massivo. Porque eu sei que, enquanto estou em fóruns populares de saúde articulando a questão do aborto, meus camaradas trabalhadores e trabalhadoras do SUS estão estabelecendo as bases de uma luta que está por vir. Porque atuamos como um só em diversas frentes. As mãos de meus camaradas são também minhas mãos, e a ação organizada é que permite essa âncora, esse fio condutor do enfrentamento política.

Façamos nós por nossas mãos.

É hora, mais do que nunca, de se organizar. Seja em um partido, seja em seus sindicatos e associações profissionais, seja articulando seu coletivo com lutas mais amplas e frentes de massa. Sair do individual-individualista, sair da pauta específica.

É hora de ir além.


post originalmente publicado em meu perfil no Facebook: https://www.facebook.com/mari.moscou/posts/10153703615528576?pnref=story

por que entrei em um partido político

[aviso de textão: o texto é longo. leiam com calma, especialmente aquelas e aqueles que têm procurado refletir sobre militância e ação política nos dias de hoje, e quem está insatisfeito/a ou desiludido/a com as opções que têm aparecido pela frente. o que trago aqui parte do velho e se torna novo, prometo, frente aos fatos que temos vivido cotidianamente desde 2013. boa leitura!]

Minha história de militância é longa, para alguém com menos de trinta anos. Comecei cedo, quando um colega no ensino fundamental me chamou para fundar um grêmio estudantil. O ano era 1999. Até então, só havia me engajado em atividades políticas de meus pais: passeatas pelo impeachment do Collor, manifestações pelas eleições diretas, assembleias do sindicato dos bancários. Cordão umbilical cortado, passei a atuar no movimento estudantil sem filiação a nenhum partido ou coletivo em específico.

Nesses dezesseis anos de militância, ativismo e engajamento político (tenho mais anos de vida como militante do que sem), experimentei muitas formas de me organizar. Estive no movimento estudantil secundarista e em sua fração universitária. Fui do grêmio estudantil a uma articulação entre grêmios, passando pela proximidade com vários partidos (em especial com seus setores de juventude) que iam desde o PT até o PC Marxista-Leninista, incluindo no caminho PCdoB/UJS, PSTU e PCO. Me mantive do lado de fora, pois sentia que não queria me prender a nenhum tipo de orientação partidária. Estive em três edições do Fórum Social Mundial na cidade de Porto Alegre, escrevendo para jornais independentes e acompanhando oficinas organizadas por feministas. Participei politicamente de outros movimentos de juventude – como o movimento escoteiro -, vi a coordenadoria de juventude de Sampa surgir na gestão de Marta Suplicy e organizei com companheiros de militância os fóruns de jovens da cidade, os Forrós Sociais Mundiais e diversas atividades políticas entre grêmios estudantis de escolas públicas e privadas da zona oeste de São Paulo. Estive numa embrionária – mas infelizmente fracassada – tentativa de organizar um Movimento Pelo Fim do Vestibular.

Um pouco mais tarde, quando me mudei de São Paulo para cursar Ciências Sociais na Unicamp, minha militância se encaminhou para uma nova fase. Sobretudo a partir de 2005, atuei junto a ONGs locais, nacionais e internacionais, fiz trampos com setores da ONU, fui à Rio+20 fazer lobby pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres nos comitês de negociação e em debates propostos pela organização que eu representava. Na segunda metade da década de 2000 abandonei progressivamente o movimento estudantil e as disputas institucionais, e me afastei mais e mais dos partidos políticos, passando a fazer parte de coletivos independentes como o Coletivo Feminista da Unicamp. Também participei ativamente da criação e consolidação do coletivo virtual Blogueiras Feministas. Nesses últimos dez anos realizei também uma quantidade razoável de ações individuais, de maneira independente, tanto na internet por meio dos blogs, sites, textos e afins, quanto fora dela com cursos, palestras, apoio a outras pessoas interessadas em se engajar, grupos de estudos etc.

Neste ano de 2015, depois de muita reflexão e de um incômodo que eu não sabia muito bem nomear com o tipo de militância em que estava envolvida, decidi me juntar a um partido político. Não foi de repente, nem sem muito debate, pesquisa, auto-crítica e auto-reflexão. Esse é o processo que desejo compartilhar com quem me alcança através da internet – e que, como devem ter notado, se deu completamente offline. Da mesma forma como havia me afastado dos partidos, da política institucional e do movimento estudantil, entre 2014 e 2015 me afastei da militância virtual, da internet, dos blogs, das colunas em sites. Longe de dar satisfação ou prestar contas, escolhi compartilhar um pouco desse processo com vocês porque as reflexões que elaborei ao longo desse tempo me pareceram valiosas para qualquer pessoa disposta a fazer autocrítica sobre a própria militância.

os eventos de 2013 e a necessidade de um partido

Comecei a pensar seriamente em me juntar a um partido político depois do que vivemos em 2013. Eu havia, no início dos anos 2000, experimentado um momento de esgotamento e desgaste bruto do modelo capitalista neoliberal, vivido pelas pessoas não-militantes como um descontentamento geral em uma situação de crise – como de costume, sem dar nome aos bois; a crise é vivida, no senso-comum, como um fenômeno natural, como uma chuva forte que vai passar (daí a inspiração para este meu poema). Naquela ocasião acreditei, com muitos companheiros e companheiras de luta, que a saída pela política institucional – um partido de esquerda no poder, liderado por Lula – poderia ser algo positivo. Assim como o que havia ocorrido na prefeitura de São Paulo durante as gestões de Erundina e Marta, o governo federal se abriria a um debate, e a inserções dos movimentos sociais – incluindo aí todo um pedaço da militância formada no seio dos anos 2000, como eu, que não se filiava a partidos mas se articulava em coletivos, fóruns de bairro, ativismo digital. De fato, vivemos esse momento nos governos Lula. A realização das conferências participativas temáticas, a ampliação das universidades federais, a popularização do ensino superior (ainda que em parcerias público-privadas, o que era visto como uma medida temporária e paliativa por otimistas – eu, inclusive), o alargamento de programas sociais de distribuição de renda: tudo isso fazia parecer pessimista demais uma perspectiva de oposição ao governo Lula, ainda que fossem facilmente reconhecíveis naquela gestão as marcas do interesse privado e do capital (a inclusão social primordialmente operada a partir do consumo de bens e serviços de empresas privadas, por exemplo, mesmo quando se tratasse de educação – caso do Prouni).

As tensões que começaram a subir à superfície no ano de 2013 deixaram evidente que essas marcas haviam se espalhado, e que a gestão de Dilma (pela qual eu fiz campanha) seria problemática nesse sentido. Analisando a conjuntura na época da primeira eleição de Dilma, com a presença do PMDB na vice-presidência (que, ainda que tenha uma linha política semelhante à do PL, que ocupou as vice-presidências de Lula, definitivamente tem muito mais poder no jogo político), entendi que essa decisão levaria o PT e o que as gestões de Lula haviam conseguido construir para o buraco; sem Lula o PT perdia (e perdeu) o poder de barganha da mobilização de massas, que era a moeda de troca para que não se curvassem inteiramente aos interesses de classe mais puros dos grupos dominantes (especuladores, herdeiros, donos de grande fortunas e grupos empresariais como os barões da comunicação). Infelizmente, em 2013 e durante a campanha eleitoral de 2014 (este ano de 2015, então, nem se fala), minha análise de conjuntura se mostrou razoavelmente acurada.

Foi justamente aí que a militância “independente” que eu vinha fazendo, e os espaços dos coletivos autônomos, passaram e me parecer cada vez mais insuficientes. O primeiro mandato de Dilma e os desdobramentos políticos de 2013 deixaram claro que estávamos perdendo. Nós, militantes e ativistas de direitos humanos, de minorias sociais, da construção de um mundo mais igualitário, estávamos sendo esmagados pela tentativa pífia de conciliação de classes na qual o PT insistia (e insistia com o apoio de vários setores da esquerda que, como eu, ainda estavam apegados ao otimismo do que havia se passado na década anterior durante os mandatos de Lula), de um lado, e pelos interesses de crescimento e lucro dos grupos eternamente dominantes do capitalismo global – representados, aqui, por uma fatia da elite herdeira historicamente constituída e consolidada (escrevi mais ou menos sobre esse processo pelo qual certos grupos vêm se mantendo no poder no Brasil há tanto tempo, aqui).

Pois bem, estávamos perdendo. O que fazer?

Nenhum coletivo de ativismo me parecia suficiente. Dizer-me “feminista independente”: o que significava isso no contexto político que começara a se formar? O ano de 2013 havia me mostrado – como a muita gente – a importância política de um posicionamento explícito. Eu, que sempre fui comunista (ainda que guardasse em meu coração eternamente adolescente um carinho enorme pelo anarquismo), percebi que ninguém sabia que eu era comunista. Textos que eu havia publicado na internet eram apropriados por grupos conservadores – e passei então a colocar, antes de cada texto, um aviso de que eram textos de esquerda (ah, a péssima qualidade de leitura dos conservadores…). Mudei meu sobrenome no Facebook para “de esquerda” na esperança de que os conservadores parassem de me seguir achando que, quando eu criticava o governo Dilma, estava querendo dizer que Aécio ou Marina teriam sido melhores. Nessa época, muitos amigos e amigas que nunca tiveram uma vida militante se “descobriram” de esquerda. Aqueles e aquelas que já se entendiam de esquerda, também passaram por processos semelhantes de posicionamento: surgiram em meu Facebook outros sobrenomes “de esquerda”, mas também “anarquista”, “comunista”, “socialista”. Confesso que achei bonito de ver, embora o contexto político que exigisse essa declaração explícita fosse por vezes bem feio.

“Sair do armário” não é uma tarefa fácil, embora seja politicamente fundamental. A saída do armário como comunista em um momento de avanço das ideologias conservadoras mostra que existimos. Assim como as feministas passaram, na segunda metade dos anos 2000, no Brasil, por uma espécie de “saída do armário” coletiva que permitiu ao feminismo se disseminar cada vez mais (ainda que apanhando na cabeça o tempo todo), o mesmo parecia ocorrer com alguns grupos de esquerda. Essa saída do armário diz que existimos, que estamos aqui, que nossa luta é real e concreta – e não um episódio deixado às traças em livros de história. A história é viva, a fazemos todo o tempo, e ela não acabou.

Dizer-me de esquerda ou comunista, porém, não parecia significar grande coisa sem uma atuação política nesse sentido. Não tinha certeza, porém, se me articular em um partido seria a melhor das opções em relação a isso. Afinal de contas, eu era comunista, mas também era feminista – e, mesmo sem saber muito bem o motivo, não me parecia muito sensato criar ou me filiar, caso existisse, a um “partido feminista”. Era uma dúvida legítima sobre o que significaria “entrar em um partido”, algo que minha intuição me dizia que faria sentido mas eu tampouco sabia explicar. Se eu não acreditava mais em eleições como forma de transformação social, eu acreditava em “partido”? O que era, afinal, “partido”?

Quando comecei a pensar seriamente sobre a questão, me lembro de perguntar a amigas ativistas o que achavam de minha entrada em algum partido. Sem contar aquelas que já faziam sua militância em partidos, a resposta massiva que recebi foi: “não faça isso, você vai se queimar e perder seus seguidores, admiradores, leitores; sua influência vai diminuir, em vez de aumentar”. Eu sabia muito bem quais eram os incômodos dessas amigas – e de muitas pessoas que acompanharam minha militância nessa “segunda fase” – com os partidos políticos. Retomei, então, na época, minha própria história com a militância partidária.

O pensamento “anti-partido” que muitas pessoas reproduziam e reproduzem em coletivos autônomos e ativismo digital me parecia cada vez mais mal informado e superficial. Uma rejeição à política institucional eleitoral – o que eu compreendia perfeitamente – mas que, ao mesmo tempo, não propunha nenhum tipo de projeto. Ficava às margens dessa estrutura, tecendo críticas e propondo modelos “alternativos” que me pareciam em certa medida infantis pois não lidavam com o problema, e se alimentavam de uma fantasia de que a ação individual ou de pequenos grupos isoladamente poderia combater toda uma estrutura (sendo que essa própria estrutura impunha os limites e formatos desses grupos, de suas ferramentas e de sua ação). De alguma maneira, quando essas pessoas me disseram que eu não deveria entrar num partido, minha intuição me disse que isso parecia um reforço da minha impressão de que entrar num partido seria mesmo a melhor coisa a fazer. Decidi maturar a ideia com alguma calma.

O que é um partido?

O momento de virada, para mim, foi quando almoçava entre amigos num boteco qualquer e, metida a visionária, quis apresentar a genial ideia de construir um coletivo que intersecionalmente desse conta de um projeto mais amplo de sociedade, integrando igualdade de gênero, igualdade racial, fim da monogamia compulsória, fim do capitalismo, etc., numa mudança estrutural e cultural significativa. Ao que uma pessoa que admiro muito me disse: “Ok, você quer propor então um partido?”. Me detive. Eu queria propor um partido? Tentei explicar minha ideia ainda na chave do “coletivo”. A mesma pessoa então me disse: “Qual é a diferença disso para um partido?”. Se eu tivesse menos familiaridade com a ciência política, teria dito talvez que um coletivo não disputa eleições. Mas eu sabia, em teoria e prática, que partidos não necessariamente disputam eleições, e sempre detestei esse atrelamento do papel do partido ao papel eleitoral, que eu ouvia nos discursos menos informados politicamente. Não precisei voltar aos livros, a Lênin, nem a minhas próprias memórias militantes para saber que, de fato, o que eu estava procurando era um partido.

Recobrando minhas leituras e reflexões anteriores, e reelaborando minha história de militância e minha formação acadêmica, consegui finalmente explicitar para mim mesma o que significava o partido: um projeto integrado de sociedade. Identifiquei pouco a pouco o que me incomodava nos coletivos autônomos: sua insuficiência em propor um projeto integrado, ao agregarem pessoas a partir de um ponto único (a partir do gênero, ou da raça, ou do local de moradia, etc), e não de um corpo ideológico mais amplo e complexo que englobasse essas questões, mas perpassasse também outras.

Um partido pra chamar de meu

Passei então a pensar em como eu poderia escolher um partido. Que critérios eu utilizaria? O que me parecia importante para que eu sentisse que poderia efetivamente contribuir com a militância num grupo? Que grupos me pareciam ter espaço aberto para disputas políticas (e não eleitoreiras)? Assim me apareceu o Partido Comunista Brasileiro.

Como muitas pessoas, eu também compartilhava da visão estereotipada de que o PCB era um partido de velhinhos comunistas ortodoxos, que não teria muito espaço para disputa (ou para questões feministas, LGBT, e outras pautas que muitos marxistas veem como “pós-modernas”) dada a estrutura do centralismo democrático, e que contaria com uma militância pré-programada, cartilhesca. Muito felizmente, eu estava enganada. Ao conhecer mais de perto a história recente do partido (sobretudo a partir do racha que formou o PPS) e o estado atual de sua militância, vi ali uma coletividade em que me senti extremamente contemplada.

Em primeiro lugar, porque em vez de rejeitar qualquer coisa que soasse teórica ou acadêmica como fazem os coletivos autônomos, a militância online e várias tendências de alguns partidos (num estereótipo bem capenga do que “teoria” e “academia” significam, vale dizer), o PCB tem uma preocupação muito central com esse tipo de diálogo, pois compreende que o trato com essas questões são parte essencial de uma militância bem formada, coesa, e da construção de um projeto revolucionário e de sociedade mais sólido. Isso ficou evidente pra mim ao conhecer seus militantes, e também ao conhecer a própria organização do partido – e a cada dia, e cada atividade, essa característica do partido me agrada mais e mais.

Em segundo lugar, porque o debate e as ações políticas são colocadas coletivamente (e isso tem bastante a ver com a proposta de centralismo democrático, e a organização leninista da atividade política, que se revelaram para mim pontos fortes e muito bem-vindos da militância no PCB), numa lógica de solidariedade. Sei que parece um contrassenso afirmar que “coletivos” autônomos partem de uma perspectiva individualizada – mas é exatamente o que estou afirmando.

A militância dos coletivos, online e offline, é centrada na ideia de indivíduo e de individualidade, o que gera dois fenômenos que em algum ponto se tornaram insuportáveis para mim: de um lado, um debate que ronda apenas os umbigos e experiências pessoais dos seus ativistas; de outro, uma dificuldade muito grande em propor projetos integrados e coesos de ação, de estratégia e de objetivo final (qual a sociedade que queremos construir?), uma vez que o mito do consenso entre indivíduos apaga a condição real e permanente de disputa política e ideológica de ideias e sobrepõe ao processo coletivo de construção da realidade a necessidade de “se sentir contemplado” enquanto indivíduo em cada proposta e decisão. O texto de autocrítica de Lucas-Legume, do MPL, publicado no dia 04 de agosto deste ano, traduz muitos desses meus incômodos com uma militância de que fiz parte por longos 10 anos (clique aqui e leia “O Movimento Passe Livre acabou?”).

Passei a não me sentir mais contemplada em grupos em que a individualidade era um valor soberano (se confundindo inclusive com a ideia de sujeito, e de sujeito político) – afinal, meu desejo político mais pulsante é construir uma sociedade que seja radicalmente outra, que opere em outra lógica; não me parecia mais possível fazer isso ao reproduzir no espaço de militância uma das piores características desta nossa atual maneira de estruturar a sociedade, que é justamente o individualismo exacerbado enquanto ideologia cultural e política.

Ao contrário do que eu mesma havia visto em diversos partidos – inclusive em vários partidos de tendências que dão uma importância desproporcional às eleições (como penso ser o caso do PSOL, por exemplo), constituindo sua dominância interna em geral a partir da capacidade de mobilização de massas e votos, e não a partir da disputa político-ideológica interna – os espaços do PCB se mostraram espaços em que predomina a importância da coletividade e a construção conjunta (sobretudo nos momentos de disputas de ideias e diálogos entre lados divergentes, o que é excelente). Isso é diferente, ao contrário do que a propaganda ideológica anti-soviética e anticomunista impregnada em nosso senso-comum diz, de uma anulação dos sujeitos e de suas possibilidades de ação. Esse “clima” não se configura por uma espécie de “iluminação” individual ou confluência de valores individuais, mas por decisões coletivas (muito sensatas, a meu ver) que vêm sendo feitas desde os anos 1990 e que incidem sobre diversas camadas da existência do partido – de sua estrutura à sua expressão pública, passando pelas atividades e ações políticas de seus militantes.

A terceira e última característica do PCB, que não encontrei em nenhum outro partido, foi a abertura para disputa de ideias em todas as instâncias internas do partido. Contrariando os mitos que rondam o partido mais antigo do Brasil, combatido fervorosamente ao longo da história por todas as forças conservadoras que existiram no país, o PCB não é um “partido stalinista” que tem uma linha única de marxismo considerada aceitável para seus militantes. Muito pelo contrário, a diversidade do PCB se mostra cada dia mais efetiva e interessante, uma vez que, diferentemente do PSOL e outros partidos de tendências, os grupos divergentes não se isolam em “guetos” (as tendências) e conseguem um diálogo e uma disputa permanentes uns com os outros no seio do partido.

Todas essas características dizem respeito a percepções que tive antes mesmo de efetivamente participar das atividades do PCB, apenas conhecendo melhor seus militantes, sua história e sua configuração atual. Bastou que eu desejasse me informar melhor quando decidi entrar em um partido mas tinha muitas ressalvas ao PSOL, sobretudo pelo fato de sua disputa interna estar fortemente atrelada à disputa eleitoral. Felizmente essas percepções se confirmaram e tenho podido desenvolver, na medida que meu extensivo trabalho no doutorado permite, uma militância sólida que muito me satisfaz.

O meu partido é a única solução?

Não penso, contudo, que  o PCB seja a única e nem necessariamente, a melhor escolha para todas as pessoas que também estão insatisfeitas com a militância em coletivos autônomos e procuram rever suas estratégias de luta, articulando-se em partidos. Eu me encontrei, em diversos sentidos, neste partido. Nem todas e todos necessariamente se encontrarão. A revolução não será organizada por um único partido, nem por um único grupo, penso eu. Me parece que a diversidade de grupos e possibilidades na esquerda organizada seja mais um bem do que um mal, contanto que consigamos nos articular nessa luta.

Para que nossa articulação possa ser efetiva, porém, é necessário transpor algumas barreiras – como a militância “individualistocêntrica” e os mitos que rondam os tais “coletivos autônomos”. É preciso nos construirmos, a partir daqui, mais como sujeitos e menos como indivíduos – e aí está o primeiro passo para que efetivamente sejamos capazes de solidariedade. Uma mudança efetiva, que bote de pé uma outra sociedade, que rompa o que temos pela base – ou seja, uma revolução – só poderá acontecer se partir desses princípios. Foi precisamente por isso que decidi me articular dentro de um partido, por um projeto integrado de sociedade; por uma sociedade que opere em outra lógica, sobre outros princípios – porque estes que temos estão nos matando.

a crise vai passar

a crise vai passar.
você pode enquanto isso abrir
um guarda-chuva
ou esperar quietinho
sob um teto.

você pode economizar:
é só cada um respirar
apenas as moléculas realmente necessárias
e plantar
um número suficiente de árvores numa
economia colaborativa atmosférica
(chegou o futuro melhor!)
até que tudo se restabeleça.
a crise vai sim, passar.

em momentos de leveza você pode tentar
a dança da crise
ou encher as bochechas de
bolinhos de crise;
você pode se lembrar,
antes de sair de casa,
de olhar a previsão:
– tempestade no mercado
– queda brusca na temperatura do dólar
– sensação térmica desfavorável
– alta incidência de raios inflacionários

(melhor espalhar muito bem sobre as maçãs do rosto e o nariz
uma generosa camada de filtro. ignore o cheiro, é por pouco tempo
já que a crise, como eu disse, há de passar.)

ora, se nada disso der certo, ainda teremos
nossos abrigos anti-crise,
munidos de comida enlatada,
colchões de feno, batalha naval
em bloquinhos de papel,
volumes mortos nas prateleiras,
e apenas meia dúzia de ratos:
ali contaremos histórias

dos idos tempos de antes da crise,
de como éramos felizes, do privilégio
de termos planilhas pra manter a cabeça ocupada,
ou cinquenta horas de jornada.

escreveremos versos, faremos fogueiras imaginárias
e oraremos pela deusa inflação.
transmitiremos a cada nova geração
pouco espontânea a nossa cosmogonia:

num trapézio oferta e procura revezando-se com piruetas e acrobacias,
uma orquestra invisível regida pela mão da meritocracia, coreografia macabra
num circo mambembe de lona rasgada
com arquibancadas que cheiram a mijo e palhaços deprimidos que
no fim do espetáculo abusam meninos, enquanto elefantes
cansados com seus chifres e orelhas remendados
cagam nas margens do picadeiro sobre uma plateia de esfomeados.
engolem a bosta na esperança de alguma proteína, a massa
espectadora no chão de espelhos assiste
à própria chacina.

com gosto de esterco entre os dentes esculpidos em marfim,
aguentaremos um a um, e teremos fé.
nos esqueceremos do mundo lá fora, repleto de crise,
nos convenceremos e resistiremos à espera de um sinal divino.
proibiremos os dissidentes de abrirem as portas do alçapão:
não deixaremos a crise entrar.
com o passar dos meses, devoraremos
primeiro os membros menos importantes,
ao som do realejo que melancólico anuncia:

– abandonai as esperanças, vós que aqui estás;
a morte é certa como a crise,
e a crise, vocês sabem,
não se cansa
de passar.

time is never time at all

é duro mas também é belo. voluntariamente me jogar de um zepelim prateado sobre a lua. o frio na barriga sendo muito, abrir um guarda-chuva e atenuar a queda. encontrar meus demônios – uma longa batalha em que ora estou em vantagem, ora estou imóvel. enfim conseguir deixá-los para trás. em vez de tentar subir, descer. descer até o fundo mais fundo que se possa. o fundo que parece assustador mas é – enfim – belo. voltar um tantinho mais pra cima. jamais para terra firme. jamais estática. flutuo em um navio até, quem sabe, o próximo salto.


Time is never time at all
You can never ever leave without leaving a piece of youth
And our lives are forever changed
We will never be the same
The more you change the less you feel
Believe, believe in me, believe
That life can change, that you’re not stuck in vain
We’re not the same, we’re different tonight
Tonight, so bright
Tonight
And you know you’re never sure
But you’re sure you could be right
If you held yourself up to the light
And the embers never fade in your city by the lake
The place where you were born
Believe, believe in me, believe
In the resolute urgency of now
And if you believe there’s not a chance tonight
Tonight, so bright
Tonight
We’ll crucify the insincere tonight
We’ll make things right, we’ll feel it all tonight
We’ll find a way to offer up the night tonight
The indescribable moments of your life tonight
The impossible is possible tonight
Believe in me as I believe in you, tonight

 

segundo exercício

planejo sobreviver com tempo.
mentira. sem tempo
sou o isso que planejo:

filosofar nos minutos de intervalo
entre a cama, o banheiro, o trabalho
namorar personagens, enredos, roteiro
quarto fechado, chorar no chuveiro
(degustar aquela siririca)
mas não só vejo o isso que planejo

vislumbro um tododia sem rotina
sem Dickinson presa em casa
sem Mrs Dalloway barganhando flores
sem Plath implorando pelo gás pelo
simples motivo de mulher-e-casa-:-
que-combinação-
insuportável

espero me deitar sobre as grandes coisas do mundo
sobre guerras e revoluções
sobre exércitos, cartas trocadas, amantes
descobertas sexuais infantes, distopias sérias
a mim resta cobrar de minha era
espiões russos imigrantes poloneses
uma gueixa no Japão
máquinas do tempo demônios espíritos
poetas

a mim sobrei eu mesma
e a minha era, ela mesma
e a minha cabeça, ela mesma
e o meu medo de acordar louca
o que planejo é morrer
outra

uma história emocionante
sem suicídio
ao final.


 

daí que a ana erre, amiga, ídala e poeta, está propondo exercícios de produção literária a cada sexta-feira. no primeiro, deveríamos pensar como desejamos escrever. daí que escrevi este poema. no segundo, a ideia era pegar o primeiro texto e substituir todos os verbos. falhei, como podem ver. mas até que deu. e como é difícil. no fim não gostei do poema, mas talvez já não gostasse dele antes. vai saber.

77 provas de que Mad Max é um filme (bastante) machista

isso era um post no facebook. ficou meio grande. publico aqui, também, pra quem quiser. um aviso: há spoilers.

imagem representativa da dinâmica de gênero em Mad Max: donzelas gostosas sendo salvas por um machão. duvida?
imagem representativa da dinâmica de gênero em Mad Max: donzelas gostosas sendo salvas por um machão. duvida?

Comecei a ver o filme de peito aberto. Afinal, já vi filmes de ação hollywoodianos serem razoavelmente feministas, como Sucker Punch e À Prova de Morte (e o seriado The Walking Dead, aliás). Quer dizer, com tanta gente dizendo que tinha achado incrível, me parecia ok acreditar que, sim, se pá seria um puta filme. Ou no mínimo que traria alguma coisa interessante em relação às personagens mulheres. Gastei uma grana pra ver no Imax já pensando nisso. Resumindo o lance, me decepcioney e me ferrey.

Mad Max passa no teste de Bechdel, sim. Quer dizer, tem personagens mulheres, que conversam entre si, sobre um assunto que não são os homens. E eu pergunto a vocês, senhoras e senhoras:

E daí? E-da-í?

O teste de Bechdel não é um atestado de feminismo e Mad Max é (uma das) prova cabal disso.

Há outros filmes que passam no teste de Bechdel sem serem minimamente feministas, e cito alguns deles aqui pra vocês (consultando o bechdeltest.com): Boyhood, Alien, Os Vingadores, quase todos os filmes da Barbie, A Culpa é das estrelas, Lego – O Filme, Leviatã (detestei, aliás), Magia ao Luar, Relatos Selvagens, Rio 2, Tartarugas Ninja, A Teoria de Tudo, 12 anos de escravidão, Antes da Meia-Noite, Dallas Buyers Club, Elysium, Faroeste Caboclo, VELOZES E FURIOSOS 6 (sim, você leu certo), Homem de Ferro 3, The Lunchbox, O Lobo de Wall Street. Isso pra ficar nos anos mais recentes (2013 pra cá).

O contrário é um pouco mais raro, mas também acontece. Alguns filmes que NÃO passam o teste de Bechdel mas são mais feministas do que vários que passam: Milk, Kick-Ass, Amores Brutos, Star Wars (vários deles), Quem tem medo de Virginia Woolf?, Praia do Futuro, Gravidade, Interior Leather Bar, Anna Karenina, Django Livre, Hemingway & Gellhorn, O Impossível, As Vantagens de Ser Invisível, A Garota com a Tatuagem de Dragão (SIM, LISBETH SALANDER NÃO PASSA NO TESTE, minha pova), Wuthering Heights (SIM, isso mesmo, da Emily Brontë).

O teste de Bechdel serve sim pra alguma coisa: pra começarmos a reparar na pouca representatividade das mulheres nos produtos culturais de massa. E só. Fim. The End. Acaba aí.

quadrinho original de Alison Bechdel que deu origem ao "teste de Bechdel"
quadrinho original de Alison Bechdel que deu origem ao “teste de Bechdel”

O teste de Bechdel não serve para avaliar a qualidade dessa representatividade, a função das personagens mulheres no roteiro, a representatividade intersecional, entre mil outras coisas. Muito menos ele serve pra atestar feminismo em filme de ação. A própria Alison Bechdel, na tirinha que originou o famoso “teste”, tira um grande sarro disso na verdade: na tirinha, chamada “The Rule”, uma das personagens diz que tem três regras para assistir a um filme – e cita as famosas “regras” do “teste de Bechdel” -; ela completa dizendo ironicamente que assistiu ALIEN, já que as duas mulheres falam sobre um monstro. Quer dizer, né. Calma aí, minha gente.

Bom, mas e daí? Fora o fato de passar no Teste de Bechdel, Mad Max tem algum outro elemento feminista? Procurei atentamente e consegui listá-los aqui:

  1. Uma personagem coadjuvante central com nome
  2. Uma segunda personagem mulher com nome
  3. Mulheres pegando em armas / realizando ações consideradas não-femininas
  4. Uma mulher de cabeça raspada e sem um braço
  5. Mulheres gordas e idosas
  6. Um sistema em que as mulheres são oprimidas e “se rebelam”

O problema é que cada um desses pontos precisa de mais algumas informações pra serem entendidos em sua complexidade. Vejamos:

  1. A personagem coadjuvante central com nome passa o filme desempenhando a função de “salvar a donzela” (é um pouco como quando as feministas de segunda onda achavam, num passado longínquo e distante, felizmente já superado pela antropologia e pela teoria de gênero, que o fato de certas sociedades serem matriarcais faziam com que não houvesse opressão das mulheres ali – até as antropólogas feministas mostrarem que mesmo que houvesse mulheres ocupando posições de poder, quem se fodia nessas sociedades ainda eram outras mulheres, em posições distintas no parentesco; esse é o lance da “ciculação de mulheres” sobre a qual Gayle Rubin lindamente escreveu, criticando de forma magistral a noção de “patriarcado” como explicação universal para a opressão das mulheres #fikdik).
  2. A segunda personagem com nome morre tão logo seu nome é falado. As outras meia dúzia de personagens mulheres que nos acompanham ao longo do filme não têm seus nomes citados. A função dessa segunda com nome na trama é, literalmente, de prêmio. De coisa a se perder ou coisa a se preservar/salvar. Já os personagens homens têm, mesmo os mais insignificantes, nomes que são consistentemente mencionados, ou apelidos que demonstram seu caráter ou a história por trás deles (como o “people eater” ou algo do tipo).
  3. As mulheres pegam, sim, em armas. É um filme de ação e não um filme da Disney, ok. Até aí, pode ser um ponto a favor do filme, mas certamente não é novidade (todos os filmes de heróis e espiões têm mulheres pegando em armas; gente, até princesas Disney pegam em armas – alô, Merida, é vc?). Bom, tudo bem, descontando isso e dando o braço a torcer, sim, elas pegam em armas. MAS. Sua relação com a violência é sempre colocada como a relação de “necessidade” (em algum ponto uma diz pra outra que não mate o Nux – viu, o nome dele dá até pra lembrar, rs – afinal ela havia prometido que não matariam ninguém *desnecessariamente* – tipo, oi? alguma morte em filme de ação é desnecessária?). Porque elas são mulheres e, né, mulheres não são seres capazes de violência. MESMO dentro do espectro de ações “duronas” ou não-tipicamente femininas, elas são colocadas sempre como mais fracas (apanham menos antes de caírem nas lutas), mais frágeis, e desempenhando funções “passivas” como dirigir um veículo enquanto homens se degladiam ao redor.
  4. A mulher de cabeça raspada e sem metade de um braço é a Charlize Theron. É como a Madonna deixando os pelos do sovaco crescerem, enquanto a sua colega aí do lado é motivo de chacota por estar com o buço apontando alguns primeiros pelos. Entendeu? Não? Então volte duas casas.
  5. As mulheres gordas, idosas e “a” não-branca (só contei uma) não têm nome, nem personalidade própria. As gordas são mostradas como algo um tanto grotesco esteticamente. As idosas são todas brancas, se mantém nas posições mais passivas e não têm nenhuma importância na trama que não esteja ligada a serem idosas – ou seja, *carregarem a memória de um tempo passado para que os xóvens tenham esperança e blablabla zzzz….* As gordas são as provedoras de leite materno. Literalmente vacas leiteiras. I rest my case.
  6. Nesse sistema, não são “as mulheres” que são oprimidas. São as donzelas (e as leiteiras, no caso). O filme mostra, em seu início, uma legião gigantesca de homens e mulheres que são efetivamente oprimidos. Multidões de homens sendo manipulados e oprimidos pelo ditador-mor da trama. As mulheres não se rebelam como coletividade. As donzelas fogem. Em busca de uma *vida melhor*. E mais: porque, como boas mães que são, não querem que seus filhos sejam senhores da guerra. Gente. Sério. Onde é que vocês estão vendo feminismo aqui?

Para além dessas 6 falácias, há ainda outros elementos de Mad Max que mostram como ele é um filme completamente machista. Sim, “machista”, eu disse. Reparem:

  • O protagonista é um homem-macho com problemas de homem-macho (“ó, meu deus, como posso viver em paz sabendo que não salvei as donzelas que tinha que salvar?” – reparem que no começo do filme são apenas vozes femininas que *lembram* ele de seu fracasso como macho). Aí, pra dar conta de suas crises pessoais com as donzelas que ele não conseguiu salvar ele vai lá e faz o quê? Salva donzelas. Bingo.
  • Toda a trama das mulheres está em função da construção desse protagonista homem-macho e sua questão de homem-macho. Inclusive, o próprio protagonista é apresentado com a profundidade de um pires. E nem venham me dizer que é um lance do tipo do filme ou de filmes de ação, que há muitos filmes de ação não-feministas com protagonistas bem mais profundos do que Max. O próprio Robocop, aliás. Talvez até o Rambo. Não, mentira, tô zoando. Mas o Max não deixa muito a desejar pro Rambo, não.
  • A estética do filme é uma estética escolhida a dedo para erotizar as donzelas. Mulheres + armas + grandes máquinas automotivas = fórmula machista mais manjada do século. Daí quando o protagonista, depois de uma longa sequência de fuga, consegue alento, o que ele vê? Donzelas gostosas vestidas em micro-pedacinhos de pano, indefesas, que mal sabem falar, se refrescando com mangueiras de água e liberando suas bucetas de cintos de castidade. Eu ainda esperei pra ver se era zoeira, se essa cena seria desconstruída. Mas não. Só decepção, mesmo.
  • O fato de que a luta tenha se encerrado quando os “homens fortes” que teriam direito ao trono morrem é muito significativo. Se o herdeiro que ficou na Citadela não fosse uma pessoa com todos os problemas de mobilidade do mundo – ou seja, se fosse um exemplar viril de macho, capaz de defender sua posição de poder -, os demais homens que se submetiam a ele jamais teriam, pela lógica do filme, peitado-o em prol da imperatriz Furiosa. Significa, né.
  • Quando elas retornam à cidade, magicamente todos os problemas do povo estão resolvidos. Afinal, elas são mulheres, e mulheres governam sempre com bondade. São MÃES, afinal de contas, não? São elas que abrem as comportas de água, “cuidando” do povo antes oprimido pelo domínio masculino. Margaret Tatcher manda beijinhos no ombro das rads que devem ter derramado lágrimas nesse momento.
  • Pra colocar a cereja no bolo, reparem: nenhuma das mulheres comanda nas sequências de ação (aka o filme todo, já que não têm história, roteiro, enredo, etc). As falas imperativas são sempre ditas por homens. As decisões são tomadas e gritadas por homens.
  • E, claro, como bônus: o protagonista leva uma flechada no fucking CRÂNIO e segue lutando enquanto a Furiosa leva uma facada na costela e QUASE MORRE, se não fosse o bonitão SALVÁ-LA (como toda boa donzela, claro) com seu próprio sangue. e digo mais: que porra é aquele *romance* da ruiva sem nome com o Nux? é pra mostrar como as mulheres são seres puros e angelicais que salvam até as almas mais atormentadas?

Sabem o que é o pior? Eu poderia descontar tudo isso. Se o filme fosse bom enquanto filme. Se houvesse história. Se houvesse algum desenvolvimento de algum personagem. Se houvesse alguma coisa acontecendo que não grandes máquinas explodindo na função única de dar orgasmos cinematográficos a homens-macho que, num contexto onde a água é escassa, ainda prefeririam usá-la pra esfriar os motores de seus super-caminhões.

Mas não é.

Não se dêem o trabalho. Sério.

[ok, não foram 77 provas, mas uso aqui uma licença poética pra fazer título de post]

primeiro exercício

eu queria escrever com tempo.
mentira. sem tempo.
é isso que eu queria:

escrever nos minutos de intervalo
entre a cama, o banheiro, o trabalho
criar personagens, enredos, roteiro
quarto fechado, cantar no chuveiro
(bater aquela siririca)
mas não é só isso que eu queria
eu queria um tododia sem rotina
sem Dickinson presa em casa
sem Mrs Dalloway comprando flores
sem Plath afogando-se no gás pelo simples motivo de
mulher-e-casa-:-que-combinação-insuportável

eu queria escrever sobre as grandes coisas do mundo
sobre guerras e revoluções
sobre exércitos, cartas trocadas, amantes
descobertas sexuais infantes, distopias sérias
a mim cabe falar de minha era
espiões russos imigrantes poloneses
uma gueixa no Japão
máquinas do tempo demônios espíritos
poetas

mas a mim só tenho eu mesma
a à minha era ela mesma
e à minha cabeça ela mesma
e ao meu medo de ficar louca
o que eu queria mesmo era ser
outra

uma história emocionante
sem suicídio
ao final.


daí que a ana erre, amiga, ídala e poeta, propôs um pequeno exercício. ou melhor. ela vai, às sextas-feiras, propor exercícios. nós amigas, conhecidas, admiradoras que escrevemos e não somos bobas, decidimos entrar na onda. publicar os exercícios em nossos blogs para que uma leia a outra e assim por diante. como uma dinâmica coletiva de criação literária via web. quem sabe assim a gente desenferrüscha, que o semestre anda puxado para todas nós e a escrita às vezes fica carente no cantinho dela, com medo de pedir a atenção que merece. aí está meu primeiro exercício, a partir da pergunta da ana: como eu quero escrever? voilà. o curioso é que saiu um poema. eu, que me reivindiquei não-poeta a certa altura do campeonato, estranhamente só tenho conseguido escrever poemas. não necessariamente bons, claro. mas tem me dado mais tesão. acho que tesão é necessário. talvez seja um reflexo do tanto de prosa não-poética-e-tampouco-literária que tenho sido forçada a produzir pelas minhas escolhas de trabalho. estou escrevendo um livro, traduzindo dois, mais um capítulo pra outro livro, revisão do projeto de pesquisa AND terminei um artigo longo e trabalhoso recentemente. sem mencionar o que tenho lido. quer dizer. significa, né. nada mais justo do que um pouco de verso no meu cotidiano de prosa. esse cotidiano que tanto me atormenta. eu honestamente não desejo terminar com a cabeça no forno. às vezes é difícil.

léu

são ondas e timbres
graves que lambendo recobrem-te
do topo
à base

são lufadas
e furacões
são olhos
fundos
escuros contínuos
vácuos
surdos
são galáxias
constelações

enfrentam-se em batalhas touros
e escorpiões
por teus universos
sem sóis

teus cabelos não têm
caracóis

Depilação é a burca brasileira

[texto originalmente publicado em 05/04/10, no antigo Mulher Alternativa]

Era o ano de 2005, em algum dia entre Agosto e Setembro. Eu tinha quase dezenove anos. Quase. Saía do país pela primeira vez, para participar de um fórum mundial de jovens. Superexperiência. O local? Tunísia, no norte da África, país muçulmano considerado um dos mais ocidentalizados entre os países árabes. Muitas histórias, muita coisa nova, muito aprendizado cultural – e era só a segunda metade do meu primeiro ano do bacharelado em Ciências Sociais. Imagino se eu voltasse lá hoje, como tudo seria diferente…

Fato é que eu estava no país fazia alguns dias já, quando conheci a primeira mulher tunisiana da minha idade. Na delegação tunisiana do evento só tinha representantes homens. Assim como nas outras delegações. Três anos depois em outra edição do mesmo evento, conversando com a única mulher árabe que representava seu país enquanto delegada, Fatma, egípcia, me explicaria que a dificuldade vai além das barreiras de gênero culturais, mas inclui também a legislação que não permite que mulheres viajem sem seus maridos ou familiares homens a não ser que tenham autorização expressa documentada. Em 2005, na Tunísia eu não sabia disso.

Em 2005, na Tunísia, eu não sabia de muitas coisas. Reproduzia, como vocês entenderão nesta breve anedota, um discurso segundo o qual as mulheres árabes muçulmanas são infelizes oprimidas e deveriam era fazer logo uma revolução, não usar véu e sair de fio dental por aí. Fio-dental sim é que era liberdade. Depois dessa viagem pensei, repensei, encontrei Marjane Satrapi na minha vida e tantas outras amigas árabes muçulmanas que me ajudaram a enxergar o quão complexas são as questões de dominação. Em qualquer lugar.

Então, ok. Cento e sei lá quantos jovens de dezenas de países diferentes, todos juntos. Fiz grandes amigos do Japão, da Irlanda, do México, da Argentina, do Canadá e por aí vai. Não à toa que minha página do Facebook tem centenas de amigos com nomes às vezes impronunciáveis em português. Culpa desses eventos deliciosos. O nome da primeira tunisiana que conheci não me lembro. Ela mudou minha vida e nem mesmo trocamos contato. Acho que na época nem eu nem ela sabíamos disso.

Eu dançava dança do ventre e numa oportunidade lá dei uma palhinha que chocou geral: brasileira, cara e nome de européia e chacoalhando na dança do ventre? É. Era eu mesma. Depois deste dia, ganhei a simpatia de todas as delegações árabes (e alguns pedidos absurdos – e sérios! – de casamento). Numa das saídas culturais para conhecer sítios históricos, arqueológicos e sabe-se-lá mais o que (faz tempo…) ela sentou ao meu lado no ônibus. Era verão. Fazia 40ºC na sombra. Os ônibus não tinham um ar condicionado potente e, mesmo se tivessem, duvido que refrescaria muito. O clima é muito quente e muito seco.

Começamos a conversar, ela supersimpática, uma fofa, fofa, fofa. Aí reparei que enquanto eu estava de saia (uns dois dedos acima do joelho pra não chocar geral entre outras consequências perigosas), blusinha de manguinhas e cabelo preso, ela estava de saia até o tornonzelo, meias, tênis fechado, blusa de manga comprida. Ela não usava véu. Não são muitas jovens que usam véu na Tunísia. Algumas senhoras apenas, pelo que vi durante a viagem de quase um mês ou pouco mais que isso, já não me lembro.

Imaginei que ela estivesse morrendo de calor e perguntei. Ela disse que não, que já estava acostumada e as roupas ainda a protegiam do sol. Em minha ignorância antropológica pensei “coitada, tão dominada…” e continuei cutucando o assunto pra ver se dava caldo. Quem sabe ela não começava uma revolta ali mesmo? Quem sabe eu, que era ocidental, educada na liberdade, não abria seus olhos?

Ela me disse, então, algo muito, mas muito, muito, muito sábio. Gostaria de ter registrado as palavras exatas, mas não lembro. Tentarei reproduzir.

– As roupas compridas aqui são a depilação de vocês.

– Hein? (claro, não entendi nada na época)

– Nós podemos, aqui na Tunísia, usar roupas curtas como as que você está usando.

– Então como não usam, com um calor desses?

– Bom, aí é que está a questão. Poder, você pode. Mas se você usar, não consegue namorado, aí não consegue casar, aí é uma tristeza pra você e pra sua família…

– Mas e a depilação?

– Bom, imagino que dói fazer depilação, certo?

– Sim.

– Então por que vocês se depilam sempre? Teoricamente você pode parar certo?

– É, mas aí…

Creio, leitoras (e eventuais leitores), que não preciso continuar a conversa. Confio no nível de inteligência de vocês. O que tememos que aconteça se não nos depilarmos? Por que nos sentimos “sujas” ou “feias” se não estamos depiladas?

Depois desta lição de vida (e outras mais) na Tunísia, meu ponto de vista e minhas perspectivas e opiniões sobre depilação, véu, burca, dominação de gênero, estética e por aí vai, mudaram para sempre. A complexidade das relações que estabelecem um fenômeno social (como este sentimento de imprescindibilidade da depilação na sociedade brasileira) vai muito além de relações imediatistas de causa e consequência como somos levados a acreditar pelos meios de comunicação de massa. Prometo falar disto melhor um outro dia. Lembrem de me cobrar se estiverem interessadas/os.

Em suma: o buraco é muito mais embaixo.

[Ps.: prova disso é que eu queria colocar uma figurinha aqui que representasse dor de depilação; na internet inteira, via Google Images, só encontrei fotos de mulheres FELIZES, SORRINDO durante a depilação. Alguém aí sorri no meio da depilação? As únicas que apareciam de gente sentindo dor eram de… homens. Então tá, sociedade, falou, só homens sentem dor ao arrancarem pelos com cera quente.]